A Vida Durante a Guerra é um pé torto. O cinismo tão característico de Todd Solondz agora ganha o mundo no pós-11 de setembro, no pós-Bush, em meio à crise financeira, ao primeiro negro presidente nos EUA, as políticas falhas das leis de Estado, a decadência da Grécia, também da Irlanda, da França, da Itália, em contraste com o arranque da China rumo à hegemonia econômica mundial (“no final, a China dominará o mundo e nada disso terá importância”). A politização vem então na forma de agressões a pensamentos elitizados na visão do suburbano norte-americano. A crítica aponta para questões ainda não bem resolvidas na sociedade fast food norte-americana: homossexualismo, tratamento a pedofilia, banalidade das relações, educação, (saber) perdoar. Todd Solondz, cineasta estranhíssimo por excelência, fez um filme sobre a incapacidade do ser humano de olhar para o lado, de entender seu semelhante, também sobre dar a volta por cima.  A ironia é então uma maneira de enxergar as coisas em meio a tanta ausência de lucidez.

Todd faz parte de um seleto time de realizadores norte-americanos que, desde seus primeiros filmes, já possuíam estéticas técnico-narrativas facilmente identificáveis, como Tarantino, os irmãos Coen e Jim Jarmusch. Assim como estes outros cineastas, seus filmes dialogam entre si – os personagens se repetem, muda-se alguma coisa ou outra etc. Filmes como Felicidade (do qual este A Vida Durante a Guerra é uma espécie de continuação/nova versão), Bem-Vindo à Casa das Bonecas e Histórias Proibidas confirmam essa tendência de seu cinema, de que o humor negro se faz nas profundezas do desequilíbrio humano proporcionado pelo caos social contemporâneo. E justamente o “contemporâneo” é que nos liga a seus filmes anteriores – o computador enorme do jovem de Bem-Vindo à Casa das Bonecas (1995) virou o Mac de hoje. O olhar de Solondz é sempre sobre o momento presente, mas consciente do passado. A classe média norte-americana é o alicerce do olhar crítico de Solondz, que se utiliza de toda a estranheza de seus personagens para também construir um universo ambíguo de pessoas que não são somente feias perante os outros, mas desinteressantes – o que é o verdadeiro problema.

Assim como em Felicidade, A Vida Durante a Guerra se passa através das histórias da família Jordan. A mãe, Trish (Allison Janney), está tentando se relacionar com Harvey Wiener (Michael Lerner), postulante a seu novo namorado. Enquanto isso tenta educar o filho mais novo Timmy (Dylan Riley Snyder), que está na fase dos porquês – mas talvez seja o personagem mais “normal” e consciente de seu lugar/espaço do filme. Joy (Shirley Henderson), irmã mais nova de Trish, resolve passar para uma visita. Enquanto o filho mais velho, Billy (Chris Marquette) está na faculdade, o pai Bill (Ciarán Hinds, o Júlio Cesar de Roma), recém-saído da prisão condenado por pedofilia, resolve lhe visitar. Esses dois membros “ausentes/distantes” da família, Joy e Bill, estão em deslocamento, ou melhor, estão em busca da realocação, de se assentar na tentativa de pertencer a um lugar novamente. Já Trish revela sua falta de tato ao lidar com o filho; numa cena esclarecedora ela conta a Timmy como se sente (“toda molhadinha”) somente com o leve toque de Harvey em seu cotovelo. Depois ela se da conta da bobagem que estava falando para seu filho mais novo. É a falta de lucidez, numa espécie de amadurecimento tardio, de que é quase sempre tarde demais para resolver as coisas na intensidade de seus acontecimentos, que permeia o filme.

Solondz entende que é necessário entender as coisas antes, para depois processá-las e expô-las, e não o contrário (Histórias Proibidas peca exatamente nessa questão). Billy só aparece no filme na segunda metade, com seu personagem já delineado, seja por palavras de Trish a Timmy ou pela câmera que esquadrinha os objetos de seu quarto e que acabam revelando muito sobre ele – quadros e pôsteres de Bob Dylan a Che Guevara. Isso é um dado interessante para o filme, pois ator que o interpreta, Chris Marquette, pouco oferece além de seu personagem pré-construído. Diferentemente do pai, Bill, que ganha os traços misteriosos de Ciarán Hinds, carregando toda a malícia na exposição do olhar. O angustiante processo de aceitação é o centro deliberado para a pulsão do rompimento com a moral estabelecida. Ética? Moral? Razão? Antropologia? Solondz prefere a lógica do absurdo (que acaba sendo a forma de representação mais lúcida para registrar o bizarro do humano) para elucidar a caricatura da criação de um filho na ausência do pai. São escolhas gradativas que vão se dando e transformado o filme para aquilo que ele é: um pedaço do mundo buscando seu lugar nele após uma grande ruptura.

