Estas pedras no nosso caminho

O Céu sobre os Ombros, primeiro longa de Sérgio Borges, mete a mão num formigueiro, mas sai de lá apenas com algumas picadas. A narrativa vai se conjurando de maneira a funcionalizar e expor o procedimento ficcional, câmera quase sempre fixa, no tripé, narrativa estruturada com o intuito de servir à fluência das diversas histórias de vida (e da vida) que são filmadas. No entanto, há uma apropriação de personagens reais, juntando os pedaços de suas histórias numa fricção constante que resulta num método eficiente de narrar: a transexual que trabalha como puta (ela prefere ser chamada assim) e que, transversalmente, dá aulas sobre a psicossexualidade estudada por Freud; o monge Hare Krishna que divide suas atividades entre o futebol (pois é torcedor fanático do Atlético Mineiro) e o skate, além é claro de sua religiosidade; o escritor que perdeu a fé nas pessoas e que, por isso, não quer mais viver. Dessas três vidas tão distantes (literalmente, pois não há algo que interligue estas pessoas), desses corpos que só querem se identificar, extrai-se uma comunicabilidade possível: a busca pela significação própria.

As personagens também transitam por entre dificuldades de reconhecer a si próprias, e por isso não parece sensato que saiam por aí a espalhar a culpa de suas inefabilidades no colo dos outros. Essa convulsão das almas diz respeito a uma realidade muito peculiar a qualquer cidadão do mundo hoje, e o registro que o filme faz coopera com justeza irrefreável essa criação da sociedade contemporânea através de pessoas tão díspares. Tecnicamente, fotografia e montagem (aqui vale um destaque à parte) enriquecem o filme, conferindo poder ainda maior a relevância de seu discurso.

Sérgio Borges abre espaço para que essas três personas se construam ao natural, que extravasem seus anseios e seus desejos, seus medos e suas certezas, suas irreverências e suas crenças. Parte daí também outro princípio de semelhança entre eles, pois todos compartilham de uma inquietude peculiar, parecem mal resolvidos com o mundo (e o mundo também não se entende com eles), mal encaixados. A busca então não é puramente pela aceitação de um devir, mas pela liberdade de ser, de fazer parte, de compor um grupo. A conversa e o jogo estão imbuídos na encenação. Mesmo que as personagens sejam reais, vivendo suas atividades cotidianas, há o olhar do diretor ali, há o peso do olhar da arte agindo sobre eles, intervindo (inteligentemente o menos possível) no propósito de suas vidas. O que importa aqui, e é isso que deve ser discutido, é a história que nasce dessa relação, mesmo que o jogo tenha raízes na realidade ou não ficção, é a história da vida, inerente e indiferentemente à pressão externa forjada pela câmera, é quem deve prevalecer. Porque em O Céu sobre os Ombros os limites espaço-temporais entre ficção e realidade inexistem diante da complexidade da vida que se anuncia.

(O Céu sobre os Ombros, Brasil, 2010) 
De Sérgio Borges



Como dominar o dominador

Magneto quer a vingança a todo custo, quer o sangue do homem que matou sua mãe a sangue frio, no grosso da Segunda Guerra Mundial, quando ainda era moleque (mas já entortava garfos e facas); Charles Xavier quer manter a ordem entre os “povos”. A sabedoria de um rivaliza com a fúria do outro; e, quando precisam, eles unem suas forças para derrotar o inimigo. O filme vai da infância a trágica separação dos jovens mutantes. A amizade vai até onde os interesses de um rivalizam com o modus operandi de outro. Mas o pano de fundo desarticula as potências de X-Men: Primeira Classe, a Guerra Fria (pós-guerra), onde Estados Unidos e União Soviética digladiam-se pelo poder, pelo espaço. Falamos de uma guerra pós-guerra e num cinema onde os soviéticos (“o comunismo é o mal do mundo”), claro, são os malfeitores, são os homens maus que almejam destruir o mundo com bombas atômicas (no mínimo irônico). As decisões que prometem salvar o mundo partem sempre das imensas mesas redondas estadunidenses. É mesmo um mundo cão - esse mundo em iminente processo de globalização no qual a história em questão se debruça. O judeu Magneto, vítima de Hitler, no passado habitante de campos de concentração, enfrentará todos os exércitos: o dos homens e o de seus semelhantes. Trata-se, invariavelmente, de um filme com virtudes e defeitos bastante salientes.

