"Eu te saúdo, Maria"

Para quem gosta do cinema visual, poético, reflexivo, inteligente e não-fácil de Jean-Luc Godard, tem aqui o exemplar que de melhor forma contempla todos estes adjetivos. Je Vous Salue, Marie, filme polêmico que o cineasta francês realizou em 1985, tem os ingredientes básicos para uma história funcionar: um bom argumento e um diretor criativo e elegante por trás das câmeras. Apesar da polêmica (no Brasil, o filme foi proibido na década de 80), Je Vous Salue, Marie é mais um competente exercício filosófico de um dos maiores autores da história do cinema, que ensina e dá um show de organização de cenas e direção de atores.

O roteiro é de causar inveja aos melhores escritores e o argumento, embasado e audacioso, torna a experiência extremamente recompensadora. Godard liga aos cosmos, flerta com a ciência e dá poder a mulher (aqui, mais do que nunca, a mulher é superior ao homem). Godard constrói o filme sob tomadas fixas, enquadramentos estáticos, formando uma belíssima história em quadrinhos em movimento. Além disso, ganha destaque a abordagem que o autor utiliza para contar a história, original e corajosa, que mostra a visão do diretor sobre a concepção da Virgem e a controversa e difícil convivência entre corpo e espírito. É um filme iconoclasta de um cineasta iconoclasta - com o perdão da redundância.

O filme narra duas histórias que caminham paralelamente. Numa delas, Maria (Myriem Roussel) é uma jovem estudante que joga basquete na escola e trabalha no posto de gasolina de seu pai. José (Thierry Rode ) é um taxista que, ao saber da gravidez de Maria, a acusa de traição. O anjo Gabriel (Philippe Lacoste), agora, tentará convencer José para que ele aceite essa gravidez, pois tudo faz parte dos planos divinos. Em paralelo, um professor de ciências que estuda a origem da vida na Terra tem um caso com uma de suas alunas.

Com elegância, Godard organiza as cenas de ambas as histórias e exercita a técnica fílmica de ângulo estático com perfeição. Godard é um mestre do visual deslumbrante, sempre comedido, é verdade, porque seus quadros são pincelados por sentimentos humanos, não por cenografia e fotografia multicolorida. O cineasta do feminino ainda demonstra, por via de diálogos, como elaborar uma história convincente e impactante. Além do mais, o vanguardismo e a polêmica ( aqui os valores cristãos podem ser cutucados fortemente por quem não estiver disposto a acompanhar a versão de um visionário sobre a concepção da Virgem) estão aqui, bem como o estudo do comportamento feminino e a etmologia.

Godard não perdoa nada, dispara seus torpedos metalinguísticos para todas as direções. Para quem não aprecia o cinema do diretor que sempre trabalhou por amor, sem se render ao corporativismo da indústria cinematográfica, Je Vous Salue, Marie pode ser um filme lento e tedioso, mas para aqueles tentam compreender a grandeza de seus filmes basta deleitar-se com mais esta obra-prima hermética do cineasta francês. Afora as polêmicas, estamos claramente falando de um filme apaixonado, pois seu diretor defende sua tese, bate no peito e diz (com imagens) que ama cinema. Godard realizou, aqui, (mais) um filme que exige do espectador - pode ser preciso ver o filme mais de uma vez para elaborar uma análise mais completa.

Os personagens são estupidamente bem desenvolvidos pelo diretor, que contou com um elenco elegante, que, por sua vez, completa o ciclo perfeito do filme. Myriem Roussel desempenha com garra o papel principal, dando alma e realismo a personagem. Ademais, Juliette Binoche faz uma partipação de luxo, enquanto Phillippe Lacoste brilha como o anjo Gabriel. Um filme grandioso de um diretor paradoxal. Uma obra repleta de sentimentos humanos aflorando em meio ao descobrimento pela criação do menino Jesus. Algumas décadas depois, grande parte do público percebeu que esta é apenas a visão de Godard, que não é Deus, nem tentou ser.



(Je Vous Salue, Marie, França, 1985)
Direção de Jean-Luc Godard
Roteiro de Jean-Luc Godard
Com Myriem Roussel, Thierry Rode, Phillippe Lacoste, Juliette Binoche

29/05/2009

Críticas rápidas

Garotas Sem Rumo

Barbara Kopple é nome por trás deste filme que demonstra maturidade ao transmitir mensagem realista mas que peca justamente pela total devoção ao real, deixando a história em segundo plano. Anne Hathaway é o carro-chefe do elenco e faz um trabalho competente, mas o restante está ali apenas para gírias, drogas e sexo. Poderia ter sido melhor se a diretora optasse por menos cenas sensuais e tivesse mais foco na construção sentimental dos personagens.

Nota: 4.5


Última Parada 174

Caroneiro, Bruno Barreto contou, com inserções ficcionais, a história do sequestro de um ônibus no Rio de Janeiro, a exemplo do excelente documentário de José Padilha. A história é a mesma, mas a qualidade é outra. E o filme não é ruim pelo fato de tentar transformar Sandro na vítima, até porque o diretor nitidamente escapa disso, o problema é que há um exagero na carga dramática e o filme ganha contornos artificiais quanto mais próximo do final. Aliás, o final não poderia ter sido mais exagerado nesse sentido. Puro dramalhão.

