Foi no último domingo. Foi no último domingo que o câncer levou um dos maiores compositores da história do cinema. Aos 84 anos, Maurice Jarre faleceu. A alma de três obras-primas de David Lean, Dr. Jivago, Lawrence da Arábia e Passagem Para a Índia, e vencedor do Oscar por estas. Vá em paz, gênio!

27/03/2009

Zodíaco


A idéia de remontar a história do serial killer que, a partir do final da década de 60, assassinou dezenas de pessoas em San Francisco, nos Estados Unidos, e nunca fora preso - até hoje - não poderia ter caído nas mãos de outro cineasta. Para o bem ou para mal, veio a calhar sob as lentes virtuosas e perfeccionistas de David Fincher, o mesmo que outrora realizara maravilhas como Seven e Clube da Luta. Zodíaco, primeiro filme menos autoral de Fincher, é um ótimo estudo de personagens, um competente thriller de investigação (até a metade) e uma boa repaginada na história que fora contada no horripilante O Zodíaco, de Alexander Bulkley, em 2005, e no vergonhoso The Zodiac Killer, de Tom Hanson, em 1971. O filme de Fincher, no entanto, que é perfeito esteticamente, peca pela demasia, às vezes sendo guloso(!) e soberbo(!!).

Enquanto potencializa a estética e encorpa a narrativa com pistas e mais pistas que sempre levam a outras pistas e estas nunca levam a lugar algum, Fincher elabora sua teia de personagens sem perder tempo - tempo esse que lhe seria valioso no terceiro e último ato. O filme tem início quando o serial killer já cometeu (supostamente) três ou quatro crimes. Logo depois, quando o assassino envia uma carta à três diferentes jornais da cidade, confessando a autoria dos crimes (e de um outro onde teria matado um casal), é que roteiro engrena e inicia seu complexo emaranhado de quebra-cabeças. O roteiro de James Vanderbilt é bom, mas nem por isso sempre correto. O clima de tensão criado pelo escritor no terceiro ato é gratuito, já que todos sabemos como a história irá terminar. E se no livro esse clima existe, pouca diferença faz, já que um filme precisa ser auto-sustentável.

Nem tanto pela história mas muito pela opção narrativa, no segundo ato, Zodíaco acaba virando dois em um. A virada de rumo que a narrativa dá, levando o filme de um thriller excitante a um pegajoso drama de estudo de casos, é o ponto crucial e responsável pela quebra de ritmo que, infelizmente, não combinou com o que vinha sendo apresentado até então. Fincher exagerou no pedantismo e deixou seu belo exercício neo-noir se transformar num filme comum até a última célula. A partir daqui, os conflitos pessoais de cada personagem tomaram conta da narrativa, sendo egoístas com o serial killer, o "dono" da história, que ficou em segundo plano. Novamente Fincher preferiu artificialismos. Não que o roteiro tenha perdido o foco narrativo ou até mesmo que a construção de personagens tenha sido impregnada de forma errônea - pelo contrário - mas Zodíaco não é um filme sobre personagens (já chegaremos neles), e sim sobre o assassino serial.

Todavia, a direção contida e segura de Fincher não permite que seu filme se perca diante da grandeza de seu tema - e é justamente através dos personagens que o diretor tenta absorver o espectador, seja com piadas, seja com diálogos leves. O cineasta ainda aproveita ao máximo o talento do elenco que tinha em mãos. Robert Downey Jr está fantástico como (Paul Avery) um dos jornalistas que investiga o caso. Downey Jr. constrói um personagem complexo e intenso com seus gestos e olhares. Jake Gyllenhaal (Robert Graysmith), que por força do roteiro acaba se transformando no protagonista, está muito bem, interpretando com garra o jornalista que, anos depois, escreveria o livro em que o filme é baseado. Comprovando o talento que tem, Mark Ruffalo ganha destaque quando transmite seriedade ao compor o detetive David Toschi, sem nunca ser caricato ou mecânico. Seu personagem talvez seja o mais complexo da intrincada trama do roteiro de James Vanderbilt.

Outra virtude do filme está nos quesitos técnicos, aspecto que não pode ser menos que perfeito em filmes que levem a assinatura perfeccionista de David Fincher. A ambientação da época construída com elegância por Keith P. Cunningham e sua equipe criativa é nunca menos que brilhante. Desde a redação do San Franscisco Chronicle, clara e assumidamente retirada de Todos os Homens do Presidente, até as ruas e casas da cidade, está tudo lindo. Estilistas também não perderam tempo com os figurinos, que ajudam ainda mais a criar o clima realista que o diretor buscava. Tudo isso seguido de perto pelas lentes multifocais e obscuras de Harris Savides, funcionam em sincronia perfeita. Falando em canto, não há como não mencionar a ótima trilha sonora do talentoso David Shire.

Shire sabe muito e mostra isso com vigor aqui. Do início ao fim suas canções são apropriadas e bem-vindas, em estilo e melodia. É interessante notar que o diretor nunca neutraliza a história, utilizando todos os aspectos, em forma e quantidade, à exatidão. No entanto, o filme perde-se novamente quando se deixa levar pela gula, ao não terminar o filme no "momento certo" por pelo menos duas vezes, deixando, assim, o final um tanto quanto indigesto. Apesar disso, Zodíaco evita o caminho fácil do search and find (ajudado, é claro, pela própria história base), mostrando a preocupação do diretor com a coerência do seu projeto. No final, faltou um pouco mais de estofo e sobrou vontade de ser o melhor.

