25/09/2009

À Deriva


Em sua terceira realização como diretor de longas, o pernambucano Heitor Dhalia demonstrou que, definitivamente, é um diretor com os olhos voltados para o estilismo visual. Dhalia valoriza a imagem e reproduz composições clássicas (como a câmera no fundo do mar guiada por uma trilha sonora levemente asfixiante, que, trepidante, acompanha o mergulho de algum personagem ou objeto) sempre que pode. Não perde uma oportunidade para compor planos detalhes, que sistematizam sua visão, seu projeto autoral de cinema. Exalta a dramaturgia esquemática, mas fala sobre seres humanos bastante críveis – na maioria das vezes através de planos assépticos, que são conduzidos pela melancólica trilha sonora dedilhada por Antonio Pinto.

A rigor, nota-se que o diretor evoluiu em alguns aspectos em relação a Nina e O Cheiro do Ralo, seus dois primeiros trabalhos. Se no primeiro regozijou-se com a estética, plastificando seu filme, no segundo centralizou as coisas, sistematizou as ideias. Em À Deriva, percebemos que Dhalia é realmente um diretor que confere grande parte da emoção genuína de seus filmes ao estilo visual e sonoro. O diretor nos entrega uma obra extremamente bem cuidada, e a ocorrência do extremo, como sabemos, é prejudicial, inoportuna. Sorte que, novamente, a história consegue interessar, pois o roteiro, assinado pelo próprio Heitor, complementa o que todo bom espectador busca quando vai ao cinema: emoção.

Dhalia foi inteligente ao contar uma história que, apesar da bastante utilizada por escritores cinematográficos, parece manter-se “inoxidável”, segura dentro um universo sensorial, pois relações familiares e extra conjugais nunca serão bregas e ultrapassadas no cinema enquanto existir bons recicladores de ideias. É a história de Filipa (Laura Neiva), uma menina de 14 anos que mora com seus pais e seus irmãos numa bela casa no meio paraíso (o filme foi filmado em Búzios, no Rio de Janeiro, mas não se passa lá na história). Em paralelo ao descobrimento das aventuras da adolescência, Filipa descobre que seu pai, o escritor francês Matias (Vincent Cassel) mantém um caso amoroso fora do casamento, enquanto acompanha a crise existencial de sua mãe, Clarice (Débora Bloch), uma professora que bebe um pouco mais de whisky do que deveria.

Em À Deriva, Dhalia troca a escuridão da paleta de Nina pela iluminação que valoriza mais as belezas naturais. Diante de tamanha maravilha, Dhalia mascara certas falhas de seu filme. O diretor sobrevoa o crescimento de uma adolescente passando pela puberdade, mas nunca chega a invadir literalmente sua intimidade – e isso poderia acontecer, pois o filme que vemos é filtrado através do ponto de vista da menina Filipa. Algumas cenas, inclusive, parecem soltas dentro do filme (como a brincadeira entre os jovens em que são feitas perguntas “perigosas”, ou a primeira vez em que Filipa aparece no meio das rochas com o postulante a namorado). Estas cenas apenas demonstram o interesse do diretor pelo tema, mas nunca o isentam da neutralidade.

Filipa é uma menina difícil, e Dhalia usa as bonitas composições sonoras de Antonio Pinto para demonstrar as aflições da menina. Algumas vezes, à luz da lógica, o diretor exagera no uso das músicas (que são lindas, mas usadas em demasia), tirando do silêncio o poder de imprimir o momento sentimental e psicológico dos personagens. Apesar disso, as imagens que o diretor proporciona, unidos ao competente trabalho do elenco (em especial Vincent Cassel, que fala português e francês, e Débora Bloch, que também se mostra bilíngue, claro, Dhalia e seus produtores querem vender o filme internacionalmente), emprestam suavidade, e a avidez do diretor em construir uma estrutura dramática calcada em seres humanos críveis, confere certa elegância ao filme.