E este filme de Matthew Vaughn de fato encontra alguma força lá onde, outrora, os filmes baseados em quadrinhos se despotencializavam. A energia de X-Men: Primeira Classe brota, então, ali onde se escondia um princípio de aquiescência, um posicionamento sempre muito formal e respeitoso diante das histórias originais (neste caso, das HQ’s). Nos outros quatro filmes da série dos mutantes (X-Men 1, 2 e 3, mais X-Men Origens: Wolverine), sempre houve um olhar demasiado rigoroso (esse que mexe com a cultura pop e que, para tanto, lida com mitologias muito caras a qualquer tipo de readaptação a outra mídia, outra linguagem; especialmente o cinema), tentando se colocar da maneira menos problematizante possível, com muita cautela e desconfiança, para não embaçar. Faltava a devassidão que Matthew Vaughn trouxe, tanto visual quanto narrativamente, para, enfim, dar um gás a tais mitologias. Se nos filmes anteriores se perdia muito tempo (ou era a maneira mais fácil de fazê-lo se esvair?) filmando as armaduras e as vestimentas dos heróis mutantes na ambição de evidenciar um rigor estético, aqui não importa muito o design, nem o acabamento: vale mais o diálogo e o movimento, pois ele dignifica o envolvimento contextual de todos os personagens que vão surgindo – se eles traem, traem com palavras e tomadas de posição. Assim, os filmes passam a ser mais interessantes quando, nem que seja um por instante, rasgam os plásticos que embalsamam estes nossos mitos modernos.

O professor Xavier, no fatídico momento em que perde a sensibilidade nas pernas, assiste Mística virar a casaca e passar para o lado de Magneto. Magneto, no entanto, abandona Xavier por conflitos ideológicos, por compartilharem visões de mundo distintas. E eles lutaram juntos contra o verdadeiro mal, combateram juntos o maquiavélico Sebastian Shaw, mas por motivos diferentes. Ele acredita que a única maneira de sobreviver não é esperando pelo golpe, mas desferindo-o antes do inimigo (humano), enquanto Xavier acredita piamente que Homens e Mutantes podem conviver em harmonia, como aliados. Para Charles, o ideal de Magneto representa uma ameaça à harmonia. Mas Mística não deixa o amigo de infância por ideologia, e sim por afinidade, puro afeto. Ela já havia experimentado o sexo com Magneto, ele já havia pronunciado palavras amigáveis quanto a sua aparência, já havia a aceitado com ela é, em forma e irreverente semelhança. Lógica e ingenuamente - pois tomar tal decisão por impulso só reverenciou sua perdição - ela encontrou nos braços do desertor o berço mais quente e acolhedor.

Em relação a Magneto (Michael Fassbender dimensiona esse personagem irretocavelmente), de que adianta vitimar sua persona, encontrar suas dores e conversar com suas angústias (que são, de fato, as razões para tamanha fúria) para depois fascinar-se exclusivamente pela inteligência de Xavier, enaltecendo sua grandeza e sublinhando sua superioridade espiritual, transformando quem pensa diferentemente dele em desleais monstros a serem combalidos e combatidos pela própria imagem do herói hollywoodiano. Fatalmente, não há mistério algum na trama de Primeira Classe. Aqui, não há um drama senão aquele ativado pela memória pré-filme. O resto é infilmável ou facilmente filmável no sentido de que, essas imagens, destes homens com poderes extra-humanos, configuram-se simplesmente numa aventura puramente embalada por ritmos pré-montados. Os personagens-heróis tão logo tomam a tela já assumem suas formas inumanas, as cenas-chave reutilizam mecanismos primários do jogo clássico de frase-efeito-corte. Resta a habilidade do diretor ao manipular a expectativa diante daquilo que se avizinha – e, com isso, é bastante perceptível o fato de que, não estivesse Vaughn seguindo fórmulas peremptórias de sucesso, teríamos um filme muito distante deste. Mas se Fassbender anima o ambiente mais do que qualquer outro mutante, então X-Men: Primeira Classe talvez seja, de fato, o mais interessante filme da série.

