28/02/2009

O Visitante

"Isso, Jenkins, em ritmo de Carnaval"

Já virou praxe no cinema norte-americano tocar na ferida que ainda não cicatrizou em filmes que abordam direta (Babel) ou indiretamente (Nação Fast Food) o tema da imigração - legal ou ilegal. Tema bastante castigado e que geralmente é levado às telas pelo cinema independente. Desta vez, porém, o cineasta Thomas McCarthy construiu uma história que foge dos padrões convencionais em filmes deste nipe. O Visitante, apesar de só atingir o espectador no final, cria uma abordagem sincera e realista, muitas vezes colocando o espectador numa saia justa, assim como o protagonista.

Logo nos primeiros minutos já podemos notar que a abordagem definida pelo diretor e roteirista Thomas McCarthy focará diretamente em um personagem: o professor universitário Walter Vale. Walter poderia facilmente ser a definição que falta no dicionário para a palavra solitário. O professor de 62 anos vive em função de uma vida de mentiras. É um homem consumido pela sua própria vida, e não encontra mais motivos para continuar "lutando" contra ela. Quando Walter é encarregado de realizar uma conferência em Nova York, sua vida ganha um gás. Chegando ao seu apartamento, ele encontra um casal de imigrantes morando por lá, Tarek e Zainab. O casal não tem para onde ir, por isso Walter acaba deixando eles ficarem em seu apartamento até encontrarem um lugar.

Conforme os dias se passam, Walter e o casal vão se tornando amigos. Os sentimentos crescem mutuamente e quando Walter percebe já está aprendendo a tocar um tambor africano, com Tarek como seu professor. Deve-se dizer que, antes de chegar a Nova York, Walter tentava aprender piano, mas não tinha talento algum, segundo palavras de sua professora particular. Quando se dá conta, Walter já está tocando como se fizesse o há anos, o que acaba deixando Tarek muito feliz. A receita montada pelo roteiro de McCarthy tem grandes sacadas e momentos comuns que o aproximam de roteiros cansados. Repare como o McCarthy utiliza o piano e o tambor para indicar a personalidade e o momento vivido pelo personagem de Richard Jenkins. Aliás, a própria fotografia exerce função importante neste quesito, afundando o personagem num clima de solidão no início, para ir clareando sua imagem com o desenrolar da história.

Outra sacada do diretor foi a escolha do protagonista. Richard Jenkins (indicado ao Oscar por seu papel) não é nenhuma estrela e isso ajudou a tornar seu personagem mais real, aproximando-o de um homem comum. O que encanta em sua performance é justamente essa simplicidade que o ator empresta para o personagem, garantindo a empatia do público rapidamente. E Jenkins também mostra o grande ator que é quando transmite todos os sentimentos do personagem apenas com expressões, utilizando um artifício complicado de forma brilhante.

Mas O Visitante não é só Jenkins. Haaz Sleiman, que faz Tarek, é simples e eficiente, assim como Danai Gurira, que vive Zainab. Mas o destaque maior fica por conta da excelente atriz Hiam Abbass, que faz a mãe de Tarek. Abbass, que já tinha realizado um excelente trabalho em Paradise Now, agora volta com força total em um papel impecável onde ela molda uma personagem sensacional, deixando evidente que é uma atriz que ainda precisa ser "descoberta" pelos grandes diretores. No final, O Visitante quebra a fórmula narrativa, mas a construção da mesma para chegar até aqui não abriu mão da velha estrutura: apresentação do protagonista/conflito/se dando bem/confusão. Ainda assim, McCarthy escapa da redenção, deixando o final aberto e ambíguo falar por si. O resultado é um filme autoral, com elenco muito bem dirigido e uma história simples, mas que conquista justamente por isso.

Nota: 6.5

Ano: 2007
Direção: Thomas McCarthy
Elenco: Richard Jenkins, Haaz Sleiman, Danai Jekesai Gurira, Hiam Abbass

Passada a euforia das premiações e a consagração de Danny Boyle e do cinema independente, 2009 será um ano sensacional para o cinema. Tudo é Crítica divulga a lista com os dez filmes mais aguardados para este ano que promete.