(À Deriva, Brasil, 2009)
Direção de Heitor Dhalia
Roteiro de Heitor Dhalia
Com Laura Neiva, Vincent Cassel, Débora Bloch, Camille Belle

13/09/2009

Os Idiotas


Nas profundezas da alma do homem, deve existir um turbilhão de sentimentos esperando para serem atingidos. São poucos os momentos de nossas vidas onde nos sentimos imersos em sensações do espírito, da alma e do coração. Momentos estes, aliás, muitas vezes nos fazem refletir sobre nossas próprias condições enquanto seres humanos racionais – certo, nem sempre o somos, mas dar-se asas a imaginação quando falamos em sentimentos para o bem. Atestamos tudo que de ruim a natureza nos provém e quase sempre deixamos de lado nossas próprias convicções – muitas delas roubadas de nós ainda quando crianças, por meio de coisas que pouco importam realmente. Quando paramos para pensar e refletir sobre o que acontece a nossa volta, percebemos que os problemas que tanto tentamos corrigir, na verdade não são os maiores problemas que enfrentamos. Neste caso, bom é assistir um filme como Os Idiotas, do cineasta dinamarquês Lars Von Trier.

Apesar do testamento em celulóide de Trier ser de alguma forma argumentativo, autoral e filosófico, Os Idiotas não é um filme de fácil digestão. O viés artístico do projeto de cinema do diretor é contraposto a todo instante, quase sempre em prol de planos simbólicos e gélidos, mas nunca em função da manipulação dos sentimentos do espectador e do vazio completo de produções dramáticas. Trier, a bem da verdade, atingiu o limite daquilo que consideramos heróico e corajoso. Aliás, em certas sequências, parece um pouco exagerado, fora órbita, mas nada que atrapalhe o incrível fluxo de boas intenções da câmera do diretor. Boas porque mostram aquilo que todas as pessoas já sabem, mas que ainda insistem negar a si mesmas, e Trier não se esconde debaixo da saia mamãe Hollywood. Obviamente, o filme pode parecer ofensivo para determinados grupos, afinal o diretor conduz seu filme como quem conduz uma ópera, excluído de pudor e piedade. Vai do choque cultural ao sentimento comum a todos sem parar para ir ao banheiro, e o faz com extrema elegância através de suas câmeras digitais tremidas.

O filme mostra o cotidiano de um grupo de intelectuais que, certamente cansados da sociedade em que vivem, resolvem idiotizar a tudo e a todos, inclusive eles próprios, fazendo-se de deficientes mentais. Desde restaurantes até clubes aquáticos, passando por fábricas e lojas de conveniência, e até em suas próprias residências, os personagens procuram todos os lugares onde possam se revelar idiotas. Seguindo as regras do movimento Dogma 95 (criado por Trier e Thomas Vinterberg, que preza um cinema menos comercial, mais simples, sem adereços tecnológicos em nenhum dos setores do processo de filmagem, diferente do padrão hollywoodiano atual e antes da exploração industrial), Trier fez um filme discursivo, de estofo visual e auditivo.

O padrão de filmagem de Os Idiotas é o mais simples possível, capturado totalmente por câmeras digitais, munido de trilha sonora ambiente e iluminado somente com luzes naturais. Isso tudo, aliado ao poder de fogo que a trepidação dos movimentos de câmera alcança, atinge o espectador com mais força, mais realismo. A sensação durante a projeção é de impotência, aflição, angústia. Trier consegue jogar com os sentidos do público com destreza impressionante, colocando-se entre o absurdo e o necessário em doses iguais. Algumas cenas, aliás, atestam a peculiaridade do diretor, como quando os idiotas fazem uma orgia no meio da sala da casa do tio de um deles, que é residência temporária de todos. O cineasta filma tudo, com cortes para ângulos nada convencionais e enquadra uma penetração claramente. Trier soube o momento certo do corte nesta cena, que em questão de segundos poderia se transformar em pornográfica.

Há outras, como o momento onde o pai de uma personagem aparece de surpresa no local para levar sua filha para casa. Aqui a câmera posiciona-se a favor da mulher que sofre por ter que deixar os amigos que estava começando a gostar. Uma cena muito bem concebida pelo diretor, talvez a mais pesada psicologicamente do filme, onde se mistura família e amigos. Há encenação sim, mas os movimentos dos atores, sempre naturais, sem preocupação em manter-se no quadro, facilita a aproximação do espectador, apesar de muitas vezes essa aproximação não ser bem-vinda - tamanha inescrupulosidade de algumas sequências. Via de regra, Os Idiotas, segundo filme do movimento Dogma 95, consegue transmitir as ideias malucas do homem sentado na cadeira de diretor. Lars von Trier causou todas as sensações no público, inclusive nos que não gostaram do filme.

