A glória de Dicky Ward (Christian Bale) é ter derrubado Sugar Ray Leonard (mesmo tendo perdido a luta) quando do auge de sua forma – alguns alegam que Ray escorregou, o que enfurece Dicky, pois rouba-lhe aquilo que parece ser seu único orgulho pessoal. O tempo passou e no presente do filme ele é outro homem. Viciado em crack, Dicky é o bad boy da família. Acaba preso justamente quando o irmão, Micky (Mark Wahlberg) mais precisa de sua ajuda. Dicky, agora retirado do boxe, passou a treinar seu irmão mais novo. Enquanto isso se vangloria pelo fato da HBO estar fazendo um filme sobre ele (na verdade um filme sobre a dependência das drogas que ele toma como sobre sua própria história de vida). Apesar da iminente degradação moral e ética do personagem, Dicky continua sendo o “Orgulho de Lowell (cidade localizada ao leste dos EUA)” pelo feito do passado. Ele vive da lembrança, e esse acaba sendo o motivo maior de sua frustração, o que influencia diretamente não só na vida, mas na carreira de seu irmão. Dicky passa então a projetar toda a “brilhante” carreira que quase teve através dos punhos e do sangue do irmão. A vida deles é a trajetória clássica do cinema norte-americano: cair e levantar. Resta reunir as forças.
A noção básica de construção do american dream (ou do american way of life) é aplicada (falamos de um filme sobre uma família disfuncional, temática hollywoodiana por excelência), e rende alguns clichês – como a velha história de superação ou o discurso de que o mal está em si mesmo e a romantização do bad boy. O Vencedor, no entanto, sabe lidar com isso. Daí a importância em dar uma veracidade aos personagens, constituí-los através de diálogos e imagens o mais próximo possível da realidade (a câmera na mão não é aquela bagunçada e confusa de um Greengrass ou de um Aronofsky, e podemos pegar aí Zona Verde e Cisne Negro), é sempre precisa ao esquadrinhar espaços cênicos (seja em cenários externos ou internos). Fica bem claro desde a primeira cena do filme, nas imagens que mostram os irmãos andando pelas ruas da cidade sendo louvados por onde passam, que O Vencedor se trata de um registro não de mitos ou heróis, mas de figuras humanas lutando por seus lugares no mundo – aí se explica a opção da câmera na mão num primeiro momento: há a necessidade de estar junto na luta, batendo e apanhando junto.
São diversos os conflitos familiares que envolvem os Ward. As irmãs defendem as atitudes da mãe superprotetora e autoritária; Dicky falha em seus compromissos com o irmão em virtude de seus vícios; Micky não ganha muito para lutar, e enquanto isso conhece Charlene (Amy Adams), menina não muito bem quista por sua mãe e pela trupe de irmãs. O. Russell coloca-se lá, junto dos dramas familiares, aproxima sua câmera dos personagens sem precisar ceder ao close fácil para registrar a perplexidade e a convulsão. Sua câmera é narrativa, e aí entra a dualidade com o filme dentro do filme. O senso de realismo joga ora com as gravações do filme sobre Ward feito pela HBO, ora com o próprio filme de O. Russell – algumas vezes temos as duas câmeras dividindo um mesmo espaço (a semiótica da dupla vida de Dicky: a do cinema e a real). Temos aí dois filmes, porém com olhares distintos sobre o homem - sobre o mundo, afinal. Num Dicky é a escória, no outro, a glória. Nos dois, no entanto, há a ideia de superação, de dar a volta por cima, de encontrar um lugar/espaço digno de sua garra e vontade.
A realidade se mistura com a ficção, num outro exemplo bem explícito (uma não metáfora) da aproximação da ficção e da realidade. O personagem de Mickey O'Keefe (o policial que vira treinador de Micky) na verdade não é um personagem de cinema: é o próprio O’Keefe que vive ele mesmo. A sacada de todo bom filme baseado em fatos reais está em saber lidar com as possibilidades de transcender a ficção e o real (ao menos aquilo que é tido como real: as pessoas, os fatos, as histórias) para além do registro de ocasiões. O Vencedor se baseia nesse senso de realismo (conferido através das interpretações, em especial as de Christian Bale e Melissa Leo, excelentes atores dramáticos) para criar um efeito contínuo de intensidade. Há todo um culto sobre o Homem e sua história de superação, o que tende a artificializar a narrativa mais frágil, o que não é o caso aqui. O. Russell filma bem o caos instaurado e também as cenas de luta, é daí que busca imprimir o realismo. Mas a imagem final atesta a visão de mundo: O Vencedor acaba sendo um filme sobre a procura pela redenção (pelo sonho, pelo sucesso; clichês dos quais não há solução possível, senão a destruição do filme, tornando-o inexistente). O que acaba sendo caro ao filme é mesmo a impotência de Mark Wahlberg como ator dramático (funciona bem mais no humor, vide Os Outros Caras), que nitidamente encontra-se fora de sintonia em relação a Bale, Leo e Adams. Fica uma experiência fulgurosa pela potência das imagens apresentadas, mas ao mesmo tempo uma sensação de incompletude no que toca o drama humano.
(The Fighter, EUA, 2010)
De David O. Russell
Com Christian Bale, Mark Wahlberg, Amy Adams, Melissa Leo










