Andei pensando no prólogo de Anticristo e na sanguinária sequência final de Deixa Ela Entrar. Passada a euforia, dá pra dizer hoje que são as melhores cenas de abertura e encerramento do ano passado, respectivamente. Tanto o filme de Lars von Trier quanto o de Tomas Alfredson são obras para espíritos livres - são acepções mais distantes (cada qual a sua forma e conteúdo) da questão humana daquelas que surgem por encomenda nas grandes indústrias artísticas. Estas duas embriagantes sequências tratam da perda de um amor. Em Anticristo, o casal vivido por Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe regozija-se de prazer enquanto seu filho fatalmente cai pela janela - e o P&B da fotografia intensifica ainda mais essa sensação de incompletude, de algo que já passou, e que portanto não tem mais volta. Já na inebriante lição de Tomas Alfredson ao seus colegas cineastas de gênero que pensam no horror como algo a ser sempre mostrado - como se nós tivéssemos medo apenas das coisas que vemos, o que é balela -, a perda é iminente, ainda que inconcreta, mas é pelo medo dela que as coisas acabam "ficando bem". Enquanto escrevo lembro que em Anticristo os personagens off estão sentindo prazer (pelo auge do orgasmo) enquanto, claro, inconscientemente, para eles, alguém morre. Enquanto em Deixa Ela Entrar os personagens off sentem prazer, desta vez, inversamente, através do sofrimento alheio (sentimento de vingança, neste caso). A sequência concebida por Trier nos apronta melhor para o filme (através do choque das imagens), enquanto o desfecho desenhado por Alfredson nos choca. Gosto muito dos dois filmes - mais do filme sueco, é verdade. O horror é lindo!
A revista Empire também tem os seus melhores. A publicação norte-americana divulgou a lista dos 100 melhores filmes de todos os tempos. A lista, que se refere apenas a filmes de língua não-inglesa, pode ser conferida no próprio site da revista. Ó: The 100 Best Films of World Cinema
É, basicamente, para os norte-americanos, uma lista de filmes estrangeiros. Não é das melhores listagens (acho que os críticos da revista ainda não conhecem Takeshi Kitano), mas como todas são particulares à quem as escreve, deve-se respeitar. Legal é que tem dois brasileiros nela. Cidade de Deus, de Fernando Meirelles aparece na (vejam só) 7º posição. Em 57º figura Central do Brasil, de Walter Salles. Agradável surpresa na liderança: Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa.
Tá na rede o trailer oficial de Somewhere, novo filme de Sofia Coppola, filha do diretor de O Poderoso Chefão e Apocalypse Now. Gostei do trailer.
Tem Stephen Dorff e Elle Fanning (atriz de grande futuro - e, claro, bonito presente), Somewhere traz a história de Johnny Marco (Dorff), um ator metido a "bad boy" (não sei porque, mas lembrei de Dennis Hooper). A vida do cara está para mudar, quando sua filha Cleo (Fanning), inesperadamente lhe faz uma visita.
Também não sei porque (ou sei?), mas hoje à noite, quando fui assistir Amor à Flor da Pele, do mago das imagens Wong Kar-wai, me lembrei de Encontros e Desencontros - dois amores que, cada qual a seu motivo, não podem ser concretizados. Gosto muito do filme de Kar-wai e acho Encontros um bonito filme. Coincidência.
O cinema de Roman Polanski sempre transitou livremente entre gêneros cinematográficos. Basta dar uma olhada em Chinatown (um dos últimos grandes filmes noir do cinema americano), A Dança dos Vampiros (uma tragicomédia de alto bom gosto), O Bebê de Rosemary (um grande suspense psicológico) ou O Pianista (quando o diretor falou sobre a Segunda Guerra para fazer um filme que talvez seja seu mais pessoal trabalho). Mesmo diante de uma filmografia bastante diversificada, Polanski conseguiu construir uma ideia de cinema bastante marcante, com filmes ao mesmo tempo autorais e distantes uns dos outros - as tramas em nada se parecem, os personagens estão sempre passando por dramas diversos, cada qual a seu estilo. Para O Escritor Fantasma, Polanski parece ter criado um desejo de cinema onírico, onde não lhe é interessante a mera problematização dos acontecimentos, é preciso, para se alcançar a sutileza narrativa e, no caso deste, a tensão necessária, uma extensa visão sobre o material. Polanski tem.
