Durante algum tempo viveu-se um mal estar entre público e crítica, que hoje parece estar se dissipando à medida que ambos aparentam encontrar seus lugares no mundo. Com a democracia da internet, o público pôde encontrar suas fontes de informações e de opiniões. O crítico vem livrando-se do academicismo (processo ainda em desenvolvimento), deixando de fazer crítica para grupos específicos que somente servem para estes mesmos grupos, escapando ao conceito inicial da crítica, mas segue mantendo a problematização das coisas e a consistência na análise. O embate passa a ser agora com a própria obra cinematográfica: ver, ouvir, sentir, tocar, para então opinar e refletir. Ainda vale ressaltar que há uma grande diferença entre comentarista de cinema e crítico. Não há mal nenhum em ser um desses, apenas deve-se saber separá-los, colocar cada função em seu devido lugar, nunca desvalorizando “esse” em virtude “daquele”. E para tentar separá-los é preciso conhecer “os públicos”. O comentarista tem um público, o crítico, outro. Uma vez que todos sabem para onde olhar, a tendência é que as coisas se tornem mais claras. E nesses tempos onde as mudanças são bruscas e constantes, de crises mundiais e tensões entre grandes potências, é necessário clarear um pouco a visão turva que se tem a respeito da função da arte e da cultura – e da arte na cultura – no processo de desenvolvimento do mundo e das pessoas.

A escrita demanda paciência, persistência e determinação. Não é fácil transmitir ideias sucintas através das palavras. A percepção do crítico não pode ser burocrática nem minimalista, atenta demais a um quesito em detrimento de outro; a crítica precisa ser equilibrada, olhar para um lado e depois para o outro, experimentar o filme e experimentar um diálogo possível com ele – relação de extrema importância em crítica, não só de cinema. Toda obra tem sua abertura e, após encontrá-la, basta saber conversar com ela. Mas todo o cuidado é sempre pouco – mesmo delicadas, palavras mordem. Quem escreve deve ser libertino, devasso, provocador, questionador e, se for necessário, polêmico. Deve apoiar-se firmemente na obra a ser analisada, confrontar as possibilidades do enunciado, encarar o texto e o subtexto, ir fundo naquilo que se analisa, fugir da superfície, livrar-se do mal estar, olhar para dentro da obra e deixar-se olhar – é importante notar que os filmes são feitos para construir esse diálogo, essa relação que, grosso modo, é o que encanta no cinema. E é por isso que crítica de cinema é difícil (delicada). Deve-se analisar a obra, o autor e a ideia. Na ausência de qualquer um destes quesitos, então não é crítica.

A crítica não precisa responder todas as questões, mas deve verificar as possibilidades de análise de cada detalhe da obra, nunca caindo na armadilha dos destaques (“destaque vai para a fotografia magnífica do Judas”), do texto empolado cheio de adjetivos tetudos e gotejantes (maravilhoso, espetacular, fantástico, magnífico etc) que, assim como a crítica acadêmica, só serve para inflar egos e retumbar letristas mortos. Os extremos se anulam. Isso só corrobora para a credibilidade do texto sabotar a si própria. Scorsese disse que opiniões não ficam, o que ficam são reflexões, e existem poucas em curso. A obrigação de engordar essa conta é de todos os aventureiros que se permitirem analisar qualquer obra de arte. Articular as ideias de maneira a dar vida ao conteúdo da obra através das palavras, seja pela metalinguagem, pela cinefilosofia ou pelo discorrer interpretativo e opinativo.

A necessidade de um argumento que se sustente, mas que ao mesmo tempo exponha um olhar pessoal sobre a obra é uma virtude que vem com o tempo, com a experimentação (para com a própria linguagem, mas, sobretudo, consigo mesmo) – até com a necessidade: cada obra tem também seu próprio limite e saber reconhecê-lo é importante. Para isso, o crítico deve estar ciente de onde quer chegar, para onde aponta seu olhar, para aí sim “encontrar” o filme. O que brota em palavras é o reflexo do próprio crítico, e é preciso ser muito hábil com elas. Toda crítica bem escrita revela um pouco de seu autor – bem como todo filme carrega algo de seu realizador (é uma relação autor-obra e obra-autor). Isso é um fator crucial no exercício crítico: colocar-se de pé frente à obra que se analisa, observá-la, para então exprimir sua visão de mundo a partir da ideia apresentada. Crítica poluída por adjetivos de exaltação à obra sem fundamento algum é um vírus, uma espécie de infecção que tende a embrulhar as ideais de quem lê, avacalhando com a honestidade do texto. Geralmente essas críticas olham tão somente para o filme, esquecendo-se da ideia – que é o objetivo ao qual se almeja chegar. Olhar para uma obra assim é desrespeitar o leitor, mas não só: o desrespeito é com a própria obra e consigo mesmo. Entra em questão o “pensar e produzir novas formas de vida”, que, de acordo com Deleuze, é o caminho possível e necessário para fugirmos da inanição. O bom crítico aprendeu a interiorizar a obra para então compreendê-la. Expandir o universo da crítica ao propenso e humanizado universo da reflexão é uma necessidade vigente para a disseminação do debate cultural entre “os públicos”. Debate que deve ser extremamente virtuoso e aguerrido, colocando as pessoas e as obras em franco confronto, provocando, assim (e somente assim), a evolução de ideias e pensamentos a respeito de coisas que estão além da arte, como o mundo e até mesmo a vida. Para alcançar o debate é preciso encontrar os filmes e as propostas, as pessoas e seus olhares críticos. Isso é difícil e demanda esforço, mas parece o único caminho possível.

Claro que esse debate não vai ser cerceado enquanto não houver filmes que se posicionem contra algo, fugindo da primariedade de “entreter”. Entretenimento por entretenimento é o sustento do canibalismo (você pode entender capitalismo reinante na indústria, aqui, dá no mesmo) que vem devorando o cinema. Entretenimento deve ser o resultado de uma experiência enriquecedora em todos os sentidos, seja intelectual ou de linguagem. O desejo pelo prazer instantâneo é problemático e empobrece. Mas é remediável, basta uma mudança drástica na visão de quem faz, de quem critica e de quem lê. Caso contrário o efeito é bastante conhecido, a lógica do desastre vigora bravamente, e com precisão lancinante: maus filmes não geram bons espectadores, que consequentemente não refletem, tampouco formam opiniões. O público de hoje vê só a superfície por que é só isso que lhe é mostrado. Aí o feroz e sagaz ciclo vicioso reina absoluto, tornando qualquer tipo de passo a frente imóvel, inapto. O crítico, resenhista e o cinéfilo precisam livrar-se de seus vícios.

