Trailer da nova sandice do Shyamalan. Vem coisa boa mais pra frente...

18/06/2009

Oscar 2009

Quem Quer Ser Um Milionário?

Danny Boyle fez o filme que o cinema independente precisava para ter o devido valor reconhecido. Ainda realizou a tão esperada junção entre a Bollywood otimista e a Hollywood pessimista. O resultado foi um filme lindo, que há muito não se via. Boyle foge dos clichês justamente reutilizando todos os tipos possíveis deles, "já que atualmente um filme precisa ser triste para ser realista e 'sério'" - uma grande hipocrisia em tempos de unificação mundial - e o diretor vai contra isso. Slumdog Millionaire é "sério", mas é feliz e otimista. Um filme que é emocionante aos olhos, aos ouvidos e ao coração.

Nota: 8.5

Frost/Nixon

Ron Howard demonstra aptidão e elegância ao desenvolver um filme coeso e inteligente, com grandes interpretações e um clímax invejável. Há um pouco do sentimentalismo barato, mas a equivalência de diálogos inteligentes e a montagem impecável da dupla Daniel P. Hanley e Mike Hill. Frank Langella concentra a composição de seu personagem (Richard Nixon) em expressões e vocifera com elegância a pompa do ex-presidente norte-americano, enquanto Michael Sheen compõe um personagem icônico e sincero. Um ótimo filme sobre o poder e a consequência que ele pode providenciar.

Nota: 8


O Leitor

A história sobre o Holocausto conduzida por Stephen Daldry é muito mais do que uma simples leitura pela guerra. O calor humano e as emoções do mesmo aparecem a todo instante na tela, num filme onde sentimentos realistas ajudam a compor uma história bonita, mas ao mesmo tempo melancólica. Kate Winlset mostra a eficiência de sempre ao desenvolver Hannah com garra, enquanto o David Kross surpreende como o jovem Michael Berg, que quando mais velho, é vivido pela sábia face de Ralph Fiennes. E ainda poderia ter sido melhor se o diretor tivesse feito algo diferente do livro de Bernhard Schlink - que é ótimo.

Nota: 7.5

O Curioso Caso de Benjamin Button

Já que Fincher quis trabalhar com um filme sério e tratou de manter o clima realista da cena envolvendo o submarino (brilhantemente dirigida e visualmente impecável) e o roteiro cuidou de inserir comentários sobre a Segunda Guerra, porque o período do Klu Klux Kan foi deixado de lado? Não houve um comentário sequer. Faltou ousadia para Eric Roth. Provavelmente Roth pensou que um subtexto sobre o Klu Klux Kan desviaria o foco narrativo ou que o movimento KKK tenha sido mais forte em outros Estados (Mississipi, Texas), por isso não seria necessário uma cena sobre tal. Na verdade, um tema como esse, se bem abordado, elevaria o realismo da trama e emprestaria um texto um pouco mais crítico e menos focado em malabarismos visuais e lições de moral risíveis. Menos artificialismos, mais cuidado com personagens e história da próxima vez, Fincher.

Nota: 7.5


Milk - A Voz da Igualdade

Novamente promovendo um filme cujo protagonista é gay, Gus Van Sant cria uma história coerente vivida por atores muito bons, mas que nunca engatilha e parece sempre querer ser superficial, a todo instante anula sentimentos e manipula o espectador, proibindo e desestimulando emoções genuínas. Um adendo pode ser feito, no entanto, sobre o elenco. Confortável e multifacetado, Sean Penn está muito bem como o personagem-título. Ademais, Emile Hirsch, James Franco, Johs Brolin e Diego Luna completam o time escalado por Gus. Uma pena, pois o "artista" Gus Van Sant tinha um material promissor nas mãos.

