31/12/2009

Que venha 2010!!!

A todos os seres que visitam este blog, gostando dele ou não, um muitíssimo feliz ano de 2010. Hoje à noite, exagere na celebração. Temos certeza que 2010 vai ser tão bom quanto foi 2009 - que em breve será o ano velho da vez. E, claro, muitos filmes nessas cacholas. Até 2010!!!

Em ordem de preferência...

Avatar, de James Cameron

Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino

Gran Torino, de Clint Eastwood

Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle

Amantes, de James Gray

Deixa Ela Entrar, de Tomas Alfredson

O Lutador, de Darren Aronofsky

Abraços Partidos, de Pedro Almodóvar

Goodbye, Solo, de Ramin Bahrani

Polícia, Adjetivo, de Corneliu Porumboiu

Dragonball Evolution, de James Wong

G.I. Joe - A Origem de Cobra, de Stephen Sommers

Os Normais 2 - A Noite Mais Maluca de Todas, de José Alvarenga Jr.

Presságio, de Alex Proyas

Veronika Decide Morrer, Emily Young

Divã, de José Alvarenga Jr.

A Proposta, de Anne Fletcher

Verônica, de Maurício Farias

O Sequestro do Metrô 123, de Tony Scott

Milk - A Voz da Igualdade, de Gus Van Sant

25/12/2009

Katyn


A Polônia de Andrzej Wajda foi, dentre os países que sofreram os horrores da 2º Guerra Mundial (ou seja, praticamente todo o planeta), um dos mais espremidos pelas grandes potências – não só durante os conflitos, mas no pós-guerra. O massacre de Katyn, quando da época, fora atribuído aos nazistas de Hitler – e durante muito tempo essa falsa verdade histórica pontuou os livros de história. Posteriormente descoberta a veracidade dos fatos, um dos maiores massacres humanos foi então atribuído aos soviéticos de Stálin. Esse atentado contra a humanidade, bem como as invasões alemãs e soviéticas neste país – que ironicamente depois duelariam em trincheiras opostas nesta mesma guerra -, a dominação dos soviéticos até a queda do Muro de Berlin há 20 anos, isso é a imagem projetada deste filme um tanto careta do ponto de vista estético da linguagem cinematográfica, mas que sempre, como na maioria dos filmes de Wajda, tem algo a mais a dizer.

Os conceitos de Wajda são os mesmos de sempre, embora não apresentem mais a mesma desenvoltura com relação as suas intenções como no auge de sua (ótima) carreira. A esteta do artista de outrora agora padece em planos secos, câmera na mão, fotografia esverdeada e figurinos pomposos. Não há, obviamente, mal algum nisso, até porque estamos falando de um “filme de época”, desde que os personagens e argumento estejam também embutidos neste mesmo nível de atenção. Há até um certo maniqueísmo em Katyn, pois os maus são muito e somente maus. Essa abordagem mais influenciada e menos classicista adotada pelo diretor pode ter sua origem nos acontecimentos envolvendo seu pai, que lutou na guerra e morreu em Katyn. Como já recorrente no cinema de Wajda, as homenagens a seu pai e a todo exército polonês aparecem fortes (talvez mais do que nunca aqui) e expoentes, deixando claro sua visão antistalinista. O problema de Katyn é querer inserir as imagens do horror nos argumentos políticos, sem antes configurar melhor suas intenções. Sim, o filme é autobiográfico, em certo sentido, pois pai de Wajda morreu no massacre enquanto sua mãe esperava pelo seu retorno e ele só descobriu anos depois, exatamente como no filme, mas será que, neste caso específico, a busca incessante pela realidade não ultrapassa os valores artísticos deste cinema estilizado de Wajda?

Vejamos: o filme se passa em 1939, após a invasão da Polônia pelos nazistas, no estopim da guerra. Com isso, tropas russas ocupam o leste do país. Alguns milhares de oficiais poloneses são presos e enviados a campos de concentração. Andrzej, oficial polonês, se recusa a fugir com sua esposa Anna, pois quer honrar suas responsabilidades militares. Assim como todas as mulheres que viram seus maridos partirem rumo as incertezas de uma guerra, Anna anseia pelo retorno do marido, mas acaba recebendo a notícia de que ele tenha sido assassinado. Até que, por meados de 1943, grandes covas coletivas são encontradas na floresta de Katyn.