10º - The Wolf Man, de Joe Johnston


9º - Green Zone, de Paul Greengrass


8º - Anjos e Demônios, de Ron Howard


7º - Sherlock Holmes, de Guy Ritchie


6º - Shutter Island, de Martin Scorsese


5º - Public Enemies, de Michael Mann


4º - Inglorius Basterds, de Quentin Tarantino


3º - Whatever Works, de Woody Allen


2º - A Serious Man, de Joel & e Ethan Coen


1º - Avatar, de James Cameron



24/02/2009

Crepúsculo

Exageros à parte - Crepúsculo foi considerado o melhor livro da década pelo Amazon.com - a primeira aventura de Isabella, ops, Bella, é um exercício em candura da mais pura linguagem metalingüística que a literatura pode produzir. Direcionado diretamente para o público teen, o bestseller de Stephenie Meyer conquistou legiões de fãs mundo afora. A temática central? Uma adoscelente que vai para o interior dos states morar com o papai homem da Lei. Uma vez lá, a menina conhece um pálido e brilhante vampiro, Edward. A partir daí Meyer tece uma história de amor que flerta com a idéia do romance comum que estamos acostumados a ler na literatura norte-americana.

Apesar disso, a autora cria uma metáfora sexual poderosa, inserindo um apelo pela perda da virgindade da maneira politicamente correta, com romance, paixão e muito amor. É, portanto, uma história infantil e ousada ao mesmo tempo. Meyer coloca Bella como representante legal das jovens espalhadas pelo planeta e Edward - apesar da sede vampiresca - como o elo de ligação do personagem com os jovens sedentos pelo coito. A história, bem contada, por sinal, prende o leitor no ínicio, permite uma disperção no segundo movimento (que se prende muito à pensamentos e imaginações de Bella) e recupera o fôlego no final. Aliás, Meyer finaliza sua obra com um final correto e deixa a brecha para a continuação.

A linguagem ficcional bastante moderna utilizada pela autora funciona bem e, em termos de literatura fácil, Crepúsculo é um livro interessante, que vicia. Não é leitura "cabeça" tampouco exercício extraordinário, mas é uma história de fantasia teen que cumpre seu objetivo de entreter.

22/02/2009

Pré-Oscar


Hoje tem Oscar, a maior festa da indústria cinematográfica que reúne diretores, atores, atrizes, produtores, roteiristas, fotógrafos, imprensa e penetras. O palco já está montado e os indicados invadirão o tapete vermelho em poucas horas. Para os cinéfilos que querem ver seus favoritos levarem o prêmio é uma grande expectativa. A 81º edição da cerimônia promete, vai entregar um Oscar póstumo para um coringa sorridente, consagrar as aventuras petulantes de um robô e premiará um filme-documentário-animação sobre a atual situação na Faixa de Gaza. Além disso, pode ser a cerimônia de reconhecimento à Danny Boyle - ou à Fincher -, pode marcar o yes, I can de Mickey Rourke e recompensar a insistência de uma inglesa que não afundou junto com o navio. Se você não se convenceu até aqui, a premiação mais badalada do cinema ainda pode fazer uma espanhola pronunciar seu inglês canalha na frente de todos.

Tem tudo para ser um excelente espetáculo apresentado por Hugh Jackman. Nesse momento todo cinéfilo gostaria de ter poderes extraordinários para prever os vencedores, mas azar é o seu se você não é Mãe Dináh ou Nostradamus. Aproveite o espetáculo!


Terminando o piloto de uma das melhores séries de todos os tempos, o espectador já é fisgado pelo pescoço e não consegue mais ficar sem acompanhar os casos do médico mais maluco da tevelisão mundial. Gregory House é um médico extraordinário, dotado de raciocíno apurado e inteligência acima da média, mas é também cínico, mentiroso, manipulador, infeliz e aleijado (segundo as palavras dele mesmo). House não dá bola para ninguém, e quando mantém algum tipo de sentimento por outra pessoa não consegue demonstrar isso diretamente, prefere sacaniar. É um idiota, todo mundo sabe disso, mas é mestre.

A série possui diálogos sensacionais e gags que beiram a perfeição, tudo isso construído em cima de um personagem monstruso vivido pelo excelente Hugh Laurie. Aliás, um grande ator. Hugh Laurie vive um médico que não visita seus pacientes e quando o faz é por puro interesse pelo caso. House não se importa com seus pacientes - pelo menos na superfície - apenas quer mostrar que está certo. Via de regra, House tem uma equipe competente trabalhando para ele, Eric Foreman (Omar Epps), Allison Cameron (Jennifer Morrison) e Robert Chase (Jesse Spencer) são corpo e alma no hospital. Mas todos estão sob a tutela de Lisa Cuddy (Lisa Edelstein), a chefia maior, e que mantém uma relação de amor e ódio com House que garante todos os episódios desta primeira temporada. Além disso, a amizade desequilibrada de House e do Dr. Wilson (Robert Sean Leonard) é conduzida com maestria pelo criador.