As mazelas da sociedade, uma vez expostas, revelam muito mais do que a tão abarcada crítica social: é uma tentativa de encontrar o mundo (não somente observar sua transformação), tateá-lo, sentir seu coração bater enquanto isso ainda é possível, modificá-lo, caso necessário. A Vida Durante a Guerra é novamente Todd Solondz contra a magreza da lucidez do Homem.


(Life During Wartime, EUA, 2009) 
De Todd Solondz
Com Allison Janney, Dylan Riley Snyder, Chris Marquette, Ciarán Hinds, Michael Lerner

29/11/2010

Leslie Nielsen

Leslie Nielsen, ator e comediante (11/02/1926 - 28/11/2010)

25/11/2010

Fale Com Ela

 
Uma situação inicial, em princípio apenas corriqueira, constroi os laços sob os quais os personagens de Fale Com Ela transitarão. São envolvimentos sensíveis, mesmo táteis, mas ao mesmo tempo um tanto metafísicos, do extracampo, quase inumanos. Não há palavras, e sim o sentimento. A proposta é da imersão total na trama, que se dá mais nos estranhos movimentos dos personagens e menos na própria natureza deles; é um filme da ação e da consequência, da execução para o posterior castigo. Almodóvar não esconde as coisas, mas também não as libera assim tão facilmente. Exige atenção do espectador, pois vai soltando os mistérios pausadamente, mantendo um clima sirkiano do melodrama. Fale Com Ela, encontra e atinge seu lugar na filmografia de Almodóvar: não está tão “preso” à explosão das cores, do vermelho, da pulsão natural em seu cinema de artifícios estéticos (que existem, mas em menor grau). Dramaturgicamente, é um filme totalizante.

Marco (Darío Grandinetti) é um jornalista que está tentando entrevistar a toureira Lydia (Rosario Flores). Diversos acontecimentos os levam à intimidade, até que Lydia sofre um acidente de trabalho e acaba em coma. Benigno (Javier Cámara) é o enfermeiro que cuida de Alicia (Leonor Watling), uma bailarina em coma. Lydia acaba indo para o mesmo hospital de Alicia, e recebe também os cuidados de Benigno. Marco, que está sempre em visita, logo fica amigo de Benigno, que vive lhe dando conselhos para uma melhor “comunicação” com pacientes em coma. “Fale com ela”, ele diz a Marco, que parece não compreender a necessidade de conversar com uma pessoa em transe permanente. Não haverá resposta, nem entendimento aparente do outro lado; somente o silêncio é o acalento da dor. O sentimento amplificado é a matéria bruta dos sonhos. Fale Com Ela é a falência de qualquer conceito pré-estabelecido sobre a natureza do desejo carnal de que o ser humano é nutrido.

A potência de Fale Com Ela reside no fato de que, antes de qualquer banalidade sobre amor, o filme trabalha com a ideia do desejo, do delírio incontrolável (e da necessidade) de pertencer a alguém. Marco e Benigno, então, desejam suas amadas almas inconscientes para satisfazer um desejo próprio, não compartilhado com a companheira; gozo instantâneo e egoísta. Na sequencia de abertura Marco e Benigno assistem a um espetáculo de dança sentados lado a lado, ainda sem se conhecerem. Marco chora ao ver a encenação, pois lhe trás à tona um passado melancólico. As lágrimas fazem parte do processo de exorcismo: apagam-se as chamas e constroem-se as coisas novamente. O passado é algo a ser deixado lá mesmo, no tempo atrás. Benigno perdeu a mãe há um tempo, parece um pouco menos fragilizado (pelo menos na superfície) na “presença ausente” de Alicia, mas sua dor não é menor, apesar dele tentar esconder o jogo. Uma alma triste é uma alma explícita a olho nu. Nesse sentido, Benigno revela muito mais de seu drama interior pelo olhar, pela atitude, pelo gesto, pela insanidade com que se posiciona perante o mundo (as pessoas que o cercam), e até mesmo pela sua visão de mundo, em toda sua distopia.

Quanto vale o amor, esse desejo irreal (no sentido de não poder ser tocado, mas sentido) tão buscado? Dar forma a ele corresponde à embriaguez pelo prazer, o gozo extremo dos sentidos, que não está somente ligado ao sexo, ao toque, ao impulso carnal. Então “fale com ela” é uma frase emblemática; uma faca de dois gumes. A frase não somente coloca a ideia de que a palavra nem sempre é o combustível de uma relação, mas ao mesmo tempo é através dela que, tanto Benigno quanto Marco, buscam aproximarem-se de Alicia e Lydia. O contentamento com a presença física, mas não mental, não é suficiente, mas já é “algo”. Os pequenos prazeres, muitas vezes metalinguísticos, fazem com que Fale Com Ela explore as diversas aflições de Almodóvar: as personagens mulheres (mesmo reduzidas vegetais, são os objetos de desejo); os homens parecem efeminados (Benigno); as relações nunca são fáceis; a morte faz parte; o mundo é pequeno demais; a felicidade é relativa. Fale Com Ela não muda ideia de cinema que Almodóvar construiu para si. Continua insano, rebelde, mas desde Carne Trêmula, também mais maduro. Produz cenas duras (como a reunião no hospital que condena Benigno) e cenas de uma leveza absoluta (vide Caetano Veloso cantando Cucurrucucu Paloma).

