Para os cinéfilos que querem “ler” os filmes de maneira diferenciada, com uma visão mais crítica sobre a história da Arte, alguns livros listados abaixo servem como guias. Para quem almeja ou já se aventura no cinema, livros como Lições de Roteiristas e Fazendo Filmes são verdadeiros professores. A lista foi elaborada sem consulta alguma (apenas algumas informações sobre as editoras), apenas com aquilo que a memória deste cinéfilo pôde resgatar, por isso não lamente se o seu livro favorito não estiver incluído – isso pode ser corrigido com sugestões nos comentários para uma próxima lista.

Alguns destes livros têm ótimas lições de cinema e grandes exercícios críticos de leitura. Portanto, cinéfilos, regozijem. A seleção não possui ordem de preferência, por isso apenas destaco os livros mais interessantes.



1. Cinema no Mundo (5 volumes, Alessandra Meleiro, Ed. Escrituras)

2. A Magia do Cinema (Roger Ebert)

3. Sobre Direção de Cinema (David Mamet)

4. Fazendo Filmes (Sidney Lumet)

5. Hitchcock/Truffaut: Entrevistas (François Truffaut)

6. Lições de Roteiristas (Kevin Conroy Scott)

7. As Teorias dos Cineastas (Jacques Aumont, Papirus)

8. O Cinema e a Invenção da Vida Moderna (L.Charney e V. Schwartz, Cosac & Naify)

9. História do Cinema Mundial (Fernando Mascarello, Papirus)

10. O Sentido do Filme (Sergei Eisenstein, Jorge Zahar Ed.)

11. François Truffaut – Uma Biografia (Antoine de Baecque e Serge Toubiana, Record)

12. Charlie Kaufman e o Lugar do Autor no Cinema (Cecília Sayad, Alameda Ed.)

13. A Ponte Clandestina – Teorias de Cinema na América Latina (J.C. Avellar, Ed. 34/Edusp)

14. A Filosofia do Horror, ou Paradoxos do Coração (Noel Carroll)

15. Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano (Martin Scorsese e Michael Henry Wilson)

16. Cinema como Prática Social (Graeme Turner)

17. Grandes Filmes (Roger Ebert)

18. Publique-se a Lenda: A História do Western (A.C. Gomes de Mattos)

19. O Outro Lado da Noite: Filme Noir (A.C. Gomes de Mattos)

20. A Outra Face de Hollywood: Filme B (A.C. Gomes de Mattos)

21. Conversas com Almodóvar (Frederic Strauss, Jorge Zahar Ed.)

22. 1001 Noites no Cinema (Pauline Kael)

23. A Fora do Filme (Sergei Eisenstein, Jorge Zahar Ed.)

24. Introdução ao Cinema Brasileiro (Alex Viany, Ed. Revan)

25. Cinco mais cinco (Luiz Carlos Merten e Rodrigo Fonseca)

26. Cinema: Entre a Realidade e o Artifício (Luiz Carlos Merten)

27. Grandes Diretores de Cinema (Laurent Tirard)

28. Por um Cinema sem Limite (Rogério Sganzerla, Azougue Ed.)

29. Cineastas e Imagens do Povo (Jean-Claude Bernardet, Cia das Letras)

30. Cinema – O Mundo em Movimento (Inácio Araújo, Ed. Scipione)

31. Um Filme é um Filme (José Lino Grunewald, Cia das Letras)

32. Num Piscar de Olhos (Walter Murch)

33. Direção de Cinema (Michael Rabiger)

34. Um Filme por Dia – Crítica de Choque ((org.) Ruy Castro, Cia das Letras)

35. Revisão Crítica do Cinema Brasileiro (Glauber Rocha, Cosac & Naify)

36. Glauber Rocha – Cartas ao Mundo (Ivana Bentes, Cia das Letras)

37. Introdução à Teoria do Cinema (Robert Stam, Papirus)

38. A Estética do Filmes (Jacques Aumont, Ed. Papirus)

39. Cinema de Novo: Um Balanço Crítico da Retomada (Luiz Zanin Oricchio, Est. Liberdade)

40. Cinema Mundial Contemporâneo (Mauro Baptista e Fernando Mascarello, Papirus)

41. A Experiência do Cinema (Ismail Xavier, Graal)

42. Dicionário Teórico e Crítico de Cinema (Jacques Aumont e Michel Marie, Papirus)

43. As Principais Teorias do Cinema: Uma Introdução (J. Dudley Andrew)

44. Dicionário de Cineastas (Rubens Ewald Filho, Cia Editora Nacional)

45. Do Cinetoscópio ao Cinema Digital: Breve História do Cinema Americano (A.C. Gomes de Mattos)

46. Compreender o Cinema (Antonio Costa, Ed. Globo)

47. A Imagem-Tempo (Gilles Deleuze, Ed. Brasiliense)

48. As Estrelas: Mito e Sedução no Cinema (Edgar Morin, José Olympio Ed.)

49. Fragmentos para uma Autobiografia (Roberto Rosselini, Ed. Nova Fronteira)

50. O Cinema no Século (Ismail Xavier, Ed. Imago)


 
Depois de divulgar os melhores filmes de 2009 numa lista com 8 filmes, Quentin Tarantino agora atualiza seus favoritos do ano passado, a informação é do The Daily Mail. Ó a lista do diretor de Bastardos Inglórios, desta vez com 11 filmes:

Avatar
Star Trek
Arraste-me para o Inferno
Funny People
Zumbilândia
Chocolate
Observe and Report
Guerra ao Terror
Julie e Julia
Amor sem Escalas
Distrito 9




Ano passado a Associação da Imprensa Estrangeira homenageou Steven Spielberg pelo conjunto da obra com o prêmio Cecil B. DeMille. Na ocasião, o prêmio foi recebido das mãos de Martin Scorsese. Este ano, na recém ocorrida festa de premiação, quem recebeu a congratulação foi Martin Scorsese, desta vez das mãos de seus maiores colaboradores, Robert De Niro (o cara do Táxi Driver, lembra?) e Leonardo DiCaprio (aquele agente infiltrado na máfia, pegou?). Seria uma homenagem indireta aos autores da Nova Hollywood? Se sim, quem será o próximo homenageado; Coppola, Lucas ou De Palma?