Nota: 3.5
Os Donos da Noite

Eis um filme de visual refinado e abordagem interessante que funciona até o final. James Gray escreveu e dirigiu este ótimo drama policial, com elenco de grife e trama muito bem elaborada. O suspense criado lembra Os Infiltrados, de Martin Scorsese, e Operação França, de William Friedkin, mas o toque perceptível do autor está presente do início ao fim. A direção de arte é o ponto fraco do filme, pois parece ter se perdido no tempo (definitivamente o filme não parece se passar na década de 80), mas as virtudes do conjunto superam tudo. A cena final, por exemplo, quebra as pernas de qualquer crítica negativa.

Nota: 7.5

Appaloosa - Uma Cidade Sem Lei

O faroeste pedia há tempos por um representante de nível, que fizesse-nos sentir o prazer de assistir a um filme do gênero. Appaloosa, de Ed Harris, chega para preencher esta lacuna (que já havia sido reforçada em 2007, com Os Indomáveis). A ambientação é impecável e os personagens brilhantemente desenvolvidos por seus competentes atores, o próprio Harris e o camaleão Viggo Mortensen. A poeira come solta e as sequências de ação não deixam a desejar.

Nota: 7.5

Choke - No Sufoco

Em um ciclo dominado por comédias adolescentes, acaba sobrando pouco espaço para filmes mais espertos, que realmente tem algo a dizer. É o caso de Choke - No Sufoco. Apesar disso, dificilmente o filme de Clark Gregg será visto com os olhos que merece, já que não fala sobre a festa do fim de semana na escola tampouco sobre a primeira noite de amor. É muito mais do que simples futilidades que trata o argumento de Clark, baseado no livro de Chuck Palahniuk (autor de Clube da Luta). O diálogo de Chuck é tão bom que mesmo quando a piada não é boa a metalinguagem (muita ironia, crítica social) garante a excitação do espectador. Um dos melhores filmes do ano passado.

Nota: 9

Trovão Tropical

Apesar do ritmo alucinante de piadas excelentes do primeiro ato, Trovão Tropical perde-se no minimalismo e não mantém a eficiência no segundo. Algumas cenas são de se contorcer de rir (a chegada ne selva, a discussão sobre a cor), outras nem tanto. O elenco é ótimo está uniformemente saudável, com destaque óbvio para Robert Downey Jr. e Tom Cruise. No entanto, quanto mais próximo o filme chega do final, mais distante fica da qualidade dos primeiros 30 minutos. Uma pena, pois bom humor e timing cômico não falta para esta turma.

Nota: 4

Watchmen

Com técnica impecável, Watchmen consegue ser um pouco mais do que um mero filme de ação baseado em quadrinhos. O visual refinado e a ótima estrutura de som injetam adrenalina, que é amplificada pelas bem coreografadas sequências de ação. É bem verdade que o filme realmente empolga somente quando Rorschach (Jackie Earle Haley, sensacional, mesmo atuando com o rosto coberto) ou O Comediante (Jeffrey Dean Morgan, não menos competente) estão em cena, mas a proposta do diretor de 300, Zack Snyder, foi cumprida - mesmo que no limite.

Nota: 6.5

21/05/2009

Os Intocáveis


Raramente um diretor compreendeu completamente os requintes da maquinaria cinematográfica como Brian De Palma. O cineasta conhece a engrenagem, entende do riscado. De Palma conhece planos e enquadramentos como ninguém, é dono de uma estética visual marcante (é muito fácil reconhecer seus filmes através de imagens), tem pleno domínio da linguagem narrativa, compreende as técnicas de filmagem, sabe fotografar, tem bom gosto musical é um grande diretor de atores. Mesmo assim, é um dos cineastas que mais divide opiniões (assim como Lars von Trier, por exemplo), pois enquanto é amado por uns é odiado por outros. Os Intocáveis, filme-máfia que De Palma filmou em 1987, parece ser um dos poucos (ou o único?) exemplares do diretor que agradou a todos, já que é difícil encontrar alguém que não goste deste filme.

Aqui De Palma estava no auge do controle narrativo, e isso que pode ser notado pela maneira com que o diretor filma o excelente roteiro de David Mamet, sempre cuidadoso com cada cena. A rigor, o que o espectador assiste na tela é a virtuosidade de um cineasta comprometido em levar entretenimento com estilo e categoria. Além disso, De Palma sabe manipular tensão e é mestre em dirigir cenas de ação, e faz uso de seu talento para desenvolver ótimas cenas de suspense com longos (e algumas vezes silenciosos e lentos) clímax empolgantes. O mais interessante deles está na longa cena na escadaria da estação, onde uma mãe desesperada vê o carrinho que carrega seu bebê descer escadaria abaixo, enquanto um tiroteiro violento acontece em paralelo. De Palma organiza as tomadas compondo uma cena perfeita, em câmera lenta e, ao mesmo tempo, num ritmo alucinante. Cena difícil, mas que deveria fazer da grade curricular de qualquer universidade de cinema.

A história é conhecida, mas vamos à ela. O filme se passa na Chicago dos anos 30, onde o jovem agente Eliot Ness (Kevin Costner, em desempenho excelente) tenta acabar com o reinado de terror e corrupção instaurado pelo gângster Al Capone (Robert De Niro, além da perfeição). Para isso, ele recruta um pequeno time de corajosos e incorruptíveis homens, dispostos a levar a tarefa a cabo. Sean Connery é Malone, o experiente policial que auxilia Ness na busca frenética pelo maior mafioso da história do planeta. Andy Garcia e Charles Martin Smith completam a elite squad.