Assim como a maioria de seus filmes, Wajda globaliza suas atenções para a dor de uma família ao mesmo tempo em que apresenta-nos a selvageria da guerra. O impacto não é o mesmo dos seus melhores filmes (Terra Prometida, Cinzas e Diamantes, ou até mesmo de Doce Perfume, um dos ótimos lançamentos de 2009), mas ao menos assegura certo interesse em sua história. O cineasta preferiu sublinhar os horrores e aproximar-nos dos personagens, mas não há, praticamente em nenhum momento, uma identificação desta relação personagem-espectador. A emoção genuína que sempre marcou o cinema de Wajda parece um pouco antiquada e já não atinge mais como no auge da carreira do diretor – apesar de notável, o esforço de Wajda em construir um filme identificável não resulta em poderio afetivo, ou até mesmo estético-narrativo, pois Katyn, como já disse, parece um tanto brega. Talvez seja esta a diferença – que Wajda parece ter esquecido - entre relatar sentimentos e emoções, e construir um filme realmente emocionante.

(Katyn, Polônia, 2007)
Direção de Andrzej Wajda
Roteiro de Przemyslaw Nowakowski, Wladyslaw Pasikowski, Andrzej Wajda
Com Artur Zmijewski, Maja Ostaszewska, Andrzej Chyra, Danuta Stenka

23/12/2009

Críticas rápidas

500 Dias Com Ela, de Marc Webb (EUA, 2009)

Ele acredita que duas pessoas podem dividir o amor. Ela não. Na superfície, [500] Dias Com Ela é apenas mais uma comédia romântica “da hora”, mas em sua desenvoltura é um pouco mais do que isso. Não é, afinal como diz o narrador, uma história de amor, e sim da descoberta deste. Joseph Gordon-Levitt (um dos melhores talentos jovens do cinema norte-americano) é Tom. Zooey Deschanel é Summer. A relação que nasce entre eles é fruto de uma criativa e agradável narrativa neste debut do diretor Marc Webb. Apesar da fórmula do gênero estar presente (apresentação dos personagens, conflito, volta por cima), o filme de Webb a utiliza com elegância neste interessante filme. As referências pop (trilha, diálogos), no entanto, parecem apenas querer esboçar um interesse, mas ele provém dos protagonistas e não de artificialismos. Nota: 6.5


A Questão Humana, Nicholas Klotz (França, 2006)

A universalização de um tema que nos leva a reflexão sobre este nosso mundão globalizado é o cerne deste competente filme de Nicholas Klotz. No papel principal, Mathieu Almaric esbanja precisão, como sempre. A direção de Klotz é urgente, trata de cada plano com atenção necessária para com a disposição dos elementos cênicos. Mantém o filme focado em seu tema, não se perdendo no forte e importante subtexto sobre o nazismo, já que seu filme fala do hoje, do presente. Não existem metáforas, as coisas são postas como realmente são, sem artificialismos. Nota: 8.0


Feliz Natal, de Selton Mello (Brasil, 2008)

A superposição de temas e propostas faz da estreia de Selton Mello na direção uma agradável surpresa. Seu filme, este Feliz Natal, acaba configurando numa história simples, porém profundamente intimista. E neste clima Selton constroi sua teia de personagens (mãe alcoólatra, pai que namora mulher décadas mais nova, amigos da farra, irmão) sob o constante olhar atento de sua câmera, sempre posta para closes nos rostos dos personagens, retirando destes sua mais profunda relação com a vida. É filme de visual equilibrado e bem definido (cores escuras, visual monocromático), que propositalmente alinha-se aos sentimentos de seus personagens. Nota: 7.5


Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet (França, 2008)

Talvez este filme de Laurent Cantet seja o exemplar do ano para a significação do estado das coisas no cinema. A crítica ao sistema educacional não é objetivo, é função. Além disso, a variedade das culturas faz parte também deste universo realista-documental de Cantet. Existe uma busca pela situação dos acontecimentos reais a partir dos posicionamentos escolhidos por Cantet. É como se Entre os Muros da Escola quisesse mostrar ações e reações espontâneas de seus personagens – e nisso o filme é bem sucedido -, que pudessem acontecer se as câmeras não estivesse os observando. Onde reside a sensibilidade deste filme? Na sinergia dos personagens, que não precisam ser estudados pela câmera fora da sala de aula, pois o foco do filme não é tão somente no contexto social das coisas na França (e no mundo), mas deliberadamente no choque entre as culturas. Nota: 8.0