21/01/2010

Indicados ao BAFTA

Costumo gostar das indicações do BAFTA. Esse ano não foi diferente. Com a exceção da ausência de Bastardos Inglórios – que poderia estar no lugar de qualquer outro filme da lista. Os indicados? Ó:

Melhor Filme
Avatar
Educação
Guerra ao Terror
Preciosa - Uma História de Esperança
Amor sem Escalas


Melhor Filme Britânico
Educação
In The Loop
Lunar
Nowhere Boy
Aquário


Melhor Diretor
James Cameron (Avatar)
Neill Blomkamp (Distrito 9)
Lone Scherfig (Educação)
Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror)
Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios)

Melhor Ator
Jeff Bridges (Coração Maluco)
George Clooney (Amor sem Escalas)
Colin Firth (Direito de Amar)
Jeremy Renner (Guerra ao Terror)
Andy Serkis (Sex & Drugs & Rock & Roll)

Melhor Atriz
Carey Mulligan (Educação)
Saoirse Ronan (Um Olhar do Paraíso)
Gabourey Sidibe (Preciosa - Uma História de Esperança)
Meryl Streep (Julie & Julia)
Audrey Tautou (Coco Antes de Chanel)

Melhor Ator Coadjuvante
Alec Baldwin (Simplesmente Complicado)
Christian McKay (Me and Orson Welles)
Alfred Molina (Educação)
Stanley Tucci (Um Olhar do Paraíso)
Christoph Waltz (Bastardos Inglórios)

Melhor Atriz Coadjuvante
Anne-Marie Duff (Nowhere Boy)
Vera Farmiga (Amor sem Escalas)
Anna Kendrick (Amor sem Escalas)
Mo'nique (Preciosa - Uma História de Esperança)
Kristin Scott Thomas (Nowhere Boy)

Roteiro Original
Jon Lucas e Scott Moore (Se Beber, Não Case)
Mark Boal (Guerra ao Terror)
Joel e Ethan Coen (Um Homem Sério)
Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios)
Bob Peterson e Pete Docter (Up - Altas Aventuras)

Roteiro Adaptado
Neill Blomkamp e Terri Tatchell (Distrito 9)
Nick Hornby (Educação)
Jesse Armstrong, Simon Blackwell, Armando Iannucci e Tony Roche (In the Loop)
Geoffrey Fletcher (Preciosa - Uma História de Esperança)
Jason Reitman e Sheldon Turner (Amor sem Escalas)

Filme Estrangeiro
Coco Antes de Chanel
Os Abraços Partidos
Deixa Ela Entrar
Un Prophète
A Fita Branca


Melhor Animação
Coraline
O Fantástico Sr. Rapos
Up - Altas Aventuras


Melhor Trilha Sonora
James Horner (Avatar)
T-Bone Burnett, Stephen Bruton (Coração Maluco)
Alexandre Desplat (Fantástico Sr. Raposo)
Chaz Jankel (Sex&Drugs&Rock&Roll)
Michael Giacchino (UP - Altas Aventuras)

Melhor Fotografia
Mauro Fiore (Avatar)
Trent Opaloch (Distrito 9)
Barry Ackroyd (Guerra ao Terror)
Robert Richardson (Bastardos Inglórios)
Javier Aguirresarobe (A Estrada)

Melhor Edição
Stephen Rivkin, John Refoua, James Cameron (Avatar)
Julian Clarke (Distrito 9)
Bob Murawski, Chris Innis (Guerra ao Terror)
Sally Menke (Bastardos Inglórios)
Dana E. Glauberman (Amor Sem Escalas)

Direção de arte
Rick Carter, Robert Stromberg, Kim Sinclair (Avatar)
Philip Ivey, Guy Poltgieter (Distrito 9)
Stuart Craig, Stephenie McMillan (Harry Potter e o Enigma do Príncipe)
Nominees TBC (O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus)
David Wasco, Sandy Reynolds Wasco (Bastardos Inglórios)

Melhor Design figurino
Janet Patterson (Brilho de uma Paixão)
Catherine Leterrier (Coco Antes de Chanel)
Odile Dicks-Mireaux (Educação)
Arianne Phillips (Direito de Amar)
Sandy Powell (The Young Victoria)

Melhor Som
Christopher Boyes, Gary Summers, Andy Nelson, Tony Johnson, Addison Teague (Avatar)
Nominees TBC (Distrito 9)
Ray Beckett, Paul N. J. Ottosson, Craig Stauffer (Guerra ao Terror)
Peter J. Devlin, Andy Nelson, Anna Behlmer, Mark Stoeckinger, Ben Burtt (Star Trek)
Tom Myers, Michael Silvers, Michael Semanick (Up - Altas Aventuras)

Melhor Efeitos Visuais
Joe Letteri, Stephen Rosenbaum, Richard Baneham, Andrew R. Jones (Avatar)
Dan Kaufman, Peter Muyzers, Robert Habros, Matt Aitken (Distrito 9)
John Richardson, Tim Burke, Tim Alexander, Nicolas Aithadi (Harry Potter e o Enigma do Príncipe)
Richard Stutsman (Guerra ao Terror)
Roger Guyett, Russell Earl, Paul Kavanagh, Burt Dalton (Star Trek)

Melhor Maquiagem e Cabelo
Thi Thanh Tu Nguyen, Jane Milon (Coco Antes de Chanel)
Lizzie Yianni Georgiou (Educação)
Sarah Monzani (O Imaginário Mundo de Dr. Parnassus)
Peter ‘Swords’ King (Nine)
Jenny Shircore (The Young Victoria)

Melhor Curta Animação

The Gruffalo
The Happy Duckling
Mother of Many


Melhor Curta-Metragem
14
I Do Air
Jade
Mixtape
Off Season




Bem dirigido, Nicolas Cage voltou a ser o mesmo de Cotton Club, Feitiço da Lua, Arizona Nunca Mais, Coração Selvagem, Despedida em Las Vegas, Vivendo No Limite e Adaptação - entre outros. Werner Herzog, em seu novo filme, Vício Frenético, colocou o ator no seu devido lugar, entre os grandes de seu tempo.