O crescimento exponencial dos blogs anunciou novos rumos já há um bom tempo. Até mesmo críticos já estabelecidos migraram para aquela que é hoje a maior rede de compartilhamento de conhecimento. Claro que, com essa proliferação, surgem opiniões mais e menos relevantes. Por relevantes, entendemos serem aquelas que geram o debate, que são capazes de transcender a própria resenha, passando a uma esfera muito mais ampla, dando abertura à discussão e a troca de ideias e ideais e pensamentos. Muitos desses blogs falham nesse sentido, não conseguindo muito bem sequer articular suas propostas, retendo-se a questões de técnica. A técnica não é coisa mais importante a ser analisada num filme – até porque não somos nós que iremos ensinar um Tarantino ou um Kiarostami a “enquadrar” ou como escolher o filtro certo. Essa é uma vistoria de segunda ordem, imediatamente posta num segundo plano, mas sempre relacionando a imagem ao conteúdo (imagem-conteúdo). A consequência lógica disso tudo é a carência de debates conscientes, que produzam material reflexivo atento não só aos filmes, mas a seus conteúdos e conceitos. E existem de fato tantos blogs, tantas vozes desejando serem ouvidas, tantas letras querendo ser lidas, que não é demasiado pretencioso imaginar que esses blogs sejam responsáveis pela geração de novos cinéfilos que, hoje mais do que nunca, são fontes de leitura e referência para o grande público. Talvez resida aí o cerne do problema, voltando a questão do “encontrar seu lugar no mundo”. Talvez os blogs ainda não (re)conheçam sua importância para a cinefilia do porvir. É preciso localizá-la em meio aos escombros, em meio à poeira. Os “ciné-fils”, ou “filhos do cinema”, como cunhou Serge Daney, são então os anjos da salvação.

Para fortalecer e tonificar qualquer argumento, é necessário o embasamento teórico: apurar questões pendentes, dissecá-las até não restarem mais pontos a serem introduzidos em nossa base de conhecimento. Daí a importância de ver filmes, de exercer a cinefilia - outrora tão dançante e excitante com a proliferação dos cineclubes (herança de Henri Langlois) – de conhecer vários cinemas, de festejar a diversidade de propostas e reconhecê-las quando da análise. Entrando numa esfera ainda mais abrangente, chega-se ao ensaio, seja ele formal ou discursivo, que é uma análise literária da obra atenta a reflexão de causa e consequência, uma relação de casamento com sentidos inquebráveis proporcionados pela experimentação. Não que todo texto precise evocar Francis Bacon, mas como queria Deleuze, pensar o cinema de maneira eloquente, como faz Godard e como fez Bresson (ensaístas por excelência), através dele próprio.

Para leitura e acompanhamento (links ao lado):

Cahiers du Cinéma (em francês)
Film Comment (em inglês)

Sense of Cinema (em inglês)
Contracampo
Cinética
Filmes Polvo
Cinequanon
Zingu
Filmologia
Filme Cultura
Revista de Cinema

Textos recomendados acerca da crítica:




Os blogs estão matando a crítica de cinema: http://sombras-eletricas.blogspot.com/2010/08/os-blogs-fazem-mal-critica-de-cinema.html por André Renato

O cinema de autor: o papel do crítico de cinema na concepção dos diferentes olhares: http://websmed.portoalegre.rs.gov.br/escolas/revistavirtualagora/materiais/O_Cinema_de_Autor_Fernando.pdf por Fernando Telles de Paula

Olhando para o bico de meu sapato: http://setarosblog.blogspot.com/2010/12/olhando-para-o-bico-de-meu-sapato.html por André Setaro

The Critical Function: http://home.earthlink.net/~steevee/function.html por Serge Daney

27/12/2010

O Bom Coração



O Bom Coração parece não estar ligado a tipo algum de estética visual ou narrativa. Dagur Kári, cineasta francês que só agora (após alguns curtas e longas) chega ao Brasil com um filme, parece compreender isso tão logo que já nos entrega no início as bases sob as quais seu filme será apoiado e, com pouco esforço do espectador, já se tem o final revelado. É possível encarar de duas formas estas escolhas do diretor: ou ele trabalhou com a ideia de deixar escapar o final logo no início e, uma vez que o público já está consciente dos acontecimentos, relatar o que motivou tais situações; ou mimetizou demasiado as estruturas de seu filme, tirando-lhe qualquer capacidade de ser um pouco mais do que o filme-sacrifício-pelo-próximo. Seja qual for o olhar, no entanto, O Bom Coração ainda soa desafinado, perdido em seu mundo de faz de conta, colocando o acaso como resolução para tudo e para todos. Dagur não almeja sentir as coisas, ouvir as pessoas ou deixá-las se expressar. A análise do Homem não é de interesse do diretor. A busca é apenas por situações que possam converter e enaltecer seu argumento.

Dagur não é capaz de fugir de clichês clássicos em sua história. O que acaba sendo um pecado para um cineasta que transmite um desejo tão sincero de querer ser moderno. Ele conta a história de Jacques (Brian Cox), dono de um bar frequentado sempre pelas mesmas pessoas, em que não é permitida a entrada de mulheres e todos se conhecem. Jacques sofre do coração, seguidamente vai ao chão por um infarto. Ele quer alguém para tomar conta de seu bar. Acaba encontrando Lucas (Paul Dano) no hospital, após mais uma queda. Lucas, que mora na rua, tentou suicídio. Logo ficam amigos, e Jacques o convida para trabalhar e lhe dá um quarto em sua casa (em cima do bar). O filme não vai além do óbvio, cerceando mais os objetos do que as pessoas, refutando mais os acontecimentos do que os protagonistas, dando mais moral à casca do que ao ovo. Ainda que a câmera de Kári registre bem alguns embates entre os personagens (duas cenas em particular sobram no filme e garantem sua beleza: quando Lucas descobre uma peça secreta no bar e quando ele ameaça ir embora) enquanto demonstra não fazer qualquer juízo de valor sobre o que vê, O Bom Coração encontra logo seu limite: trava na ingenuidade das relações e na junção de valores pré-formatados e conceitos abolidos há muito pela grafia cinematográfica mundial.

O filme volta a se encontrar somente na dupla de personagens centrais. Ainda que não seja nem Brian Cox tampouco Paul Dano que irão salvar o filme, O Bom Coração tem nos dois suas maiores virtudes. Lucas é tão inocente quanto sensível (o tal good heart do título), homem de poucas letras, mas inteligente, apesar de aparentar ser um bobo. Paul Dano compreende bem este universo da abstinência de palavras, seja por Pequena Miss Sunshine ou Sangue Negro, e isso auxilia a composição e manifestação dos "males" interiores de seu personagem - a figura marcada pela inocência (pelo menos na superfície) continua sendo marca inegável do jovem ator. Mas Lucas e Jacques são vulcões que nunca entram em erupção, não saem do registro talhado, cuidadosamente delineado para servir a propostas bastante básicas e fáceis. Ambos não passam de caricaturas de si mesmos, sendo eles o "pano de fundo" do acaso, e não contrário. O Bom Coração é um filme infértil.