Como de costume, De Palma reutiliza alguns longos e geniais planos-sequência que o fazem o diretor mais estilizado do cinema contemporâneo, utilizando de forma magistral os movimentos de câmera, ângulos e enquadramentos. Apesar de Os Intocáveis não ser um filme onde o diretor exercita sua técnica à exaustão - a exemplo de Dublê de Corpo e Vestida Para Matar, por exemplo -, ainda assim temos belas e sofisticadas jogadas de câmera, bem ao estilo do diretor. O plano de abertura, por sinal, já introduz o espectador ao cinema visual e malabarístico de De Palma, com uma belíssima tomada panorâmica dentro de uma barbearia, cheia de jornalistas esperando para fazer uma pergunta a Al Capone. A câmera vai descendo lentamente até encontrar o rosto de Robert De Niro.

Aqui também tem um pouco do voyeurismo que consagrou o diretor de Scarface e uma trilha sonora impecável do mestre Ennio Morricone, com canções dedilhadas por um gênio que é capaz de tudo com um piano em suas mãos. É triste que, mesmo tendo tanta qualidade, Os Intocáveis, assim como toda a filmografia do diretor, não foi reconhecido pelas principais premiações. É incompreensível o receio que a filmografia do diretor causa em algumas pessoas, que não conseguem dizer que o cara é um mestre (e é mesmo, pois nasceu para o cinema na mesma época de outros craques, como Scorsese e Spielberg, e mesmo assim ganhou notoriedade). Claro que nada disso importa para De Palma, pois o diretor faz filmes porque ama cinema e respeita seu público. A exemplo de Hitchcock, De Palma provavelmente nunca ganhará um Oscar, mas também há de chegar o dia em que, mesmo quem hoje não gosta dos trabalhos do diretor, o chamará de gênio.




(The Untouchables, EUA, 1987)
Direção de Brian De Palma
Roteiro de David Mamet
Com Kevin Costner, Sean Connery, Andy Garcia, Robert De Niro, Charles Martin Smith


Não há melhor descrição para o que Danny Boyle quis mostrar com Trainspotting do que o próprio prólogo que inaugura as fortes imagens deste filme rebelde. Deixemos o personagem com a palavra: "Escolha viver. Escolha um emprego. Escolha uma carreira, uma família. Escolha uma televisão enorme. Escolha lavadora, carro, CD Player e abridor de latas elétrico. Escolha saúde, colesterol baixo e plano dentário. Escolha viver. Mas por que eu iria querer isso? Escolhi não viver. Escolhi outra coisa. Os motivos? Não há motivos. Quem precisa de motivos quando tem heroína?”.

É com este discurso que Danny Boyle abre Trainspotting - Sem Limites, o mais completo e corajoso filme sobre sexo, drogas, rock'n'roll, juventude, magreza, polícia, violência, anarquismo, cultura pop, assalto, capitalismo e burguesia já feito no cinema. O argumento de Danny Boyle e do roteirista John Hodge foge do banal e perecível, não é falso moralista tampouco exercício de estilo superficial e corrosivo. Boyle e Hodge testam e atestam o comportamento de um viciado com propriedade, coragem e realismo extremamente assustador, personificando e consagrando personagens desagradáveis. A rigor, Boyle tratou de não julgar nada nem ninguém, apenas mostrou o que devia ser mostrado ao público. Não há, como detrataram os conservadores quando da época de lançamento do filme, glorificação do uso da heroína. Mas não pense que Trainspotting fica em cima do muro, pelo contrário, o filme quebras todas as barreiras.

Aqui sim vale lembrar de Fernando Meirelles, por ocasião de Cidade de Deus. Há muito na obra-prima de Meirelles em Trainspotting, principalmente na estética da montagem e da correria frenética dos personagens, que são diferentes em suas filosofias, mas assemelham-se na essência. O tratamento da edição é meticuloso, com dosagem de humor e violência na medida exata, pois na sequência de cada cena de humor há um contraponto violento e selvagem, o que acaba desconcertando o espectador, que fica sem saber para onde correr. E isso é o efeito da adrenalina de Trainspotting, o filme urgente mais impactante e coerente do new style boy. A montagem eficiente coloca o espectador dentro da ação dramática, que é um verdadeiro carrossel de emoções - entre cenas bem-humoradas e sequências de violência extrema, você vai ficar extasiado.

A temática é complexa, mas Boyle não se escondeu debaixo dos lençois da covardia e desnudou tudo - e mais um pouco. O esteriótipo do binômio pobreza/violência não está mais lá, foi substuído pelo imaginário coletivo social por drogas/violência, e Boyle utilizou sua a abordagem do roteiro trabalhando em cima desta ideia. O diretor pergunta como diminuir os apelos da cultura aditiva e da cultura de violência que caracterizam a sociedade atual, mas não responde nada, deixa reflexões para o espectador. Deve-se dizer, a rigor, que Trainspotting não é um filme fácil, apesar de ter uma história simples e objetiva. A teia de discussões proposta por Boyle e Hodge não se limita ao antagonismo literário, pois o argumento dos dois é uma legítima pérola. Em tempo, é justamente isso que diferencia escritores e operários das letras.

O elenco é formado por jovens futuros astros, como Ewan McGregor, hoje ator de primeiro time em Hollywood. Aliás, o ator escocês demonstra talento e virilidade ao descrever seu personagem, tornando ele interessante e desagradável, o que instiga a plateia a investiga-lo. Robert Carlyle, ator que já era um pouco mais calejado, também demonstra competência e trabalha com garra. Ewen Bremmer e Jonny Lee Miller (ótimo como Spud) completam o time, que ainda traz uma pequena (mas eficiente) Kelly Macdonald.