17/01/2010

Avatar


Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez.
 


 

Estamos vivendo a Era da tecnologia digital, onde celulares reconhecem movimentos e rostos e a profecia futurista do escritor Philip K. Dick, tornada matéria-viva nas mãos de Steven Spielberg em Minority Report, parece cada vez menor diante de tudo que ainda está por vir. As profusões da conexão instantânea e do contato distante imediato estão cada dia mais complexas e multifuncionais. A distância de um novo mundo já é praticamente inexistente. O futuro é hoje. Avatar chegou aos cinemas para provocar uma revolução (não somente pela inovação tecnológica, como será dissecado nesta análise), assim como fez a chegada do som e da cor - no início do século passado para o primeiro e já na Era de Ouro de Hollywood para o segundo caso. O objetivo de James Cameron não é o da experimentação, e sim da definição, da consagração de um padrão. Este não é um filme de Michael Bay ou Roland Emmerich.

Encarar Avatar pura e simplesmente para contemplar suas proezas tecnológicas é reduzi-lo a uma mera máquina de contentamento massivo. O roteiro que Cameron escreveu ainda antes de Titanic (1997) é mesmo uma raridade onde tudo funciona à perfeição, pois o diretor sabe o que quer e os limites outrora impostos pelo tempo hoje lhe garantem liberdade plena. Interessante também que, tendo sido escrito há quase 20 anos, o filme consiga ainda surgir com um frescor exuberante, tanto pelos adereços proporcionados pela tecnologia empregada quanto pela história, que não somente comove por retomar o velho classicismo narrativo no campo das ficções, mas também pela própria invenção de um planeta novo, partindo do zero absoluto, onde esse mundo torna-se palpável. É mesmo um orgasmo visual!

O mundo que somos convidados a habitar é Pandora, um planeta distante consumido pela sua própria exuberância, onde a flora e a fauna vivem sob constante e reluzente harmonia. Neste planeta vivem os Na’vi, raça humanóide de cultura e língua desconhecidas para os terráqueos. Jake Sully (Sam Worthington) é um ex-militar paraplégico que é levado para Pandora para infiltrar-se entre os Na’vi para informar o exército invasor sobre uma riqueza existente no planeta – uma espécie de petróleo extraterreno, na primeira metáfora do filme sobre as constantes invasões norte-americanas sob outros países em busca do imperialismo - não diretamente sobre a questão do Iraque, mas que indiretamente chega à boa hora, afinal o roteiro foi escrito muito antes de Bush assumir o governo dos EUA, mas sobre toda a história ianque nas guerras, e aí entra a Guerra do Golfo e o Vietnã, por exemplo.

A figura feminina também marca forte presença no filme através das feições de Sigourney Weaver, que vive a cientista Grace (que realmente lembra Ripley, a figura mítica que ela interpretou em Aliens, principalmente nas passagens do corpo-físico para o corpo-mental de seu avatar). Stephen Lang surpreende ao conquistar, aos poucos com o desenvolvimento de seu personagem, um espaço entre os grandes vilões do cinema nos últimos anos. Sam Worthington, que chegou à grande indústria de soco e parece cada vez mais à vontade nela, convence mais uma vez. Jake é um personagem já carimbado como ícone desde seu surgimento ao sair de sua cápsula e vislumbrar a imensa nave espacial em que se encontrava.

Todos os clichês existentes na história do cinema aparecem aqui revigorados, como se Cameron desejasse ensinar à maioria de seus colegas cineastas (que parecem totalmente alienados quanto ao mundo em que vivem) que efeitos visuais bem conjugados enxergam no mais clássico dos enredos seu melhor parceiro. Também não surpreende a potência com que o filme se encaminha para seu desfecho, em outra metonímia de Cameron quanto à triste convenção criada pelos “artistas” (Gus Van Sant, Lars Von Trier, David Lynch) do cinema contemporâneo que pensam que todo o filme necessita de um final aberto para ser contemplado. Nada mais careta que isso, afinal. Um filme, assim como toda a obra de arte, já é naturalmente aberto desde sua alvorada.

Ao retratar a história do amor impossível, da união de dois corpos distintos, Cameron caminha sob terreno bastante caro a outros cineastas, mas que em suas mãos tem a fluência de uma ópera. O perfeito enlace entre as cenas, onde os meios justificam os fins, absorve o espectador diante de sua agilidade. Cada sequência representa uma ação necessária, e não simplesmente uma brecha para o uso da tecnologia – não é este o objetivo do 3D para Cameron. A proposta é da imersão total, tanto na forma quanto no conteúdo. É por estes motivos que Avatar é uma obra tão interessante. Por essa combinação potente entre entretenimento de qualidade (pois entretenimento e experiência sensorial todos os filmes são, por isso o friso no adjetivo) e cinema autoral. Não sabendo que era impossível, ele foi lá e vez. A frase de Cocteau serve à perfeição para James Cameron e seu filme, pois torna palatável a ideia de que ele é mesmo o “Rei do Mundo”. E isso só confirma a beleza de seu cinema.