A hora e meia inicial do filme é brilhante. O roteiro de Polanski e Robert Harris, adaptado de seu próprio livro (The Ghost), vai contra a maré reinante da produção de gênero contemporânea: o protagonista ganha todo tempo em tela necessário para sua dimensão ganhar forma. Os primeiros planos vão se construindo de forma a desenvolver pacientemente este personagem, e Polanski filma muito bem a ambientação do escritor fantasma do título (Ewan McGregor). Ele é contratado para escrever as memórias do ex-primeiro-ministro britânico Adam Lang (Pierce Brosnan), que pode ser a oportunidade de sua vida. O ghost writer anterior do político acabara de morrer, de maneira suspeita; a missão do novo escritor é revisar e continuar a história. Acaba indo para uma reclusa casa nos Estados Unidos para escrever e entrevistar Lang. Uma vez em terras ianques, o escritor começa se envolver com os acontecimentos além do seu ofício. O drama começa.
O Escritor Fantasma é um filme de sustentação narrativa excepcional e onde os personagens, em suas peculiaridades, mostram-se mais complexos do que se espera deles - em face da enorme dedicação da primeira hora do filme ao protagonista e sua ambientação num mundo novo, alheio ao seu (reclusão, mansão fortificada, segurança máxima, imprensa pegando no pé, fanáticos e, principalmente e talvez os mais perigosos, políticos). Este mundo, que parece não pertencer ao Fantasma (nunca saberemos o nome seu nome), é construído e filmado com elegância - seja quando o diretor precisa estender uma tomada ou narrar, através de imagens, os momentos essenciais a trama. Há uma leveza nos cortes, ilusões criadas a partir de uma fluência narrativa marcante - o tempo é muito importante aqui, quando da montagem do filme, e Polanski e sua equipe encontram o certo.
A mise em scène de O Escritor Fantasma é notável. O suspense carregado é fruto, também, de vívidas interpretações. Kim Cattrall, que faz assistente de Adam Lang, é uma agradável surpresa. Ela empresta para sua personagem ambiguidade conveniente aos propósitos do filme: injetar a sensação de "não posso confiar em ninguém", amplificando o clima claustrofóbico do filme. Olivia Williams (Ruth Lang, mulher do ex-ministro Lang) ganha closes fundamentais para sua composição: em seu rosto, sua expressão aparece sempre atordoada, notadamente estamos diante de uma mulher à beira de um ataque - um sentimento em candura preenche os traços daquela personagem, sentimento a qual teremos mais acesso no final, e que fazem total sentido). São detalhes que compõem o todo, e ele é belo e eletrizante. A trilha sonora de Alexandre Desplat namora perfeitamente com o filme - com notas pesadas e batidas obscuras, a exemplo da trilha que Robbie Robertson montou para Scorsese em Ilha do Medo, é fundamental para o envolvimento do espectador. Esses quesitos, além de ampliar os sentidos do espectador, potencializam o filme. A fotografia nos traz um novo sketch de Pawel Edelman. O visual que ele dá ao filme – que difere da maioria de seus últimos trabalhos como Doce Perfume, de Wajda e O Pianista e Oliver Twist, ambos de Polanski -, que parece negar a existência de cores (um filme quase asséptico, afinal), afundando os personagens na escuridão dos cenários (internos e externos, Pawel ilumina tudo com cores frias). Ewan McGregor e Pierce Brosnan cabem bem aos personagens. McGregor veste bem o estilo do personagem curioso e inteligente e Brosnan traz a canastrice de Ladrão de Diamantes e o charme de seus tempos de James Bond.
Um filme potente, num momento importante para Polanski (preso na Suiça), que o difere da maioria das produções cheias de imagens iguais e conflitos tão banais. Um filme que reflete, - não só confirma -, a beleza de um cinema ainda capaz de nos surpreender.