Nota: 7

Direção de David Fincher, com Robert Downey Jr., Mark Ruffalo, Jake Gyllenhaal, Dermot Mulroney, Chloë Sevigny

O artista plástico holandês Martijn Hendriks pegou um dos maiores filmes de terror de todos os tempos para brincar. Que responsabilidade. Felizmente, para Hendriks, a brincadeira ficou muito legal. O cara pegou uma cena de nada mais nada menos que Os Pássaros, de Alfred Hitchcock e, digitalmente, apagou os pássaros. Segundo o próprio Hendriks, a cena, mesmo sem os voadores, ilustra o medo diante do desconhecido.

22/03/2009

Críticas rápidas

Meu Nome é Taylor, Drillbit Taylor

Steven Brill dirige esta comédia aventuresca careta estrelada por Owen Wilson. Owen, aliás, está péssimo como um ex-combatente que aceita ser segurança de um trio de moleques. Todos os três, porém, estão muito bem, mas a breguice da história roteirizada por Seth Rogen é tanta que isso dificilmente passará percebido pelo espectador. Piadas sem graça e contorno final idiota completam a sessão. Nota: 1.5

Corrida Mortal

Universo estiloso e visual maneirístico do mais recente filme do malucão Paul W.S. Anderson é bonito mas ao mesmo tempo contraditório. Enquanto a estutura visual é muito bem trabalhada pelo diretor, a trama aborrecida carece de maiores atrativos. O público aguenta até o final da sessão porque os efeitos altamente realistas injetam adrenalina pura na veia, caso contrário Jason Statham seria abandonado no grid de largada da corrida mortal. Nota: 6

Atos Que Desafiam a Morte

Gillian Armstrong bem que tentou, mas sua tentativa de transformar água em vinho caiu por terra. A história do ilusionista Harry Houdini poderia ter rendido um bom filme se o diretor não errasse tanto com fatos históricos e buscasse um pouco mais de paixão pela sua obra. Se o criador não ama a criatura, o processo está fadado ao fracasso. Guy Pearce e Catherine Zeta-Jones constroem personagens antipáticos e que em momento algum mostram-se verdadeiros perante o público, que não caiu nesse truque de Gillian Armstrong. Nota: 1

Cloverfield - Monstro

A câmera na mão treme incessantemente, mas nunca insatisfaz. Tudo bem que a brincadeira aterrorizante de Matt Reeves nunca alcança o nível de A Bruxa de Blair no quesito vamos-filmar-tudo-que-a-cuca-vem-pegar, mas design sonoro e a ambientação dos cenários especiais cooperam para o desenvolvimento de um bom filme de sustos - mesmo que premeditados. O elenco mantém o pavor do público quando mostra que também não possui informações sobre o que realmente acontece em New York. Nota: 7

As Crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian

A fortuna gasta com efeitos digitais e roupagem fantástica tentam mascarar as evidentes falhas deste filme-fantasia escrito e dirigido por Andrew Adamson, mas a arquitetura de vilões e mocinhos é banal e nunca convence. As cenas de ação são preguiçosas e o elenco juvenil está mais perdido que filho de prostituta em dia dos pais. Nota: 2.5

A Casa de Alice

Ótimo filme nacional esquecido pela organizações competentes é um completo estudo de caso que, aqui, é a família de classe média brasileira. Interpretações vigorosas e roteiro saudável unem-se em prol da coerência narrativa. A câmera sempre próxima do assunto mantém o clímax constante da história, que apresenta um escopo de dar inveja ao melhores escritores de drama do cinema contemporâneo. Nota: 7.5

Perigo em Bangkok

Louvável seja o extremo objetivo de Nicolas Cage em desconstruir sua própria carreira. Mesmo que desta vez tenha trabalhado com os irmãos Pang (que ainda tem muita película para rodar antes da maturidade), Cage sofre um personagem bobo e infantil. Com mullets estilo Robert Langdon e Anton Chigurh (mas com este há de se ter respeito), Joe (Cage) é um matador que não mete medo nem na mãe do badanha. O filme, no geral, é morto e com ação gratuita. Nota: 0

Carga Explosiva 3

Luc Besson continua a saga do transportador mais crazy do planeta neste filme dirigido por Olivier Megaton. Se o primeiro filme da franquia serviu para introduzir o personagem para o público do novo milênio e o segundo para estabelecer de uma vez por todas o status de Jason Stathan como astro da pancadaria, este terceiro funciona como exemplo de que certas histórias tem hora para acabar. Nota: 3

Busca Implacável

Muita testosterona e porrada que não acaba mais são os ingredientes básicos deste filme estrelado por Liam Neeson e escrito por (quem!?) Luc Besson. As cenas de ação são movimentadas e não dão espaço para o espectador respirar. Neeson mostra eficiência como um agente aposentado da CIA que precisa resgatar sua filha que foi sequestrada. Não recomendado para cardíacos. Nota: 6

Segurando as Pontas

Em filme que traz piada atrás de piada (poucas delas realmente engraçadas), o humor negro e sarcástico de Judd Apatow e Seth Rogen é a alma desta comédia física dirigida pelo inoperante David Gordon Green. Seth Rogen continua mostrando o ótimo ator que é com uma ótima performance e James Franco está hilário como um traficante idiota. Neste filme com muita maconha e fumaça, o que vale é o valor da amizade. Nota: 5

"Você queria uma versão da Índia verdadeira? Aqui está!"

