Poucas imagens de La Belle Captive são necessárias para colocar o espectador de Alain Robbe-Grillet em estado de absoluta hipnose. Para enfrentar esse filme, é importante não só a disposição do olhar, a não preguiça, mas a vontade de ler as imagens para então compreendê-las. O mistério é presente do início ao fim, impulsionado pela astúcia do protagonista. Walter (Daniel Mesguich) é designado por Sara (Cyrielle Clair), sua chefe, a entregar uma carta a um conde chamado de Henri de Corinthe. Sem saber o conteúdo de tal carta (mistério que mantém por bastante tempo), Walter parte então para realizar sua missão. No caminho, acaba encontrando uma bela mulher algemada no meio da estrada. Como o bon vivant, ele a leva para a primeira casa que encontra. Ao entrar na mansão, nota certo estranhamento nas pessoas, em seus olhares serenos e enrijecidos. Elas estão a olhar, fixamente, para suas ações e reações. Um copo se quebra no chão. Os dois são levados a um quarto e ficam lá trancados. Walter é rapidamente seduzido pela mulher misteriosa e uma noite de amor vai se configurando. Ao acordar, após uma série de alucinações permeadas pela pintura surrealista de René Magritte, percebe que a mansão está vazia. O filme parte deste mistério: onde foram parar as pessoas? Foi um sonho? Mistério que dura.
Daí o interesse em iluminar as coisas, de dar aos ambientes internos uma luz particular – as motos mantêm seus faróis acesos mesmo dentro de casa. Grillet tem paciência ao desenvolver a história, e assim não perde o controle de sua narrativa. Ele explora a perversidade pela luz, foca na iluminação mais arrojada possível, tira o máximo proveito do que a câmera e a luz lhe oferecem. Seu filme é um escárnio, quase inumano; poética estraçalhada por raios de luz, narrativa labiríntica, por vezes imprecisa na montagem para aumentar a sensação de distúrbio, de embriaguez, de descontrole, até mesmo de insanidade. La Belle Captive é o filme onde as imagens são quase sempre o melhor diálogo – claro, têm semelhanças com seus outros filmes, como L’Immortelle e L’Eden et après, ou até mesmo seu último, Gradiva. Uma viagem pela mente talhada por situações-limite, por cenas de alto risco e tensão. Grillet nos envolve ao filme junto do personagem sem a necessidade de ir marcando o filme com “toques autorais”. Se ele tem um estilo e/ou estética é mais para criar a fruição narrativa (no que toca a palavra, Marguerite Duras é também uma influência) e menos para afirmar um rigor técnico ou uma assinatura. O compromisso de Grillet não é nada para com a imagem-ação, e sim com a desconstrução da imagética pela pulsão de uma narrativa a serviço de engrenagens sensório-motoras (como dizia Deleuze). Mas para Grillet (tanto o escritor quanto o cineasta), o mundo sensorial e o mundo físico, tátil, precisam de objetos para se constituírem “realistas”.
A poética está então na organização geométrica destes objetos, na repetição de cenas, na estruturação e desestruturação dos acontecimentos, na reimaginação deles. Mas o decorrer dos fatos aprofunda a sensação de inconsciência, de inaptidão. Grillet, mantendo as ideias expostas no ensaio Pour un Nouveau Roman (Por um Novo Romance), induz o espectador/leitor à ilusão. La Belle Captive, filme pequeno, discreto, abarca isso tudo. Torna-se um gigante. O descontrole do protagonista é reflexo da perplexidade que lhe vai tomando conta conforme chega próximo da solução tão misteriosa – a nós e a ele – levantada no início. A fragmentação da montagem (Eisenstein) confere ao filme um aspecto quase surreal, subumano, no que toca a noção básica de condução narrativa. Grillet manipula a linguagem visual ao extremo (influencia do cubismo, mesmo sendo ele um surrealista), apoiando-se na potência das imagens que captura e confiando-as a própria legitimidade do filme – dos objetos físicos, dos Homens. No seu cinema, um quadro não é apenas um quadro; um rosto não é apenas um rosto; sangue não é apenas sangue; um corte não é somente um corte. Não há um plano sequer que venha ao mundo desgastado. Ao contrário, a concepção de cada quadro (conjuntura de objetos que se completam na imagem) é muito revisada, muito repensada e experimentada. O pensamento de Grillet, antes de fílmico, é crítico perante os conceitos dominantes em relação à mise en scène.
Ao assistir o filme, o sentimento não pode ser outro senão o da perplexidade. O cineasta acredita num cinema livre de “precisões narrativas”, ou seja, nem tudo precisa fazer sentido, nem tudo precisa estar no lugar certo. A sensação de incompletude é apenas um nível de compreensão. A investigação de um sonho (ou a possibilidade de tudo ser parte de um sonho) alimenta o espectador, lhe dá licença para vasculhar na imagem (lendo-a), para xeretar o plano, remexer o filme, construindo-o a partir de sua própria perversidade e imaginação. Imaginação, pois, a palavra chave no filme.
(La Belle Captive, França, 1983)
De Alain Robbe-Grillet
Com Cyrielle Clair, Gabrielle Lazure, Arielle Dombasle