(Hable Com Ella, Espanha, 2002)
De Pedro Almodóvar
Com Darío Grandinetti, Javier Cámara, Leonor Watling, Rosario Flores, Geraldine Chaplin



Wong Kar-Wai é um cineasta que filma o deslocamento constante. Seus filmes versam sobre amores muitas vezes improváveis, incertos. A balança ora pende para um lado ora para outro, num vai e vem irregular, no sentido de não corresponder a lógica alguma de aceitação – como na vida. As coisas vão se dando de maneiras turvas, as pessoas vão se encontrando para depois se desencontrarem, vão se gostando para depois se desgostarem, se amando para depois se esquecerem. Esse é um dado de valor estético na obra do realizador, pois sintetiza qualquer conceito midiático sobre a construção de um cinema que valoriza o sentimento em toda sua complexidade – assim como nos filmes de Christopher Honoré, de Apichatpong Weerasethakul, de João Pedro Rodrigues ou de Daniel Burman. É um cinema que busca a aproximação com a tenuidade de qualquer relação, de qualquer troca de afeto, até mesmo dos atritos que faíscam destas conjunções que, antes de serem carnais, são humanas.

Chow e Su nutrem um amor impossível de ser consumado de fato pela moral e pela razão. Dois corpos mental e carnalmente atraídos, mas distantes pelo respeito ético para com seus cônjuges. Esse amor incompleto, sem o tato, sem o cheiro, sem o odor, é um amor dos sonhos, amor sem asas, imóvel. Su e Chow entendem isso com uma naturalidade até aprazível diante das consequências: o marido dela e a esposa dele estão sempre viajando a negócios. Apesar do álibi, mesmo que sempre sozinhos, com seus apartamentos vazios, suas camas pertencendo a um só corpo, eles não se permitem o encontro romântico, limitando a relação a encontros no restaurante ou mesmo nas ruas. Diferentemente do casal em conflito de Felizes Juntos, onde, mesmo também sendo aquele um amor complicado, aqui Chow e Su são casados, possuem suas responsabilidades em casa, ainda que passem mais tempo um com o outro do que com seus amantes. É menos simples romper a barreira do casamento fiel e correto, provocar a ruptura dos conceitos, a possibilidade de serem “felizes juntos” aqui depende de escolhas de vidas aparentemente já destinadas a uma só alma. A opção pelo incerto seria então o redesenho de uma nova vida.

Em 1962, o acaso acaba unindo Cho Mo-wan (Tony Leung) e Su Chan (Maggie Cheung). Ele, um jornalista, ela secretária. Ambos procuram apartamentos para alugar em Hong Kong. Acabam encontrando num mesmo prédio, onde se tornam vizinhos. Logicamente, se conhecem e se encontram diversas vezes pelos corredores. Acabam ficando amigos, talvez para suprir a carência de seus amantes, que estão sempre viajando, mas aos poucos iniciam uma paixão mútua. A partir daí, de um encontro numa viela ou no bar ou restaurante, o fogo da paixão vai se alimentando. Cho e Su são vítimas de suas próprias vidas. Como negar um amor tão pulsante, que parece tão intenso e sincero, em razão da fé no casamento? Para ambos, quebrar “a lei” é antes uma traição a si mesmo e depois o medo de ser infiel.

Kar Wai construiu para si uma imagem de cineasta que filma bem, escolhe o ângulo certo, o movimento mais apropriado, a mise em scène mais trabalhada. Amor à Flor da Pele vai além: o espectador é voyeur. A câmera se embrenha em qualquer canto, pela brecha da porta, da esquina de uma rua, atrás da cortina. Isso dá ao filme um aspecto um tanto ilegal, em virtude da imagem que não pode ser vista. Os corpos querem, mas não podem se tocar, num desejo inconsumível de paixão, que pode ser pela falta, pela ausência de seus cônjuges e a solidão que essa carência representa – Kar Wai brinca com isso. Mais do filmar a união de um casal, o cineasta chinês joga com a improbabilidade do amor entre este, mesclando situações que, aqui os unem, mas lá os afastam. Quando eles percebem ter tempo e coragem para infringir as regras do “sagrado matrimônio”, se dão conta de que já é tarde demais, o momento já passou, a audácia perdeu-se no vazio da dependência. Fica o doce sabor da lembrança de um momento de felicidade degustada.