Quando o roteiro de Quem Quer Ser um Milionário?, escrito por Simon Beaufoy, foi parar nas mãos de Danny Boyle, o cinemão hollywoodiano deixou de ser antagônico. A rigor, nada mais justo. Boyle é um cineasta independente e o filme caiu em boas mãos. Ok, Boyle já fez A Praia, viagem nonsense total estrelada por Leonardo DiCaprio. Por outro lado, o mesmo diretor já realizou Trainspotting - Sem Limites, filmaço cult com Ewan McGregor. Além de outras aventuras (Cova Rasa, Extermínio, Caiu do Céu) que comprovam o seu status de cineasta variante. Não há dúvida de que Danny Boyle é um diretor apaixonado pela sua arte, caso contrário não se aventuraria em filmes com propostas tão diferentes. Além disso, essa versatilidade mostra que Boyle está em constante movimento, sempre buscando novos conhecimentos, porque ele ama fazer filmes, ama cinema. Quem Quer Ser um Milionário?, sua mais nova cria cinematográfica, é outra aventura do diretor por caminhos opostos, mas a veia autoral e o amor pela arte continuam intactos.

Como cineasta intelectual e competente analista humano, Danny Boyle mais uma vez comprova sua agilidade ao construir uma narrativa clara e limpa, mas que nunca mastiga a história para o público. Aliás, o público já é pego pela coleira desde o primeiro ato, ou melhor, a primeira cena. Quando o menino Jamal é perguntado sobre como conseguiu chegar no final do programa que deu o título nacional ao filme, o público está oficialmente fisgado pelas lentes multicoloridas do fotógrafo Anthony Dod Mantle, pelo roteiro ágil de Beaufoy e, claro, pela estética narrativa contagiante de Danny Boyle. Mas Quem Quer Ser um Milionário? não é somente técnica e conhecimento de estrutura, é a magia do cinema novamente nos mostrando que não deixamos de ser "sérios" por sermos felizes.

A trama, narrada em três tempos, conta a história de Jamal Malik, um jovem órfão que está a uma pergunta de ganhar o prêmio de 20 milhões de rúpias no programa do título. Jamal precisa convencer a polícia de que não está trapaceando, e para isso conta uma história incrível que remonta sua própria vida, passando pela sua infância e chegando a sua adolescência. A dúvida de como um garoto pobre vindo das favelas de Bombaim conseguiu chegar no topo do programa paira no ar, já que nem pessoas "letradas" conseguiram o feito. Jamal corre contra o tempo neste jogo cartunesco conduzido com elegância (frenética) por Danny Boyle.

A sensação claustrofóbica do primeiro ato - que é um espetáculo de montagem e edição de som - dá o tom, a narrativa manterá o espectador sob constante onda de tensão. E, de fato, o que se vê na tela é puro virtuosismo cinematográfico. A montagem hiper-acelerada de Chris Dickens (cortes secos pontuam as perfeitas transições do montador) casa facilmente com a trilha sonora estridente (com volume altíssimo e muita batida eletrônica, numa mescla genial entre culturas) de A.R. Rahman, que, justapostas, deixam o público ser carregado por esta maravilhosa sensação - aliás, não é em todo feel good movie que sentimos isso. Estamos diante de um espetáculo sonoro e visual onde não há espaços para uma piscadela. Maravilhoso.

Para apresentar tudo isso em quadros multicoloridos, Anthony Dod Mantle utilizou câmeras em alta definição, onde qualquer lugar do mundo, por mais sujo e feio que ele seja, parecerá lindo aos olhos humanos. A rigor, o que se vê é um visual exótico, com cores vibrantes e quentes, o que aumenta ainda mais a agonia da platéia. Anthony não leu a cartilha dos fotógrafos e deixou de lado malabarismos e recursos "obrigatórios" bastante utilizados por diretores de fotografia em filmes com tantas paisagens panorâmicas. Felizmente, a opção do fotográfo foi correta. Quem Quer Ser um Milionário? é um deleite visual e estético, onde cada detalhe trabalha em conjunto com outro, e o todo ficou deslumbrante.

Coordenando tudo isso temos um diretor que nunca permite que sua câmera neutralize sua história. Aqui, Danny Boyle, mais do que nunca, demonstra seu talento como diretor ao captar com precisão os sentimentos de seus personagens sem deixar que sua direção apareça mais que o devido. Além disso, o cineasta utiliza a trilha sonora (muita cultura pop, desta vez, porém, indiana) como recurso para manipular tensão no espectador. E funciona perfeitamente. Outra grande virtude deste trabalho do diretor é a maneira com que ele dirige seu elenco desconhecido. Dev Patel (Jamal) está ótimo e Freida Pinto (Latika) mostra competência em uma composição impecável. A sintonia dos dois é perceptível desde o primeiro momento em que os dois contracenam e nunca cai para o vulgar e perecível. Sem contar que temos Anil Kapoor a vontade num papel perfeito para seu naturalismo usual.