Noivas em Guerra, de Gary Winick (EUA, 2009)

Nada compensa tanta patetice dramática. Neste filme antitudo de Gary Winick, nem mesmo as duas personagens centrais, vividas por Kate Hudson e Anne Hathaway, conseguem espantar a zica. As duas amiguinhas precisam decidir qual delas vai desistir do casamento para a outra poder se casar no dia esperado. A caretice é tamanha que fica difícil distinguir as boas das más interpretações do elenco. Mas, de soslaio, dá para dizer Kate Hudson ainda precisa comer mais feijão com arroz para chegar perto de Anne Hathaway. Nota: 2.5


This Is It, de Kenny Ortega (EUA, 2009)

O maior ícone da música pop mundial se foi, em 25 de junho deste ano, mas nos deixou um presentinho. This Is It, o testamento de Michael Jackson veio para mostrar que ele estava mais vivo e disposto do que nunca. O material recolhido por Ortega condensa cenas e ensaios dos mais inspirados do astro. As danças, a voz, a vontade de criar espetáculos, o perfeccionismo e a energia. Está tudo lá. É um documentário-testamento que registra os últimos momentos de um dos maiores artistas da música mundial. O melhor de tudo é que MJ está de microfone aberto e nós presenciamos tudo, inclusive suas demonstrações de paixão por seu trabalho e equipe. Nostalgia pura. Nota: 8.0


Vá e Veja, de Elem Klimov (Rússia, 1985)

A essência deste filme de guerra perturbador de Elem Klimov reside nos paradoxos políticos de seus personagens, não nos conflitos e nas explosões em trincheiras. A construção da história tem pé no personagem, e nele o filme se sustenta e se constroi – dentro de nós. Klimov projeta seu filme com a potência nas imagens e a aproximação da psique do protagonista, um jovem “gentilmente forçado” a servir ao exército durante a Segunda Guerra. Aos poucos, o horror da destruição consome sua alma e o transforma, degradando sua integridade e esperança. Um filme importante, sendo um dos mais respeitados sobre a Segunda Guerra. Nota: 8.0

21/12/2009

Abraços Partidos


O plano de abertura de Abraços Partidos já dá as cartas logo de cara: este é um filme de Pedro Almodóvar. Nesta primeira sequência, vemos o capricho com que este cineasta filma o sexo. Esses e outros quesitos (além do idioma) tornam os filmes deste diretor facilmente identificáveis. O colorido dos cenários, as interpretações contidas dos atores e exageradas das atrizes também contribuem para marcar esse registro exclusivamente Almodóvar. Abraços Partidos possui essa verve artística, mas nunca abandona o seu conteúdo em detrimento de uma estilização. A busca é pelo entretenimento através da arte, nunca o oposto.

Existe, como é comum no cinema deste diretor, um apelo muito grande pelo design das cenas, e em Abraços Partidos esse desenho visual nos proporciona quadros tão belos quanto inusitados. Mas Almodóvar é um cineasta, um pintor das imagens. E essa arquitetura diegética que às vezes parece neogótica nos transporta para um mundo somente seu, onde o irreal facilmente nos parece crível e aceitável. Na captação das imagens, Almodóvar é imbatível. A beleza da mulher, o sexo, o colorido de seus filmes – aqui um contraponto dentro do filme, quando todos parecem tão sem vida, as cores iluminam suas almas. Almodóvar filma tudo com precisão cirúrgica, um verdadeiro regozijo para os sentidos. O vermelho que começa a delinear o corpo de Penélope Cruz (e carros, casas, quadros, móveis) é o da paixão deste diretor – ou como em outros filmes, o vermelho da pimenta (Volver) e do suco de tomate (Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos). Esse Almodóvar!