Boyle mostra muito do seu domínio sob a cultura pop (sim, há semelhanças com Tarantino, mas o projeto de cinema de ambos é diferente) e exercita sua veia musical à exaustão. A trilha, delirante e eclética, encaixa perfeitamente na história, que é alucinada e maluca. E Boyle também filosofa dizendo que ninguém entende os viciados, senão um deles. O diretor constrói personagens sujos e de pouca ou nula educação, quase a todo instante repugnantes, já que o diretor filma e atesta que as escolhas feitas e as atitudes tomadas por eles não poderão ser desfeitas. É o testamento de uma juventude transviada, que vive contra as regras da sociedade e não gosta de ninguém.



(Trainspotting, Reino Unido, 1996)
Direção de Danny Boyle
Roteiro de John Hodge
Com Ewan McGregor, Robert Carlyle, Kelly Macdonald, Jonny Lee Miller, Ewen Bremmer


Freud explica: "A ciência não é uma ilusão, mas seria uma ilusão acreditar que poderemos encontrar noutro lugar o que ela não nos pode dar". Esta pequena citação freudiana é o ponto de partida do roteiro de Freud - Além da Alma, escrito pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre e dirigido pelo lendário John Huston. Infelizmente, no entanto, o diretor exagera no clima hollywoodiano (o que, inclusive, desagradou o filósofo e roteirista Jean-Paul Sartre) e apega-se demasiadamente a artificialismos, neutralizando tudo. A luz da lógica, o fio condutor da história é o próprio Freud - aqui interpretado elegantemente por Montgomery Clift -, que com persistência e brilhantismo conquista o espectador.

Huston realiza uma pseudo-biografia do psicanalista vienense, mas descrevendo apenas um período de cinco anos (a partir de 1885) da vida do médico e pai da Psicanálise. Nessa época, a maioria dos colegas de Freud se recusavam a tratar dos casos de histeria por acreditar que tudo não passava de fingimento dos pacientes para chamar atenção. Mas Freud, não satisfeito, passou a aplicar a técnica da hipnose, que viria a se tornar uma prática no tratamento psiquiátrico. Ao longo destes anos, John Huston nos mostra como Freud iniciou seus estudos e desenvolveu a teoria da psicanálise.

Sem rodeios, o diretor nos mostra já na primeira cena que Freud não aceitaria o tratamento para pacientes com histeria de forma fácil. Na verdade, o médico prova para o professor e todos os outros presentes (que fingem não reconhecer) que não há uma solução tão simples para a histeria. A partir daqui, o que veremos na tela é uma construção de personagem melancólica e filosófica, tendendo muitas vezes para o antagonismo da arte, onde o autor expressa sua visão por meio de argumentos interessantes, mas que perdem autoridade pela opção narrativa demasiadamente controversa. Há um exagero, por exemplo, no uso do flashback. E logo este recurso que pode acrescentar tanto charme viu-se perdido pelo falta de criatividade do roteiro de Sartre, que não sustenta-se na estrutura cinematográfica.

É uma pena também que o filme aborde de maneira tão superficial o tema da sexualidade, já que esta temática foi bastante recorrente na vida de Freud - e não vale dizer que foi por causa da época em que foi filmado, pois muitos outros diretores tratavam do tema com grande elegância na mesma época, como Billy Wilder, Frank Capra e Ingmar Bergman, por exemplo. Claro que há a descoberta e a angústia, que fazem do filme um exercício interessante - e cena onde Freud fala do Complexo de Édipo numa palestra ilustra isso muito bem -, mas faltou alma e propriedade ao personagem principal, que certas vezes parece um homem sem sentimentos, apenas atento ao trabalho. Mas nada disso acontece por incompetência de Montgomery, pois o ator se entrega completamente ao personagem, o problema estava mesmo no desenvolvimento dos laços deste.

Com altos e baixos, é assim que Huston carrega seu filme, com refinamento técnico e boa plasticidade visual (auxiliada pela fotografia em P&B, que valoriza o lado dark da história e explora muito bem o uso das sombras, algo pelo qual o diretor sempre prezou), mas também carece na construção da ação dramática, que nunca envolve o espectador por completo.



(Freud, EUA, 1962)
Direção de John Huston
Roteiro de Jean-Paul Sartre, Charles Kaufman, Wolfgang Reinhardt
Com Montgomery Clift, Susannah York, Larry Parks, Susan Kohner

15/05/2009

Críticas rápidas

Che (Steven Soderbergh, 2009)

Não só um competente trabalho de produção e direção, mas também um épico extremamente bem elaborado, Che, a primeira parte da história do guerrilheiro argentino vira um filme completo nas mãos de Steven Soderbergh. Benício Del Toro (muito comunista para o imperialismo das grandes premiações indica-lo como melhor ator) interpreta Guevara com precisão e talento, ao passo que Rodrigo Santoro acerta novamente ao viver Raúl Castro. Um ótimo filme, mas que tardará a ser apreciado como merece.

Nota: 8


Desirée - O Amor de Napoleão (Henry Coster, 1954)

Nem Jean Simmons, tampouco Marlon Brando transforma este filme que é um desperdício de talento humano e material didático do frio e perecível em algo sustentável. O argumento é excepcional, pois em se tratando de Napoleão poderíamos ter tido aqui um grande épico, mas a direção preguiçosa e desvirtuada de Henry Coster não consegue elaborar uma trama que aborde completamente a vida amoroso de Napoleão e Desirée, apesar do esforço dos dois atores que os interpretam. Marlon Brando, via de regra, garante um pouco de satisfação ao espectador.