Danny Boyle fez o filme que o cinema independente precisava para ter o devido valor reconhecido. Ainda realizou a tão esperada junção entre a Bollywood otimista e a Hollywood pessimista. O resultado foi um filme lindo, que há muito não se via. Boyle foge dos clichês justamente reutilizando todos os tipos possíveis deles, "já que atualmente um filme precisa ser triste para ser realista e 'sério'" - uma grande hipocrisia em tempos de unificação mundial - e o diretor vai contra isso. Slumdog Millionaire é "sério", mas é feliz e otimista, algum problema nisso? A felicidade e essa vontade de ser feliz sem medo do filme engasgou em alguns críticos, que não assumem que derramaram lágrimas ou que, no mínimo, sorriram no final da sessão de imprensa. Relutantes, mantiveram o conservadorismo debaixo do braço. Uma pena, pois estão eles diante de um filme que é emocionante aos olhos, aos ouvidos e ao coração.

Nota: 8.5

Direção de Danny Boyle, com Dev Patel, Freida Pinto, Anil Kapoor, Madhur Mittal

Leitores, antes de vocês lerem sobre Quem Quer Ser um Milionário? (a crítica será publicada amanhã!), vamos ler a Revista Cinefilia, já em sua segunda edição, e que já está no ar no Cinefilia, site do qual eu tenho orgulho de fazer parte. A edição de março apresenta um especial (eu amei essa capa) fantástico, críticas sobre os mais recentes filmes, revisões e, claro, os clássicos que não saem da nossa memória. O autor deste blog colaborou, nesta edição, com três textos. Na revista você encontra de tudo um pouco, tem para todos os gostos. Mas nada seria possível sem a estupenda realização do nosso editor, que elaborou uma revista visualmente impecável, além de colaborar com textos. Luis Henrique, do Multiplot, assina o especial Dossier Giallo, que ficou sensacional.

Para ler a edição 2 da Revista Cinefilia clique aqui.


O cara é cabra-macho. Clintão Eastwood não pára mesmo. Tudo leva a crer que o diretor de Os Imperdoáveis e Menina de Ouro vai completar um século de vida atrás das câmeras. Mesmo tendo um filme (Gran Torino) ainda por estrear em alguns cantos do mundo, Clint segue a pleno vapor filmando. A mais nova produção de Clint já está começando a ganhar forma, The Human Factor, filme que contará a história de um jogo de rugby de 1995 usado por Nelson Mandela (Morgan Freeman) para unificar negros e brancos. Matt Damon, que viverá o capitão da seleção sul-africana de rugby, aparece com o mestre nas fotos que vocês conferem abaixo:



Milos Forman foge do pedantismo neste filme-rebelde sobre o inconformismo e as mazelas da sociedade. Um Estranho no Ninho, filme que consagrou o diretor tcheco após se tornar o segundo filme na história a ganhar os cinco Oscar principais, é um estudo do comportamento humano impecável e uma fábrica de excelentes interpretações. Além disso, a direção de Forman é tão competente quanto inovadora. Só peca, no entanto, no final, que é abrupto e incoerente numa tentativa irrisória de surpreender e levar o espectador as lágrimas. Ainda assim, o talento do elenco e a competência do diretor ao coordenar este elenco deram sustentabilidade suficiente para Um Estranho no Ninho tornar-se a grande realização que de fato é.

Antes de virar película nas mãos cuidadosas de Milos Forman, o conto do romancista Ken Kesey teve um affair com o então astro Kirk Douglas, que tentou durante dois anos convencer algum estúdio a bancar a brincadeira. Ninguém queria arriscar, então Kirk abandonou o navio. Mas quis o destino que o filme fosse realizado sob a tutela da família Douglas, e foi assim que o novato Michael colocou o projeto embaixo do braço e, com o apóio da Warner e do tarimbado produtor Saul Zaentz, levou o filme às telas, chamando outro novato (em Hollywood) para sentar na cadeira de diretor, Milos Forman.

Aliás, quem conhece o cinema de Forman antes do diretor aportar em Hollywood, em 1970, sabe que o cineasta era um comediante de primeira, e que bebia diretamente da mesma fonte de mestres como Groucho Marx e Buster Keaton. Forman chegou ao ponto de realizar uma homenagem disfarçada a Groucho quando comandou o ótimo Os Amores de Uma Loira, onde faz referências clássicas a No Hotel da Fuzarca, filme que faria Dirty Harry gargalhar. O mais interessante é que Forman não perdeu seu humor característico aqui, dosando-o perfeitamente com a forte carga dramática que o roteiro de Bo Goldman e Lawrence Hauben exigia.

A escolha feita por Michael Douglas e Saul Zaentz (também produtor) em colocar Milos Forman como diretor resultou num filme múltiplo, que pode tanto ser um drama forte como uma experiência descontraída, depende do ponto de vista de cada espectador, e isso é mérito do diretor, que amplia o seu universo intelectual, tornando o filme menos perecível e muito mais interessante. Aqui, Forman conduz a narrativa com elegância e destreza de um mestre, nunca caindo nas armadilhas do melodrama fácil esquecível. O diretor ainda mostra aptidão ao dirigir um elenco com mais de 10 personagens, todos com papéis importantes dentro da estrutura narrativa. A rigor, este filme rebelde de Milos Forman é interpretado uniformemente, onde todos estão excelentes.

O filme se passa inteiramente num hospital psiquiátrico, que é para onde Randle Patrick McMurphy (Nicholson) é conduzido. O problema é que Randle (aparentemente) não é louco, o que leva os especialistas do hospital aos questionamentos mais básicos. Uma vez lá dentro, McMurphy começa a estimular os pacientes à rebeldia contra os tratamentos rígidos impostos pela enfermeira-chefe Ratched (Louise Fletcher), mulher segura de que suas regras são importantes no tratamento dos pacientes. Como não poderia deixar de ser, estamos diante de um filme de interpretações, onde tanto interpretações falantes e vibrantes como desempenhos silenciosos e expressionistas surpreendem pelo realismo.