(Fa yeung nin wa, China, 2000) 
De Wong Kar-Wai
Com Tony Leung, Maggie Cheung, Lai Chen, Rebecca Pan


Nic (Annette Bening) é médica e Jules (Julianne Moore) é paisagista. As duas são casadas e têm dois filhos adolescentes, Laser (Josh Hutcherson) e Joni (Mia Wasikowska), ambos concebidos a partir de inseminação artificial com o sêmen de Paul (Mark Ruffalo), que tem um restaurante. Laser decide falar com a irmã para que esta peça a clínica médica que fez a inseminação que lhe informe o nome e telefone do homem que doou o sêmen. Os dois passam então a conhecer o “pai” que nunca tiveram, até que acabam convidando-o para jantar em sua casa, após confessarem a suas mães que haviam procurado Paul. A partir daí, a narrativa favorece a disfuncionalidade tão cara ao cinema hollywoodiano contemporâneo, apesar de bastante abordado: cenas de sexo (bem filmadas) existem para configurar juízos de valor e a inexistência de qualquer âmbito moral nos adultos do filme; os jovens são mais preparados que os adultos para o enfrentamento frente situações-limite; as palavras confundem-se no emaranhado de suas ambiguidades; os desejos carnais afloram em todos os corpos; conflitos internos são exacerbados.

Antes de assumir qualquer postura crítica sobre ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, Minhas Mães e Meu Pai esboça outra ideia: a de que os jovens de uma família, não importando sua constituição natural, são dependentes de sua própria criação. Então não é raro notar que a juventude respira e inspira transgressão e independência. Logo, também não é de se estranhar que “os jovens” do filme estejam buscando não a independência, mas um motivo para se constituírem “Homens” – e esse é um processo de conflito, portanto complicado. Se colocar face suas raízes biológicas seria então um passo para o primeiro embate mais acentuado. E o filme cria muito bem essa tensão da descoberta por Laser e Joni, com todos os verbos e provérbios pertinentes a essa aventura pessoal do autoconhecimento, mas aí o título nacional engana por sua boçalidade. Não é a visão dos filhos (explícita nos dizeres “minhas mães e meu pai”) que o filme mostra em primeira instância, e sim a das “mães”, tão clara no título original (The Kids Are All Right), mas que no abrasileiramento perde sua essência. Os filhos então são a consequência de suas escolhas.

A ampliação do olhar dos filhos sobre o estado das coisas, de como se deve acompanhar o movimento do mundo e as transformações cabíveis (e necessárias) é parte do argumento, mas não seu núcleo principal, e essa escolha de ponto de vista do filme acaba sendo crucial a ele: as mães são as verdadeiras forças difusas (e problemáticas) do filme, mas são filmadas isoladas, praticamente o filme inteiro se passa na casa do casal, quando não no jardim de Paul, em que Jules está trabalhando nas paisagens; uma solidão tão cara a um argumento “moderninho” – e também uma solução mais fácil na percepção do olhar de Cholodenko. Num mundo que se diz tão moderno, falta a transgressão da juventude de se chocar com as coisas, de enfrentar a vastidão dos “cenários” ditos normais na visão da sociedade. O constrangimento na difusão das ideias não é algo novo no cinema de Lisa Chodolenko. Desde Dinner Party e Laurel Canyon que presenciamos a ausência de tato da diretora na exposição do olhar. Minhas Mães e Meu Pai, no entanto, é um cinema mais controverso (o que é bom), que pega um tema familiar (a questão mais abordada em Cinema) e mistura com outro ainda “tabu”, e joga tudo no liquidificador para uma vitamina, mas de sabor comum.

Na representação deste tabu, cabe a Julianne Moore e Annette Bening a representação e a criação de personagens (e elas estão muito bem, assim como Mark Ruffalo, um ator que parece estar encontrando o tom mais apropriado para seus personagens, sempre contido, fala mansa, expressões marcantes) que assumam não somente para si, mas para o mundo, a quebra da mistificação de qualquer valor estético-social. Negros, brancos, latinos, gays, jovens e adultos são postos como iguais, num mundo onde aparência é apenas uma questão de ordem natural das coisas que não diferencia seres humanos da colocação e organização de classes.

(The Kids Are All Right, EUA, 2010)
De Lisa Chodolenko
Com Julianne Moore, Annette Bening, Josh Hutcherson, Mia Wasikowska, Mark Ruffalo

14/11/2010

Bróder


*Filme visto no Festival de Cinema de Gramado 2010

Os personagens profundamente humanos, num mundo sem heróis, dão o tom de Bróder. O interesse maior de Jeferson De é olhar os personagens, reconhecer legitimidades que não aquelas já midiatizadas incessantemente na televisão. Um outro olhar recai sobre os três jovens que deambulam pela favela e pelas ruas de São Paulo. Amizade, eis a grande temática de Bróder. A história é sobre três amigos que se (re)encontram, com suas cartas já dadas pela vida. Infância coletiva no Capão Redondo, periferia de São Paulo, a memória. De caminhos traçados, Macu (Caio Blat), Jaiminho (Jonathan Haagensen) e Pibe (Silvio Guindane), vão passar um tempo juntos. Macu continua na favela, os outros dois já saíram do Capão, Jaiminho virou jogador de futebol e Pibe formou-se em Direito. A amizade continua a mesma, apesar da distância que os separam, em especial o abismo entre Macu e Jaiminho. O dia-a-dia de um é o sonho de outro. O encontro do trio é preenchido pela tensão proveniente das responsabilidades de cada um – e, claro, pelo fogo constante queimando em três homens ainda com muitas aventuras pela frente. O destino é um só.