(X-Men: First Class, EUA, 2011
De Matthew Vaughn
Com James McAvoy, Michael Fassbender, Kevin Bacon, Rose Byrne, Jennifer Lawrence, Beth Goddard, Morgan Lily, Oliver Platt, Álex González, Jason Flemyng, Zoë Kravitz, January Jones

O que queremos, de fato, é que as ideias voltem a ser perigosas. (escrito em um muro em Paris, 1968)


A marcha pela liberdade, que tomou as ruas de 40 cidades brasileiras, de Recife a Porto Alegre, no último sábado 18, é a manifestação mais clara da democracia das ruas, aquela que se enreda nas redes, nos contatos. Revoltas incendiárias começaram nas redes sociais no mundo árabe (Egito, Síria, Tunísia, Líbia), derrubaram regimes totalitários e opressores, se alastraram para a Europa, onde tomaram as ruas e as praças da Espanha, com o Movimento 15M. Resguardadas suas respectivas proporções, incentivaram a tomada das ruas no Brasil, país repleto das mais variadas culturas e etnologias, país da mestiçagem, das possibilidades antropológicas e antropofágicas, das periferias, da cultura do povo. O que se constituiu nas redes virtuais, agora ganhou as ruas, o espaço público-democrático comunicável.

A #marchadaliberdade é, antes de tudo, e sobretudo, a marcha dos amores incompreendidos, das revoltas coletivas, dos poderes populacionais criando políticas próprias, movimentos horizontais, apartidários, independentes, livres. Lá estavam todas as crenças, independentemente de qual bandeira estavam tremulando: homossexuais, negros, brancos, estudantes, deficientes físicos/visuais, índios, músicos, blogueiros, jornalistas; marcha da maconha, das vagabundas, dos defensores dos direitos humanos, dos alunos da PUC/RS, pela Banda Larga popular, pelo software livre, por um Estado laico, pelo compartilhamento por uma imprensa verdadeira e não-sensacionalista.

Como a própria decisão do STF foi revogada, liberando a marcha da maconha, a #marchadaliberdade é um movimento que quer o debate público, não clausulas pétreas; quer ouvir todos os cantos lamuriosos e pensantes, quer democratizar a democracia. Com isso, é inevitável que a classe-média fascista apoie a repressão policial, pois deseja que ela, a Polícia (que deveria salvaguardar e proteger os direitos constitucionais do cidadão) limpe as ruas, que instaure um embranquecimento nos bairros da nobreza. Mas, diremos: as ruas estão tomadas por um poder incontrolável, ingovernável. Mas é necessário mais. É necessário que a “gente diferenciada” tome as ruas, que o jovem negro, reprimido, desça o morro – é essencial que essa manifestação contagie mais grupos, converse com mais pautas, explicite as diferenças e as necessidades de cada uma. É a mesma luta, diferentes.