A estréia de Christopher Lloyd, por exemplo, dá o tom. Lloyd compõe um personagem perfeito. Assim o fazem Danny DeVito, Dean R. Brooks, Alonzo Brown, William Redfield e os demais integrantes do elenco secundário. O destaque, claro, fica com Jack Nicholson, em desempenho formidável, e com a excelente Louise Fletcher. Jack molda um personagem vagabundo simpático, onde a própria apropriação do termo já garante a empatia com o público, que dificilmente desviará os olhos da tela. Além disso, o grande ator consegue ser dramático e engraçado na mesma tomada, mostrando completo domínio da técnica teatral. Louise Fletcher compreende isso muito bem ao compor sua personagem, que mantém uma aura de mistério o tempo todo, nunca se decidindo entre a bondade e a crueldade, a serenidade e um ataque de nervos.

Apesar de tudo, o final derrapa levemente na tentativa de surpreender ou até mesmo emocionar o espectador. Como resolução narrativa, ficou distante do escopo elaborada até então. Fora isso, Um Estranho no Ninho é um ótimo filme sobre o inconformismo, referência obrigatória para filmes rebeldes e um estudo completo sobre almas deslavadas.

Nota: 8

Ano: 1975
Direção de Milos Forman, com
Jack Nicholson, Louise Flecther, Danny DeVito, Christopher Lloyd, Alonzo Brown


Recentemente Tudo é Crítica publicou a lista com os 10 filmes mais aguardados para 2009 (para vê-la clique aqui). É, de fato, um ano que promete. Cinéfilos, críticos, detratores, intelectuais e curiosos estarão de olho na indústria cinematográfica este ano. As bilheterias irão borbulhar com a origem do Wolverine e a volta de Harry Potter. Esse ano poderemos ver a nova sandice de Tarantino, a mais nova brincadeira de James Cameron, as novas comédias de Woody Allen e dos irmãos Coen. Também será ano para Michael Mann colocar lenha na fogueira e Scorsese dirigir Leonardo DiCaprio novamente. Quer mais? 2009 ainda trará a nova aventura fantástica de Peter Jackson e o novo filme de Pedro Almodóvar comandando a agora oscarizada Penélope Cruz. Guy Ritchie também volta trazendo com ele Sherlock Holmes e Paul Greengrass faz nova dobradinha com Matt Damon. Clint Eastwood também vai pintar por aí querendo dar mais um Oscar para Morgan Freeman.

Enfim, não há dúvidas de que vai ser demais, esse ano. Tudo é Crítica não medirá esforços para trazer sempre o melhor em conteúdos, artigos e críticas. Vai ser difícil, afinal são muitas coisas ocorrendo em paralelo, como a volta do Fenômeno ao futebol brasileiro e a correção ortográfica (aliás, o blog já está começando a se adaptar a nova regra). Mas tudo bem, somos brasileiros e não desistimos nunca. Neste ano, o blog prestará homenagens aos seus 10 principais mentores na arte de fazer filmes, dissecando a filmografia e apontando o que foi aprendido com as lições de cada um. O cinema clássico vai ganhar ainda mais espaço, vamos até o cinema mudo, vamos para Bollywood, também, entre outras aventuras. Espero que gostem!


10/03/2009

A Conversação

"Eu preciso descobrir a receita desse diretor"

Camuflado dentro da filmografia de Francis Ford Coppola, A Conversação, thriller de espionagem ágil e inteligente, em nada deve aos seus mais conhecidos filmes. Aliás, todas as obras mais marcantes do cineasta foram realizadas na década de 70. A rigor, a década de 70 foi de Francis Ford Coppola. Naquele glorioso período, o homem que faria chover fez nada menos que O Poderoso Chefão, O Poderoso Chefão - Parte II e Apocalypse Now, exatamente nesta ordem. Antes do último, porém, o autor deixou A Conversação, que acabou garantido-lhe uma dobradinha no Oscar, tendo em mente que O Poderoso Chefão - Parte II teve este thriller como concorrente na disputa pela estatueta de melhor filme.

Como homem-multimídia que foi no começo da carreira, aqui, Coppola, além de sentar na cadeira de diretor, ainda assina o roteiro e produz este raro suspense, demonstrando seu total comprometimento com a obra. Tal devoção pode ser vista logo na sequência inicial. O filme abre com uma tomada aberta do alto, com lentes largas e close suave. A imagem que vemos é de uma praça cheia de gente, que conversam e caminham livremente. E é aí que o som indireto começa a mostrar serviço. Aqui, além de ser o grande responsável pela qualidade da condução narrativa do longa-metragem, a edição de som genial é um deleite para os fanáticos por detalhes mínimos de som.

Além disso, a edição de som, neste longo plano sem cortes da cena de abertura, combina perfeitamente com a fotografia, que, durante o restante da metragem, se mostraria absolutamente mergulhada em uma paleta escura para reforçar o estudo de personagem que Coppola realizaria em seu protagonista. A própria sequência inicial já contém tudo aquilo que se espera de um suspense de espionagem: uma cena que leve o espectador para dentro da ação e o plante no lugar do espião, tarefa que, o longo quadro panorâmico inicial cumpre com eficiência.