(Avatar, EUA, 2009)
Direção de James Cameron
Roteiro de James Cameron
Com Sam Worthington, Zoë Saldana, Stephen Lang, Sigourney Weaver

15/01/2010

Jackie Brown


 

Talvez seja apenas parte de uma visão pré-conceitual, mas parece que o cinema de Quentin Tarantino realmente não nasceu para fazer concessões. Mesmo depois de ter realizado Pulp Fiction, celebração cinéfila que o consagrou na indústria mundial como um dos mais criativos narradores do cinema contemporâneo, Tarantino resolveu contar uma história menos estridente do que as de seus filmes anteriores (antes de Pulp Fiction, Cães de Aluguel), talvez até por isso tenha brochado muitos de seus espectadores, que esperavam um filme mais “descontrolado”. Mas Jackie Brown é a uma obra mais delineada, mais pensante, sem a pulsação frenética de personagens e diálogos das obras-primas anteriores do diretor. A narrativa é menos complicada e a aposta não está tão somente focada em malabarismos estético-narrativos, mas cuidadosamente direcionada a mais uma homenagem: desta vez ao blaxploitation, subgênero no qual a protagonista do filme em questão, Pam Grier, já foi musa.

Nem por isso Jackie Brown ficou fadado apenas a cinefilia de Tarantino e sua memória enciclopédica, tampouco é um filme sem identidade. Todas as marcações e os percursos morais de seu cinema estão presentes aqui, e não necessariamente em dosagens menores, mas com novas formas. Se Cães de Aluguel fazia uso de flashbacks para preencher os vazios não mostrados cronologicamente e Pulp Fiction mostrava aquele domínio completo do cineasta ao fragmentar a cronologia, este Jackie Brown aposta no simples desenvolvimento narrativo natural, com a exceção do clímax, que Tarantino espantosamente carrega através do ponto de vista de três personagens. Não há (muito) sangue jorrando, pois a violência gráfica é colocada como recurso e não como prioridade – esta fica totalmente com os personagens.

Jackie Brown (Pam Grier) é uma aeromoça que trabalha na ponte EUA/México. O adendo é que Jackie também tira um extra por fora trazendo dinheiro ilegal para dentro dos EUA, a mando do traficante de armas Ordell Robbie (Samuel L. Jackson), que tem como comparsa Louis Gara (Robert De Niro), um ex-presidiário com quem Ordell dividiu cela. A trama ainda envolve Ray Nicolette (Michael Keaton) e Mark Dargus (Michael Bowen), dois policiais que, após prenderem Jackie por posse de dinheiro ilegal e cocaína, passam a usá-la como informante em troca da liberdade. Ainda há o agente de fianças Max Cherry (Robert Forster) que, após pagar a fiança de Jackie acaba se apaixonando por ela. A jogatina está formada quando o que está em jogo é a quantia de U$ 500 mil.

A demanda de informações é realmente grande, mas há um olhar atento filtrando tudo isso e construindo um espaço dramatúrgico pronto para a contemplação desse universo exclusivamente tarantiniano. Com precisão somos apresentados aos personagens e as ações que estes realizam – em momento algum Tarantino perde o foco de seu filme. A construção do espaço cênico e todos os movimentos de câmera (passando pelo plano-sequência e as diversas acomodações que a câmeras do diretor tomam para si), na verdade estão ali sempre para compor não apenas um registro estilista/autoral, mas de fluência de signos e diretrizes. Na sequência de abertura, por exemplo, que Tarantino abre com um plano-sequência que segue a personagem de Pam Grier enquanto esta é conduzida por uma esteira do aeroporto onde trabalha como aeromoça, somos introduzidos graciosamente a protagonista do filme, Jackie Brown.

Os fetiches de Tarantino por longas pernas e pés com unhas caprichosamente pintadas de vermelho têm aqui seus primeiros passos, sua alvorada. Aqui é Bridget Fonda quem ganha closes nos pés e nas pernas, numa exploração da sexualidade feminina em estado de combustão. O domínio dos movimentos que Bridget faz no quadro é observado sempre de ângulos inusitados, alguns próximos do personagem de Robert De Niro que é a vítima dessa tentação, sugerindo sua visão e sensação. Nada disso é oferecido apenas como marcas do autor, tendo suas próprias razões de existir conforme o texto desenvolve a relação entre estes personagens. De Niro, aliás, em absoluta imersão de personagem, nos entrega com convicção um dos tipos mais interessantes do filme. Samuel L. Jackson e Pam Grier, ambos com desempenhos aguerridos, constroem personagens marcantes – Jackson com um sotaque carregado e Grier com as formas e trejeitos de uma legítima musa do blaxploitation. O personagem de Robert Forster é de tamanha frieza (e sua perfomance tão pungente) que aos poucos ganha a empatia e torcida do espectador.

Todo esse vigor do elenco é explorado com precisão por Tarantino, que desenvolve a mise em scène muito mais para dar liberdade aos atores dentro do campo do que para elucidar um vazio. O dialogo é novamente o ponto forte do texto de Tarantino, por sua vez adaptado da obra de Elmore Leonard. Os longos travellings tornam Jackie Brown um filme facilmente identificável, pela chamada marca do autor. Mas nada disso seria suficiente não fosse a espantosa capacidade tarantiniana de elaborar tramas concisas e bem amarradas, sem perder o foco com referências – não precisando abrir mão delas, no entanto. Um filme como este, onde personagens falam sobre a obsessão norte-americana por armas e mulheres gostosas, conduzido com tamanho ímpeto é o que reforça a tese de que a potência do cinema de Tarantino é mesmo especial.