Nota: 3


Balalaika (Reinhold Schünzel, 1939)

Ator, roteirista e produtor, Reinhold Schünzel dirige este musical romântico com belíssimas canções e grande produção. A história é muito interessante e Nelson Eddy está impecável compondo o par romântico com Llova Massey. A canção Balalaika, aliás, é a melhor do filme e transmite toda a sinergia do filme com propriedade. Apesar de perder-se em uma ou duas cenas no segundo ato, recupera fôlego no final e é conduzido com categoria por Schünzel até o desfecho, que não é maravilhoso mas convence.

Nota: 7


Se Eu Fosse Você 2 (Daniel Filho, 2009)

Daniel Filho coordena novamente Tony "Pires" e Glória "Ramos" na segunda parte de Se Eu Fosse Você. Desta vez, porém, com apenas uma boa cena (a da partida de futebol, Tony Ramos absolutamente brilhante), Ademais, o roteiro descamba para momentos debochadamente desnecessários, assim como o filme, que apesar disso faturou alto nas bilheterias. Se isso for bom para o cinema nacional, que venha a terceira parte.

Nota: 3.0


Ele Não Está Tão Afim de Você (Ken Kwapis, 2009)

Um grande elenco principal não consegue mascarar as evidentes falhas de um argumento cansado e, principalmente (e mais importante), subaproveitado. O diretor Ken Kwapis mantém a velha fórmula da comédia romântica em cada cena que dirige. Temos Scarlett Johansson, Jennifer Aniston, Jennifer Connelly, Drew Barrymore, Ben Afleck, Justin Long e Bradley Cooper se entregando a personagens rasos e (em muitos casos) se passando por idiotas.

Nota: 3.5


Mantendo-se ágil, engraçada e inteligente, a segunda temporada de House continuou ótima e ainda ganhou mais confiança. Tal confiança pode ser vista diretamente no elenco, que está muito mais leve e entusiasmado, já sabendo que a série foi um sucesso na temporada passada. Todos continuam ótimos, mas é evidente que a série é toda do personagem título. Hugh Laurie está ainda melhor como o médico mais eficiente do planeta, mas também o mais inescrupuloso e vingativo.

Neste segundo ano da série, sai o vilão bobo que dominou vários episódios no primeiro ano e entra a ex-mulher de House, que logo garante muitas piadas de qualidade e também empresta certa carga dramática para a série. A relação entre os dois é mostrada ao longo de praticamente toda a temporada e não perde ritmo em momento algum. O destaque vai para dois episódios em especial: Falha na Comunicação (10°) e É Preciso Saber (11°).


Saiu o primeiro trailer de Tudo Pode Dar Certo, próximo filme de Woody Allen. Já podemos perceber que teremos mais uma personificação do autor através de um outro ator (como em Celebridades, o exemplo mais explícito, onde Kenneth Branagh "é" Woody Allen). Larry David é hilário e aparece muito bem neste primeiro teaser. O trailer é muito legal e mostra o ator em diversas situações desfavoráveis. Resta esperar.


Assista ao trailer aqui.

09/05/2009

As Sete Artes


Desde os primórdios - falamos aqui do Homo sapien - que a humanidade faz Arte (sim, será o texto todo com "A"). Não, melhor ainda, nós criamos Arte. Fazia-se, lá antes do Messias, Arte harmônica - os livros de história permitem apreciarmos um pouco disso tudo. Mas a raça evoluiu (para o bem e para o mal), e hoje não fazemos só Arte harmônica e visual. Mas antes de chegarmos na Era Obama e da Gripe Suína, vamos retroceder alguns séculos. Arte é a criação humana que valoriza a imagem, a estética, a beleza, o sentimento, a harmonia, a fúria, a tristeza, a dor e milhares de outros adjetivos. A Arte pode ser sentida, ouvida, interpretada ou apenas apreciada, como bem o fazem os leigos. São sete as Artes, segundo os rotuladores da humanidade: Música, Dança, Escultura, Pintura, Teatro, Literatura e Cinema.

Artista é aquele que faz Arte, certo? Foi possível afirmar isso há centenas de 365 dias atrás com convicção, mas hoje não é este o cenário artístico que vemos. Eram artistas Rodin e Michelangelo, que esculturavam maravilhas como O Pensador e David, respectivamente. Hoje, entretanto, são artistas todas as frutas, os famosos que dançam aos domingos, os músicos que cantam canções de uma frase, os operários das letras, enfim, você, sábio leitor, sabe muito bem. Os tempos mudaram e sim, tudo faz parte da evolução da espécie, mas casualmente não parece racional (é, somos racionais, apesar de não passarmos de selvagens elegantes, pois inventamos o espeto e o fogão, não comemos nada cru, como o fazem os apressados) que sejam estes meros palhaços sem nariz vermelho considerados artistas.

Para a música, Mozart fez A Flauta Mágica e Beethoven compôs a Nona Sinfonia, nada mais genial que isso foi feito na música erudita até então. Há um sentimento por trás de partituras, tons e melodias, coisa que só um verdadeiro artista consegue transmitir. Até mesmo Van Gogh sob suas fortes crises de loucura pintava impressões e contava histórias com um único e genial quadro, como em Os Comedores de Batata. Assim também o fazia Da Vinci com a Arte sacra de A Última Ceia e Picasso e seu Cubismo de Guernica. Mas você, leitor que aprecia a Arte da pintura, não está perdido, pois atualmente temos revistas masculinas e femininas com bastante pintura, só que digital. É a velha história, existem artistas e operários dos recursos técnicos. Hoje, porém, muito mais operários. Mas ainda há artistas, diga-se.