A trama é centrada na vida e obra do espião Harry Caul (Gene Hackman), especialista em vigilância e reconhecido nacionalmente por seu trabalho competente. A ação começa quando Harry é contratado por um diretor de uma grande empresa para vigiar um casal de amantes. No entanto, Harry, atormentado pelos fantasmas do passado (seu último trabalho resultou na morte de três pessoas) que o traumatizaram, teme que algo parecido aconteça, mas deverá lidar com isso para concretizar seu trabalho profissionalmente, como sempre o fez.

Realizando um magnífico estudo de personagem, Coppola apoia a carga dramática sob as costas da excelente atuação do ótimo Gene Hackman. O roteiro trata com cuidado o desenvolvimento sentimental do personagem e mostra um homem inteligente, mas solitário e vulnerável. Hackman apresenta-nos a um homem maduro, extremamente profissional e bastante fechado. O mais interessante, contudo, é que o ator nunca transforma o personagem em um homem bom demais para se amado e ruim o suficiente para ser odiado. A composição técnica de Coppola no escopo do roteiro é bastante competente, principalmente quando falamos de um filme-protagonista.

Apesar de tudo, A Conversação não chega a ser uma obra-prima. A maneira que o roteiro coloca o personagem de Harrison Ford (novinho em folha, antes de virar Indiana Jones) como vilão é bobinha e não convence em momento algum, apesar da entrega do ator. Como contraponto, temos uma participação de luxo por parte de Robert Duvall e um desempenho completo de John Cazale (excelente ator que deixou o cinema cedo demais, mas não sem antes ser o único ator do planeta a ter todos os seus filmes no top 250 do IMDB, mesmo que estes sejam apenas cinco). Cazale está fenomenal aqui, deixando mais um personagem marcante na sua curta e brilhante carreira.

Por fim, o mago dos anos 70 define sua obra com um final ambíguo e surpreendente. O desfecho pouco usual não desfaz a coerência apresentada até então, e vai além, deixa a sensação de trabalho mal feito com o personagem - e com o público. Grande realização do Rei setentista.

Nota: 8


Ano: 1974
Direção: Francis Ford Coppola
Elenco: Gene Hackman, John Cazale, Harrison Ford, Robert Duvall, Teri Garr, Frederic Forrest

08/03/2009

Atire no Pianista


David Goodis foi um dos maiores mestres da literatura noir norte-americana. Fato. Seu ritmo alucinante, que mesclava com perfeição romance, sexo, embriaguez e mulheres, conquistou legiões de fãs. Infelizmente, Goodis só recebeu este reconhecimento após sua morte, aos 50 anos, em 1967. Comparado seguidamente com Raymond Chandler e Dashiell Hammett, dois dos maiores autores noir de todos os tempos, Goodis possuia uma característica muito peculiar: sua escrita era muito mais noir do que policial, o que o diferenciava-o dos dois mestres já citados e aproximava-o do maior romancista noir de todos os tempos, Ross Macdonald.

Além do lirismo cru e da narrativa sem firulas, David Goodis construia tramas complexas, com personagens durões, anti-heróis, homens solitários. Em Atire no Pianista, considerado por muitos sua melhor obra, o escritor deixa bem claro sua visão de mundo: muita sujeira, sarjetas, violência, sexo, putas, drogas e atmosfera decadente. Goodis ainda possuia um humor negro refinado e elegância muito pessoal no tratamento dos personagens. Há, também, uma grande tendência aos roteiros hollywoodianos da época (Goodis chegou a escrever vários roteiros para o cinema na década de 50) com sua escrita sendo facilmente idealizada pelo leitor.

No cinema, Atire no Pianista virou referência da Nouvelle Vague francesa nas mãos carinhosas e autorais de François Truffaut. Afundando seu protagonista num mar de dificuldades enquanto é perseguido por dois bandidos, Goodis entregou uma obra-prima atemporal, que fica por muito tempo na memória do leitor e pode ser revisitada a qualquer momento. Morreu cedo demais, este mestre, por isso não deixou um legado tão grande quanto Chandler, Hammett e Macdonald, mas a qualidade de sua obra supri essa carência com folga.

06/03/2009

O Lutador


A câmera documental muitas vezes exerce forte influência sobre a representação dos sentimentos dos personagens dentro de um contexto dramático. É aquilo mesmo, câmera na mão e muita correria atrás do realismo tão desejado. A rigor, este tem sido um recurso bastante utilizado no cinema nos últimos anos. O Lutador, novo filme de Darren Aronofsky, é o representante mais bem sucedido desta vertente que tem conquistado cada vez mais adeptos na indústria cinematográfica. Aronofsky, diga-se de passagem, realizou um filme autoral e com grande elenco, onde o tour de fource de Mickey Rourke é o responsável por grande parte da qualidade deste excelente filme de porrada metalingüística.

A vertente batizada de cultura pop ecoa hoje nas mais diversas formas de expressão. No cinema, mais do que nunca, ela está em alta. A arte, a nossa arte, que tende a ser antagônica ao universo eclético, serve basicamente, para não dizer propriamente, como uma rota de fuga do vulgar e perecível. Para não permitir que uma possível superficialidade tomasse conta do protagonista, Darren Aronofsky fez duas escolhas: a abordagem seria exclusivamente documental e Mickey Rourke seria o wrestler do título. De fato, é o que acaba garantindo a verossimilhança da história, já que a câmera na mão aproxima e torna fácil a empatia do público para com o protagonista, e a performance vibrante de Rourke se encarrega de, literalmente, carregar o peso de um legítimo filme-protagonista nas costas.