A rigor, o criador da série, o craque David Shore, coordenou tudo com maestria e entregou uma das melhores séries da história da televisão norte-americana. Os destaques desta temporada ficam por conta do nono episódio, Me Deixe Morrer, sobre o caso de um músico paraplégico e que não aceita que o salvem, e, claro, Três Histórias, um exercício fantástico de montagem de causar inveja a Thelma Shoonmaker. Além disso, a partir do momento em que Edward Vogler (Chi McBride) entra na disputa pelo monopólio do hospital, aí o circo pega fogo. Apesar da tentativa da inserção de um vilão ser nula, a birra entre Vogler e House sustenta drama e riso durante alguns episódios desta excelente primeira temporada de House.

18/02/2009

Críticas rápidas

Um Beijo Roubado

Wong Kar Wai realiza um filme melancólico, mas mergulhado em cores (a fotografia é linda), com elenco inspirado, especialmente os coadjuvantes (Natalie Portman, Rachel Weisz). Nota: 6.5

JCVD

Jean-Claude Vam Damme autografa sua própria cinebiografia em filme com poucos cortes e abundantes planos-sequencia delirantes. A voz do outrora lutador aparece para dizer que Vam Damme mudou e quer trabalhar em papéis “sérios”. Nota: 6.5

Linha de Passe

Walter Sales e Daniela Thomas entregam filme apaixonado, mas duro e realista. A verdade bate na tela com força e mostra tudo aquilo que já sabemos, mas que nunca modificamos. Um dos melhores filmes nacionais do último ano. Nota: 8

Quarentena

Refilmagem (já?) do terror espanhol REC é uma cópia em celulóide do original. A violência e a sanguinolência estão lá, mas a tentativa de se mostrar globalizado não funciona e o filme consegue ser ainda pior que a obra de origem. Nota: 2

O Dia em Que a Terra Parou

Outro remake infeliz, esta atualização do original é mesquinha e mostra Keanu “Neo” Reaves mais apático do que nunca. Jennifer Connely está esforçada, mas também não convence porque o desenvolvimento de sua personagem beira o ridículo. Nota: 2

Marley & Eu

O patriotismo fala mais alto que a própria história neste filme que tenta (em vão) levar o espectador às lágrimas. Owen Wilson e Jennifer Aniston estão péssimos como um casal que adota um cãozinho que destrói tudo que vê pela frente. Nota: 2

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

Este belíssimo filme francês mergulha com garra no amor e na fantasia sem nunca perder o brilho. Além disso, Audrey Tautou está excelente neste filme que fala com o coração do espectador sem medo de ser feliz. Nota: 8


Gomorra

Filme italiano que mostra o cotidiano da máfia sem piedade. O realismo imposto pela câmera documental impressiona, mas a história é pobre e a explosão de violência é utilizada como recurso e não como abordagem. Além disso, a quantidade de personagens exigia um pouco mais de atenção com a simetria, para não deixar a montagem tão perdida, com cenas desconexas. Nota: 4

16/02/2009

A Face Oculta

"Agora você não é tão galã assim"

Em seu primeiro e último trabalho como diretor de longas, o outrora astro e galã Marlon Brando entrega um western rico em detalhes e poderoso em seu misticismo. A Face Oculta é um faroeste diferenciado, e isso vai ficando claro para o espectador a cada tomada do longa-metragem. O que evidencia isso é a própria composição dos personagens, especialmente a do próprio Brando, que realiza um trabalho de primeiro nível, com suspense elegante e psicologia apurada. Além do mais, as interpretações vigorosas deixam o filme ainda mais interessante. A Face Oculta não é só poeira e pistolas, há muito mais nas entranhas deste filme magnífico.

Inicialmente, A Face Oculta seria dirigido por ninguém menos que Stanley Kubrick, mas problemas de pré-produção impediram que o diretor que, anos depois, faria Laranja Mecânica sentasse na cadeira de diretor aqui. Para o bem, Marlon Brando foi um gigante atrás das câmeras e construiu um filme apaixonado, onde a busca pelo êxtase e pelo prazer da vingança faz um homem chegar ao limite da irracionalidade. Via de regra, o diretor carrega tudo com tanta categoria e se mostra tão concentrado em seu foco narrativo que não percebemos que estamos torcendo pela vitória de um bandido contra outro bandido. Brando brinca com o espectador. Ao longo da metragem o espectador poderá acompanhar a história de Rio (Brando) e Dad Longworth (Karl Malden), dois assaltantes que roubam um banco no México. O cowboy Dad, vendo a oportunidade de fugir e ficar com todo o ouro do bem-sucedido assalto, abandona Rio na hora fuga.