O vermelho com que pinta é corajoso, não mostra medo de borrar o quadro, versa sobre seus temas preferidos e homenageia o cinema. Penélope Cruz, travestida pelo elemento vermelho de Almodóvar, é por alguns momentos (e belos planos almodovarianos) Audrey Hepburn – e essa é apenas uma das gags referenciais do filme. Abraços Partidos tem também um filme dentro de si, por isso a máxima “um filme dentro de um filme”. A trama gira em torno de um cineasta que, após um grave acidente de carro, perde a visão e a mulher que ama. O diretor é Mateo Blanco (Lluis Homar), ou Harry Caine, como pseudônimo adotado após o acidente. A mulher é Lena (Penélope Cruz). O filme do qual Lena, que namora um magnata ciumento, é protagonista, chama-se Garotas e Malas (releitura de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos) – e é dentro do processo de execução deste filme que Almodóvar alfineta os grandes estúdios que abocanham as montagens dos filmes. Como todo bom cinéfilo, Almodóvar defende o cinema, e este é também um filme para e pelo cinema.

Essencialmente Abraços Partidos é um melodrama, mas conforme a narrativa se desenvolve demonstra que o humor está presente. Além disso, Almodóvar, em uma de suas referências, homenageia Hitchcock (os closes, os enquadramentos), na maneira com que posiciona os olhares de suas câmeras e, principalmente, em algumas cenas (como a da escadaria, por exemplo) onde injeta tensão. Em certo momento, Viagem à Itália, de Rossellini, surge na tela, em mais uma homenagem/referência. Mas este não é um filme de Gus Van Sant. Tudo faz sentido e encaixa-se harmonicamente dentro do filme. O vai e vem da narrativa, que é entrecortada pelos flashbacks (aliás, muito bem organizados pelo diretor) de Harry Caine são de uma fruição de causar espanto. A simplicidade da história, não fosse Almodóvar um exímio escritor de enamoramentos, poderia resultar em apenas mais um filme dessa geração cheeseburguer, mas estamos falando de um cineasta cuja verve artística ultrapassa a caretice contemporânea. É mesmo um filmaço.

Em seus pormenores, temos uma interpretação masculina vigorosa de Lluis Homar como Mateo Blanco/Harry Caine. Homar é um intelectual, um diretor de cinema trabalhador e que busca sempre a perfeição em seus filmes. A construção desse personagem em especial é o que encanta. A personalidade forte de Mateo antes do acidente que lhe tirou a visão logo o transforma em outra pessoa (não somente por causa de seu pseudônimo) pela doçura de sua fala e densidade com que vive os momentos de prazer (como escrever um roteiro), pois ele aprendeu com as dificuldades da vida que a culpa pelo seu olhar o levará ao nada. Penélope Cruz, que dá vida a Lena, não merece menos elogios. Sua persona no filme, em imagem e semelhança, aproxima-se do Olimpo das grandes performances do ano. É Penélope quem, travestida de Audrey Hepburn, nos proporciona um dos planos mais bonitos do filme (na verdade, no filme dentro do filme, quando sentada tomando café). É uma interpretação de expressões, onde a plasticidade do olhar é o melhor diálogo.

Assim como em toda filmografia de Almodóvar, Abraços Partidos é um filme pessoal, legitimado como “de autor”. Acompanhar o processo de desenvolvimento de una película pelas vistas de um cineasta com o vigor de Almodóvar é mesmo um prazer. Este cinema de sensações e imagens tão belas quanto complexas é o que alimenta nosso intelecto cinematográfico. Essa potência estético-narrativa – algo típico em se tratando de Almodóvar – é o oxigênio desse cinema de autor em questão. Subverter os gêneros não é tão importante (nem um objetivo) em Abraços Partidos, mas sim buscar algo bastante humano em situações até um pouco fantásticas.

(Los Abrazos Rotos, Espanha, 2009)
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Penélope Cruz, Lluís Homar, Blanca Portillo, José Luis Gómez, Tamar Novas, Rúben Ochandiano, Lola Dueñas

Segundo a ONG Plane Stupid, cada passageiro que embarca em qualquer voo da Europa é responsável pela emissão de, aproximadamente, 400 kg de gases causadores do efeito estufa.