Dagur vai lentamente criando um clima para seu filme que não comporta o peso de si próprio. O filme se apoia numa crença que se revela perneta, não se revolve de maneira a enriquecer a linguagem tampouco se posiciona de forma a potencializá-la, e sim segue insistindo em satisfazer caprichos visuais e narrativos que já nasceram com cheiro de mofo.

(The Good Heart, EUA, 2009) 
De Dagur Kári
Com Paul Dano, Brian Cox, ill Buell, Stephanie Szostak, Isild Le Besco, Nicolas Bro

Os critérios que se fizeram valer para a elaboração desta lista são os mesmos que foram aplicados na lista dos melhores da década. Dentre centenas de filmes assistidos durante o ano, tentamos escolher apenas 10. Obviamente, como toda e qualquer lista, alguns bons filmes acabaram não entrando. Não faltou esse ou aquele filme. Quando dizem da "falta" de um filme, fica a impressão de que o autor da lista "esqueceu" do filme "x" ou do filme "y". Nada disso: a lista reflete uma opinião pessoal, e como tal não irá (nem tem a pretensão) de encantar a todos. A lista, agora sim em ordem de preferência:


Brilho de Uma Paixão, de Jane Campion (Inglaterra, 2009)


Mother - A Busca Pela Verdade, de Bong Joon-ho (Coréia do Sul, 2009)


 Vincere, de Marco Bellocchio (Itália, 2009)


Sede de Sangue, Park Chan-wook (Coréia do Sul, 2009)


 Filme Socialismo, de Jean Luc-Godard (França, 2010)


 O Profeta, de Jacques Audiard (França, 2009)


 Tulpan, Sergey Dvortsevoy (Cazaquistão, 2008)


 Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro, de José Padilha (Brasil, 2010)


 Toy Story 3, de Lee Unkrich (EUA, 2010)


 O Que Resta do Tempo, de Elia Suleiman (França/Reino Unido/Bélgica, 2009)


Obs.: Menção honrosa para A Alma do Osso, Sempre Bela e À Prova de Morte, que estrearam somente este ano, apesar de terem sido rodados em 2004, 2006 e 2007, respectivamente.

Obs. 2: Só foram considerados filmes que foram exibidos no circuito.

 
O Caçador de Recompensas, de Andy Tennant (The Bounty Hunter, EUA)


 Contatos de 4º Grau,  de Olatunde Osunsanmi (The 4th Kind, EUA)


 Fúria de Titãs, de Louis Leterrier (Clash of the Titans, EUA)


A Última Música, de Julie Anne Robinson (The Last Song, EUA)


 Amelia, de Mira Nair (Amelia, EUA)


 Salt, de Phillip Noyce (Salt, EUA)


Jogos Mortais – O Final, de Kevin Greutert (Saw 3D, EUA)


 Nine, de Rob Marshall (Nine, EUA)


Comer, Rezar, Amar, de Ryan Murphy (Eat, Pray, Love, EUA)


 
Um Sonho Possível, de John Lee Hancock (The Blind Side, EUA)


Obs.: Sem ordem de "preferência".

Qualquer lista de melhores está disposta sob certos olhares e percepções bastante distintas. Claramente uma lista com os melhores de uma década não diz somente a respeito de um determinado “estilo” ou “estética” de gêneros. Não é preciso encontrar um formato, um conceito pré-estabelecido para organizar os filmes. Como se pode então colocar, lado a lado, numa mesma lista, filmes tão diferentes, de propostas e estéticas tão distantes e, aparentemente, inversas? Indo pela questão da experiência individual. Que é o caminho por onde enveredei ao encontrar os filmes que mais marcaram minhas sessões cinéfilas durante estes anos. A lista, sem ordem alguma de preferência:

 Mal dos Trópicos (Apichatpong Weerasethakul, Tailândia, 2004)


 Onde os Fracos Não Tem Vez (Joel & Ethan Coen, EUA, 2007)

 
Em Busca da Vida (Jia Zhang-Ke, China, 2006)


 Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino, EUA, 2009)


 Sangue Negro (Paul Thomas Anderson, EUA, 2007)
 

Elogio ao Amor (Jean Luc-Godard, França, 2001)


Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera (Kim Ki-duk, Coréia do Sul, 2003)


 O Homem Sem Passado (Aki Kaurismäki, Finlândia, 2002)


 Oasis (Lee Chang-dong, Coréia do Sul, 2002)


 Avatar (James Cameron, EUA, 2009)


18/12/2010

Vincere



Não é bem o ateísmo que dá pulsão as primeiras imagens de Vincere – é muito importante relacionar essa imagem ao restante do filme, pois é nela que se encontra grande parte do discurso não só do personagem que representa, mas do próprio filme como imagem única e absoluta de uma ideia. O que move a primeira sequência do mais recente filme de Marco Bellocchio é profusão da ideia, do argumento, da tese defendida até as últimas consequências e até que reste a última pétala a desabrochar. Benito Mussolini (Filippo Timi) pede um relógio emprestado a um companheiro de militância numa reunião. Dita a hora e diz que, se em 5 minutos Deus não lhe destruir, então é porque ele (Deus) não existe. O tempo passa e Benito continua ali. Então anuncia, para espanto dos presentes no recinto: “O tempo acabou. Deus não existe”. Está construída a alvorada do mito e, ao mesmo tempo, com a presença feminina de Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno) a o observar impressionada, a epopeia do homem. Mas a desmesurada ascensão do Líder é também a fonte de esgotamento dele próprio. Seu percurso é uma linha mal traçada, cheia de talhos e maltrapilhos subordinados a sua indecorosidade.

Claramente Bellocchio estrutura seu filme nesses dois contextos: primeiro expõe os ideais revolucionários de Mussolini, dando suas motivações (sem previamente discuti-las ou julgá-las, escapando aí de soluções fáceis, tão caras a qualquer cinema sobre “Homens da História”). Logo depois passa a construir a imagem do mito, que de militante socialista passa a líder de toda a nação, dando início ao fascismo à beira da primeira grande guerra. No primeiro momento, Filippo Timi incorpora o personagem, que depois é tonificado somente através de imagens de arquivo do próprio Mussolini, e aí entra em cena o drama de Ida Dalser. Após se envolver com Duce, ter um filho com ele e se desfazer da totalidade de seus bens (materiais e espirituais, doando-se de corpo e alma aquele amor possível), Ida se vê abandonada, com a descrença de todos perante sua voz. Algum tempo após entrar para exército, o Duce, já casado com outra mulher (Rachele) e com vários filhos, regozija o poder enquanto conduz a Itália à Guerra, no discurso de negação ao estatismo, de que a paz só é possível se a guerra curar a humanidade antes. Ida é dada como louca quando tenta dizer que é casada com o Duce e que o primogênito é fruto do amor entre eles. Amor inconstante, impermeável, irresponsável, insolúvel; amor carnal, volúvel, auspicioso. Ida acaba no hospício.