As reinvindicações são várias, não centralizam um discurso homogêneo, não bradam por uma causa inútil como querem fazer crer os neoliberais, que exclamam contra a marcha, dizendo que ela não serve para nada, que existem coisas mais importantes para se realizar uma marcha, como educação, saúde. Quem participou sabe da dimensão e da importância. O discurso do qual muitos fazem uso para demonstrar posições contrárias a marcha gira em torno de uma falsa-questão. Para estes, também temos algumas coisas a dizer: a marcha não defende a unilateralidade dos pensamentos, tampouco das ideias e das indignações. A manifestação é dos indignados, todos eles, todos nós. Na próxima, leve sua indignação, ao invés de condenar a democracia das ruas. A #marchadaliberdade é heterogênea, é de todos os protestos, todos os reclames, todas as cores, todos os gritos afogados por anos de repressão intelectual. As redes sociais unificam e potencializam os movimentos, mas nossa arma é o poder do povo, um poder pacífico e indignado que se constitui efetivamente nas ruas. As páginas dos livros de História das gerações subsequentes não serão mais escritas pelos mesmos ditirambos dionisíacos.

Quem disse que a marcha não protesta por um melhor e mais eficiente sistema de saúde pública? Quem disse que a marcha não exige uma reforma no sistema educacional brasileiro? Quem disse que a marcha não reivindica por um transporte público mais abastado? A causa da manifestação não é essa que a grande mídia nos quer vender. A marcha não é monotemática, pois distribui ideias distintas, visões de mundo que se equivalem através do desejo pela mudança e com a força do coletivo. Pluralidade. Não raro, e ironicamente, os mesmos corações que repudiam a revolta são aqueles que, outrora, pediam certa urgência nessa nossa juventude contemporânea. O que acontece agora é só um começo, diremos.

Links inseridos no texto:

O Ingovernável: http://moysespintoneto.wordpress.com/2011/05/20/sobre-a-minha-geracao-e-a-politica/
Quadrado dos Loucos: http://www.quadradodosloucos.com.br/1558/marchas-revolta-e-geracao/
O Inferno de Dandi: http://dandi.blogspot.com/2011/05/eblog-abrindo-novas-fronteiras.html
O Descurvo: http://descurvo.blogspot.com/2011/06/breve-comentario-sobre-decisao-do-stf.html
Blog do Sakamoto: http://blogdosakamoto.uol.com.br/2011/06/18/a-marcha-e-o-churrasco-da-policia/
Movimento 89 de Junho: http://movimento89dejunho.wordpress.com/
Somos andando: http://somosandando.wordpress.com/2011/06/15/e-preciso-vontade-politica-para-que-a-banda-larga-seja-de-fato-um-direito/

16/06/2011

Ex-Isto


Penso, logo Ex Isto

E se René Descartes tivesse vindo ao Brasil com Maurício de Nassau? Livremente baseado em Catatau, prosa experimental de Paulo Leminski, o filme Ex Isto, de Cao Guimarães, tenta dar imagens às palavras do poeta curitibano a partir dessa ideia. Mas o que poderia ser entendido como uma adaptação ponta a ponta da obra de Leminski, mais convencional, com um esqueleto dramático-narrativo mastigado, aos olhos de Cao, transcende a própria criação-base, metamorfoseia-se em uma atmosfera diletante, onde resplandece a sede da descoberta, do saber, do conhecer, do experimentar; do medo, da dúvida, da apreensão, da razão, da moral, da ética, da criação, da insanidade. Nada é pura imersão ao sublime, ao fantástico. Não se trata de exprimir, mas de explorar. Estamos falando de um filme certamente consciente de que o limite criativo não existe. Mas para além do filme de belas imagens e de lindos planos, acima desse jogo visual melindroso que aos olhos de um cineasta menos habilidoso pode soar presunçoso, Ex Isto assume logo cedo que mergulhar nessa viagem é estar ciente de quão distante é o infinito de possibilidades ao qual a atividade gravitacional de seu eixo imaginativo poderá nos conduzir. Resta-nos embarcar.

