Henri Langlois nasceu em Izmir, na Turquia, em 13 de novembro de 1914, no estopim da Primeira Guerra Mundial – pouco mais de um mês antes, o Império Austro-Húngaro havia declarado guerra à Sérvia, dando início ao conflito. Nasceu, portanto, em meio a um período turbulento – sofreria ainda mais as consequências de um conflito mundial na Segunda Guerra. A Turquia ou o Império Turco-Otomano combatia ao lado das tropas alemãs de Guilherme II e, por isso, estava ao lado daqueles que eram os maiores alvos dos inimigos da Tríplice Entente (Inglaterra, França e Império Russo). No fim da batalha, em 1918, a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália) acabou derrotada. Saldo: fim dos impérios alemão, austro-húngaro e turco, além da aniquilação da Itália. Em meio ao caos e a degradação deixada de herança, o Império Turco virou Turquia. Sem muito que fazer, Langlois começou a ver filmes. Apaixonou-se por aquilo que via, e começou a estudá-los. Foi para Paris, o berço do cinema, onde, alimentado por sua cinefilia insaciável, deu início a sua carreira como historiador, arquivista e preservador de toda uma memória da cinematografia francesa e mundial.
Em Paris, já estabelecido na flor de seus 21 anos, criou um cineclube de proposta simples: exibir os filmes de sua imensa coleção para grupos de cinéfilos interessados em conhecer obras e cinematografias diversas. O projeto inicial cresceu e acabou se transformando na Cinemateca Francesa, que fundou juntamente com Georges Franju e Jean Mitry em 1936. Os três jovens cinéfilos talvez não imaginassem que a Cinemateca que estavam criando se manteria como um dos maiores patrimônios culturais da humanidade até hoje, não somente por ter sido pioneiro na preservação de filmes, mas por essa preservação ser a base que mantém, até hoje, vivos filmes que jamais existiriam se fossem abandonados em qualquer canto. Langlois tornou possível, por exemplo, que filmes como os de Louis Lumière fossem exibidos em película décadas depois. Vejam só, estamos falando de filmes que datam de 1895. Langlois mesmo explica a importância dessa preservação, que é a preservação de uma memória imensa e de uma riqueza cultural infindável, para Eric Rohmer no documentário Louis Lumière, onde Rohmer entrevista Langlois e Jean Renoir sobre a obra de Lumière. Além da aula sobre o cinema dos Lumière (Jean Renoir não é páreo para a argumentação poderosa de Langlois, tampouco o é o próprio entrevistador), o cinéfilo Langlois demonstra que a preservação de filmes nunca fora tratada com respeito (antes dele).
Com a eclosão da Segunda Guerra, todo o projeto de preservação poderia ter virado ele mesmo história. Com Paris ocupada pelas tropas nazistas da Alemanha de Hitler, a Cinemateca viveu tempos de agonia. No entanto, graças ao esforço dos organizadores, o arquivo conseguiu ser mantido. Essa brava luta possibilitou que cineastas como Truffaut e Godard criassem a Nouvelle Vague. Além de ser o embrião líder na preservação de filmes, a Cinemateca, organizada de maneira exemplar por Langlois, acabou sendo o recôndito que formaria toda uma geração de cineastas franceses, e estrangeiros. Admirados pela paixão de Langlois pelos filmes (e pela qualidade das obras exibidas) alguns destes cinéfilos viriam a ser Truffaut, Godard, Rohmer, Resnais, Rivette, Ray, Rosselini, Losey, Chabrol. A Cinemateca Francesa, portanto, formou uma base sólida de cineastas comprometidos a preservar o cinema através da história de seus filmes; tanto que a Nouvelle Vague, movimento cinematográfico criado por Truffaut, Godard, Rohmer e Chabrol, é até hoje o movimento mais cultuado no círculo audiovisual. O próprio Truffaut homenageia a Cinemateca na sequência de abertura de Beijos Roubados, quando filma a entrada no Palácio Chaillot, então sede da Cinemateca.
Como um movimento contraditório as tendências do cinema mundial e, principalmente, do próprio cinema francês, a Nouvelle Vague tinha por objetivo justamente contestar tendências, submissões e fórmulas estruturais da narrativa no cinema. Foi um cinema transgressor, que burlava o formalismo acentuado na cinematografia da época, um cinema de jovens cinéfilos e cineastas que buscavam um cinema que, para eles, não era mais feito. Resgataram o cinema de autor (os próprios transformaram-se em grandes autores), ensinaram ao mundo sobre o cinema de seus próprios países – como Truffaut fez com Hitchcock, mostrando aos americanos que o diretor inglês não era simplesmente um diretor de filmes de suspense, era um mestre que dominava a linguagem como ninguém. Por valorizar a obra de dezenas de autores de cinematografias diversas, a Nouvelle se tornou um movimento que serve como base de estudos até hoje. É por isso que Langlois é um próprio homem de cinema e do cinema. Por influenciar tantos jovens a conhecer e estudar a arte como “um fluxo constante de sonhos” (diria Orson Welles). É por isso que não é exagero afirmar que, sem Langlois e a Cinemateca, a Nouvelle Vague jamais teria existido.
As coisas vão bem para Langlois, a Cinemateca e os cinéfilos que nela regozijam-se até o maio de 68 eclodir em Paris. O escritor e então Ministro da Cultura André Malraux decidiu despedir Langlois da Cinemateca. Ora, com Langlois afastado era dado como certo que a Cinemateca perderia seu ritmo. No entanto, liderados pela revista Cahiers du Cinéma e pelos autores da Nouvelle Vague que nela escreviam, como Truffaut e Godard, e várias outras publicações, a classe conseguiu vencer o sistema. Com apoio de cineastas de todo o mundo (Rosselini, Ray, Resnais, Losey), Malraux voltou a atrás e recolocou Langlois na liderança da maior Cinemateca do mundo. Mas isso não ocorreu sem luta. Os franceses, e isso já é um fato impregnado na própria cultura do país, foram para as ruas e, claro, para o Palácio Chaillot. Ainda assim, houve uma ruptura, que desestabilizou a Cinemateca durante um bom período.
Essa paixão de Langlois pelos filmes, essa devoção pela preservação da memória cinematográfica é, por toda sua importância cultural e histórica, um milagre do esforço conjunto. O armazenamento dos filmes possibilitou que novas gerações de cinéfilos (posteriores a Nouvelle Vague) pudessem assistir filmes que seriam apenas história de outrora. Mesmo que filmes de Murnau a Ford tenham se perdido pela preguiça e desleixo de uns, outros grandes, como O Anjo Azul, de Sternberg, e A Caixa de Pandora, de Pabst, puderam ser salvos. Salvaguardar películas é uma obra de arte que pode garantir a sanidade do povo do porvir. Neste caso, é como se Langlois fosse ele mesmo o Winston de 1984, de George Orwell, responsável por tentar conservar, a todo custo, a sanidade de toda uma nação.
Langlois faleceu em 13 de Janeiro de 1977, em Paris. Sua contribuição para o cinema é de valor inestimável. Seu conhecimento sobre cinema era inatingível. O homem era mesmo uma enciclopédia. A Cinemateca, a sua Cinemateca, segue salvando e preservando filmes até hoje. Desde seu início, a ideia é aceitar todos os filmes – “quem sou eu para selecionar filmes a meu gosto, vocês devem julgá-los”, dizia. Portanto, Langlois salva filmes até hoje. Para ele, o que importava era o cinema do futuro, mas sem olhar para o passado jamais se sairia da estagnação. Costumava dizer: cineastas nunca morrem.
Postado originalmente no Cinefilia
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