Essa história ainda hoje não esclarecida é filtrada pelo olhar atento de Bellocchio, que a descreve em toda sua inflexão e que, como a história real, parece incapaz de assumir o estado de paz possível e necessário. Nesse sentido, diversas sequências existem para construir o mito e desmistificá-lo, sem compromissos maiores com sua imagem senão a do diálogo com a narrativa oposta, que prontamente trata de mostrar a agonia de Ida quando tenta suprir a ausência de seu filho enquanto engasga com sua verdade. É aquele grito sem palavras. Ida fala, mas não a escutam. Vejam só, ela diz, num hospício, ser mulher do Duce, que está casado e tem filhos. Sua voz é uma arma que volta contra ela mesma, e render-se admitindo que tudo aquilo que dissera fora uma falsa verdade não é uma possibilidade sequer cogitada – a cena em que um dos funcionários do hospício (que a princípio reconhece a verdade em Ida) tenta convencê-la a dizer que mentia é emblemática como enunciação de uma verdade que só pode ser libertadora ser for falsa. Bellocchio expõe esses fatos com a grandeza de quem aprendeu a lidar com aquilo que relata – a sua verdade é então apagar a farsa e dar lugar as tais histórias não contadas, que escapam a própria História. Vincere é também um filme sobre a impossibilidade de se fazer escutar quando os leões dominam os cordeiros.

O filme exprime a sofreguidão de Ida (no melhor desempenho de Giovanna Mezzogiorno no cinema) com toda força que a temática pede, se reduzindo ao relato para não definhar diante de sua própria complexidade – Bellocchio, mais do que nenhum outro cineasta italiano hoje, conhece os limites e os caminhos mais corretos para que metáforas não suplantem a solidificação dos fluidos do filme, que são o que lhe constroem e estruturam. Cercear um encontro com o Duce para então matá-lo é uma ideia ainda a ser amadurecida. Ida tem uma visão muito clara de sua própria verdade, mas aos olhos de outro parece que está a olhar contra o sol, e que, mesmo usando óculos de proteção, a visão continua turva, distópica. A câmera de Bellocchio é sempre presente ao esquadrinhar espaços transitando entre o movimento delicado e o plano improvável – “o plano é a imagem-movimento” (Deleuze). Olha-se para um objeto determinado pelas multifocais, mas atenta-se para o que urge em segundo plano. É partir dessa vontade de potência que o cinema de Marco Bellocchio mantém-se em dia com as barbaridades de seu tempo. Cinema de afirmação de coisas não ditas, de colocação e fixação destas em seus devidos lugares.

(Vincere, Itália, 2009) 
Direção de Marco Bellocchio
Com Filippo Timi, Giovanna Mezzogiorno, Michela Cescon, Corrado Invernizzi, Fausto Russo Alesi, Pier Giorgio Bellocchio, Paolo Pierobon


Claire Denis tem uma visão muito clara de seu cinema: registrar a transformação de certos objetos (as pessoas) que compõem um lugar (o país). Ela, cineasta que conhece vários cinemas, não tem, portanto, receio de desbravar terrenos arenosos ou mares bravos. Minha Terra, África (título adaptado do original White Material) é um filme de elaboração simples, mas com condução narrativa complexa. Maria Vial, a personagem de Isabelle Huppert, é o núcleo que norteia a trama, que se desenvolve a partir de seus problemas cotidianos e seus sentimentos inquietos – passa a ser o olho do espectador no filme, com o passar do tempo. No desejo consciente de querer encontrar o seu lugar no mundo, Maria passará momentos pouco cordiais. Para ela, o lamento não é o protesto da revolta, e sim choro dos incompetentes.

A vastidão dos campos contrasta com a pequenez dos personagens que neles habitam, num espetáculo cru e violento onde não há bons ou maus (algo meio Coeztee), somente Humanos. Claire Denis mostra tudo que é essencial ao filme com uma câmera sempre discreta, marcando espaços esteticamente letárgicos, mas com habilidade rara de posicionamento de câmera e escolha de planos que jogam com os personagens. Nos cortes também há o movimento dos closes nos rostos dos negros africanos (sempre carrancudos) e dos brancos (expressão mais leve, numa clara ironia a falsa tranquilidade que parecem ter em suas vidas). As disputas pela hegemonia (sejam elas alavancadas pela cor ou grupo) configuram a extrema imoralidade de um pedaço de mundo aparentemente incapaz de se locomover por conta própria, de sair do canto para o centro. Maria Vial, a personagem vivida por Isabelle Huppert, é a personagem que vai buscar essa estabilização, a vida num país onde foi criada, mas ainda assim é vista como uma estranha.

A força do filme reside justamente aí, nesse caleidoscópio de transformações e tentativas de se adaptar, de pertencer a um grupo, numa busca indireta e incessante pela autoaceitação, antes mesmo da aceitação perante um grupo maior. Isabelle Huppert é muito importante nesse sentido, de dar ao filme a intensidade visual necessária para que as imagens mostradas na tela possam não só significar algo, mas pincelar um retrato mais profundo da vida da personagem. Sua relação com “o mundo” parece bastante amigável, já “o mundo” não lhe parece caloroso. Resta aí assegurar ideologicamente seu lugar enquanto ser humano. Vial observa (como um voyeur) a manutenção da propriedade das terras nas mãos de diversos homens enquanto tenta conquistar/manter seu próprio espaço de morada. É uma vivência complicada para todo francês na África. Mesmo com o governo francês tentando providenciar a retirada de qualquer estrangeiro daquelas terras, Maria recusa-se a ir embora, pois não quer deixar as plantações de café de sua família.

Outro dado que trabalha a favor do filme é o fato de que o início só é compreendido no final, o que, longe de ser uma criação de expectativas que tende ao embuste pelo comodismo pseudo, está posto de maneira a enriquecer a narrativa e a imagem dela aos olhos do público. E o espectador ganha com isso: a temporalidade dilata-se, os corpos se contraem para depois voltarem aos seus estados normais/naturais, abrindo um jogo de ida e volta, em busca de se estabilizar. Cada um quer o seu pedaço de terra e quem tem o seu não quer abrir mão. É uma luta constante pelo espaço-lugar (a câmera representa bem isso, com movimentos bastante elaborados ao “invadir” espaços cênicos), uma batalha civil pela posse.