(Jackie Brown, EUA, 1997)
Direção de Quentin Tarantino
Roteiro de Quentin Tarantino
Com Pam Grier, Samuel L. Jackson, Michael Keaton, Robert De Niro, Bridget Fonda, Chris Tucker, Robert Forster

13/01/2010

Críticas rápidas


A Menina da Fábrica de Fósforos, de Aki Kaurismäki (Finlândia, 1990)

O saber valorizar o silêncio parece não ser um recurso muito compreendido no cinema. Poucos cineastas conseguem representar um filme que se auto-afirma apenas através de suas imagens. Aki Kaurismäki é um mestre neste quesito, por isso A Menina da Fábrica de Fósforos é um filme tão potente e recompensador, pois sabe que o silêncio pode ser o melhor diálogo. O filme se move numa graciosidade sublime, com a leveza de uma composição de Bach. Nota: 8.0



Polícia, Adjetivo, de Corneliu Porumboiu (Romênia, 2009)

Não é questão para o cineasta romeno Corneliu Porumboiu esquadrinhar realismo proporcionado pela câmera documental em Polícia, Adjetivo. O foco deste filmaço é a observação. E durante todo filme somos convidados a acompanhar o dia-a-dia do policial Cristi, que investiga jovens suspeitos de tráfico de drogas. A trilha sonora é a própria ausência de si mesma, pois o som é aquilo que se cria no imaginário de cada espectador – na maioria dos casos, uma composição angustiante. Mais brilhante ainda é a sequência final, ao expor, através da semântica, a complexidade das crenças humanas. Nota: 8.0



O Solista, de Joe Wright (EUA, 2009)

A cena chave para compreendermos esse filme de Joe Wright está na cena onde os personagens de Jamie Foxx e Robert Downey Jr. assistem a um concerto. Nathaniel Ayers (Foxx) parece imergir numa espécie de psicodelia quando ele tenta se comunicar com a linguagem da música de Beethoven. Coloridos e flashes se misturam para tentar compor essa comunicação. É, junto daquelas sequências capitaneadas por Hugh Jackman e Rachel Weisz em Fonte da Vida, uma das coisas mais caretas que o cinema contemporâneo já nos apresentou. Mas, no final das contas, ainda se pode tirar alguns bons momentos das interpretações de Downey Jr. e Foxx. Nota: 4.0




Intrigas de Estado, de Kevin MacDonald (EUA, 2009)

Estranho mesmo é constatar que um filme baseado numa minissérie britânica de 2003 (dirigida por David Yates) possa parecer mais “antiquado” do que o original de 7 anos atrás. Sobre a imprensa muito já se foi relatado, mas Kevin MacDonald quer mesmo detalhar os meandros da profissão, abrindo mão de uma dramaturgia consistente. Muita atenção para detalhes, pouco cuidado com a trama – um pouco limitada a reviravoltas e cacoetes hollywoodianos. Apesar disso, e além da crítica um tanto quanto supérflua a internet e aos blogs – que, segundo MacDonald, são os inimigos do jornalismo -, a narrativa objetiva e seca carrega o filme de tensão – o que é bom. Nota: 6.0




Mais Estranho Que a Ficção, de Marc Forster (EUA, 2006)

O jogo metalinguístico proporcionado pelo prazer de ver Will Ferrell metaforizando neste inusitado filme de Marc Forster é o que o sustenta. Sendo Ferrell um comediante e o filme em questão uma tragédia (afinal o personagem descobre que vai morrer e, apesar das gags, o tom é muito mais existencial do que humorístico), cria-se um espaço de opostos interessante. Forster brinca com a quebra do tempo e com paradoxos - como a personagem de Emma Thompson (que atriz!) que vive e trabalha quebrando o sistema de sua editora, pois não concatena criação e prazo. É justamente o oposto de seu personagem (vivido por Ferrell), que, desde cedo, cronometra todas suas ações durante o dia. Assim como Adaptação, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e O Show de Truman (neste time de filmes inusitados), Mais Estranho Que a Ficção vem reforçar um cinema menos convencional e, apesar de não ter a mesma força dramatúrgica que os já citados, cria um efeito interessante. Nota: 7.5




Partir, de Catherine Corsini (França, 2009)

Basicamente este filme de Catherine Corsini se resume ao estudo da paixonite entre os opostos e um pequeno segundo plano sobre a já velha declaração sobre a vida burguesa. Isso porque a personagem de Kristin Scott Thomas é casada com um médico rico e mãe de um casal adolescente, algo como a representação da chamada “vida dos sonhos”. O único problema do filme de Corsini é que a paixão que surge na tela não é a mesma que aparenta existir entre os protagonistas. Nota: 7.0



Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow (EUA, 2009)

O suspiro que faltava em filmes de gênero (neste caso a guerra) foi dado por esse filmaço de Kathryn Bigelow. O estado das coisas nas ocupações norte-americanas no Iraque como nunca visto e uma dramaturgia de fazer qualquer fã de O Resgate do Soldado Ryan ficar de queixo caído. Jeremy Renner está mesmo monstruoso como um desarmador de bombas que não cumpre muito bem as regras a ele dadas, mas executa suas missões sempre com competência. Nota: 8.0

Grandes paisagens contrapõe a pequenez do homem neste bom filme de Bertolucci




Sem cerimônia, O Céu Que Nos Protege nos apresenta aos seus personagens. Bernardo Bertolucci introduz Kit e Port no filme como metáfora para seu estudo sobre o existencialismo do ser humano. O deserto também faz parte desse universo metafórico que rasura um sentimento em candura nessa falta de tesão pela vida que o diretor nos quer contar. Adaptado do livro de Paul Bowles, o filme trabalha com os opostos da imagem – usando contrastes visuais. Os cenários são suntuosos, graças às vastas imagens de Vittorio Storaro e têm funções importantes dentro do desenvolvimento dos conflitos dramático-narrativos no filme. Sim, o espectador agradece Storaro, pelo prazer de admirar imagens tão belas que fazem lembrar os cenários dantescos de Lawrence da Arábia, obra de arte imortal de David Lean.

O filme se passa logo após o fim da Segunda Guerra, quando Kit e Port (Debra Winger e John Malkovich, respectivamente) partem para a África, saídos da agitação da Nova York do pós-guerra. A ideia é de viajantes, andarilhos, pois não se planejou data para o regresso à megalópole. As passagens são somente de ida. O objetivo é provocar a reflexão, reencontrar o amor há tempos perdido na imensidão da rotina, retirar suas vidas do marasmo total, do vazio da alma. George Tunner, rasurado em carne e osso no filme com as feições do ator Campbell Scott, é um amigo do casal que os acompanha nesta aventura de redescobrimento e passará a ser um dos alicerces indiretos dessa fase de Kit e Port.