Questionando o modo de vida hipócrita, Stoffer e sua turma partem em busca de ideais utópicos, através do anarquismo. A crueza com que Trier trata das imagens e dos diálogos é tanta que muitas vezes não sabemos se estamos ou não assistindo um filme de ficção. O visual é sujo e a imagem, rebuscada. Isso pode ser um artifício atuando em prol do filme, já que este trabalha com uma temática suja, manchada de sangue e corrupção.


(Idioterne, Dinamarca, 1998)
Direção de Lars von Trier
Roteiro de Lars von Trier
Com Jens Albinus, Bodil Jorgensen, Anne Louise Hassing, Troels Lyby, Nicolaj Lie Kaas, Louise Mieritz

Aqui no sul do Brasil, Grêmio e Internacional já sofreram com esse vídeo retirado de uma (ótima) cena de A Queda – As Últimas Horas de Hitler. Agora, no entanto, é a vez do revolucionário cineasta James Cameron. A brincadeira, muito bem bolada, avacalha com o diretor de Avatar, por ocasião do Avatar Day. Com legendas em inglês, para quem não conhece (com ironia, por favor) a língua do Führer. Mas ele ainda tem esperança quanto ao game...


A partir do próximo dia 12, o canal pago Telecine Cult irá exibir, durante uma semana, filmes de um dos maiores cineastas de todos os tempos, Alfred Hitchcock. Dentre a programação do canal estão os melhores filmes do diretor, como Psicose (nossa, maravilha!) e Janela Indiscreta (putz, clássico).


Janela Indiscreta
– Sábado, 12/09 às 22h00

Um Corpo Que Cai – Domingo, 13/09 às 22h00 - Terça, 15/09 às 19h40

Ladrão De Casaca – Segunda, 14/09 às 22h00

Topázio – Terça, 15/09 às 22h00 - Quinta, 17/09 às 09h55

Cortina Rasgada – Quarta, 16/09 às 22h00

Trama Macabra – Quinta, 17/09 às 22h00 - Sábado, 19/09 às 08h40

Marnie, Confissões De Uma Ladra
– Sexta, 18/09 às 22h00 - Domingo, 20/09 às 09h10

O Homem Que Sabia Demais – Sábado, 19/09 às 22h00

Psicose – Domingo, 20/09 às 22h00 - Terça, 22/09 às 19h55

Bom proveito!!!

03/09/2009

Críticas rápidas

A Proposta, de Anne Fletcher

Apesar do carisma de Sandra Bullock e do ligeiro talento tragicômico de Ryan Reynolds, fica realmente difícil embarcar com gosto nesta história que nunca atinge o espectador com seus propósitos – sejam eles dramáticos ou apenas ingredientes da receita do entretenimento. Anne Fletcher, diretora do péssimo Vestida Para Casar e do muito brega Ela Dança, Eu Danço, tenta vender ao espectador uma trama bobinha e sorrateira, que não renderia um bom filme nem nas mãos de Jane Campion ou Carla Camuratti, tamanha é a displicência do roteiro. Nota: 3.5


A Teta Assustada, de Claudia Llosa

Encarnando com paixão e sentimento a história de Fausta, uma jovem peruana vítima da doença La Teta Asustada, que é transmitida pelo leite materno e afeta filhas de mulheres que foram violentadas, a atriz Magaly Solier é própria personificação de toda a cultura de um país emergente. Magaly, conduzida pela direção sábia de Claudia Llosa, passa confiança para quem vê e ao mesmo tempo causa certo desconforto com algumas imagens que chocam o emocional do público. Apesar disso, a diretora escorrega em simbolismos para construir planos chiques e elegantes, mas que pouco acrescentam ao seu argumento - que por si só já é um tanto quanto bárbaro. Nota: 6.5