(White Material, França, 2009)
De Claire Denis
Com Isabelle Huppert, Christopher Lambert, Isaach De Bankolé, Nicolas Duvauchelle, William Nadylam, Adèle Ado, Ali Barkai, Michel Subor


Não é qualquer artista que constroi uma obra relevante, como segue fazendo Woody Allen, que em breve chegará a 50 filmes. Uma obra mais facilmente identificável pela predileção de temas (sexo, traição, morte, religião, família, hipocondria), de construção e delineamento de uma persona cinematográfica que está além da tela, do que por questões de estética – não que não haja preocupação visual em seus filmes, mas evidentemente o apreço maior de Allen está mesmo no texto, no rigor com que desenvolve suas sátiras (na maioria das vezes) pelos olhos do intelectual norte-americano. Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos mantém a escrita: jogo plano/contraplano abundante, diálogos ágeis, personagens que se chocam. Ainda renova um pouco o fôlego do cineasta: o humor não é tanto o objetivo, e sim a consequência do bizarro. Aqui saímos de Dostoievski e Buster Keaton e vamos a Shakespeare – não que o dramaturgo inglês estivesse ausente na obra passada Allen.

A enunciação altera o argumento-base: se nos últimos filmes de Allen (começando por Scoop – O Grande Furo, passando por O Sonho de Cassandra e Vicky Cristina Barcelona e terminando em Tudo Pode Dar Certo) a poesia dos diálogos tendia ao encantamento pela extravagância, aqui a relação das palavras encontra na simplicidade seu canto do cisne. Uma vez instaladas as “questões” do filme através da narração em off, o que o cineasta faz é problematizar as situações causadas por essa exposição de fatos. Reduz-se a magnitude do discurso (não em sua essência e potência, mas em sua leviandade) em prol da fácil assimilação, proporcionando o encontro factual entre o humor e a comédia dramática. Na prática, o humor sobressai nos personagens de Josh Brolin e Gemma Jones, enquanto Naomi Watts e Anthony Hopkins demonstram mais as amarguras da vida. Não que isso (essa aparente flexão de contrastes) neutralize o sentimento oposto em cada um, a dor parece proporcional a alegria para todos. São todos “vítimas das circunstâncias” num ambiente onde não há heróis ou algozes.

A busca pela realização, pela tão sonhada felicidade é um desejo compartilhado por todos, não um prazer individual almejado. Ao mesmo tempo, no entanto, cada um “sofre” com suas crenças: a mãe (Gemma Jones) só fala das previsões de uma cartomante; o genro (Josh Brolin) vem tentando publicar seu novo livro e ao mesmo tempo se encanta pela vizinha (Freida Pinto); a mulher (Naomi Watts) está em dúvidas sobre seu casamento enquanto demonstra interesse por seu empregador (Antonio Banderas); o senhor (Anthony Hopkins) em franco embate contra sua idade pede divórcio e acaba ficando com uma prostituta. Essas relações descritas pelo narrador funcionam até se encontrarem com os limites da própria obra: a tragédia shakespeariana situa-se marcando “os destinos”; destinos estes inexistentes perante a crítica (um pouco mal bolada) ao esoterismo. Não há poética barata, mas há um culto em torno do hermetismo que parece não encontrar um foco crítico satisfatório. Mas por mais que existam incompatibilidades num filme de Allen, surge a grandeza de sua obra passada e aí se compreende suas motivações – não que “Você Vai Conhecer...” seja um filme preso a filmografia anterior Woody, mas no sentido de que uma obra, uma vez instaurada sob seus vários olhares disposições críticas sobre o mundo, serve como argumento/tese para definirmos seu criador.

Nesse sentido, a estética do filme corresponde mais a um Match Point do que a qualquer uma das comédias recentes de Allen. Há claramente uma tentativa de reorganizar o quadro, alterar o movimento de câmera (um pouco de Desconstruindo Harry aqui também), burlar a presença do ator na imagem: ele não somente invade o quadro, mas a câmera faz o translado até lhe encontrar somente para depois recuar novamente. É uma construção importante de situações, pois dá o tom do filme: ir daqui para lá não necessariamente reduz a possibilidade do fracasso. Todos os personagens que tentam uma mudança radical de vida em Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, mesmo que não consigam lidar muito bem com as consequências acarretadas, sairão dela modificados. Mas o retorno é o destino mais provável – o negro alto é então a metáfora do desencanto.

(You Will Meet a Tall Dark Stranger, EUA, 2010) 
Direção de Woody Allen
Com Josh Brolin, Naomi Watts, Gemma Jones, Anthony Hopkins, Antonio Banderas, Freida Pinto

12/12/2010

Tetro

 
Não custa muito ao espectador entender a proposta de Tetro, novo filme de Francis Ford Coppola, que volta aos cinemas brasileiros após muitos anos (seu filme anterior, Velha Juventude, ainda não estreou por aqui). Tetro se explica logo a partir de suas primeiras imagens: um jovem (parece um marinheiro, mas é garçom de um navio) caminha pelas ruas de Buenos Aires. Olha para as placas das ruas, para os números das casas. Está à procura de algo, de alguém. Logo encontra a casa de seu irmão. Lá, descobre que sua busca na verdade é pela significação de sua própria existência, de encontrar sentidos que lhe respondam seus questionamentos. Tetro é então um filme sobre o deslocamento, sobre sair de lá e vir para cá, na tentativa de levar “uma vida melhor”. Filme também sobre família (tema coppoliano por excelência), como não poderia deixar de ser. Coppola muda completamente o tom de sua obra passada (O Homem Que Fazia Chover, Jack), onde andou se perdendo (claro, devido a problemas financeiro-pessoais, em sua maior parte), e retoma com um filme potente, que valoriza a singeleza narrativa e dinamiza a construção genuína de uma história sobre “pessoas comuns”.

Sem a necessidade de satisfazer produtores (ele agora é seu próprio patrão), Coppola fez um filme pessoal (algo pelo que tanto lutou desde o início de sua carreira), sobre coisas que lhe são peculiares, metamorfoseando a dita estrutura de seu cinema (direção de arte pomposa, trilha sonora dissonante etc) em objetivos claramente funcionais do ponto de visto narrativo. Mas não sem referências (do melodrama de Douglas Sirk ao mais minimalista drama psicológico de Bergman), que vão desde sua própria obra (O Selvagem de Motocicleta é também sobre dois irmãos, um mais velho que o outro) até sua vida pessoal (seu pai era músico; tinha um irmão mais velho). Tetro é um filme sobre sua família; seu irmão e seu pai.

Bennie (Alden Ehreinreich) vai passar uns dias na casa de seu irmão Angelo (Vincent Gallo) por acaso: o navio onde trabalha teve problemas técnicos e está temporariamente trancado no porto de Buenos Aires. Assim, ele acaba procurando e encontrando o apartamento onde seu irmão mora com a namorada Miranda (Maribel Verdú), e lá fica por alguns dias. Seu irmão, que após deixar a família para um ano sabático não mais retornou; mudou até de nome, numa tentativa de esquecer (deixar para trás “aquilo que passou”) certas cicatrizes do passado. De Angelo passou a atender por Tetro, e com isso parece ter adquirido outra personalidade (ao menos na superfície daquilo que tenta transparecer), que o deixa, de certa forma, alheio ao mundo que vivera no passado em sua tentativa de “nascer de novo”. Coppola inteligentemente trata com suavidade destes dois níveis narrativos (Bennie e Tetro/Angelo), construindo ambos os personagens com mãos firmes e certeiras: não há descuidos para com nenhum deles, são sempre filmados através de planos elegantes (ainda que não sejam tão francamente excepcionais como os de sua fase áurea, há décadas atrás), além de terem seus contornos, seus desníveis, suas animosidades e suas aflições (que, todos juntos, os constroem e os humanizam) sempre enunciadas pela imagem.