Esse filme de Bertolucci mostra Kit e Port como dois poços sem água. Não existe qualquer alegria nestas vidas e o amor acabou se transformando no tédio, a ponto de tornar suas vidas um intenso conflito de ideias e vontades. O retrato é de um casal burguês norte-americano (e aqui o diretor manifesta sua crítica político-social) e o registro dos personagens é levado de maneira propositalmente maniqueísta. Para tanto, Bertolucci trabalha com opostos na imagem. As grandes paisagens – e aqui a fotografia nos presenteia com belas tomadas panorâmicas –, filtradas pelas câmeras do fotógrafo Vittorio Storaro (colaborador de Coppola em Apocalypse Now e do próprio Bertolucci em O Último Imperador), contrastam com o vazio interior do casal. São os paradoxos visuais do casal e dos cenários que Bertolucci retirou do livro de Paul Bowles e neles inseriu sua poesia imagética.

O texto que Bertolucci assinou com Mark Peploe utiliza estes paradoxos como auxílios de composição de personagens, estrutura e enredo. O roteiro não permite antecipação do desfecho, haja vista que o enlace das estruturas básicas do filme está muito bem distribuído. Apesar de a narrativa estar classicamente dividida em três atos (primeiro são apresentados os personagens, depois os conflitos, para então a solução), o filme possui algumas tiradas inteligentes, como as ironias dramáticas que compõem o personagem de John Malkovich. Em tempo, Malkovich mostra a virtude habitual ao compor um personagem que, assim como manda a escrita, é uma caricatura de si mesmo, afundado na solidão do seu próprio vazio interior. A emoção pulsante vem de cenas a princípio menos importantes, mas gradativamente ganham genuinidade, com pequenos gestos e olhares. É mesmo uma atuação inspirada.

Há algumas perdições no filme, como a cena em que Port vê que está sendo roubado e, ao  recuperar sua carteira, faz questão de mostrá-la ao bandido. É interessante lembrar-se do vazio interior dos personagens porque é justamente de lá que vem toda a síntese das interpretações – tanto de Malkovich quanto de Winger, esta também abertamente confortável como Kit. É menos um filme de performances exageradas que buscam centralizar a atenção para si e mais da leveza destes paradoxos visuais entre os grandes cenários e a pequenez dos personagens que neles habitam.

(The Sheltering Sky, EUA, 1990)
Direção de Bernardo Bertolucci
Roteiro de Bernardo Bertolucci e Mark Peploe
Com John Malkovich, Debra Winger, Campbell Scott, Timothy Spall

09/01/2010

A Fúria


Seus personagens (e consequentemente seus filmes) são muito mais do que meras caricaturas de si mesmo. Não existe um filme autobiográfico nessa filmografia que vem desde os anos 70 nos surpreendendo a cada lançamento. Época, aliás, da emergente Nova Hollywood, onde juntamente com outros jovens diretores (Spielberg, Lucas, Scorsese, Coppola), influenciados pela Nouvelle Vague francesa, decolavam com suas promissoras carreiras com filmes cada vez mais inovadores (THX 1138, O Poderoso Chefão, Tubarão, Caminhos Perigosos, Star Wars). Esse cinema de influência/referência exercido por Brian De Palma tem em A Fúria mais um exemplar de um requinte cinematográfico (da conjuntura de seus movimentos técnicos e narrativos) bastante raro, e mesmo sendo um filme um tanto quanto preso às suas limitações narrativas, consegue, por ter um verdadeiro mestre sentado na cadeira de diretor, atingir a notabilidade.

A Fúria, em forma e conteúdo, nos transporta para um universo de inquietações, bem como se mostra um representante virtuoso desse cinema de exageros exercido por De Palma. E talvez “exagero” seja muito mais do que um onipresente substantivo masculino para descrever a obra de um cineasta deste calibre, portanto façamos as considerações necessárias. O “exagero”, neste caso, significa ousar, chegar aonde poucos chegaram, habitando temas e recursos para tanto. E aí o rótulo dado pela crítica a De Palma de um sub-Hitchcock mostra injustiça. Hitchcock desenvolvia seus filmes com elegância e concisão, sempre acreditando que o poder de uma história está na expectativa que esta cria sob o espectador – e não em cenas propriamente reveladoras, como assassinatos, por exemplo. Até aqui, a bem da verdade, De Palma tinha sim sua forte influência no cinema do Sir Alfred. Mas De Palma não parou no mesmo estacionamento de Hitchcock, ele foi além, extrapolando essa narrativa de diálogos rápidos e pungentes com generosas sequências com sangue e sexo – entre elas, algumas das melhores já filmadas, como o enforcamento no banheiro do metrô em Um Tiro na Noite e o “sexo lésbico” (também no banheiro, espaço depalmiano por excelência, assim como escadas) de Femme Fatale.

A Fúria, baseado no livro de John Farris, monta uma teia um tanto complexa de personagens. Peter Sandza (Kirk Douglas) é um ex-agente da CIA que está numa praia do Oriente Médio no ano de 1977 despedindo-se de seu filho, Robin (Andrew Stevens), garoto com poderes telepáticos, que está regressando aos EUA para ingressar em uma escola especial para paranormais. Sob a tutela do garoto, Childress (o lendário "fundador" do cinema independente John Cassavetes), também agente e amigo da família. Quando todos estão na praia uma espécie de ataque terrorista tem início e, supostamente, para Robin, seu pai torna-se uma das vítimas, enquanto Childress salva-lhe a vida. Na sequência seguinte vemos que o ataque foi uma farsa e que fora tudo planejado pelo próprio Childress. Peter percebe isso e consegue escapar, deixando o braço de seu "amigo" ferido. A partir daí, Peter inicia a busca por seu filho a todo custo e acaba encontrando uma garota (Amy Irving) com poderes semelhantes aos de seu filho.