O filme de Jeferson De não está tão centrado numa construção edificante da sociedade e suas transformações geográficas e sociais. O objetivo parece ser esquadrinhar um espaço, um desejo (ademais sincero) de configurar relações familiares (a família tão presente no cinema brasileiro) e de amizade. A questão é: como desenvolver laços que não digam tão explicitamente como as coisas eram e como se tornaram (pleonasmo) e, ao contrário, deixar espaços para a construção natural de uma dramaturgia bem estruturada? Uma das primeiras notas que se pode fazer vem do elenco, que de tão preparado (literalmente, Jonathan Haagensen ainda mora no morro, Caio Blat morou um tempo no Capão Redondo para se preparar para o papel etc…) para qualquer eventual dificuldade no contorno dos personagens, permite que emane uma naturalidade que cabe muito bem ao filme, pois liberta os atores para a fruição de seus talentos. E aí reside à importância de um elenco de peso para De, que dificilmente alcançaria tamanho êxito com um elenco não profissional (como o efeito alcançado em Cidade de Deus) – mas que o tempo e as próprias experiências de set ensinam.

Ainda que não haja nenhuma influência direta em Bróder, elas fazem parte do imaginário de Jeferson De e isso acaba indiretamente “entrando” no filme, um cineasta atento a diversos módulos da cinematografia que admira (podemos incluir aí Spike Lee e Martin Scorsese). Mas Bróder risca com sua própria pedra, glorifica momentos únicos de tensão e emoção (ou a emoção proveniente da tensão, que é muito bem trabalhada por De) com cenas de forte carga dramática (como quando a ex-namorada de Jaiminho abre o presente que ele deixou para seu filho, que praticamente desconhece ou a própria resolução final do filme). Essa tensão não é resultado da exploração demasiada da favela, já que a ação toda é dos personagens e seus dramas internos (muito mais do que qualquer panorama social pseudo) – a exemplo do último filme de Sergio Bianchi, Os Inquilinos.

Nada do que se fala sobre Bróder pode ser enquadrado no conceito “favela-movie”. Não há o extremismo muitas vezes “banalizante” de outros filmes que, se apropriando da vastidão dos morros e dos cenários que eles proporcionam, pensam se encontrar no direito de caricaturar tudo aquilo, reduzindo seres humanos a maquetes, enquadrando-os sob uma contextualização fútil e rasa sobre o “verdadeiro” estado das coisas. Mas em Bróder, a favela é apenas pano de fundo para uma história sobre amigos, sobre família, sobre ir e vir, sobre nascer (“classe”) C e morrer A (e vice-versa), sobre sonhos, etc. Claro que há problemas (assim como todo e qualquer filme), numa cena e outra, mas não valem “destaques”, a força toda é do conjunto. Talvez seja isso que diferencie os leões dos cordeiros.

(Bróder, Brasil, 2010) 
De Jeferson De
Com Caio Blat, Ailton Graça, Cassia Kiss, Jonathan Haagensen, Silvio Guindane


Já está no ar há alguns dias no Cinefilia um especial muito bacana sobre esse gênero tão amado por (quase) todos os cinéfilos. São quase 40 críticas sobre filmes que, de alguma forma, contribuiram para a evolução do terror no cinema.

12/11/2010

Notícias de Casa


Se Gitai construiu uma carreira relevante no campo da ficção, também o fez quando se colocou frente a frente a questões de seu interesse nos documentários que rodou. Notícias de Casa fecha a trilogia iniciada com Casa (1980) e A Casa em Jerusalém (1998), filmes que compõem um painel abrangente sobre o retorno de Gitai a suas raízes anos depois de a “deixar”, anotando (não sem certo estranhamento com aquilo que presencia e registra) e notando o estado das coisas, voltando seu olhar uma casa em Jerusalém. São lembranças de um povo, suas memórias e seus anseios (que não são os mesmos de 25 anos atrás, tempo de sua primeira visita) que estão em jogo. Nesse reencontro, nessa busca por entender as coisas, Gitai irá constatar que elas, uma vez expostas a ação do tempo e das consequências que ele carrega em si, jamais estarão imóveis. O cineasta israelense filma tudo isso com o rigor de sempre, que resulta numa beleza exótica, seja pelo plano-sequência ou pelo movimento constante de sua câmera.