Ao longo do filme vemos um homem ao mesmo tempo intrépido e assustado com as imagens que vê, com a civilidade que confere com seus próprios olhos, mas também com seu corpo, pois Descartes embrenha-se junto às pessoas, caminha com elas, dança com elas, tropeça nelas. Ele literalmente abraça esse mundo para descobri-lo. As imagens estão impregnadas por essa noção de busca, de procura e de descoberta (de nossa própria História), mas também de perda. O plano-sequência na estação dá uma ideia: a câmera, também um personagem, persegue os passos de Descartes, num vai e vem constante. Em certo momento, ela o perde em meio à multidão de corpos que os separam. Logo depois estamos na praia, onde Descartes, nu, transita e refestela seu corpo na areia, enquanto mantém conversas alucinógenas consigo. Em seguida temos Descartes deitado, com seu corpo nu inerte à margem do mar. Eis que surge uma personagem aparentemente desconexa àquele momento e o toma em seus braços. Para Cao, colocar Pietà naquele momento faz todo sentido. Logo essa imagem, símbolo de todo um misticismo cristão, que empresta sua significação a piedade, ao renascimento.

E o que se descobre dessa relação câmera-personagem também enriquece a narrativa, potencializando as imagens. Toda beleza imagética que surge dali, desse encontro de Descartes com a civilização dos trópicos, vem apoiado na inquietação do próprio João Miguel, que interpreta Descartes, e também (e principalmente) de Cao. O filme vai se construindo assim, delineando espaços e os preenchendo senão com o corpo, com a alma. E se falamos de um filme de puro poder de criação, onde sua grande força estética e narrativa está na imagem, no olhar, no gesto, no movimento, na expressão, então temos que lidar com uma presença nem sempre física. O olhar de João Miguel quase sempre direciona o olhar do espectador para o extracampo, pois muita coisa acontece fora de quadro em Ex Isto; a bem dizer, todo o movimento das pessoas e do mundo se passa por aí, à volta do personagem, cerceando suas sensações. A semântica da relação é o corpo crivado a esperança e semelhante melancolia.

(Ex Isto, Brasil, 2010) 
De Cao Guimarães
Com João Miguel

13/06/2011

Os Residentes


É sempre muito perigoso (podendo soar até irresponsável e preguiçoso) sentenciar que um filme seja “sobre” alguma coisa. No caso de Os Residentes, filme de Tiago Mata Machado, seja até um pouco símbolo de uma limitação do olhar. O que talvez colabore e dê vazão a essa ideia seja a conexão tão vasta de referências que se transfiguram (assim mesmo: umas sobre as outras; outras sobre umas) em cada imagem. Prefiro acreditar que Os Residentes está mais interessado na procura pela desmistificação dos mitos modernos da sociedade aqui e ali onde nascem essas ervas daninhas que o corrompem e o esfacelam. Para tratar as rupturas, só entendendo do rompimento, o que nos leva a entender e compreender o filme como parte de um cinema essencialmente político. Se falarmos de um cinema abertamente político, o situacionismo, dito como argumento central do filme, nos conduz a visões diversas sobre as ideologias das personagens: se elas estão em busca do desligamento total em relação à sociedade ou se estão justamente tentando se reconectar a ela por intermédio desse rompimento. Para lançar um olhar sobre esse mundo de reclusão só mesmo compartilhando de suas experiências e práticas de vida.

