
Se você pensar em clássicos filmes noir como Pacto de Sangue (em tempo, é o filme que a personagem-título assiste na primeira tomada do filme) e Rififi ou até mesmo em suspenses que flertam livremente pelo gênero como Um Corpo Que Cai e Uma Rua Chamada Pecado você terá a receita básica preparada por Brian De Palma para Femme Fatale, obra-prima que ele escreveu e dirigiu em 2002. De Palma é capaz de pegar diversos filmes, colocá-los na batedeira, retirando uma fatia de cada um, deixar um gostinho de cada um destes filmes e ainda manter o registro autoral e sua identidade. A rigor, Femme Fatale é um composto de vários gêneros e filmes, mas a assinatura personalizada do cineasta está presente em cada fotograma. Um delírio visual sexy e ousado.
Mestre no exercício cinematográfico quando se refere ao manejamento das câmeras, ângulos e enquadramentos, De Palma coordena tudo com perfeição. Tecnicamente impecável, Femme Fatale é uma realização onde estrutura e estética navegam tranquilamente, como as ondas e as curvas do corpo perfeito de Rebecca Romijn (falaremos sobre esta descoberta do diretor mais para frente). De Palma brinca com o espectador desde o início, com sua técnica apurada, o cineasta desfila recursos incansavelmente, como o Split Screen (tela dividida), a câmera lenta (há um certo exagero no uso deste recurso) a câmera panorâmica (em planos filmando o objeto de cima), o plano-sequência, movimentos arrojados e elegantes. Uma viagem ao literal exercício de estilo e tomadas que fazem muito bem aos olhos, e que o diretor executa como poucos.
Este thriller noir de Brian De Palma conta a história da bela Laura Ash (Rebecca Romijn), uma mulher que tenta fugir de seu passado obscuro a todo custo. Mas, para isso, ela precisa voltar à França, sete anos depois de ter participado de um ousado roubo de jóias. Sob uma nova identidade, ela precisa ir atrás de Nicolas (Antonio Banderas), um fotógrafo que tirou uma foto sua, colocando a vida da femme fatale em risco. Entre situações perigosas e intrigas pessoais, Rebecca vê em Nicolas uma oportunidade de "apagar" as marcas do passado, que insistem em bater à porta da irresistível loira.
Além de todo o escopo que De Palma defende sem medo errar e da técnica apurada, Femme Fatale ainda apresenta outras facetas características do cineasta. Não há dúvida de que estamos diante de um dos filmes mais musicais do diretor, já que o visual estilista composto pelo diretor permitiu que o músico Ryuchi Sakamoto dedilhasse canções tensas e obscuras, adequando-se ao registro construído pelos personagens. Aliás, o filme não é somente puro prazer visual escapista, é um filme com alma e personagens apoiados em convicções e sentimentos. A protagonista, por exemplo, é um excelente estudo de personagem feito por Rebecca Romijn, esta linda e talentosa atriz. Rebecca desfila sensualidade em um desempenho natural e cheio de personalidade. Banderas também aparece muito seguro e à vontade, mantendo o nível do competente elenco, que ainda conta com coadjuvantes de luxo como Peter Coyote e Eriq Ebouaney (tornando o vilão bastante convincente).
Via de regra, De Palma mostra que cada vez mais é capaz de criar cenas antológicas. Neste caso, há duas. A primeira é a do banheiro, onde o diretor filma uma cena de lesbianismo misturada com um roubo, e o resultado é perfeito. A segunda é quando a femme fatale dança no bar para um estranho enquanto Nicolas assiste a tudo e depois acaba brigando com o cara. No momento da briga, vemos a cara de satisfação da mulher e, ao fundo, apenas as sombras dos dois homens. Sensacional. Em tempo, se você ainda não assistiu o filme, fique de olho em todos os detalhes, pois De Palma brinca com o espectador deixando dicas durante toda a metragem - e mesmo prestando muita atenção você não irá perceber a maioria destas pistas.
Direção de Brian De Palma, com Antonio Banderas, Rebecca Romijn, Peter Coyote, Eriq Ebouaney