A função aparente de Gitai, como documentarista de corpo presente que “invade” o quadro muitas vezes, é registrar o movimento constante do mundo e das pessoas, a diáspora criada pelo tempo que deixou suas marcas na tal casa do título – mas também é uma busca pelo “retorno as origens”, para não só ver as coisas, mas questioná-las e senti-las. Como bom arquiteto (literalmente, pois Gitai é formado na arte de Niemeyer e Gaudí). A câmera embrenha-se pelas ruas, pelas curvas das casas ou mesmo de carona no andamento de veículos automotores. Seja onde for, há sempre o movimento, não há estatismo. Como mesmo um arqueólogo, Gitai vai se fazendo parte daquilo que filma. Ainda assim, vale ressaltar que, quando necessário, a câmera apenas observa, e daí tira cenas no mínimo lindas, seja de condução narrativa (técnica de câmera) e exploração do espaço e dos documentados. Como quando uma de suas entrevistas resulta num longo jogo de plano-contra-plano ao som de uma canção nativa – que além de bela, revela a naturalidade e intimidade do documentador para com o documentado, criando uma das sequências mais interessantes do filme.

Não podemos pensar no futuro se não cuidarmos do presente. Nessa constatação proferida por um dos entrevistados, está um argumento que é próprio ao filme. Gitai, como cidadão israelense, está lá registrando toda uma situação específica (e certamente bastante peculiar aquele “espaço-mundo” e aquelas pessoas), mas não menos universal pela complexidade de sua veia política, que investiga e questiona o caos social, ora traçando um panorama geral do momento anterior para chegar ao contemporâneo. E isso não é somente um privilégio apenas concedido pelo registro realista centrado no doc-político, como visto aqui, mas também é presente em toda essa vasta obra. A urgência ao tecer um filme político é sempre a mesma – até porque Gitai é um cineasta que somente faz o que faz na esperança de que, através do cinema (é difícil pensar em outro veículo principal atualmente para exercer essa função cultural), algo se transforme.

Também é curioso notar a flexibilidade de Gitai ao transitar categoricamente entre a ficção e o documentário, fazendo às vezes de sua própria obra dentro dela mesma. Não por acaso Gitai termina seu filme falando de outro, num diálogo dentro de sua própria obra entre a realidade e a ficção, ao mostrar uma atriz (Natalie Portman) interpretando o olhar a uma estrada numa viajem de trem rumo à Jordânia. Para Gitai, um dos entrevistados, já na última entrevista do filme, diz: “Seu filme é sobre o passado, eu estou preocupado com os meus problemas atuais”. Essa constatação por parte do documentado reflete no filme como uma solução em si mesmo, e que acaba escapando ao próprio diretor: Notícias de Casa é, assim como a vida e tudo que a cerca, um pedaço do mundo.

(News from Home/News from House, Israel, 2006) 
Direção de Amos Gitai
Roteiro de Amos Gitai
Com Amos Gitai, Claire Cesari


Antes de mais nada, peço licença ao leitor, pois involuntariamente este texto será escrito em primeira pessoa.

O show de Paul McCartney em Porto Alegre não é simplesmente um show, uma apresentação meramente fantástica; estamos falando de um evento ainda não assimilado pela massa que lotou o estádio Beira-Rio na noite de ontem. Não existe um Homem no mundo capaz de fazer o que Macca fez ontem - e provavelmente irá fazer em São Paulo. A simples imagem do ex-Beatle nos telões já levou a multidão ao delírio. Para quem, como eu, esperou mais de 30 horas na fila, valeu a pena. Como bom inglês, Paul ("que já foi mais popular que Jesus Cristo!", segundo John Lennon) subiu ao palco pontualmente, às 21 horas. Dali em diante, foi um monstro. Tocou tudo e cantou tudo. A abertura, com Jet, foi um dos momentos mais lindos do show, não somente pela expectativa ter sido derrubada com a presença visível do mestre no palco, mas pela energia que emana em todo o estádio – mais de 50 mil pessoas. Como uma criança, chorei durante as 3 horas da apresentação – acho importante registrar que, choro agora, inclusive, enquanto redijo estas palavras, lembrando de tudo. O efeito do show ainda estará comigo por um bom tempo. Até hoje, nenhum filme fez isso comigo.

A dor da espera refletida no corpo inteiro foi anestesiada no exato momento em que Paul apareceu no palco. O repertório é fantástico, mas o que impressiona é a vitalidade que o velho Paul demonstrou em cada performance. Técnica vocal impecável, Paul soltou a voz do início, com Jet, ao fim, quando tocou The End. No percurso, Let It Be, Yesterday, All My Loving, Lady Madonna, Obladi Oblada (primeira vez que a música é tocada ao vivo no Brasil, segundo Paul), entre outras – tanto dos Beatles quanto de sua carreira solo. Mas a música mais ovacionada foi Hey Jude, com a multidão cantando mesmo após uma breve pausa, até a volta da banda - que acompanha muito bem o músico. O lalalalá de Hey Jude foi um momento especial. O show de Paul McCartney é um orgasmo de 3 horas.