Controle Absoluto, de D.J. Caruso

Se o principal objetivo de Caruso era arrasar no quesito ação, pontos para Controle Absoluto, pois o longa-metragem apresenta sequências de ação tão rápidas quanto Usain Bolt corre os 100 metros livre. É bem verdade que, via de regra, o diretor manipula bem suas evidentes carências de trama e ritmo com uma edição rápida, que acaba (quase) escondendo as falhas de continuidade do filme, que, apesar disso, não é de todo deficiente. O feioso Shia LaBeouf e a lindinha Michelle Monaghan conseguem manter o espectador na poltrona até o (insosso) desfecho. Nota: 4.5


Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, de P.J. Hogan

Apesar da aparência comum, Os Delírios de Consumo de Becky Bloom tem algo a mais. A história que aparenta ser apenas mais uma entre milhares acaba se tornando em algo mais suscetível a nossa realidade, mais crível e aceitável, mas sem deixar de ser um filme-entretenimento. Isla Fisher é a protagonista e, apesar de não ter carisma (em alguns momentos aparece até um pouco caricata), consegue segurar o bom desenvolvimento de sua personagem. É um filme interessante e que nunca menospreza o espectador, mas não é necessariamente bom. Nota: 6.0


Se Beber, Não Case, de Todd Phillips

Humanizar personagens não é o objetivo de Todd Phillips aqui. O cara quer mesmo é tirar sarro das confusões que só um homem pode se meter, brincar com as festas de arromba, mas tudo sem se preocupar com o estereotipo deles. Funciona. Com muitas boas piadas e algum esboço de boa história, Todd fez um road movie que se destaca em meio a tantos outros filmes do gênero. Perde um pouco no final, quando se entrega as convenções da fórmula, mas o encanto de suas brincadeiras ficam com o espectador ao final da sessão. Nota: 7.0


Secretária, de Steven Shainberg

O que começou com simples correções sobre erros datilográficos se transformou num espetáculo de amor sadomazoquista. Esse é o cerne do relacionamento entre o advogado Edward Grey (James Spader) e da secretária (Maggie Gyllenhaal) Lee Holloway. Com propriedade, o diretor Steven Shainberg nos coloca numa linha de fogo ao misturar o humor ao registro mais sério. Tudo isso funciona a favor do filme, que nos faz decidir sobre o que pensamos por “correto”, fazendo-nos confrontar nossos próprios mistérios. Nota: 8.0


Um Dia de Fúria, de Joel Schumacher

Schumacher desenhou um filme de suspense clássico, com muito da linguagem metalinguística característica dos anos 90 no cinema hollywoodiano. Além disso, retirou de Michael Douglas uma energia sobrenatural, transformando um personagem que poderia passar em branco num legítimo ícone da cultura pop. Aplicando a estética do som com elegância junto à trama, o diretor construiu uma atmosfera perfeita para Douglas desfilar garra e vigor em seu melhor momento a frente das câmeras. Nota: 8.0


O Equilibrista, de James Marsh

O curioso caso de Philippe Petit, que atravessou as Torres Gêmeas andando sobre uma corda de aço, poderia ter fugido do controle, mas James Marsh conseguiu empregar uma carga dramática impressionante a partir do material, que continha vídeos e fotografias das aventuras de Petit. O resultado é um documentário bem realizado, com nítida aptidão do diretor para dar vivacidade às imagens e, principalmente, ao personagem principal, que esbanja carisma. Marsh também acerta na concepção dos cortes e até as simulações de alguns eventos neste belo documentário. Nota: 7.5

01/09/2009

Fome


Enquanto busca imprimir um retrato fiel e realista, trabalhando muito bem com a iluminação e a cenografia montada, McQueen construiu um filme de imagens, ângulos e quadros precisos. A carência de diálogos, aqui, favorece o andamento da história, pois o diretor elaborou um filme de expressões e sentimentos – alguns deles repugnantes e horrendos, outros emocionais, mais humanos e carnais. McQueen projetou plano-sequências muito inteligentes, apesar de um deles, o do guarda limpando a sujeira no corredor da prisão, totalmente imundo, extrapolar levemente o limite da razão de ser da cena, chamando demasiada atenção para seu apetite estético e roubando o foco do realmente interessa: o drama de Bobby Sands (prisioneiro líder da rebelião). Nesta cena, de câmera fixa e foca no único objeto da tomada (o guarda), vemos nitidamente que a função daquela cena é mostrar para o espectador quanta sujeira há num lugar como aquele, mas deixando no ar a pergunta: essa sujeira vem de dentro ou de fora das celas? McQueen responde isso ao longo da projeção e desenvolve, com autoridade de um veterano, um filme forte, corajoso e realista.