A Verdú de tantos filmes interessantes (Zona do Crime, O Labirinto do Fauno, Os Girassóis Cegos, E Sua Mãe Também) aqui só confirma a poesia naturalista de seu olhar, de seu sorriso e de sua fala delicada. Assim como o mistério que cerca o personagem de Gallo, trata-se de um trabalho de interpretação de situações-limite tão profundas sobre os personagens que, invariavelmente, acabam revelando coisas sobre eles próprios – num mérito claramente atribuído a Coppola, já calejado depois de décadas dirigindo os mais variados “tipos”. E Tetro é mesmo um filme de muitos olhares, de muitas sensações, muitas percepções, pois seus personagens navegam entre a intensidade do momento e a frieza da agonia. Nesse sentido, Gallo é um destaque particular, por envolver seu Tetro com uma camada de insanidade; mas não só, também deixa transparecer a sensibilidade do homem atormentado pela memória de uma tragédia que lhe custa desaparecer. São essas as ambiguidades que enriquecem não só o personagem que dá nome ao filme, mas o próprio endereçamento da história – não há caminhos fáceis escolhidos por Coppola para “resolver” seus personagens.

Aqui também não há mais a excitação pela escolha do plano mais correto, do movimento mais arriscado ou do ângulo mais inusitado. A serviço de Coppola está toda uma trajetória de cinema que lhe permite soltar os recursos de cena (podemos incluir aí os próprios atores juntamente dos objetos de arte), construindo a mise-en-scène com a maior simplicidade possível (e necessária). E aí o filme torna-se grande, pois, uma vez conhecido o limite da obra, pode-se explorá-lo até o esgotamento. E Coppola faz isso ao abrir mão da fotografia em cores e partindo para um P&B que só obscurece ainda mais sua história de mistério – dando um momento e outro para cenas em cores, que são prontamente as memórias e delírios de Tetro, mas que sequer ocupam toda a imagem (na tela), sendo jogadas numa tela menor que coloca essas “coisas passadas” lá trás, num espaço reduzido da memória, junto daquilo que não mais pode ser revertido, tampouco subvertido. A antropologia filosófica de Tetro reside justamente aí: em verificar tudo que é essencial ao homem, e não especificamente suas características. Ou seja, o Homem, somente a partir dele próprio, pode alcançar a redenção pelo autoconhecimento. Não há meias palavras ou coisas não ditas em Tetro.

(Tetro, Argentina/Espanha/Itália, 2009) 
Direção de Francis Ford Coppola
Com Vincent Gallo, Alden Ehreinreich, Maribel Verdú

09/12/2010

A Rede Social


A Rede Social nos faz olhar para um lado, mas talvez esteja apontando para o exato oposto. A construção das imagens, não importando sua procedência, confere a expertise de David Fincher ao jogar com elementos exclusivamente cinematográficos. O protagonista do filme é Mark Zuckerberg (a este altura você já deve saber quem ele é), jovem que se move em cena sob o embalo de ritmos musicais (seja pela fala, pela prontidão com que apresenta a réplica a um questionamento ou até mesmo pelo caminhar apressado) -, algumas vezes indelicados - proporcionando a fluidez do material. Fincher utiliza a cartilha clássica do cinema de entretenimento: segurar o máximo possível a tensão do filme, soltar aos poucos as pontas soltas da história, criar o protagonista e o antagonista, mesclando entre o drama e o humor popular.

O argumento não se sustenta: as bases construídas para alicerçar a história do “jovem-nerd-que-não-pega-ninguém-e-é-tido-como-babaca-por-todos-mas-que-vira-gênio” funciona muito bem em crônicas jornalísticas rasas sobre ascensão “do mais fraco” rumo ao Olimpo. Em Cinema a estrutura precisa ser outra, essas “bases” não devem estar dispostas a ceder a gestos fáceis. E, de fato, a primariedade de algumas escolhas torna suas consequências incrivelmente boçais. O ato anula a resultado. A Rede Social não liga para a qualquer estética (tanto técnica quanto narrativa) senão a do academicismo, da construção pomposa de detalhes cênicos e gags facilmente degustadas pela velocidade com que se apresentam. É o filme do momento, da hora, do instante, do soluço pontual, da ejaculação precoce. Fincher quer tanto um Oscar, que acaba esquecendo que já vez Clube da Luta e Seven pelo talento de subverter gêneros e metaforizar “grandes questões” com habilidade rara. Mas se nos filmes anteriores o que pulsava era a metalinguagem através da crítica ácida a “tipos de sistema”, aqui o que marca é a batida hightech das músicas (difícil falar em canções) que fazem fundo a diversas conversas entre os personagens, que falam sempre em tons professorais, sabiamente explicitando seus gênios. Não há uma configuração para eles, apenas frases feitas para causar algum efeito rápido no espectador. Podem até funcionar, mas pelo efeito da ilusão. Fincher é um ilusionista.

Fincher manipula os recursos cinematográficos (montagem e trilha sonora) para dar um nó no espectador, pegá-lo por onde ele é mais frágil: os sentidos. Som e imagem num turbilhão de flashes que, uma vez bem organizados, seduzem – ou parecem seduzir. O cineasta hipnotiza por meio de diálogos ágeis (Zuckerberg raramente vai além de respostas monossilábicas e não a toa está sempre correndo contra o tempo, e aqui existe uma metáfora interessante sobre nosso tempo, ainda que bastante óbvia), cortes secos, tornando seu filme “um delicioso passatempo” – e vejam toda a ironia possível nessa sentença, por favor. E para isso não busca muitas coisas senão o efeito rasteiro. A história de A Rede Social é muito simples: Mark Zuckerberg é um jovem analista de sistemas graduado em Harvard que desenvolveu um site de relacionamentos, dando-lhe o nome de Facebook, que imediatamente virou um sucesso. Em meio a isso tudo, claro, intrigas, conspirações, traições e relações de interesse. Nesse sentido, se o objetivo do filme for simplesmente esse, contar a história de criação do Facebook, o filme de David Fincher é virtuoso. Para outras questões, não há análise possível. No efeito do tempo, o esquecimento é um futuro quase certo para A Rede Social.