Arriscando o português (com uma colinha), Paul falou bastante com o público, mas se expressou bastante com gestos corporais, como de costume em seus shows. Não somente por ser Paul McCartney e por ter feito parte da maior banda de rock de todos os tempos, mas também por transmitir uma energia tão enlouquecedora quanto emocionante, o espetáculo proporcionado ao público foi de primeira grandeza - com direito a fogos de artifício durante algumas músicas, já próximo do final. A máxima que diz que só sabe quem lá esteve, é válida. O show de Paul McCartney não é somente um show, é um cometa de sensibilidade rara (quase inumano), que nos transporta para o tempo atrás (mesmo para quem não o presenciou) e o tempo à frente. Viver aqueles momentos é quase como chegar à Lua (a Lua desce ao palco em Something, em homenagem a George Harrison, assim como a Terra). Você está lá, no show, mas se sente em tantos outros lugares. É uma viagem. Paul McCartney representa mais que um mito ou uma lenda, já que ele é real e vive. Não há palavras, só a lembrança.

 
Não há qualquer metáfora-pseudo em Cronicamente Inviável. Qualquer espécie, por mais singela que seja, está espalhada aos quatro ventos. Sergio Bianchi nunca precisou de “imagens plasticamente encantadoras” para configurar uma ideia – seus objetivos são muito claros, só não vê quem não quer. A câmera é apenas seu lápis, seu pincel, seu palco e suas mãos, sem intenções burlescas de perfumaria.  O rigor (técnico) no cinema de Bianchi existe, como profissional que é, mas sustenta-se sob o mais estruturado dos argumentos, sem disposição (tampouco mero desejo) de serem maiores do que essencialmente são: recursos de auxílio. O que vale não são “os meios”, mas “os fins”. Antes de qualquer tessitura de arquétipos sobre o pós-moderno brasileiro, Cronicamente Inviável é um filme sobre a impossibilidade (ou falta de culhão) de uma nação (mais do que um povo) de se levantar contra qualquer tipo de barganha estabelecida pelos Homens do poder – que não é necessariamente a política brasileira, mas o próprio brasileiro.

Há várias cenas que não demonstram qualquer pudor aparente ao esquadrinhar espaços onde a crítica do filme se faz mordaz: a mulher que desfere golpes verbais ao motorista de ônibus (nordestino), a negra que vai ao restaurante “chique” e se sente injustiçada, o “patrão” ensinando a empregada a costurar um botão numa camiseta, a “patroa” ensinando o garçom a servir seus clientes. Momentos diversos que não estão convenientemente distribuídos para mera construção de conflitos. A questão é problematizar o estado das coisas – que pouco mudou de uma escravidão formal para um movimento consciente para a ignorância dos carneiros – para o burguês carnívoro, vale mais que a miséria alheia violente-se e coma de seus próprios restos do que vá a escola (“um pobre inteligente é um problema”). As leis foram feitas para regozijo dos leões, não das hienas. E não há qualquer mudança aparente enquanto a imagem do Cristo Redentor (que são os olhos do próprio Brasil) estiver olhando belas praias no Rio e enquanto no nordeste pessoas ainda não possuem acesso à internet. Num país que se acredita tão democrático, parece estarmos ante um imperialismo não menos feio do que aquele que tanto criticamos. Pior: a sujeira é mesmo nossa. E se existe um tipo de ideologia, essa é a da dominação (“a única liberdade que deu certo foi a de consumo”).

O embate nem é tanto da luta de classes (é ela contra ela mesma, em certos momentos), já que um é consequência do outro (“o patrão ganha seu pão com o nosso suor”), mas certamente de razões culturais – a cena em que dois garotos mijam na rua e o mijo deles escorre até alcançar um menino dormindo (Ou morto? Qual a diferença?) à beira da calçada é emblemática por isso. O personagem do escritor acaba dizendo que a exploração da miséria pelo marketing institucional e (agora mais do que nunca tão modernamente) pelo “verde” já virou uma questão de mercado, tornando impossível qualquer tipo de mudança nesse sentido. Os valores foram subvertidos, se é que ainda existem valores. Bianchi demonstra isso com um filme cheio de paradoxos: a imagem da empregada sendo espancada contrasta com a “poesia hipócrita” do desleixo desbundante da madame bronzeando sua pele sensível na praia; ou o menino (negro e pobre) que é atropelado e, provavelmente já sem vida no chão, desperta o interesse das pessoas que comem seus pratos caríssimos no restaurante à frente enquanto a motorista que o atropelou só sabe dizer que não teve culpa, e precisa ir para o trabalho, pois está atrasada e não pode perder seu compromisso – ela paga suas contas e respeita as leis, coitada. Em outra cena de contrastes, resta o grito absoluto do ex-funcionário (Dan Stulbach) do restaurante falando para o povo, numa cena tão emblemática quanto assustadora.

