Em sua terceira realização como diretor de longas, o pernambucano Heitor Dhalia demonstrou que, definitivamente, é um diretor com os olhos voltados para o estilismo visual. Dhalia valoriza a imagem e reproduz composições clássicas (como a câmera no fundo do mar guiada por uma trilha sonora levemente asfixiante, que, trepidante, acompanha o mergulho de algum personagem ou objeto) sempre que pode. Não perde uma oportunidade para compor planos detalhes, que sistematizam sua visão, seu projeto autoral de cinema. Exalta a dramaturgia esquemática, mas fala sobre seres humanos bastante críveis – na maioria das vezes através de planos assépticos, que são conduzidos pela melancólica trilha sonora dedilhada por Antonio Pinto.
A rigor, nota-se que o diretor evoluiu em alguns aspectos em relação a Nina e O Cheiro do Ralo, seus dois primeiros trabalhos. Se no primeiro regozijou-se com a estética, plastificando seu filme, no segundo centralizou as coisas, sistematizou as ideias. Em À Deriva, percebemos que Dhalia é realmente um diretor que confere grande parte da emoção genuína de seus filmes ao estilo visual e sonoro. O diretor nos entrega uma obra extremamente bem cuidada, e a ocorrência do extremo, como sabemos, é prejudicial, inoportuna. Sorte que, novamente, a história consegue interessar, pois o roteiro, assinado pelo próprio Heitor, complementa o que todo bom espectador busca quando vai ao cinema: emoção.
Dhalia foi inteligente ao contar uma história que, apesar da bastante utilizada por escritores cinematográficos, parece manter-se “inoxidável”, segura dentro um universo sensorial, pois relações familiares e extra conjugais nunca serão bregas e ultrapassadas no cinema enquanto existir bons recicladores de ideias. É a história de Filipa (Laura Neiva), uma menina de 14 anos que mora com seus pais e seus irmãos numa bela casa no meio paraíso (o filme foi filmado em Búzios, no Rio de Janeiro, mas não se passa lá na história). Em paralelo ao descobrimento das aventuras da adolescência, Filipa descobre que seu pai, o escritor francês Matias (Vincent Cassel) mantém um caso amoroso fora do casamento, enquanto acompanha a crise existencial de sua mãe, Clarice (Débora Bloch), uma professora que bebe um pouco mais de whisky do que deveria.
Em À Deriva, Dhalia troca a escuridão da paleta de Nina pela iluminação que valoriza mais as belezas naturais. Diante de tamanha maravilha, Dhalia mascara certas falhas de seu filme. O diretor sobrevoa o crescimento de uma adolescente passando pela puberdade, mas nunca chega a invadir literalmente sua intimidade – e isso poderia acontecer, pois o filme que vemos é filtrado através do ponto de vista da menina Filipa. Algumas cenas, inclusive, parecem soltas dentro do filme (como a brincadeira entre os jovens em que são feitas perguntas “perigosas”, ou a primeira vez em que Filipa aparece no meio das rochas com o postulante a namorado). Estas cenas apenas demonstram o interesse do diretor pelo tema, mas nunca o isentam da neutralidade.
Filipa é uma menina difícil, e Dhalia usa as bonitas composições sonoras de Antonio Pinto para demonstrar as aflições da menina. Algumas vezes, à luz da lógica, o diretor exagera no uso das músicas (que são lindas, mas usadas em demasia), tirando do silêncio o poder de imprimir o momento sentimental e psicológico dos personagens. Apesar disso, as imagens que o diretor proporciona, unidos ao competente trabalho do elenco (em especial Vincent Cassel, que fala português e francês, e Débora Bloch, que também se mostra bilíngue, claro, Dhalia e seus produtores querem vender o filme internacionalmente), emprestam suavidade, e a avidez do diretor em construir uma estrutura dramática calcada em seres humanos críveis, confere certa elegância ao filme.
A rigor, nota-se que o diretor evoluiu em alguns aspectos em relação a Nina e O Cheiro do Ralo, seus dois primeiros trabalhos. Se no primeiro regozijou-se com a estética, plastificando seu filme, no segundo centralizou as coisas, sistematizou as ideias. Em À Deriva, percebemos que Dhalia é realmente um diretor que confere grande parte da emoção genuína de seus filmes ao estilo visual e sonoro. O diretor nos entrega uma obra extremamente bem cuidada, e a ocorrência do extremo, como sabemos, é prejudicial, inoportuna. Sorte que, novamente, a história consegue interessar, pois o roteiro, assinado pelo próprio Heitor, complementa o que todo bom espectador busca quando vai ao cinema: emoção.
Dhalia foi inteligente ao contar uma história que, apesar da bastante utilizada por escritores cinematográficos, parece manter-se “inoxidável”, segura dentro um universo sensorial, pois relações familiares e extra conjugais nunca serão bregas e ultrapassadas no cinema enquanto existir bons recicladores de ideias. É a história de Filipa (Laura Neiva), uma menina de 14 anos que mora com seus pais e seus irmãos numa bela casa no meio paraíso (o filme foi filmado em Búzios, no Rio de Janeiro, mas não se passa lá na história). Em paralelo ao descobrimento das aventuras da adolescência, Filipa descobre que seu pai, o escritor francês Matias (Vincent Cassel) mantém um caso amoroso fora do casamento, enquanto acompanha a crise existencial de sua mãe, Clarice (Débora Bloch), uma professora que bebe um pouco mais de whisky do que deveria.
Em À Deriva, Dhalia troca a escuridão da paleta de Nina pela iluminação que valoriza mais as belezas naturais. Diante de tamanha maravilha, Dhalia mascara certas falhas de seu filme. O diretor sobrevoa o crescimento de uma adolescente passando pela puberdade, mas nunca chega a invadir literalmente sua intimidade – e isso poderia acontecer, pois o filme que vemos é filtrado através do ponto de vista da menina Filipa. Algumas cenas, inclusive, parecem soltas dentro do filme (como a brincadeira entre os jovens em que são feitas perguntas “perigosas”, ou a primeira vez em que Filipa aparece no meio das rochas com o postulante a namorado). Estas cenas apenas demonstram o interesse do diretor pelo tema, mas nunca o isentam da neutralidade.
Filipa é uma menina difícil, e Dhalia usa as bonitas composições sonoras de Antonio Pinto para demonstrar as aflições da menina. Algumas vezes, à luz da lógica, o diretor exagera no uso das músicas (que são lindas, mas usadas em demasia), tirando do silêncio o poder de imprimir o momento sentimental e psicológico dos personagens. Apesar disso, as imagens que o diretor proporciona, unidos ao competente trabalho do elenco (em especial Vincent Cassel, que fala português e francês, e Débora Bloch, que também se mostra bilíngue, claro, Dhalia e seus produtores querem vender o filme internacionalmente), emprestam suavidade, e a avidez do diretor em construir uma estrutura dramática calcada em seres humanos críveis, confere certa elegância ao filme.
(À Deriva, Brasil, 2009)
Direção de Heitor Dhalia
Roteiro de Heitor Dhalia
Com Laura Neiva, Vincent Cassel, Débora Bloch, Camille Belle