De Palma nos mergulha numa atmosfera de tensão, seja ele retirado da própria ação dramática ou mesmo dos personagens e seus conflitos internos. O filme trabalha a desordem psíquica do ser humano - em planos e sequências bastante marcantes, como a do atropelamento em slow motion e com forte presença da música incidental do maestro John Williams e a própria sequência final, deixando transparecer certa homenagem/referência a Ladrão de Casaca, de Hitchcock. De Palma elucida isso de forma bastante apropriada, com uso da já citada forte presença da trilha de John Williams, que aparece sempre para espelhar as aflições dos personagens quando da falta da palavra.

São virtudes a serem destacadas, principalmente diante da fraqueza do roteiro que o próprio John Farris assina. Este texto de Farris é até um tanto careta quando pensado em representação exclusiva nesta mídia (mesmo sendo uma adaptação literária, o filme teria que se sustentar sozinho), pois parece sempre buscar a organização de uma grande estrutura dramática para, no final das contas, revelar o total vazio. O grande arco lançado pelo roteiro (e certamente as questões levantadas para análise são interessantes) acaba se sucumbindo pelo final broxante que nos é mostrado, onde todo arcabouço pensado durante o filme termina impotente. O filme funciona satisfatoriamente por termos um diretor concentrado em colocar ao menos coerência entre as motivações dos personagens e as ações destes - nunca mecanizando seu filme em detrimento de uma estilização de autor.


(The Fury, EUA, 1977)
Direção de Brian de Palma
Roteiro de John Farris
Com Kirk Douglas, John Cassavetes, Daryl Hannah, Amy Irving

07/01/2010

O Ovo da Serpente


Assistindo O Ovo da Serpente hoje, mas de 30 anos depois de sua feitura, ainda fica explícita a capacidade que tinha Ingmar Bergman em construir mundos seus, mas compartilhados com o público através de temáticas sombrias e realistas, que mostravam sempre a obscuridade da psique humana. Essas marcas estritamente bergmanianas – bem como seus ensaios filosóficos sobre as incompatibilidades do amor e a finitude da vida – compõem este universo traçado pelo diretor ao longo deste filme que, se não faz parte do hall dos melhores de Bergman, ao menos se assenta como um interessante estudo sobre a alvorada do nazismo. As possibilidades de um mundo dominado por poderes institucionalizados permeiam com certa verborragia este argumento de Bergman. A megalomaníaca ciência torna-se parte de sua vida. Desta vez, porém, os ditirambos do mestre da imersão psicológica não vão muito além de um denuncismo – muito talvez em virtude das pressões sofridas pelo estúdio – a MGM. Não raro que O Ovo da Serpente tenha sido filmado na época em que Bergman esteve refugiado na Alemanha por causa de problemas com o fisco sueco.

O Ovo da Serpente é uma das raras investidas de Bergman no cinema de língua inglesa e por isso traz David Carradine como o protagonista. Ele é Abel Rosenberg, um trapezista que vive na Berlim do ano de 1923, ainda saboreando o fim da primeira grande guerra. Abel está desempregado, mas consegue um abrigo na casa de um cientista, que acaba lhe oferecendo um emprego. Depois de algum tempo Abel começa a descobrir alguns movimentos estranhos que acontecem na casa e passa a desconfiar do cientista. Mal sabia ele que aquilo tudo tinha a ver com a misteriosa morte de seu irmão. Era a Berlin onde se proclamavam os direitos humanos, e a política estadista defendia os ideais da liberdade e democracia, mas também se idolatrava a alvorada do nazismo que, apesar de ainda não estar “em curso”, já dava seus sinais de nascimento. Essa mesma civilização alemã, terra de Einstein e Beethoven, é mostrada por Bergman em seu novo caminho à destruição.

Os exercícios psicológicos propostos por Bergman são pesados, mas não atingem o nível de introspecção de outras análises suas como em O Sétimo Selo e A Hora do Lobo. A pequenez interiorana do protagonista (ainda que traga consigo um David Carradine em inspirada interpretação) contrasta com a grandiosidade de uma Alemanha poderosa – este é um dos paradoxos do filme. Bergman projeta uma crítica às atrocidades que o homem aplica ao próprio homem, usando como pano de fundo uma cidade onde justamente alguns anos depois os maiores genocídios já registrados seriam realizados. Esta aplicação do diretor funciona bem, haja vista a proporção dantesca dos fatos, pois sua direção aproxima o nazismo com uma ambientação sombria e pungente.

A fotografia é de Sven Nykvist – que pode não demonstrar, mas se analisada sua obra com cuidado, podemos encontrar um verdadeiro artista neogótico -, por isso a iluminação dos planos é delicadamente afundada na saturação, deixando estes quadros com visual quase monocromático. Essa ambientação ajuda o espectador a envolver-se de maneira mais profunda com o filme e, principalmente, com seu protagonista.

Na plasticidade das cenas, Bergman não deixa de mostrar o seu melhor, pois a distribuição dos personagens nos quadros e toda construção da mise em scène são coisas naturais em seu cinema, é mesmo um dom que vem do berço – ainda mais quando falamos de um cineasta autodidata. Precisamos nos concentrar nos personagens, e isso Bergman nos permite através de uma movimentação de câmeras suave e discreta, nunca deglutindo seu objetivo principal: o estudo do psicológico humano. Os problemas do filme não estão centrados na representação dos personagens e sim na elaboração de seus conflitos internos. Até mesmo a narrativa, que em sua letargia nos parece onipresente, mostra-se frágil e desequilibrada, alternando entre o inicialmente esboçado thriller e o drama psicológico.