Bianchi sabe das coisas e se expressar na linguagem do povo, que é a linguagem do Lula e do pedreiro que ergueu sua casa, e que não é a linguagem do ignorante, mas sim daquele que sabe se comunicar com o mundo, sem ser um Ferreira Gullar. Entende que o problema não é localizado, é mesmo universal; por isso as narrações em off constroem tantos tecidos sociais costurados uns aos outros enquanto as imagens dão as coordenadas dos meios utilizados por eles. Bianchi nos dá ainda possibilidades, nos mostrando primeiramente uma cena “falsa”, para depois construí-la mais atrelada à realidade brasileira; como a cena em que o garçom chama um cachorro para comer os restos da comida do restaurante, separada carinhosamente num prato, enquanto dois moradores de rua ameaçam pegar restos do lixo e são corridos por ele. Não há qualquer hipocrisia nessas imagens, mas há na realidade que elas representam. Cronicamente Inviável nos transporta nessa viagem para dentro de nós mesmos (o Brasil e o brasileiro). Já foi tudo dito, tudo mostrado. Resta então abrir os olhos.

(Cronicamente Inviável, Brasil, 2000)
De Sergio Bianchi
Com Daniel Dantas, Dira Paes, Dan Stulbach, Umberto Magnani, Betty Goffman, Cécil Thiré

03/11/2010

Sentimento de Culpa


O que está em jogo são todos os valores ético-sociais cabíveis a qualquer pessoa. E é justamente o conturbado jogo de “causa e consequência” que será então retratado em Sentimento de Culpa. Esse “sentimento de culpa” é o mote do filme, pois é a partir dele que os personagens se moveram, batendo de cabeça uns nos outros, lutando contra adversidades nem sempre facilmente solucionáveis. Como Kate (Catherine Keener) que compra móveis antigos de pessoas que perderam um ente querido para vendê-los por um preço maior, o marido dela, Alex (Oliver Platt), que mantém um caso com a vizinha Mary (Amanda Peet), enquanto ambos tentam esconder, ele para mulher e a filha Abby (Sarah Steele) e ela para a irmã Rebecca (Hall), que trabalha num hospital e ainda precisa cuidar da avó, já que a irmã pouco se apresenta, ou a filha do casal, que como adolescente que é, “sofre” com as espinhas e falta de dinheiro – sua mãe diz não poder dar-lhe 20 dólares enquanto ainda há pessoas dormindo nas ruas -, pois quer comprar uma calça de 200 dólares.

Mas ela acaba sendo vítima de seu próprio “mal” quando compra uma mesa, a vende e depois, ao chegar à loja de um concorrente, vê a mesma mesa sendo vendida por um valor ainda mais alto daquilo que a vendeu – vendeu barato, achando que estaria cometendo um mal menor. Mas não existe um mal menor quando certo valores estão postos de maneira a fugir de uma responsabilidade pertencente a um fato determinado. A esta altura do filme, ela já estava corroída pelo sentimento de culpa, um pouco consciente, mas ainda errante em suas atitudes – pode ser que se “encontre”, pode ser que não. Aí o filme fica um pouco previsível, pois fica claro que ela vai acabar dando a calça para a filha e criando laços maiores com a vizinha do que os da boa vizinhança. Em outro momento, o filme erra e acerta numa mesma sequência. Quando o casal estava prestes a sair juntos para o supermercado e ele descobre que a vizinha vai a outro mercado, simplesmente lembra que tinha que fazer outra coisa e vai para o mesmo caminho que a vizinha. É uma tentativa bastante patética de criar o conflito. Aqui há o mal menor, nessa sequência fica claro para ela que o marido está lhe traindo (ele não vai saber que ela sabe), ela apenas vira para o lado, numa possibilidade de experimentar o gosto da traição consciente. A vida segue.

Kate parte em uma busca de olhos vendados pela sua redenção, para tentar encontrar um caminho, não um meio, de ser uma pessoa melhor, livre do peso da má consciência. Para isso tenta ajudar pessoas que necessitam, visitando lugares onde pode ser voluntária. Numa dessas visitas, uma cena resolve qualquer dúvida quanto a quem realmente precisa de ajuda – não é capaz de resolver os problemas dos outros quem não pode sequer com os seus próprios. Até mesmo no relacionamento com a filha, Kate não consegue manter o diálogo cordial, mesmo estando ela a negociar com uma jovem e seus problemas da fase. Já disse Ortega y Gasset que o jovem não precisa de razões para viver; precisa só de pretextos, e esse parece ser o pretexto de Abby, uma calça “de marca” e um rosto livre de espinhas. Outras ou quaisquer ambições não fazem parte do vocabulário da menina. É uma vida desgraçada, a dessa família!

Talvez os planos não sejam tão bem escolhidos, o ângulo pode estar meio “torto”, mas nada disso é conceitual para a diretora Nicole Holofcener (roteiro é dela também). A questão básica é a construção de laços bem estruturados dramaturgicamente. E mais uma vez o cenário independente norte-americano mostra porque é um cinema muito mais interessante (e interessado em novas propostas, novas abordagens/visões) que o mainstream. Não há qualquer desejo de ser maior do que sua essência em si, que é a de contar boas histórias. Livre dessa e/ou daquela amarra, o cinema então respira.

(Please Give, EUA, 2010)
De Nicole Holofcener
Com Rebecca Hall, Catherine Keener, Oliver Platt, Amanda Peet, Sarah Steele