Se Dostoiévski escreveu Crime e Castigo e Tolstói idealizou Guerra e Paz, que seja louvada a literatura de nossos antepassados, pois obras-primas como estas não surgiram mais. Na Era digital, o sucesso é dominado por escritas rápidas e cartunescas, onde a tecnologia mistura-se com a velha narrativa com o intuito de contar uma história que pegue o leitor pela manga e o carregue até a última página, a da revelação final. Na maioria dos casos o leitor termina o livro satisfeito, pois aquele tempo despendido o fez navegar por aventuras incríveis. Passa-se o tempo e já não se sabe como terminou a história, pois estamos nos tempos modernos e o leitor gosta da leitura instantânea. A Arte literária atual não é menos Arte do que aquela dos tempos de ouro de Balzac, Tolstói e Dostoiévski, apenas segue a exigência do público contemporâneo, que gosta do que gosta e ponto final. É Arte.

O mesmo vale para o Teatro, desde Sófocles (Édipo Rei) até Shakespeare e chegando aos autores atuais. Notem que há um grande espaço temporal entre Sófocles, Shakespeare e nossos autores de hoje, mas no Teatro, diferentemente das outras Artes, a essência não envelheceu para o público. Um fã do Teatro, por exemplo, por mais jovem que seja, deleita-se com adaptações de Shakespeare, enquanto na música ou na literatura o mesmo pode fugir de Tchaikovsky e Machado de Assis.

O Cinema, que é a junção entre as outras seis Artes (som, movimento, cor, volume, representação, palavra) também mostra a mudança de visão do público, que prefere os efeitos especiais que aproximam dos games às histórias clássicas que fizeram sucesso outrora. Continua sendo Arte, pois ainda é Cinema e o público ainda é feito por seres humanos, só que agora a preferência chama para o que está na moda. Se o público continua indo ao Cinema e divertindo-se, é tudo válido, afinal, a Arte é feita para o público. E os grandes estúdios seguem apostando suas milionárias fichas nestes filmes arrasa-quarteirão, pois diverte o público, garante a sustentação da indústria e todos vivem felizes para sempre - ou enquanto a exigência mudar novamente.

Independente da mídia de apresentação, o que importa é que o espectador tenha seu ingresso válido e saia satisfeito da sessão, sorrindo ou chorando, seja qual for o sentimento atrelado ao término de algum espetáculo. Uma boa história sempre funciona e a Arte está para todos os gostos. Na verdade, há uma democracia, pois há espaço para todos os exigentes espectadores. A Arte, afinal, ainda é Arte e sempre vai encantar seus amantes fiéis.

07/05/2009

O Anjo Azul

"Observe e aprenda, Liza"

Na plena transição do cinema mudo para o falado podemos encontrar diversos filmes interessantes, onde muitos não passam disso, "filmes interessantes". O expressionismo prevalecia nesta época - estamos falando dos arredores de 1925 à 1935. O cineasta austríaco Josef von Sternberg, talvez um dos artistas que mais exercitou o seu talento expressionista na época, realizou um filme que pode ser analisado como um estudo de um personagem rumo a auto-destruição. O apelo em visual e estrutura narrativa coordenado pelas lentes meticulosas de Sternberg é a marca de O Anjo Azul, maravilhoso filme expressionista alemão da década de 1930 e responsável por apresentar Marlene Dietrich ao mundo do cinema em definitivo.

Em se tratando de um filme expressionista, não podemos deixar de perceber as características predominantes do estilo clássico, como a cenografia e a fotografia, que utilizam sombras e contrastes em abundância. Há, também, a supervalorização da imagem e o respeito por ela, já que Sternberg não filmava quadros, ele os pintava. Via de regra, aqui temos um exemplar mais do que apropriado para confirmar este talento. O Anjo Azul é o mergulho mais profundo que o cineasta austríaco realizou em sua carreira, sendo o filme que de melhor forma utilizou o expressionismo para demonstrar os sentimentos de seus personagens - o protagonista, em especial, vivido por Emil Jannings.

O filme se passa em uma cidade portuária da Alemanha, lá pelas bandas de 1925. O conservador professor Rath (Jannings), apelidado carinhosamente por seus alunos de Unrat ("imundície"), é intransigente no capítulo da moral. Quando descobre que a maioria de seus alunos frequenta "O anjo azul", um dos cabarés mais mal afamados da cidade, onde se apresenta uma cantora chamada Lola-Lola (Dietrich), decide dar um jeito nisso. Mas é seduzido pela moça, casa-se com ela e, mandando às favas seu hábito de professor, parte com ela em turnê. Vestido de palhaço, torna-se seu coadjuvante e seu bode expiatório. De volta à sua cidade, ele enfrenta a humilhação.

Em O Anjo Azul temos uma dupla de atores brilhantes, que esbanjam naturalmente simpatia e verdade - além de muito talento dramático. Emil Jannings, o verdadeiro protagonista desta fábula está impecável e não deixa o espectador desvirtuar-se do assunto central, já que seu desempenho está próximo da genialidade e seu tempo cômico aparece na hora certa, assim como desejara o mestre que sentava na cadeira onde estava escrito diretor. Por outro lado temos Marlene Dietrich linda e talentosa no filme que a consagrou - depois de O Anjo Azul a atriz voltaria a trabalhar com Sternberg mais 6 vezes. No caso de Dietrich, temos uma personagem sendo construída com elegância. Olhando para o que ela fez nesse filme hoje, quase 80 anos depois, parece fácil, não?