O diálogo com seu tempo (cada vez mais a tecnologia toma conta dos espaços) é uma evidência clara da mudança de percepção de mundo que tomou conta do cinema de Fincher – e não há qualquer negatividade nisso. Clube da Luta, assim como Seven, não correspondia a nenhum valor estético de precisão de fatos, de elaboração de “imagens agradáveis”. A potência daqueles filmes reside justamente no fato de não prenderem-se a valores morais e éticos, quebrando regras e paradigmas não somente cinematográficos, mas sorvendo do poder de conseguir romper as coisas – e de alguma forma modificá-las. O discurso da falência da moral aqui não é mais necessário, pois “os tempos são outros”, mudaram-se as pessoas, as tendências, as correntes, os grupinhos. A visão de A Rede Social é a de que a catarse social pela instantaneidade é a grande responsável pela profusão das tais redes. Talvez o filme seja sobre nós mesmos, o público ludibriado pela “poesia contemporânea” das ideias. Ou, num suspiro ainda maior de esperança, talvez A Rede Social (bem como Seven e Clube da Luta, não raro os melhores trabalhos do diretor) seja uma grande ironia.

(The Social Network, EUA, 2010)
Direção de David Fincher
Com Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Armie Hammer, Rooney Mara, Max Minghella, Rashida Jones

07/12/2010

Abutres

 
Trapero é certamente um cineasta técnico, do movimento de câmera preciso, do plano-sequência, da câmera na mão. Dos principais realizadores argentinos contemporâneos (inclua Daniel Burman, Lucrécia Martel e Juan José Campanella, mas podendo expandir ainda mais incluindo Pablo Meza), destaca-se sua característica de “engenho da imagem”: poli-la e quebrá-la novamente, para depois despedaçar tudo e partir então para a remodelagem. Nesse sentido, é extremamente habilidoso, trabalhando as imagens para que elas se adequem aos “momentos” dos personagens, não o contrário – o que é sempre complicado. A mise-en-scène é sempre hipertrabalhada, disposta a sublinhar a ação presente, seja pela cirúrgica construção do plano ou pela própria dificuldade natural de se encontrar o enquadramento numa cena com movimento de câmera. Abutres, que não foge desse conceito de cinema que Trapero criou para si, trata então de revigorar algumas questões da obra (ainda jovem) do cineasta argentino.

A sequência de abertura do filme, ainda que compreensível apenas após alguns minutos, serve como aviso para o que se seguirá: a dor lancinante do golpe no corpo humano é proporcionalmente suportável frente ao lucro que dela provém. É assim que Sosa (Ricardo Darín) começa o filme: apanhando de capangas que lhe cobram dinheiro, mas sabendo que o “esforço” vale a pena. E é assim também, com a dor alheia, que Sosa compra seu pão. Advogado, Sosa vive cercando hospitais públicos de Buenos Aires em busca de vítimas de acidentes de trânsito, para pegar aí uma fatia do seguro, fazendo uns trambiques, “forçando” acidentes para ajudar amigos. Um dia, num acidente, ele conhece Luján (Martina Gusman), uma das enfermeiras de um dos hospitais que frequenta. Os dois se aproximam e, inevitavelmente, provam o sabor doce da paixão.

Abutres têm os ingredientes do cinema policial norte-americano clássico, mas não perde a verve européia do cinema de suspense, mas isso também não lhe deixa sem identidade: Trapero vai marcando o filme com cenas de rara beleza, tanto em virtude dos diálogos (muitos deles acometidos por uma simplicidade bastante bem-vinda) quanto no sentido de enriquecer seu filme com cenas de forte carga dramática - a linguagem de cena (espaço/tempo) ele domina plenamente. Presentes estão a melancolia e o sofrimento, como em toda obra de Trapero (mais acentuado em Leonera, seu filme anterior e talvez seu melhor). Tanto Sosa quanto Luján parecem não saber lidar muito bem com as situações-limite em que se veem. Neste caso, o jogo proposto pelo filme é justamente juntar estas partes soltas, estes pedaços de homens jogados as traças. O mundo é cão.

Abutres é preenchido pelo "vazio do mundo" (que é o vazio das pessoas) contemporâneo - a carência de ideias, a falta de tato, a imprecisão do Estado em relação à política de segurança pública, a violência (não só contra o corpo, mas contra a alma). É um discurso à prova da falência de seus conceitos - a situação social latino-americana ainda tardará a ser justa -, mas que se coloca sob um risco acentuado: ao abordar temáticas tão realistas, que conversam tão abertamente com o mundo fora da imagem e ao mesmo tempo colocar um joguete amoroso no meio, Trapero trafega entre linhas muito finas (sexualidade e crítica social), capazes de se romper facilmente. Não há atenção especial há nenhum dos fluxos narrativos, são ambos "temas" principais e ao mesmo tempo panos de fundo um para o outro. Acabam por se anularem, a certa altura, e o filme se vê preso a "maestria" técnica do diretor, e não mais mexe nas coisas. Num paradoxo sem igual, se vê imóvel tal qual o "sistema" que critica.

Mas Trapero logo recupera o ritmo do filme, de pulsar as coisas, de espiar pelo buraco da fechadura e tentar fazer algo a respeito do que vê. Neste sentido, mexer nas coisas é trabalhá-las até o esgotamento, até a borda. Trapero reconhece isso um pouco tarde demais, que é quando resolve encerrar seu filme. Mas com uma sequência que não deixa de ser uma das mais potentes do cinema no ano.

Postado originalmente no Cinefilia

(Carancho, Argentina, 2010) 
Direção de Pablo Trapero
Com Ricardo Darín, Martina Gusman, Carlos Weber, José Luis Arias, Loren Acuña, Gabriel Almirón, José Manuel Espeche

04/12/2010

Ondine


Ondine não demora muito a demonstrar sua queda a clichês clássicos, mesmo por que sua narrativa é talhada de fragmentos tão polidamente organizados que podemos enxergar o cerne (núcleo) do roteiro – mesmo sendo certo que, um filme, dentro da narrativa clássica, não almeja fugir do registro formulaico. As cenas não possuem um diálogo coerente entre si, estando demasiadamente montadas para servir a uma lógica de construção claramente errática, travada, pesada. O filme de Neil Jordan é duro feito concreto. Não se permite ir além da fantasia que ele mesmo cria para si, aprisionando o espectador em seu mundo de imaginação de mitos ou lendas tão desinteressantes quanto desinteressadas em, eles/elas próprios (os personagens), expandir sensações para além de seu universo unidimensional. Ondine é reto, não permite curvas. Portanto é incapaz de olhar para os lados com medo de ver que existem outros caminhos senão o do mais facilmente degustado.