Nota: 4


14/06/2009

Corpo Fechado

"O meu sexto sentido me diz que são sinais do fim dos tempos"


O início de carreira é sempre complicado para o diretor que aporta em Hollywood. Ou se faz um Cães de Aluguel ou se estreia com Cova Rasa. Mas os primeiros passos de M. Night Shyamalan foram um pouco diferentes das façanhas de Quentin Tarantino e Danny Boyle. O hoje famoso diretor indiano começou com um bom filme, mas que foi exibido somente para sua família, pois foram poucos os sortudos que assistiram Praying With Anger, filme que grande parcela do hoje largo público do cineasta sequer conhece. Não melhorou muito depois disso, pois novamente com um bom filme, Shyamalan teve péssima distribuição e o boca a boca não fez bem a Olhos Abertos. Mas aí chegamos a O Sexto Sentido, obra-prima que marca o início do projeto autoral e estudioso que seria elaborado pelo diretor em todos os seus filmes. O estudo científico, a religião, o espírito, o apocalipse, tudo isso aparece seguidamente na obra de Shyamalan, e não é diferente em Corpo Fechado.

A natureza básica do suspense de Shyamalan não está concentrada em cenas de ação tresloucadas, e sim presente em cada plano silencioso elaborado brilhantemente pelo diretor. O suspense de Corpo Fechado, sucessor de luxo de O Sexto Sentido, consiste, portanto, na mente, não no ritmo alucinante de sequências de ação. Shyamalan induz o espectador, brinca com os nervos e remexe com os sentimentos e as aflições do público, que é conquistado pela história fantástica que está sendo contada na tela – com muitas imagens e poucas palavras. O diretor indiano mostra que domina completamente a escrita e a técnica, deixando sua câmera (sempre presente, mas nunca gratuita) participar ativamente da trama, seja em planos belíssimos (como a tomada de abertura, que utiliza o espelho para construir um genial plano-sequência ou como a sequência do trem, onde os movimentos suaves auxiliam o diretor a estabelecer o tom narrativo) ou em longas cenas silenciosas valorizadas pelas expressões.

Shyamalan sempre remou contra a maré. Com Corpo Fechado, o diretor conseguiu a proeza de realizar um filme de super-herói sem ação barulhenta, visual multicolorido e violência física – e isso pode explicar o fracasso do filme nas bilheterias. Exatamente por isso o filme pode desagradar (e provavelmente isso acontecerá) a quem espera uma trama movimentada. Corpo Fechado é filme lento, contado às avessas, contrariando a gramática clássica do gênero, por isso uma experiência imensamente recompensadora e diferenciada. Somente os grandes contadores de histórias conseguem realizar um bom filme que “desrespeite” a estrutura usual. Como autor que de fato é, Shyamalan burlou a sistemática e fugiu da mesmice, pois fez um filme que alcança o patamar jamais atingido por nenhum filme do gênero.

A trama gira em torno de duas vertentes: David Dunn (Bruce Willis) e Elijah Price (Samuel L. Jackson). Dunn é o único sobrevivente de um violento acidente envolvendo dois trens. Elijah é um fã de quadrinhos que sofre de uma rara doença que torna seus ossos sensíveis. Quando Elijah descobre que um passageiro sobreviveu intacto ao acidente, ele resolve ir atrás do mesmo para apresentar sua teoria, que diz que, se existe um homem de vidro, então deve existir um homem de ferro. A partir daqui, a trama ganha contornos incrivelmente realistas, e que em certos momentos nos fazem esquecer que estamos assistindo a um filme de super-heróis.

Ao brincar com histórias místicas e fantásticas, Shyamalan flerta com as HQ’s. Em cada cena onde Elijah aparece temos referências aos quadrinhos. A rigor, Corpo Fechado parece ser uma adaptação de alguma história (ou de várias?), transfigurada e transposta para as telas, onde funciona perfeitamente. Com maestria, Shyamalan organiza as cenas (trabalho facilitado pelas longas cenas sem cortes) e nos coloca dentro da ação dramática, onde nos identificamos com os personagens e nos sentimos participantes da trama (um pouco pelos movimentos de câmera, que sempre proporcionam uma perspectiva de observação). Além disso, o autor novamente proporciona uma leitura apoiada em pessoas comuns, o que torna a experiência fantástica mais real.