Pois bem, ao passo que o diretor desenvolve a história, notamos que gradativamente nos sentimos envolvidos com ela. Quando estamos no segundo ato, não queremos mais sair da frente da tela, tamanha a beleza e simplicidade deste maravilhoso estudo de personagem. É isso, O Anjo Azul mergulha nas entranhas da degradação e da decadência do ser humano sem dó nem piedade. A atmosfera turva e cativante é bastante peculiar para um cineasta bebedor do expressionismo alemão, e é nesse clima sombrio e pesado que Sternberg constrói a sua história, a partir do belíssimo argumento de Robert Liebmann. Mas, sem dúvida, estamos diante de um filme onde a categoria de seu diretor é o grande destaque.

A rigor, percebemos que, com o decorrer da metragem, Sternberg homenageia Murnau e seu Fausto - alguém pode encontrar um pouco do humor efêmero de Aurora. Temos, no entanto, um filme com personalidade, que fala por si, que exalta alegrias, emoções e tristezas. Há, também, alusões eróticas impensáveis para a época (Marlene Dietrich, em ótimo desempenho, dança e canta com poucas peças de roupa sob seu corpo perfeito). E se estamos falando de um filme expressionista até a última célula, que estejamos cientes de que seremos convidados a participar de uma aventura que, em forma e conteúdo, penetra em nosso subconsciente.

Nota: 8.5

(1930) Direção de Josef von Sternberg, com Marlene Dietrich, Emil Jannings, Kurt Gerron, Rosa Valetti, Hans Albers

Depois de mais de um ano com a mesma "carinha", Tudo é Crítica ganha sua primeira modificação visual. Trata-se, como vocês podem ver, de um novo layout. A ideia não foi do editor do blog, que teimava em seguir com seu conservadorismo (tradição vindoura de sua cultura inútil) e mantinha a mesma estrutura visual desde o nascimento do blog em outubro de 2007. Luciano, parceiro e editor do A Sala, se encarregou de tudo. Tudo é Crítica agradece farfante, gordurante e elefantemente pela força, Luciano. Essa nova estrutura irá possibilitar certas vantagens que a outra não oferecia e com ela novidades virão por aí. Espero que todos gostem. E podem agradecer para o Luciano.

2009 (ainda) vai ser animal. E agora o calendário está oficialmente estourando, após a estreia de X-Men Origens: Wolverine, na última quinta-feira. Para os cinéfilos leitores deste blog que gostam de se organizar para as estreias dos filmes que mais aguardam, segue abaixo um pequeno "calendário" das mais aguardadas produções que entrarão no circuito este ano:

Dia 08/05

Star Trek

Star Trek
de J.J. Abrams chega para alucinar milhares de fanáticos espalhados mundo afora. É hora de pegar sua nave espacial e embarcar nesta aventura que promete derreter os fãs da série original.



Um Ato de Liberdade

Edward Zwick aposta em Daniel Craig para coordenar o elenco de Um Ato de Liberdade, sobre três irmãos judeus que fogem da Polônia dominada por nazistas e se escondem na Bielorrússia.

Dia 15/05

Anjos e Demônios

Ron Howard prometeu que a nova aventura de Robert Langdon seria fiel ao livro e ao mesmo tempo apimentada por novos temperos. A receita ele sabe, resta saber se não passará do ponto.

Dia 05/06

Duplicidade

Próximo filme de Tony Gilroy promete. Não por menos, o espertinho convocou um elenco elegante, com Julia Roberts, Clive Owen, Paul Giamatti, Tom Wilkinson e Billy Bob Thornton.


A Mulher Invisível

Cláudio Torres dirige esta comédia com a lindíssima namoradeira Luana Piovani. Já sabemos do que se trata, é mais um filme mediano feito sob medida para Selton Mello brilhar. Ah sim, Selton Mello é o protagonista.


O Exterminador do Futuro: A Salvação

Preparem-se para dezenas de grosserias de Christian Bale neste filme que promete demais. Pena que irão cortar o duelo entre o astro e seu diretor de fotografia, pois seria uma cena de ação com carga dramática jamais vista no cinema.

Dia 03/07

Inimigos Públicos

Inimigos Públicos traz Michael Mann, Johnny Depp e (olha ele aí de novo) Christian Bale atirando para todos os lados. Vai ser um filmaço, alguém guarda restrições?

Dia 17/07

Harry Potter e o Enigma do Príncipe

David Yates foi o corajoso da vez ao aceitar dirigir a nova aventura do bruxinho mais bem quisto do planeta. A série já perdeu a graça faz tempo, mas tudo bem, segue encantando seus fãs e isso é o que importa.

Dia 28/08

Onde Vivem os Monstros

Sem dúvida Onde Vivem os Monstros será o filme-fantasia do ano. Spike Jonze entende do riscado e parece estar tratando bem o livro de Maurice Sendak.

Dia 04/09

Up - Altas Aventuras

Não é nada disso que você está pensando, se pensou em cinebiografia animada sobre o padre baloeiro. Up - Altas Aventuras é a mais nova cartada da Pixar, e que dificilmente decepcionará.


O Sequestro do Metrô

Neste filme que só poderia ser dirigido por Tony Scott, Denzel Washington, John Travolta, John Turturro, Luiz Gusmán e James Gandolfini farão um duelo de interpretações sensacional. Aguarde!