Olhem o vídeo - muito bem feito, diga-se - acessando o link abaixo e julguem vocês mesmos.


http://www.youtube.com/watch?v=fxis7Y1ikIQ&feature=player_embedded


A Imagem Filmes, responsável pela distribuição de Guerra ao Terror - ótimo filme da diretora Kathryn Bigelow - no Brasil, anunciou que o filme será lançado nos cinemas brasileiros em fevereiro, devido ao grande apelo que o filme vem recebendo da crítica, do público e das premiações que já o glorificaram e/ou indicaram. Estranho, não? Ou a Imagem não acredita no conteúdo artístico e entertainer dos filmes que distribui ou isso é apenas um descaso para com o público brasileiro? Prefiro acreditar na primeira opção. Bem, de qualquer forma, o filme tem estreia prevista para 5 de fevereiro.

Trailer? Aqui ó: Guerra ao Terror

16/12/2009

Z


Talvez seja parte de um grande pleonasmo afirmar que o currículo cinematográfico de Constantin Costa-Gavras se apoia sob as mazelas dos poderes públicos institucionalizados e partidários. Os filmes deste diretor realmente são movidos pela política, como Tropa de Choque – primeiro filme de cunho político mais assumido do diretor. Mas seria com seu próximo filme, justamente este Z, que Gavras se posicionaria definitivamente como um dos maiores críticos dos regimes políticos do mundo – depois ainda realizaria alguns filmes sobre ditaduras, como Missing (talvez o melhor deles), sobre o governo de Pinochet no Chile.

Os créditos iniciais já assumem um engajamento muito peculiar em filmes do diretor grego radicado na França, pois dizem que qualquer semelhança com pessoas reais não é mera coincidência e sim intencional. A montagem e alternância entre o discurso politizado, o suspense hitchcockiano e denúncia sobre leviandade do poder elevam seu poderio fílmico. As motivações dos personagens nunca são postas acima das motivações do filme, e isso configura num respeito mútuo entre Gavras e seu elenco, que, via de regra, está elegantemente bem posto dentro de cada plano – e seus diálogos nunca são rasos e/ou gratuitos.

O filme se inicia já em clima de total tensão – e é essa a real proposta, da imersão total. Basicamente, a trama gira em torno do assassinato de um político de esquerda que fora cometido com ares de acidente. A partir daí, as lentes e os ideais de Costa-Gavras investigam o caso, através de um inspetor é retratado o caso Lambrakis, escândalo na política grega nos anos 60 onde a morte de um político esquerdista foi encoberta pela direita, em uma rede de corrupção que envolveu a polícia e o exército militar. Nessa atmosfera nada amigável, o diretor constroi um filme espantosamente ambíguo, mas sempre mantendo seus argumentos sob a guarda da antineutralidade.

Também é mérito do diretor não deixar seu filme tomar partido por nenhuma manifestação massiva de revoluções, assim, seu filme escapou de um registro comunista stalinóide. São os assuntos políticos que alimentam a vertente criativa deste diretor, bem como seu equilíbrio e elegância na composição dos planos, que fazem de Z um filme quase mitológico. Aqui, o diretor faz a denúncia da anti-opressão e da manipulação dos poderes institucionalizados. O período e as circunstâncias retratadas em Z demonstram que aquela é uma época perdida em suas caricaturas. Ainda era possível separar os bons dos maus políticos.

A música de Mikis Theodoratis só vem a reforçar esta virtude classicista, além de provocar ainda mais tensão quando posta sob cenas de eletricidade textual de maior voltagem. A violência nas ruas, as perseguições de carro e as cenas internas são quase sempre preenchidas pelos arranjos pesados do compositor. Enquanto isso, a fotografia de Raoul Coutard aposta em ambientes escuros, quase sempre iluminando com ênfase o rosto do personagem em foco, como que lhe destacando. A exposição dos cenários internos também é muito bem tratada, pois o equilíbrio da luz - e aí temos as sombras, as cores estouradas - é elegante. O visual é quase monocromático, desvaloriza as cores quentes e sobrepõe a escuridão – como a psique de seus personagens.