O bem da verdade é que Shyamalan sabe contar histórias e, como poucos, organiza a ideia que move a trama sem nunca comprometer a composição dos personagens. A luz da lógica, em Corpo Fechado temos uma grande demonstração de como dedicar tempo aos personagens e a história, um de cada vez, sem prejudicar o andamento da narrativa ou deixar os personagens “desumanos”. O roteirista elabora cada cena no roteiro já pensando em como irá filmá-las e preocupa-se com os planos em que colocará os personagens, provavelmente com o uso de storybords, que foram muito bem utilizados pelo diretor de fotografia Eduardo Serra. Serra, aliás, mergulhou o filme num tom sombrio, por vezes obscuro e melancólico, mas sempre em sintonia com a trama. Além disso, a música de James Newton Howard (ótimo compositor e braço direito de Shyamalan) completa o clímax constante que percorre toda a metragem.

A presença de Bruce Willis, que repete a boa performance de O Sexto Sentido, e de Samuel L. Jackson conferem credibilidade ao filme, que tem fortes personagens interpretados por grandes atores. A impressão que fica é que Shyamalan fez um filme coeso, inteligente e formalista, como grande formador de opiniões que é. Um filme catalisador, que é muito mais do que aparenta, e que esconde, debaixo de uma grossa camada de fantasia, um mundo incrivelmente real. Em forma e conteúdo, Corpo Fechado deixa um grande paradoxo metalinguístico no final, quando Shyamalan tem a crueldade de terminar o filme com final em aberto somente para tornar a experiência mais arrebatadora. E funciona.


(Unbreakable, EUA, 2000)
Direção de M. Night Shyamalan
Roteiro de M. Night Shyamalan
Com Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright Penn, Spencer Treat Clark


O gênero mais norte-americano é o western. Fato. Tudo bem que quase não fazem mais westerns como antes, mas volta e meia aparece alguma coisa interessante. Para quem aprecia o gênero, no entanto, sempre haverá um catálogo gigantesco de filmes, pois o que foi feito desde o start do gênero rende uma vida de devoção. Abaixo uma lista (filmes destacados são recomendações de Tudo é Crítica) com os nomes mais nostalgicos de filmes western (em título nacional):

A Morte Anda a Cavalo
Eu Quero Ele Morto
Django, Não Perdoa, Mata
Face a Face com o Diabo
Mato Hoje, Morro Amanhã
Minha Lei é Matar ou Morrer
Onde Impera a Traição
Vendo Caro Minha Pele
Sua Vida Me Pertence
Um Dólar Entre os Dentes
Um Homem Chamado Apocalipse
Um Homem, Um Cavalo, Uma Pistola
Vivo ou Preferivelmente Morto
Os Violentos Vão Para o Inferno
Um Caixão Para o Xerife
Uma Pistola Para Cem Caixões
Os Tambores Rufam ao Amanhecer
O Passado Não Perdoa
Chamo-me Aleluia
Atire Para Viver e Reze Pelos Mortos

100% nerd-spaghetti-nostalgia-sci-fi...



Logo quando estamos sendo conquistados pelo personagem, quando a trama dá uma guinada e atinge de uma vez por todas o espectador, assistimos isso, que é apenas um dos zilhões de momentos sensacionais de O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola:

Michael: Eu estou trabalhando para meu pai agora.
Kay: Mas você disse que nunca trabalharia para o seu pai.
Michael: Kay, meu pai não é diferente de nenhuma pessoa importante, como um senador ou um presidente.
Kay: Michael, como você é ingênuo, senadores e presidentes não mandam matar pessoas.
Michael: Quem está sendo ingênua, Kay?