Dia 09/10

Shutter Island

Martin Scorsese volta a trabalhar com Leonardo DiCaprio neste filme que também conta com grande elenco e uma história caprichada. Não tem como dar errado.

Dia 23/10

Bastardos Inglórios

Provavelmente o filme mais aguardado do ano no mundo, Bastardos Inglórios traz Brad Pitt sendo dirigido por Quentin Tarantino. E tem Tim Roth também.

Dia 06/11



O Lobisomem

Joe Jonhston dirige Benício Del Toro (na foto acima, acredite) e Anthony Hopkins (que parou de comer cérebros) neste remake que se passará na Inglaterra Vitoriana e vai ganhar o Oscar de melhor maquiagem.

Dia 13/11


Whatever Works

O incansável Woody Allen também aparecerá com uma comédia. O roteiro ainda não foi divulgado e a ansiedade aumenta a cada dia.

Dia 20/11

Lua Nova

Vai ser mais aventuresca esta segunda parte da mais nova franquia hollywoodiana. Saiu a sensibilidade de Catherine Hardwicke e entrou a agitação de Chris Weitz

Loz Abrazos Rotos

Pedro Almodóvar abalará a estrutura narrativa novamente com Loz Abrazos Rotos, que marca mais uma parceria com Penélope Cruz, agora com um Oscar em casa.

Dia 04/12

A Serious Man

Novamente escrevendo comédias, os irmãos Coen dirigem esta com elenco desconhecido e história bastante peculiar. A margem de erro é praticamente nula aqui também.

Dia 18/12

Avatar

O filme mais aguardado do ano para Tudo e Crítica. James Cameron retorna ao trabalho após curtir o sucesso de Titanic por 12 anos. Sem mais comentários no momento.

02/05/2009

O Exorcista

"Stick your cock up her ass, you motherfucking worthless cocksucker"

Não só pelo fato de ter sido o único filme de terror com indicação ao Oscar de melhor filme na história da premiação, mas também por representar todos os estilos e abordagens que o gênero permite, O Exorcista, obra-prima de William Friedkin, é até um hoje um exemplo imbatível de como filmar o horror de maneira realmente assustadora e convincente. A rigor, o gênero mudaria definitivamente seus paradigmas e concepções após o lançamento deste clássico. Regan (Linda Blair) é uma menina misteriosamente possuída por uma força maligna, que a faz levitar e rodar a cabeça, entre outros terríveis fenômenos. Em pânico, sua mãe chama um padre para exorcizá-la, mas mesmo ele tem dúvidas se o fenômeno pode ser atribuído ao demônio.

Não demora muito para Friedkin fisgar o público, pois a maneira com que o diretor conduz a narrativa no primeiro ato deixa o espectador com os nervos em frangalhos (e a tensão aumenta gradativamente durante todo o filme). Antes disso, porém, o diretor pede um pouquinho de paciência para sua platéia, que precisa aborver a primeira sequência do filme com atenção. A partir daqui, estamos prestes a presenciar um dos filmes mais assustadores da história do cinema, onde há espaço para todas as técnicas do vocabulário cinematográfico mostrar a sua grandeza e importância.

Do som à edição, passando pelos maravilhosos e delirantes planos americanos e médios utilizados em abundância pelos diretores de fotografia Billy Williams e Owen Roizman, chegando na direção talentosa e competente de William Friedkin. Funciona tudo como manda o figurino (este também impecável, com o perdão da redundância), mas o grande destaque de O Exorcista é a sua protagonista, sua personagem, leia-se Linda Blair - atriz que dedicou toda a carreira para o gênero, mas nunca mais acertou novamente. A composição de Regan pela até então jovem atriz é nunca menos que impecável, tornando sua criação absolutamente perturbadora, cumprindo seu papel com sobra. Ainda no elenco, destaca-se Max von Sydow (ator preferido de Ingmar Bergman), elegante e eficiente como sempre.

Aqui também temos um belo exemplo de terror psicológico e sanguilonento, pois Friedkin cria uma atmosfera com todos estes requintes e recursos à perfeição. A criação do terreno onde a ação dramática será centrada é desfiada pelo diretor com maestria, é como imaginar Beethoven compondo a 9° Sinfonia. O diretor focaliza sua narrativa e nunca mais perde o controle dela, mantendo o espectador de olhos esbugalhados até o fim daquele exorcismo literal. É lúgubre, enfim, além de delirante e eficiente. Aqui temos as sequências mais assustadoras (e inesquecíveis) da história do gênero, takes até hoje reverenciados por cinéfilos, nerds, fans, góticos e outros cineastas. Dá para se dizer, sem medo de errar, que O Exorcista revolucionou o gênero e segue até hoje como exemplar a ser batido.

O roteiro de William Peter Blatty (autor também do livro) que cuida com perícia dos personagens é outra peça fundamental. Na verdade, a aura de mistério do argumento do escritor funciona incansavelmente, quase nunca deixando o espectador sequer piscar. Sem susto fácil, não foi assim que o roteirista planejou. É através da cultura moral que Blatty aterroriza a plateia, fazendo com que diálogos ofensivos confrontem a moral e a indignação de cada um (personagens e espectadores) dos presentes. Foi um terror instantâneo quando foi lançado e é considerado até hoje o clássico do gênero a ser superado. Permanecerá nesta posição para sempre, porque o que foi feito por Friedkin, Blatty e sua equipe nunca será esquecido.

Nota: 8.5

(1973) Direção de William Friedkin, com Linda Blair, Jason Miller, Max von Sydow, Ellen Burstyn