Gavras não faz concessões à estética consolidada pela indústria cultural, já que não é objetivo de Z levar sua mensagem a um grande público. A rigor, há uma combinação de duas coisas no cinema de Costa-Gavras, ele as mistura e cria um todo austero, potente e provocante. O cineasta levanta questões políticas e as transforma em um thriller de ação. Mas Z é um filme maniqueísta, onde os homens bons são sempre bons e os maus, sempre maus. Não deixa de ser o cinema de arte francês, mas também tem um ar comercial. Este é o cinema polarizado de Costa-Gavras. Esse é o estilo Costa-Gavras de filmar. Com a política pela música e pelo cinema.

(Z, França, 1967)
Diretor: Costa-Gavras
Com Yves Montand, Irene Papas, Jean-Louis Trintignant, Jacques Perrin, Charles Denner

14/12/2009

Críticas Rápidas

Casamento Silencioso, de Horatiu Malaele (Romênia, 2008)

O diretor Horatiu Malaele nos convida para esta festa de casamento onde assistimos a tudo como se estivéssemos lá, com planos bem postos e uma grande presença de elenco, nos sentimos envolvidos com esta história. No final, os sentimentos são os mais diversos. Na há falso-moralismo. Não há preocupação em retratar o período histórico. A proposta de Casamento Silencioso provém de outra ordem: um registro sobre o amor e a família. Existe, por trás deste bonito filme romeno, um quê de expansão dos sentimentos, e esta mensagem nada metaforizada, totalmente explícita, portanto, é o que nos faz alegrar ao término da sessão. Nota: 8.0


Quatro Noites Com Anna, de Jerzy Skolimowski (Polônia, 2008)

A estética do silêncio e a exploração de uma narrativa carregada de voyeurismo é a grande virtude deste filme do polonês Jerzy Skolimowski – após 15 anos longe das câmeras. A detalhada edição sonora, que trabalha com ruídos e qualquer detalhe que lhe possa agregar amplificação, é outro mérito de Quatro Noites Com Anna, filme povoado pelo silêncio da palavra. A inventividade não é o forte deste filme (nem seu objetivo, diga-se), mas a construção de uma história sob aspectos edipianos e que trabalha na construção de um personagem perturbado, é o que faz o espectador colaborar curioso, sem assumir, no entanto, a culpa do olhar do protagonista. Nota: 7.0


Garota Infernal, de Karyn Kusama (EUA, 2009)

A expectativa pelo novo trabalho “da roteirista de Juno”, Diablo Cody, acabou por causar a retroalienação de Garota Infernal, pois gerou frustração e decepção. O texto não é ruim, as referências pop estão bem postas e manipulação dos clichês continua sendo o forte de Cody, mas a roteirista viu novamente seu argumento ser deglutido por uma direção precária. Karyn Kusama, a mesma de Aeon Flux, traduz o texto em imagens e planos infantis, tirando do filme qualquer proposta-alvo. Nem sustos, nem risos. Apenas a exploração da sexualidade de Megan Fox, a bola da vez neste quesito em Hollywood. O pior é que até nisso há frustração, pois Kusama sugere muito, mas mostra muito pouco do que poderia sustentar seu filme. Nota: 4.0


Garapa, de José Padilha (Brasil, 2008)

Ao abraçar a fome através de um registro documental, José Padilha nos convida a viver com três famílias que sobrevivem no limite máximo da miséria. Os personagens da vida real de Garapa tomam água com açúcar – daí o título – para enganar a fome. É um soco no estômago. Crianças doentes, pais alcoólatras, mães desempregadas e alienadas. Falta tudo, portanto seria redundante aqui fazer citações. O filme não tem trilha, o som é todo direto das cenas, praticamente sem efeitos e edições. A fotografia, em preto e branco, no entanto, reitera desnecessariamente essa estetização, pois a ausência das cores, neste caso específico, chama mais atenção para a “estética da fome”. O foco do filme, a princípio, é outro: mostrar a qualidade de vida de mais de 30 milhões de pessoas no mundo. Nota: 8.0


Tango, de Carlos Saura (Argentina/Espanha, 1998)

O tango argentino é a fonte de inspiração de Carlos Saura (do mais recente Fados). Não é seu melhor filme, mas não há dúvidas de que o diretor espanhol é dono de uma categoria muito peculiar no processo de filmagem. Seus planos e movimentos de câmera estão sempre em perfeita harmonia com sua narrativa. Em Tango, a paixão do diretor pela música está em cada detalhe, não nos personagens, estes apenas fazem parte de um todo para representar um clichê – no bom sentido, se possível. A fotografia do filme é belíssima, com vasta exploração do contraluz. Este é o cinema de Saura. A música pelo cinema e o cinema pela música. O final tem o carimbo certeiro de um cineasta conhecedor de sua arte. De suas artes, para melhor definir. Nota: 7.5