Mas O Lutador vai além do rótulo de filme-porrada. Primeiramente, Aronofsky tratou de estabelecer o vínculo do protagonista com o espectador, apresentando-nos suas costas largas e seus cabelos louros. Depois, o diretor foi, aos poucos, mostrando o rosto surrado do lutador e, quando o vemos por completo seu semblante decadente, já temos autoridade suficiente para constatar que estamos diante de uma figura solitária, mas que encontra a felicidade em sua profissão. Seria, portanto, um homem feliz, não fosse seu passado repleto de escolhas equivocadas. A grande sacada do roteiro no primeiro ato foi justamente conseguir aproximar e tornar real a existência daquele Ser, algo que acaba ganhando ainda mais impacto devido a abordagem estética da câmera documental.

Na trama, Mickey Rourke é Randy "The Ram" Robinson, ex-lutador profissional que hoje compete no circuito independente. Levando uma vida jogada as traças, The Ram não faz nada para tentar se reestabelecer. Seu único subterfúgio é a sua relação com a stripper Cassidy (Marisa Tomei), mulher que acaba encorajando-o a tentar retomar sua vida perante sua filha (Evan Rachel Wood), mesmo sabendo que ela o rejeita.

Como pode-se notar, a trama não tem uma teia muito complexa de intrigas, mas é justamente essa abordagem despretensiosa na medida em que não se propõe a alçar grandes vôos filosóficos tampouco inovar a linguagem que acaba garantindo o envolvimento do espectador com a obra. A interpretação de Mickey Rourke é tão ajustada ao personagem que nunca duvidamos do realismo da trama. Além do mais, o grande ator compartilha seu sofrimento a todo instante com o público, já que a câmera de Aronofsky faz questão de mostrar a alma do personagem nas cenas mais dramáticas.

Como se não bastasse, O Lutador ainda apresenta dois outros grandes desempenhos por parte do elenco. Marisa Tomei, atriz vencedora do Oscar, está linda e excelente. Sua personagem é composta com pompa dramática carregada, mas que nunca apela para artificialismos e banalidades. Tomei compõe uma personagem fundamental dentro da estrutura narrativa do roteiro de Robert D. Siegel, que só erra na relação pai e filha. Via de regra, Evan Rachel Wood fez um bom trabalho como a filha de The Ram, o problema é que sua personagem não atinge o nível superior alcançado por Rourke e Tomei, tornando sua criação levemente inferior perante o público.

Alavancado pelo final simples e sujestivo, O Lutador se encerra com uma cena espetacular, que, para muitos, pode ter soado previsível e sem graça, mas para Randy "The Ram" Robinson representa a síntese de sua existência. Aliás, o encerramento proporciona um apelo tão melancólico em prol da felicidade e do argumento "faça o que gosta". Lindo filme!


Nota: 8
.5

Ano: 2008
Diretor: Darren Aronofsky
Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood

04/03/2009

Críticas rápidas

Fatal

Ao contrário do que havia realizado no bom A Vida Secreta das Palavras, a cineasta espanhola Isabel Coixet não aborda todas as nuances de uma temática que, apesar de recorrente no cinema, raramente ganha um retrato fiel de seus criadores. No caso de Fatal, drama forte estrelado por Ben Kingsley e Penélope Cruz (ambos seguros), Coixet prende-se aos artificialismos e abre mão dos sentimentos reais, mesmo conseguindo manter a regularidade da narrativa. Nota: 6


Espelhos do Medo

Mesmo dotado de visual esteticamente correto, Espelhos do Medo nada mais é do que mais um remake pobre e desajeitado. Kiefer Sutherland estrela este terror pouco empolgante. Apesar do clima de tensão ter sido criado de forma competente, o diretor Alexandre Aja nunca utilizada completamente a boa premissa que tinha mãos. Nota: 1

Guardiões da Noite

Pouco mais de 15 minutos, esse foi o tempo necessário para o diretor russo Timur Bekmambetov jogar uma história interessante por água abaixo. O cineasta que faria O Procurado optou por atirar o espectador dentro da ação cedo demais, antes mesmo de explicar os "porquês". Uma pena, pois nota-se que Timur sabe manipular tensão. Nota: 2

Três Macacos

A câmera quase sempre estática e o silêncio são valorizados neste filme que tanto pode ser duro e frio, como cru e realista. O roteiro com poucos (mas não menos brilhantes) diálogos permite que o cineasta Neil Bilge Ceylan neutralize e remonte os sentimentos dos personagens - e do público - como quem rouba doce de criança. Um filme excelente que merecia uma indicação ao Oscar este ano. Nota: 8


A Duquesa

Filmes de época geralmente pecam pelo excesso, não é o caso de A Duquesa, que peca justamente pela falta. Saul Dibb dirige este drama/romance com certa preguiça e o roteiro desenvolve personagens superficiais e caricatos. A personagem título, vivida por Keira Knightley, prejudica a atriz. Como ponto positivo temos a técnica, com figurinos bacanas e direção de arte competente, mas o melhor do filme é, de longe, Ralph Fiennes. Nota: 4
Noites de Tormenta

Diane Lane (que continua linda e talentosa) e Richard Gere (que continua derretendo corações das mamães) protagonizam este drama romântico água com açúcar. A trama é medíocre e o roteiro acovarda-se diante de alguns subtextos que poderiam ter sido melhor estudados pela equipe criativa. Não obstante, Diane Lane salva o filme do marasmo total quando compõe sua personagem corretamente e empresta um pouco de dignidade ao projeto. Nota: 2