(The Ghost Writer, Inglaterra/Alemanha, 2010)
Direção de Roman Polanski
Roteiro de Roman Polanski e Robert Harris
Com Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Kim Cattrall, Olivia Williams
Tim Burton é um arquiteto dos sonhos. Edward Mãos de Tesoura e Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas são filmes completos, que nos levam a tramas um tanto fantásticas, mas incrivelmente vivas e realistas. Em A Fantástica Fábrica de Chocolate e Os Fantasmas se Divertem embarcamos para outros mundos (mundos de sonhos), menos possíveis, mas não menos interessantes. Filmes como estes fizeram de Burton um cineasta diferenciado dos demais de sua geração (uma geração mais interessada em filmes comerciais, como Michael Bay e até mesmo o alemão Roland Emmerich, crias da indústria): Burton quer um encontro com coisas que lhe são peculiares – coisas que lhe marcaram. Mas Alice no País das Maravilhas é um exercício de vocação, mas há algo ausente nessa nova aventura de Burton – nessa sua visão bastante limitada -, porque o filme inteiro parece um amontoado de tomadas, uma sucessão de imagens em movimento que não conversam entre si.
A história é o reflexo da narrativa, simples e objetiva: a jovem Alice acaba voltando ao País das Maravilhas quando resolve seguir o coelho, numa desculpa/tentativa de fugir/desistir do seu casamento de encomenda. Outra vez lá em Wonderland, Alice reencontra os amigos de sua visita passada (mesmo sem lembrar de já ter passado por lá), como o Chapeleiro Maluco (Depp), a Rainha Branca (Anne Hathaway) e a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter). Esses personagens adoráveis criados por Lewis Carroll são projetados com estilo na tela - a cada personagem que surge, Burton estica a corda até o máximo, para aumentar a expectativa do deslumbre (não que isso funcione tal qual imaginou o mestre). Unindo-se ao Chapeleiro Maluco e a Rainha Branca, Alice é meio que forçada a acabar com o reinado da Rainha Vermelha - nem que para isso precise enfrentar um monstro dantesco.
A questão do afastamento do texto original nos coloca face duas vertentes: ao manter certa distância da "fidelidade incondicional" da história de Carroll (aquele tom mais ambíguo se perde um pouco, o que é bom para o filme), Burton consegue nos levar para aquele mundo fantástico mantendo sua criatividade artística. O detalhe é que essa criatividade do diretor (e aqui já falamos da segunda questão) já não tem mais o mesmo vigor de outrora. Os personagens parecem não responder aos estímulos do diretor - Anne Hathaway, especialmente, não consegue dar o tom certo à Rainha Branca, e não é por culpa da jovem e talentosa atriz americana. Tom, aliás, falta ao filme. É muito Carroll, muito Disney e pouco Tim Burton. É muito brilho, muito colorido e também muito vazio. O chamado "delírio visual" só é mesmo um delírio quando a história nos é arrebatadora, por isso que se nega, aqui, qualquer elogio neste quesito. Até porque falamos de um cineasta de talento para esse tipo de coisa. Enaltecer a plasticidade de um filme de Tim Burton é chover no molhado. É o mínino. Além do mais, o filme é assumidamente feito para encantar. É se notar, também, que o encantamento provém apenas pelos adereços estético-visuais, não pelo envolvimento da relação filme-espectador para com a história (que, para quem já leu o livro ou mesmo já viu as diversas adaptações que ele teve, se mostra muito mais eficaz do que aqui).
Os personagens de Alice são incapazes de transmitir o maravilhamento pensado pelo diretor e criado nos computadores para os cenários. São nulos. Burton dá ao Chapeleiro Maluco de Johnny Depp tantos closes quanto dá a Alice, o que, vindo de uma estratégia puramente comercial, prejudica o filme, pois Depp divide o filme com Alice de maneira a vendê-lo bem, não a enriquecê-lo. E assim o roteiro vai atirando personagens ao léu, sem dar a mínima atenção a eles (consequência óbvia: o espectador não dá a mínima também). Todos entram e cumprem suas funções, como um grande fluxo constante de eventos insignificantes. A sequência final (batalha de proporções épicas mega careta, a movimentação de câmera de Burton inclusive) empalidece ainda mais o gosto pelo filme, que acaba sem deixar nenhuma coisa em nossas cabeças - vá dizer que os gritinhos histéricos da Rainha Vermelha ("Off with their heads") marcaram o filme pra você? Quando os elogios para um filme começam pelos seus efeitos, estamos diante de um mau filme. Alice no País das Maravilhas é um filme bonito de se ver, mas feio demais para ser admirado.
Alice in Wonderland (EUA, 2010)
Direção de Tim Burton
Roteiro de Linda Woolverton
Com Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway
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Rififi, de Jules Dassin (França, 1955)
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