Esse olhar permeia os diálogos entre as personagens de Gustavo Jahn e Melissa Dullius. Tiago filma uma discussão entre o casal do filme com leveza proporcional à rispidez que o tempo e o espaço cênicos exigem. E se a câmera é também um personagem, parece que há um desejo de contaminar e de ser contaminado por ela, um desejo de esquadrinhar um espaço sempre que possível para revelar um corpo. De fato, Os Residentes capta essa convulsão dos corpos, essa profusão deles sobre eles mesmos. O que deixa uma nova dúvida: as questões entre ética e estética (que em uma cena são relacionadas como parte de um todo) são totais e centralizam o discurso do filme ou desejam apenas fazer ecoar a questão primordial: o situacionismo? A resposta pode não vir explicitamente configurada, pois Tiago parece estar mais interessado em exprimir os problemas (e colocar em jogo mais perguntas do que repostas) e apontar os caminhos possíveis para contorná-los. Contornar esse universo paradoxal que toma conta da sociedade, desprender-se das amarras (para simbolizar isso, podemos tomar aquela personagem sempre presa, sempre atada ou mergulhada em alguma coisa; até o momento em que ela se libertará, extravasando aquilo que estava engasgado) e dos vícios de um contingente envenenado pela espetacularização das imagens, eis o latifúndio em que Os Residentes se dispõe. Cinema pungente, pautado na intersecção entre as diversas manifestações artísticas, principalmente no campo audiovisual – sem fazer aqui uma distinção entre o que é cinema e o que é arte visual.

Para além das referências diretas, que vão de Godard a Schönberg, passando por Debord, não é muito difícil lembrar das imagens de um Robbe-Grillet (mesmo que seja apenas por um lapso da memória, como na cena em que um jato de tinta vermelha banha um corpo inerte), da rigidez do ato de “filmar a conversa” de um Rohmer e da poética de um Rimbaud. Tantas referências me parecem severamente confeccionadas a revelia da ação do próprio do filme, pois elas diversas vezes se misturam sem confluir, se correlacionam sem estarem necessariamente ligadas. Simplesmente (a)parecem em meio a mutação das cenas como que distribuindo-se no intuito de legitimar um discurso e de validar a ação anterior – os planos majoritariamente fechados, os rostos que abarcam os quatro cantos do quadro, a trilha sonora que só pesa ainda mais o desequilíbrio das personagens (não da narrativa). Mas para tudo há uma quebra, uma ruptura que desestabiliza a situação-limite e que pauta a transformação da imagem no pêndulo dessa inquietação do realizador.

Pois Os Residentes demonstra ser um filme que está querendo lutar consigo mesmo, responder às suas próprias perguntas sem abandonar uma visão de mundo que lhe confere autenticidade; porque não, tanto ética quanto estética. Esse mosaico montado cria uma fruição narrativa toda especial, joga um charme sobre ele mesmo e ridiculariza a insubordinação dos seres presentes naquele ambiente pesado e cínico. Mas para tentar estabelecer uma ordem às coisas somente quebrando a organização natural delas, refugiando-se na anarquia e enxergando através de uma visão de mundo que mais lhes parece conveniente e acessível.

(Os Residentes, Brasil, 2010)
De Tiago Mata Machado
Com Gustavo Jahn, Melissa Dullius, Jane Doucas, Simone Sales de Alcântara, Dellani Lima, Roberto de Oliveira, Geraldo Peninha, Cassiel Rodrigues, Paulo César Bicalho



Quando uma imagem produz várias outras

A câmera já está instalada, apoiada no tripé, a espera do verbo. Alguns ruídos e algumas vozes vão surgindo. Chegam algumas pessoas, se apresentam como pessoas da equipe. Chantal Akerman senta na cadeira e começa a responder as perguntas. Esse é Chantal Akerman, de cá, filme de Gustavo Beck (realização) e Leonardo Luiz Ferreira (entrevista). Mas por trás desse único plano, dessa única imagem, há todo um processo rigoroso de marcação de cena (de mise en scène), de composição do quadro único. Não é a toa que Chantal é única no plano (vemos apenas algumas pessoas passando em frente à câmera, mas a totalidade do plano já tem um corpo para lhe preencher), que a cadeira esteja posicionada daquela forma, que o entrevistador não apareça no filme com nada além de sua voz, que a câmera esteja distante o suficiente para não coagir e perto o bastante para poder sentir as vibrações da entrevistada. Leonardo conduz a entrevista com sobriedade, realiza pausas longas entre a formulação da pergunta, manipula bem o suspense. Chantal sente o clima e responde da mesma maneira.