Miranda, de Tinto Brass (Itália, 1985)

Antes de analisar um filme precisamos nos relacionar com suas intenções. No caso do cinema de Tinto Brass, o erotismo. E pode ser graças a seu estilo, que o cinema erótico ainda respira. Não existe vulgaridade na visão de Tinto Brass, o que há é a análise e exploração do erotismo como um conjunto de expressões. Brass busca em Eros, Deus grego do amor, sua inspiração. Miranda, apesar de manter as tradições do seu cinema, passa longe da experiência de um Calígula ou Todas as Mulheres Fazem. Miranda, a personagem, enquanto espera pela volta do marido que está em guerra, relaciona-se com vários homens. Tudo isso para descobrir que o amor pode estar olhando para ela bem de perto há tempos. Nota: 6.0


Deixa Ela Entrar, de Tomas Alfredson (Suécia, 2008)

O desejo pela descoberta de dois adolescentes é o cerne de Deixa Ela Entrar. Ele é um freak que apanha da turminha do “mal” na escola. Ela uma vampira. Embora seja um filme de gênero, não é difícil perceber o enamoramento de seus personagens. E a maneira com que o diretor Tomas Alfredson conduz essa história de amor sanguinário é nunca menos que competente, a ponto da cena do beijo, que vem carregada de sangue, possuir a face do desejo. Os corpos de Eli e Oskar vivem numa polaridade intensa (e a proposta é justamente essa, da imersão completa e profunda) de desejo e destruição. É por isso que Deixa Ela Entrar é um panorama subversivo do cinema de gênero contemporâneo. Nota: 8.5


Besouro, de João Daniel Tikhomiroff (Brasil, 2009)

É no recôncavo baiano que nasceu Besouro, o maior capoeirista de todos os tempos. O filme de João Daniel Tikhomiroff busca inspirações no livro Feijoada no Paraíso, do escritor Marco Carvalho. A história é interessante, mas mal conduzida. A paixão de Besouro pelo seu povo ou por sua amada Dinorá? Qual vale mais? Daniel fica em cima do muro. No filme, O excesso de didatismo dos textos que aparecem na tela é culpa da fragilidade de suas imagens? Apesar disso, a construção da atmosfera onde a ação se passará é bem realizada, com coreografias de lutas (que são de Huen Chiu Ku, o mesmo de Kill Bill e o Tigre e o Dragão) e corridas velozes por sob as árvores. Nota: 4.0


12/12/2009

Ladrão de Casaca

"Francamente, querida, eu não dou a mínima"



Na obra de Alfred Hitchcock existem diversas marcas que fizeram deste cineasta inglês um dos maiores do cinema. A valorização da imagem, da sombra e do espaço – técnicas aprendidas com outros mestres, como Murnau e Fritz Lang, do chamado “cinema puro”. Para Hitchcock, o conteúdo não era o mais importante se a linguagem produzisse algum efeito sobre o espectador. Dizia Hitch que a emoção da cena de um assassinato não existe, o que cria o suspense no espectador é a expectativa. E a expectativa é o ingrediente básico de Ladrão de Casaca, derradeiro filme com umas mais talentosas e belas mulheres da história da Arte, Grace Kelly.

Nos planos de Ladrão de Casaca temos a elegância habitual do diretor. Os planos gerais que se transformam em planos fechados com o uso do Dolly (câmera que se aproxima do objeto, diferente do zoom, pois é a câmera quem faz o movimento fisicamente), a presença da mulher, o artesanato dos cenários. Tudo faz parte do projeto de cinema de Hitchcock. No entanto, desta vez parece que há uma preocupação com a estética (visual) que parece apontar para o vazio. As paisagens panorâmicas, ou melhor, o excesso delas, parecem existir apenas para dar ênfase ao charme da Riviera, sendo que esse perfume francês já nos é apresentado sob a ótica de outros planos (como o dos fogos de artifício, por exemplo). Há, aqui, uma redundância. E isto não é habitual na obra hitchcockiana.