(The Serpent Egg’s, EUA/Alemanha, 1977)
Direção de Ingmar Bergman
Roteiro de Ingmar Bergman
Com David Carradine, Toni Berger, Heinz Bennent, Erna Brünell, Paula Braend


Depois de reunir um elenco estrelar em Queime Depois de Ler e arrancar elogios quase unânimes da crítica mundial, os irmãos Coen parecem ter realmente seguido o embalo do último. Desta vez, com elenco menos conhecido, Um Homem Sério parece manter todas as características do cinema ácido e feroz dos irmãos. Abaixo tem o link (infelizmente sem legendas) para um pequeno clipe, com alguns trechos de entrevistas (inclusive com os diretores). Os elogios empolgam.

Veja aqui: Um Homem Sério


Para sermos espectadores de Pasolini precisamos aprender a nos relacionar com suas intenções. Se possível, deixando de lado as polêmicas que envolvem seu nome e, por consequência, seus filmes. Em O Evangelho Segundo São Mateus, é notável apenas pelo título que não estamos falando de um filme para todos os públicos. Nessa poesia imagética que Pasolini nos recita, existem certos conceitos que precisam ser levados em consideração. A visão do diretor é extremista e largamente politizada. Via de regra, nesta poética de Pasolini, tudo tem carga simbólica e pouco se contesta o evangelho. Além disso, uso mediado da violência o difere de outros filmes que navegam sobre esta temática “da religião”. Talvez por isso tenha sido incluído na lista do Vaticano com os 45 filmes de temas religiosos aprovados pela Igreja.

Em O Evangelho Segundo São Mateus, o primeiro aspecto que se destaca é peso das medidas que Pasolini organiza neste filme. A visão pasoliniana de Cristo (ou da trajetória dele na Terra) é tomada pelo poder da palavra. O Cristo de Pasolini tem em seu semblante uma jovialidade carismática, que se configura em sua personalidade. Jesus é extremamente impaciente com algumas atitudes do homem, como a incompreensão das escrituras de Deus e as más interpretações de seus ensinamentos, além da falta de fé. Ao mesmo tempo, o ator Enrique Irazoqui (em excelente personificação), que interpreta o filho de Deus, parece bastante tolerante quanto a essas bagunças internas que o homem faz na criação de seu Pai, sempre se colocando amigável frente a essa “problematização”. A humanização de Cristo está muito mais concentrada nos efeitos dramático-psicológicos do que nas evitáveis cenas de tortura – se há violência nas imagens de O Evangelho Segundo São Mateus é muito por causa do psicológico e pouco por causa da agressividade carnal. Nesta poesia contempladora de Pasolini sobra espaço para o vislumbre das imagens, pois seu diretor acredita no poder destas enquanto contadoras de histórias. É muito mais um filme de imagens do que diálogos. Para Pasolini o silêncio da contemplação também é um ótimo diálogo.

Também não se preocupa Pasolini em revigorar a estética visual de seu filme, já que, em se tratando de um filme de época, seria natural o apelo por uma cenografia pomposa e mítica. Nada disso. À exceção dos figurinos, tudo foge a regra das produções que foram lançadas durante as décadas de 50 e 60. Segundo Pasolini, para exprimir a realidade da realidade precisamos versar sobre os objetos e as pessoas antes de nos preocuparmos demasiadamente com a reconstituição histórica ou a contextualização dos mitos. O elenco é de não-atores (Maria, inclusive, é vivida pela mãe do cineasta) e por isso usamos nesta análise o termo personificação. Enrique Irazoqui, o Jesus do filme, salienta essa percepção do diretor quanto à essência interpretativa que não é mesmo que atuações. São personagens protegidos pela neutralidade, onde as sensações chegam ao espectador em forma de emoção genuína.

É a história do Filho de Deus que Pasolini nos quer relatar. O Evangelho Segundo São Mateus ilustra como Cristo atraiu milhares de seguidores, conquistou e fiéis e operou seus milagres divinos. Como mostrado por Pasolini, Jesus é de uma parcimônia notável, seu discurso é inflamado. O filme segue os textos de Mateus sobre todas as etapas da vida de Cristo, e vai do nascimento a ressurreição. É mais no mais humano do que no divino que Pasolini projeta sua visão (a visão Mateus, para melhor dizer), pois enquanto mostra um homem caridoso e afetivo deixa transparecer uma grande irritação quanto à hipocrisia dos homens.

Plasticamente, este talvez seja um dos filmes mais econômicos de Pasolini, no que diz respeito à confecção de cada plano. Singelas, as cenas mostram o embate entre o milagre e os personagens, pois são eles que irão problematizar a fé. É tudo mostrado através de uma leveza de cortes. A direção de Pasolini é certa de que as coisas precisam ser mostradas, mas não necessariamente discutidas em prol de um argumento esteticista. A busca é pelo entendimento, não pela explicação. É também de se estranhar que o registro mais fiel já feito no cinema sobre a vida de Jesus seja obra de um cineasta comunista – a nível de curiosidade, Pasolini foi preso em 1962, por desrespeito à Igreja. Talvez seja por isso (por essa busca incessante pela realidade) que Pasolini tenha deixado de lado a carreira de escritor para seguir no cinema.

O Evangelho Segundo São Mateus não é um discurso para as massas, é, a rigor de sua complexidade, uma forma do pensar, “do amor pela vida que pulsa dentro das coisas”, como ele mesmo define. É um filme de uma paixão intensa e a proposta da imersão total funciona alegremente. A radicalidade dos posicionamentos ideológicos de Pasolini está presente em dosagens menores aqui, mas nunca posta como mero artifício para configurar uma estetização narrativa.

(Il Vangelo Secondo Matteo, Itália, 1964)
Direção de Pier Paolo Pasolini
Roteiro de Pier Paolo Pasolini
Com Enrique Irazoqui, Margherita Caruso, Susanna Pasolini, Marcello Morante, Mario Socrate, Settimio Di Porto, Alfonso Gatto, Luigi Barbini, Giacomo Morante, Giorgio Agamben