Claro que Chantal faz uma performance, ela evidentemente reconhece o jogo, atua para a câmera logo quando nota sua presença na sala ao lado, dentro do mais singelo naturalismo. Conhecemos e reconhecemos a Chantal cineasta e a mulher de meia idade, com suas crenças, suas ânsias e suas jogadas. A compulsiva sede que lhe acomete a faz tomar pelo menos cinco taças com água, no que ela faz piada. Demonstra o ideal de liberdade presente em grande parte de seus filmes (de A Prisioneira a Jeanne Dielman), elucida o desprendimento de sua relação com uma certa forma de se produzir arte e com a vida regrada através mesmo de sua inquietação visível. Diz que não vai muito ao cinema (em média uma vez por ano), pois prefere escrever. E se Alberto Giacometti disse que, num incêndio, entre salvar um gato ou um Rembrandt, ele salvaria o gato, Chantal deixaria de ir ao cinema para conversar com amigos. Assim como o pintor suíço, a cineasta belga prefere a vida, prefere viver; ela escolhe se jogar no mundo. No fim das contas, esse filme de Gustavo Beck e Leonardo Luiz Ferreira se trata de escolhas.

A persona Chantal vai se construindo para a câmera, se desnudando para ela. Por ser um filme sem cortes, filmado num longo plano-sequência, abre-se espaço para os silêncios, que para além de tentarem encontrar em si mesmo uma função-fim, revelam tanto quanto qualquer “outro modo de filmar”. Chantal revela-se não só uma potente cineasta, conhecedora de sua linguagem, de suas escolhas, mas também nos permite verificar sua personalidade, criando uma imagem muito poética e um registro íntimo sempre através de gestos, de movimentos, de expressões e de atitudes. O instante em que ela começa a acender um cigarro e, mesmo após ser repreendida por uma integrante da equipe do filme, leva-o a boca e fuma, deliberadamente, sem receio ou remorso, é nunca menos do que validador dessa força. E, após terminar, ainda diz à produtora: “Não se preocupe, já fumei meu cigarro”. Trata-se de uma autoindulgência, de um espírito de liberdade, de uma sensação constante da necessidade de explodir, de transcender, de transbordar os limites da linguagem da vida. Chantal é uma personagem e tanto.

(Chantal Akerman, de cá, Brasil, 2010)
De Gustavo Beck e Leonardo Luiz Ferreira
Com Chantal Akerman

06/06/2011

Amor à Tarde



Personagem-tese da burguesia francesa, casado, pai de dois filhos, sócio de uma empresa de advocacia, Frédéric (Bernard Verley) vive sua vida monótona, seja no trabalho ou em casa com Hélène (Françoise Verley), sua esposa (também fora das telas). Como todo bom relacionamento burguês filtrado pelas lentes de Eric Rohmer, o homem vive satisfeito com essa vida de casa-trabalho-trabalho-casa, onde há tempo para se fazer muitas coisas, mas poucas são feitas na prática. Aí então surge uma velha conhecida que fora namorada de um grande amigo seu no passado. Chloe (Zouzou) aparece primeiramente para tentar um emprego no escritório de Frédéric, que a trata com certo desdém. Chloe volta ao escritório num outro dia, depois de novo e de novo. Numa tentativa de previamente exclui-la de sua vida, ele acaba falando para a mulher (Frédéric tem esse “problema” de não conseguir esconder as coisas de sua companheira) que Chloe apareceu no seu trabalho para importuná-lo. Sua mulher, surpresa, pergunta se não deveriam convidá-la para jantar, mas ele diz que devem é ignorá-la a fim de convencê-la a deixar Frédéric em paz. Não será fácil.