Cary Grant vive John Robie, também conhecido como 'Gato'. Robie é ex-ladrão de jóias, se é que isso existe, e está na Riviera Francesa quando tem início uma onda de roubos de jóias da alta nata francesa. O problema é que o ladrão utiliza-se do mesmo estilo dos assaltos de Robie. A polícia, convencida de que Robie é o tal ladrão, inicia uma busca. Mas ele escapa da polícia numa daquelas fugas fantásticas para tentar encontrar o impostor antes que vá parar atrás das grades por crimes que ele não cometeu. No meio de tudo, claro, há uma bela mulher, Frances, que ganha nos lindos traços de Grace Kelly uma elegância clássica bastante peculiar em filmes deste diretor.

A rigor, na beleza de Grace Kelly e na elegância de Cary Grant, Hitchcock tem aqui seu filme mais romântico. Não tão somente pelo envolvimento que os personagens destes dois astros assumem durante o filme, mas pela maneira com que o diretor conduz essa relação. Muito desse romantismo vem do roteiro de John Michael Hayes, que via diálogos rápidos e inteligentes, além do humor negro habitual em filmes de Hitchcock, cria uma atmosfera perfeitamente saudável para os personagens, valorizando ainda mais os tour de force. A agilidade dos diálogos, aliás, é o cerne do cinema de Hitchcock, que dizia não gostar de arrastar os diálogos demasiadamente em uma cena, pois isso era coisa de “filme de gente falando”, coisa que ele abominava.

Em virtude de tudo, Ladrão de Casaca é um legítimo representante do cinema de Hitchcock e suas habituais marcas. Aqui, mais do que nunca, temos o humor negro e as insinuações sexuais (“Tenho a sensação de que esta noite você vai ver uma das vistas mais fascinantes da Riviera... Eu estava falando sobre os fogos de artifício!”) inseridas na trama de maneira inteligente, casando perfeitamente com a ambientação e o charme da Riviera Francesa. E neste de thriller romântico de Hitchcock, sobra espaço para as inovações, como as tomadas aéreas – pouco utilizadas até então, mas que começaram a aparecer mais a partir daqui. O cineasta instala o espectador no território confortável da perseguição, mas não deixa de lado o romance entre seus principais personagens. Apesar disso, Hitch investe pouco no suspense, deixando o mistério que envolve a trama ser o ingrediente mais importante. É sim um filme psicológico (nosso, não dos personagens, pois Hitchcock nunca demonstrou preocupação com a psique destes), que se faz dentro de nossas imaginações, como um quebra-cabeça. No entanto, descobrir quem é o ladrão de casaca antes da revelação final não é muito complicado – e aqui temos uma fraqueza do filme -, pois Hitch não conseguiu escapar da previsibilidade.

Na sofisticação da decupagem dos figurinos de Edith Head temos um trabalho grandioso, onde cada peça veste Grace Kelly com exatidão e significação. No começo, o estardalhaço do preto e branco, depois as cores quentes, para, enfim, surgir a leveza do branco. E já que estamos na Riviera Francesa, porque não ser este o branco da liberdade.

(To Catch a Thief, EUA, 1955)
Direção de Alfred Hitchcock
Roteiro de John Michael Hayes
Com Grace Kelly, Cary Grant, Jessie Royce Landis, John Williams, Charles Vanel

11/12/2009

Agora vai!

Depois de um mês sem atualizações, Tudo é Crítica volta à ativa. Nesse tempo off, totalmente proposital, deu pra criar um estoque de postagens. Portanto, caro e fiel leitor, o blog não será mais "desatualizado". Não deixará você "na mão". Dia sim dia não, uma nova postagem irá ao ar. A próxima, aproveitando a deixa, é a análise de Ladrão de Casaca, de Alfred Hitchcock.

Depois teremos muitos clássicos (Bergman, Pabst, Costa-Gavras, De Palma) e muito do cinema europeu (Honoré, Truffaut, Godard, Wajda, Kieslowski, Resnais, Almodóvar). Tudo já prontinho e com data certa para publicação. Espero que gostem. E vamos sempre ao cinema, pois tudo de que precisamos está lá. Não importa qual seja o filme. Mesmo.