Essa ousadia, aliás, pode ter lhe custado alguns espectadores, que julgaram Hunger como um filme pretensioso e dissimulado, a todo instante querendo fazer o espectador refletir em vão, friamente. À luz da lógica, é bem verdade que filmes como este tendem a dividir opiniões, pois estabelecem, sobre crítica e público, diversas camadas interpretativas. Fome, por sinal, pode ser considerado por muitos um completo exercício de expressão no cinema, de narrativa simples e de técnica impecável. No entanto, este viés pode causar impressões contrárias, negativas. Isso já comprova a ousadia do diretor, que não pensou em fazer um filme para “a” ou “b”, apenas filmou o que dizia sua razão, seu projeto de cinema. Trata-se, afinal, de um registro paradoxal e antagônico, pois os presos são os mocinhos e os policiais são os bandidos. McQueen também não escapa do clichê de mostrar “os dois lados da moeda” com a sequência de abertura, que acompanha um guarda da prisão em casa. Mas isso não compromete, pois o diretor redimiu-se logo depois, quando filmou um plano-sequência de cerca de vinte minutos, onde expôs dois pontos de vista diferentes sobre a fome.

O filme se passa em 1981, quando o Davey Gillen, até então integrante do IRA, é preso na Irlanda do Norte. Assim como os demais presos políticos, Gillen recusa-se categoricamente a usar uniformes comuns de presos, pedindo para poder vestir suas próprias roupas. Sob os olhares atentos do vigia Raymond Lohan, Davey compartilha o cárcere com outro preso político, Gerry Campbell, que o ensina a conseguir artigos de contrabando e a se comunicar com o mundo exterior através do líder Bobby Sands. Quando a direção da prisão insiste no uso dos uniformes, os detentos iniciam uma violenta rebelião e decidem fazer greve de fome.

O visual sujo e o clima claustrofóbico criado pelo diretor aparecem com destaque, pois casam perfeitamente com a imersão de dor e sofrimento pela qual passam os personagens enclausurados num legítimo inferno na terra. A iluminação dos cenários, realizada com extrema competência pelo fotógrafo fulano de tal, é inteligente ao manipular uma paleta de cores única para toda a metragem, ambientando a prisão (que é a única locação do filme) com muita escuridão e obscuridade, elucidando a dor, a agonia, o sofrimento. Além disso, fulano de tal tratou de utilizar muito bem os espaços de locação criados pelo cenógrafo beltrano para enquadrar as tomadas dentro das celas, aproveitando-se da inexistente presença de reflexos. O fato de o diretor ter tanto talento para a construção visual acaba chamando atenção em demasia para a técnica, o que prejudica a acepção do drama central.

Os conceitos do diretor, às vezes exagerados (são tantos planos bonitinhos e enquadramentos meticulosos que, certas vezes, suplantam a história) quando colocados acima do drama que move a trama. Apesar disso, McQueen consegue manter uma boa relação entre o desenvolvimento da história e dos personagens, nunca atropelado nenhum deles. Ou o diretor desenvolve os conceitos e as particularidades dos personagens, ou constrói a narrativa. Há, evidentemente, avidez em mostrar o que realmente aconteceu na prisão irlandesa, o que, talvez, possa demonstrar certa ingenuidade do argumento, mas não é somente para isso que McQueen resolveu contar essa história. A precisão que o diretor tem para capturar as mais diversas emoções humanas impressiona, principalmente no terceiro ato, onde vemos Bobby Sands em momentos delicados de superação. Aliás, o drama pessoal de Sands é o que conduz o filme ao final com sentimentos diversos florescendo na tela. Quando o filho de Sands entra em cena e vê seu pai em estado decadente, segure as lágrimas.

(Hunger, Irlanda/Reino Unido, 2008)
Direção de Steve McQueen
Roteiro de Steve McQueen, Enda Walsh
Com Michael Fassbender, Stuart Graham, Brian Milligan, Helena Bereen