Tentar resistir à presença de Chloe pode ser inútil. Para Frédéric, que aos vai aos poucos ganhando afinidades com a velha conhecida, pode ser uma oportunidade para o início de uma jornada de autoconhecimento, de questionamento de valores próprios e, a priori, corretos. A natureza absoluta de Chloe, seu charme, sua persona em si, pode forçá-lo a sentir qual seu verdadeiro lugar no mundo, seu espaço nele. Uma conversa num café pode revelar muito sobre essa relação, mas são os encontros internos, no apartamento de Chloe, que o colocam sob o fogo constante – que pode consumir-lhe a qualquer instante, o que chega a acontecer num sonho, que figura num registro que pode ser tão absurdo quanto o mais sincero dos dramas, onde ele flerta com cada mulher que encontra na rua, numa revelação de que há alguma coisa (mesmo que inconsciente) à espreita.

É um filme de personagem. Estão postas e configuradas as relações de afeto, as questões morais e éticas de um homem (mas não só), onde o alargamento dessas problematizações vigentes é uma tese a ser discutida não somente através de palavras, mas com o apoio da câmera – do quadro, do ângulo, do enquadramento, do movimento. O protagonista Frédéric é construído mais pelas imagens do que por aquilo que fala ou demonstra. Como quando ele conversa com Chloe em seu escritório. No quadro aparece apenas Chloe, com a porta atrás dela, quando a porta se abre e uma de suas secretárias aparece, Chloe pula fora do quadro para somente tornar a ele quando a secretária já debandou. Chloe a um só tempo está e não está em sua vida, ainda que ele tente negar sua presença física no início dessa relação “proibida” e o próprio desejo (e/ou necessidade) de tê-la ao seu lado. Frédéric, ao passo que ama sua mulher, deseja outra, mas sabe que não pode ter as duas. “É possível amar duas mulheres ao mesmo tempo?”, pergunta a Chloe, já confessando estar apaixonado – mas sem nunca antes tê-la possuído.

Outra cena em especial dá o tom exato desse estranhamento latente que o protagonista enfrenta, que é quando o Frédéric e Hélène encontram Chloe ao acaso numa loja. O homem está lá, com todos os seus conceitos convergindo dentro de si, interferindo em sua real aproximação frente a todos que o rodeiam. Por isso a câmera enquadra o trio assim: com Frédéric isolado no canto esquerdo do quadro, sozinho num corredor que parece pressioná-lo na busca de uma resposta quanto a sua fidelidade aparentemente inabalável, enquanto estão as duas mulheres (seus dois objetos de desejo) aparecem centralizadas. Só elas importam para aquele sujeito. Mas essa cena é apenas uma demonstração de quão poderosa pode ser a linguagem narrativo-visual quando disposta nas mãos de um diretor habilidoso. As perguntas vão nos surgindo, mas a resposta pode tardar a vir. A questão é: irá Frédéric resistir ao discreto charme de Chloe e jogar pelos ares sua fidelidade incondicional enquanto tem sua moral cada vez mais questionada?

Com o passar dos dias, ele vai ficando cada vez mais íntimo de Chloe, apesar de ainda manter-se religiosamente longe do contato físico mais quente (já que um beijo chega a rolar). É por isso que a cena final de Amor à Tarde é umas das mais emocionantes e belas de toda obra de Rohmer para o cinema (que, o leitor sabe, não é pequena). Por conter uma comunhão tão pulsante de afetos mútuos sem ser tragado pela beleza fácil de imagens e conversas, de amor, enfim. Essa combustão de valores e desejos, combinado com a mais íntima das dúvidas do ser humano factível e falível, portanto exposto a tentações (sejam elas puramente carnais ou até mesmo mais profundas sentimentalmente), é a própria autonomia que define as situações. Para Frédéric, resta então continuar sua vida.

(L`Amour l`après-midi, França, 1972) 
Direção de Eric Rohmer
Com Bernard Verley, Zouzou, Françoise Verley, Daniel Ceccaldi

Esta crítica faz parte do especial Eric Rohmer, que será lançado em breve no site Cinefilia.