O roteiro é de causar inveja aos melhores escritores e o argumento, embasado e audacioso, torna a experiência extremamente recompensadora. Godard liga aos cosmos, flerta com a ciência e dá poder a mulher (aqui, mais do que nunca, a mulher é superior ao homem). Godard constrói o filme sob tomadas fixas, enquadramentos estáticos, formando uma belíssima história em quadrinhos em movimento. Além disso, ganha destaque a abordagem que o autor utiliza para contar a história, original e corajosa, que mostra a visão do diretor sobre a concepção da Virgem e a controversa e difícil convivência entre corpo e espírito. É um filme iconoclasta de um cineasta iconoclasta - com o perdão da redundância.
O filme narra duas histórias que caminham paralelamente. Numa delas, Maria (Myriem Roussel) é uma jovem estudante que joga basquete na escola e trabalha no posto de gasolina de seu pai. José (Thierry Rode ) é um taxista que, ao saber da gravidez de Maria, a acusa de traição. O anjo Gabriel (Philippe Lacoste), agora, tentará convencer José para que ele aceite essa gravidez, pois tudo faz parte dos planos divinos. Em paralelo, um professor de ciências que estuda a origem da vida na Terra tem um caso com uma de suas alunas.
Com elegância, Godard organiza as cenas de ambas as histórias e exercita a técnica fílmica de ângulo estático com perfeição. Godard é um mestre do visual deslumbrante, sempre comedido, é verdade, porque seus quadros são pincelados por sentimentos humanos, não por cenografia e fotografia multicolorida. O cineasta do feminino ainda demonstra, por via de diálogos, como elaborar uma história convincente e impactante. Além do mais, o vanguardismo e a polêmica ( aqui os valores cristãos podem ser cutucados fortemente por quem não estiver disposto a acompanhar a versão de um visionário sobre a concepção da Virgem) estão aqui, bem como o estudo do comportamento feminino e a etmologia.
Godard não perdoa nada, dispara seus torpedos metalinguísticos para todas as direções. Para quem não aprecia o cinema do diretor que sempre trabalhou por amor, sem se render ao corporativismo da indústria cinematográfica, Je Vous Salue, Marie pode ser um filme lento e tedioso, mas para aqueles tentam compreender a grandeza de seus filmes basta deleitar-se com mais esta obra-prima hermética do cineasta francês. Afora as polêmicas, estamos claramente falando de um filme apaixonado, pois seu diretor defende sua tese, bate no peito e diz (com imagens) que ama cinema. Godard realizou, aqui, (mais) um filme que exige do espectador - pode ser preciso ver o filme mais de uma vez para elaborar uma análise mais completa.
Os personagens são estupidamente bem desenvolvidos pelo diretor, que contou com um elenco elegante, que, por sua vez, completa o ciclo perfeito do filme. Myriem Roussel desempenha com garra o papel principal, dando alma e realismo a personagem. Ademais, Juliette Binoche faz uma partipação de luxo, enquanto Phillippe Lacoste brilha como o anjo Gabriel. Um filme grandioso de um diretor paradoxal. Uma obra repleta de sentimentos humanos aflorando em meio ao descobrimento pela criação do menino Jesus. Algumas décadas depois, grande parte do público percebeu que esta é apenas a visão de Godard, que não é Deus, nem tentou ser.

(Je Vous Salue, Marie, França, 1985)
Direção de Jean-Luc Godard
Roteiro de Jean-Luc Godard
Com Myriem Roussel, Thierry Rode, Phillippe Lacoste, Juliette Binoche






