O diretor (irlandês) Neil Jordan se apropria de um folclore escocês: uma selkie é uma criatura que vem do mar em forma de uma mulher – “aquela que vem com a maré”. A selkie atente pelo nome de Ondine (Alicja Bachleda), segundo confessa a própria ao pescador Syracuse (Colin Farrell), que foi quem a “pescou”. Ondine diz que não pode ser vista por ninguém, então Syracuse decide levá-la para a cabana de sua mãe, já falecida. A filha do pescador, Annie (Alison Barry), que sofre de insuficiência renal e necessita de uma cadeira de rodas para se locomover, acaba seguindo seu pai até a cabana e descobre que ele está abrigando uma mulher. Annie, na verdade, é quem alimenta a fantasia de que Ondine é uma selkie. O pai está convencido também, contagiado pela erudição folclorista da filha de 11 anos. A velha relação pai e filho (a) é essencial ao filme, pois é a partir dela que se sustenta o argumento que move a trama (a da tal selkie) – realidade aumentada pelo fato de Syracuse ter perdido a guarda da filha em razão de seus problemas com o álcool. Mas é também um problema: Annie e Syracuse são personagens de um só destino. Não há qualquer surpresa (não que um filme necessite de alguma para ser um bom filme) em suas trajetórias, qualquer desvio senão o da inanição tão conhecida pelo espectador de cinema. É interessante, no entanto, a opção tomada pelo diretor de colocar a selkie como um núcleo do filme que não é o principal, que na verdade é mais sobre a relação dessa família (nesse caso Ondine seria então um novo membro) do que na experiência puramente fantástica da presença de Ondine.

A fantasia é o motor do cinema de Jordan (Entrevista com o Vampiro, Não Somos Anjos, O Fantasma Excêntrico, e agora este Ondine). O tom fabuloso de alguns de seus filmes encanta não por se encontrarem em universos irreais simplesmente, mas por representarem, quase sempre em ritmos aparentemente dispersos para com a realidade, mas na verdade bastante atentos a subtextos. Em Ondine, a fantasia criada é parte da elaboração temática dessa realidade criada a partir de eventos de fora do filme: Colin Farrell e Bachleda conhecerem-se e casaram-se durante as filmagens do filme; Farrell teve problemas com o álcool, tal qual o personagem que representa. Para contrastar, os cenários são fotografados de maneira a ambientar a história num lugar fantástico: a imagem é estourada pelo verde que sobe nas montanhas e pelo azul que desliza pelo mar.

A confecção de imagens homogêneas depende da controlabilidade destas imagens e de sua autenticidade perante a fantasia criada - e Ondine não alcança um efeito interessante como, por exemplo, O Mistério da Ilha, de John Sayles, um filme que visivelmente serviu como referência a Jordan. O filme joga com a realidade e com a fantasia, mas na verdade (como o final demonstra) acredita somente numa delas. O importante é que o homem veja o que a câmera vê, mesmo que as imagens não sejam completamente sinceras. Neste caso, não basta saber ver, é necessário aprender a ler as imagens.

Postado originalmente no Cinefilia

(Ondine, Irlanda, 2010) 
De Neil Jordan
Com Colin Farrell, Alicja Bachleda, Alison Barry, Stephen Rea

02/12/2010

Os Outros Caras


Adam McKay é o diretor por trás de filmes como Ricky Bobby – A Toda Velocidade, O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy e Quase Irmãos (seu último filme). Em comum, os filmes de McKay, que é um comediante bastante conhecido nos EUA, além de serem comédias escrachadas (muito humor físico), têm o ator Will Ferrell. Não é diferente neste Os Outros Caras. E esse é justamente o problema. Uma vez que as cartas dadas são as mesmas e os joguetes propostos se repetem, a substância (a graça, o humor) que, em primeiro momento, serviria como fio condutor da narrativa (lhe conjugando alguma perspectiva de interesse), se perde num vazio de situações de pouco (quando não quase nenhum) sentido – não o sentido da lógica, pois McKay é um diretor assumidamente do ilógico, do fantástico, portanto do nonsense -, mas no sentido de que as imagens transmitam suas reais intenções de maneira verdadeiramente interessantes. Isso não acontece em Os Outros Caras, diferentemente de Quase Irmãos. Mas o humor, quando do improviso e do talento do comediante, funciona.

O elenco é rico: Michael Keaton, “The Rock”, Samuel L. Jackson, Will Ferrell, Steve Coogan, Mark Wahlberg, Eva Mendes e Ray Stevenson (Titus Pullo, da extinta série Roma); o filme não tanto. Mas há momentos que, justamente enriquecidos por talentos individuais, temperam o filme. E estes momentos são de êxtase total. Como na cena do jantar em que Terry conhece a mulher de Gamble, Sheila. Dali sai talvez os melhores momentos do filme, graças a um Mark Wahlberg em tom acertado e uma Eva Mendes brincando com caricaturas. Os Outros Caras é a aquela história de humor nonsense que sempre é base para muitos filmes com “dupla de policiais idiotas”, como Starsky & Hutch ou até mesmo uma leva de produções de ação com Ed Murphy – para ficarmos no moderno cinema. McKay pega tudo isso e cria uma estética (tanto visual quanto narrativa) bastante pessoal (que ele traz lá de sua stand up comedy). Às vezes as piadas são boas, outras não – no que vai depender do humor de cada espectador. Como na maioria dos filmes do gênero, as melhores piadas são justamente as mais tolas. A tolice é uma virtude do filme.

“Os outros caras” são Aleen Gamble (Will Ferrell) e Terry Hoitz (Mark Wahlberg). A dupla acaba “assumindo controle” de um caso que pode os levar ao estrelato, quando os grandões da polícia de Nova York Christopher Danson (Dwayne Johnson) e P.K. Highsmith (Samuel L. Jackson) saem de cena após uma investigação perigosa. Gamble (que orgulhosamente porta uma arma de madeira e não gosta do trabalho externo) é da área contábil e Hoitz é um detetive que fora rebaixado por má conduta. Os dois irão combater uma ameaça a segurança da cidade, inspirados pelo talento de Danson e Highsmith.

Em certos momentos, massageiam-se demasiadamente egos com referencias a clássicos cultuados ou cultura pop em geral (Stallone estampando o cartaz de Cobra é uma das mais nostálgicas, pois o filme brinca justamente com a futilidade de filmes policiais ditos “sérios”; suposta reportagem do TMZ; Punk'ed; Kim Kardasian; Arnold Schwarzenegger) – em tentativas claras de “pegar” o público específico e quem mais embarcar na brincadeira. Mas as melhores tiradas do filme não vêm daí. Elas são retalhos da comicidade própria de cada ator/personagem. Numa esfera indiscutivelmente fantástica, o cinema de Adam McKay segue produzindo filmes engajados numa só fonte de luz: o riso. Funcionando aqui e deixando a desejar ali, seus filmes acabam resultando (quando não meros produtos do escracho) divertidos, o que em Cinema é quase sempre insuficiente, mas na comédia pode bastar.

(The Other Guys, EUA, 2010) 
De Adam McKay
Com Michael Keaton, Dwayne Johnson, Samuel L. Jackson, Will Ferrell, Steve Coogan, Mark Wahlberg, Eva Mendes, Ray Stevenson