O Menino do Pijama Listrado

O Holocausto é apenas um subtexto neste filme sobre amor e amizade. O Menino do Pijama Listrado é um filme sincero e que nunca perde o controle narrativo. Peca, no entanto, na construção da ação dramática. O roteiro demora para elaborar o ciclo de amizade dos dois meninos e quando começamos a nos envolver com os personagens o filme acaba. Nota: 7


Há Tanto Tempo Que Te Amo

Philippe Caudel é o nome por trás deste completo filme sobre nossos atos, escolhas e crimes. A narrativa seca e a montagem suave carregam a tristeza e desilusão neste bom drama estrelado pela sempre competente Kristin Scott Thomas. Aliás, a atriz poliglota entrega um desempenho fantástico como uma ex-prisioneira que precisa readaptar-se ao mundo real depois de anos vividos na cadeia. Nota: 7.5


Persépolis

Nesta animação "adulta", acompanharemos a jornada de Marjane (personagem baseada na vida real da diretora Marjane Satrapi), menina que sonha ser uma profetisa do futuro para salvar o mundo. O P&B valoriza a estética classissista e dá um gás nos sentimentos, mas sem nunca abrir mão da coerência. Diálogos curtos misturam-se com cenas rápidas para manter o espectador interessado até o final. O resultado é muito positivo. Nota: 8

Uma Canção de Amor Para Bobby Long

John Travolta, Gabriel Macht e Scarlett Johansson estrelam este filme dirigido Shainee Gabel. Travolta está seguro, nem mais, nem menos. Macht compete com Johansson para ver quem destrói seu personagem primeiro. No final, apesar da ótima disputa, Macht leva a melhor e detona seu personagem de uma vez por todas. A narrativa lenta, quase parando, não ajuda em nada neste filme que tenta transmitir, por meio da música, sentimentalismos baratos. Nota: 4

"Obrigado. Agora vão ter que nos engolir!"

Essa é uma visão da história de quando o cinema bollywoodiano encontrou o cinema estridente e independente de Danny Boyle.

Como na maioria dos países, o cinema na Índia começou com apresentações de alguns filmes do irmãos Lumière, mas isso lá no século 19. A partir de então o cinema indiano não parou mais. Falando em números, atualmente o cinemão hindi produz cerca de 1000 filmes, além de milhares de curtas e médias-metragens. Para os desavisados, trata-se apenas de muita quantidade. Mas no que diz respeito à qualidade? Será que o cinemão bollywoodiano cria algo interessante? Apesar do pouco acesso que o público tem aos filmes vindouros de lá, com sua mistura de música, dança, romance, ação e suspense, a indústria cinematográfica bollywoodiana não pára de conquistar adeptos mundo afora. Prova mais recente e conhecida: Danny Boyle e Slumdog Millionaire.

Antes de mais nada, Danny Boyle será eternamente conhecido como o responsável pela revolução do cinema independente. Não só isso, o cara será sempre lembrado como o diretor que realizou a junção entre a Bollywood, de diretores como Mrinal Sen e Bimal Roy, com a Hollywood de mestres do calibre Steven Spielberg e Martin Scorsese. Como se não bastasse, Danny Boyle colocou o seu nome no Olimpo cinematográfico de uma vez por todas. E isso certamente não se deu ao fato das dezenas de prêmios abocanhados por Quem Quer Ser Um Milionário? (ou Slumdog Millionaire, como queria) o grande responsável por tudo isso.

A rigor, estamos diante de um legítimo filme que caiu nas lentes certas. A cultura pop carregada e o alter-ego saltitante e eclético de Boyle encontrou a alegria e a simplicidade do cinema indiano, o mais otimista e feliz do mundo. O resultado pode ser visto no filme mais eletrizante e lindo do ano. Não espere por uma revolução narrativa ou por algum tipo de metalinguagem. Para isso Slumdog Millionaire não serve. O objetivo do diretor é homenagear o cinemão bollywoodiano. Felizmente, Danny Boyle foi além. Não só construiu um filme apaixonado sobre o amor como carimbou o passaporte da Bollywood para Hollywood. Melhor, Boyle é e sempre será o nome que deu o passo mais ousado rumo a consagração do cinema independente. E quem faz cinema sabe quão difícil é trabalhar com poucos recursos. Mas Boyle veio para dizer que isso não importa mais. A paixão e o amor pela arte estão acima de qualquer dificuldade.

A partir de agora, pode apostar, o cinema vai crescer. Não só o cinema independente, o próprio cinema mais comercial sai ganhando nessa história, já que poderá investir forte em outros campos. Com Slumdog a indústria repensará antes de filmar em demasia roteiros pessimistas, afinal, Danny Boyle resgatou a história clássica de amor com final feliz. Aliás, os 8 Oscar que o filme conquistou este ano ajudaram bastante isso. Foi maravilhoso ver um filme otimista, colorido, feliz e apaixonado levar tantos prêmios na maior festa do cinema mundial. Poderia ter levado mais, não seria exagero, a felicidade faz bem, não acham? O cinema, afinal, começou alegre e cantante. Hoje em dia, nós sabemos, está tão próximo da realidade que certas vezes assusta. Portanto, nada melhor que uma viagem à Índia para espairecer.