Anos depois Rio escapa da prisão e começa sua busca incessante por vingança. Rio só não contava que o ex-companheiro havia se tornado xerife na Califórina. Enquanto isso, Dad sempre temeu pelo retorno do amigo. Dad, na verdade, sabia que Rio voltaria para acertar as contas do passado, apagar as cicatrizes deixadas pela amizade corriqueira mantida por eles. E Dad tinha certeza que não enfrentaria qualquer um. Elaborando uma trama complexa e instigante, Marlon Brando realizou um filme completo, com escopo de causar inveja nos grandes realizadores do gênero. Uma trama que jamais deixa de acreditar no próprio potencial e investiga o comportamento de um homem que carrega consigo ética e respeito de maneira brilhante. O resto ele resolve na bala.

Mesmo inexperiente atrás das câmeras (o diretor gastou quase seis vezes a mais em rolos de película do que o “normal” em filmes com esta duração), Brando conduziu sua obra-prima com tanta eficiência que parece já ter feito aquilo muitas vezes. Apinhando a narrativa com diálogos pausados – mostrando que no velho oeste nunca se deve falar o que não sabe para não amanhecer com a cabeça enfiada na terra – e moldando seu personagem de forma impecável, Brando realizou um filme atemporal, que se foi com o tempo, mas que fica na memória de quem o assiste.


A concepção visual de A Face Oculta nunca é menos que perfeita. Quando o diretor de fotografia Charles Lang começa a compor seus primeiros quadros e screenshots sob grandes paisagens panorâmicas, retratados secamente, o filme se deixa criar um contraste interessante com a história de vingança que move a trama central. Aliás, Marlon Brando e Karl Malden fizeram outra dobradinha, já que os dois trabalharam juntos outras duas vezes em duas obras-primas de Elia Kazan, em Uma Rua Chamada Pecado (filme que deu o Oscar de coadjuvante para Malden) e Sindicado dos Ladrões (aqui foi a vez de Brando levar a estatueta).


Como se não bastasse, Brando dirigiu pelo menos uma cena que não sai da cabeça do espectador. Quando Rio é amarrado, com a mão quebrada pelo ex-companheiro do crime, chicoteado, enquanto uma pequena platéia assiste tudo extasiada, como se aquilo fosse algo a se sentir orgulho, é uma cena genial, uma aula de condução de câmera, ângulo e enquadramento.
Além disso, a expressão de Rio é um paradoxo infinito. Ao passo que mostra-se imbatível, com olhar de desdém e autoritário, deixa transparecer uma fraqueza por detrás daquela camada de brutalidade e força. Isso só os grandes atores são capazes de realizar.

Para quem queria mais, Brando encerra o filme de maneira espetacular. O clímax, aliás, é perfeito. A forma como a narrativa caminhou durante toda a metragem faz todo sentido no final ambíguo. Na verdade, mais que isso, é impecável. O realismo bate na tela com força, dizendo que não há como escapar do destino. Um final metaforizado. Um final simples e real. Um final perfeito. Uma obra-prima!




(One-Eyed Jacks, EUA, 1961) Direção de Marlon Brando, com Marlon Brando, Karl Malden, Lee Marvin, Vera Miles

"Não adianta vocês ficarem me olhando, não irão me convencer"

Em seu primeiro trabalho como diretor de um longa-metragem para o cinema, o hoje autoral Sidney Lumet não poupou esforços para moldar um dos filmes mais fantásticos da história do cinema. Com uma direção genial, composta por delirantes ângulos e planos americanos, Lumet entregou mais uma obra-prima para a gloriosa década de 50. A rigor, o filme de Lumet é uma sucessão de diálogos brilhantes e cortes impecáveis, onde o diretor consegue transmitir a angústia dos personagens apenas com enquadramentos e closes. O diretor arremessa sem cerimônia o espectador, que assiste a tudo extasiado, para dentro da história. 12 Homens e Uma Sentença fala diretamente à razão e mostra que nossas escolhas merecem ser repensadas, sempre. A decisão judicial é, então, apenas pano de fundo para a verdadeira análise.

Essa obra-prima de Sidney Lumet é a prova de que uma história não precisa ser necessariamente complexa e provida de material didático intelectual para funcionar. Com um argumento seco e direto, sem enfeites e com personagens fortes e realistas, 12 Homens e Uma Sentença mantém o espectador vidrado na tela, literalmente embasbacado com o que vê diante de seus olhos. Mais que uma aula de cinema, o filme é um ensaio sobre a gramática cinematográfica e um exercício completo sobre a condução da narrativa. Mas que deve ser revisto muitas vezes, pois a direção de Lumet é tão discreta quanto eficiente e pode não denunciar todo o seu brilhantismo logo à primeira vista.

O filme conta a história dos doze homens do título que fazem parte do júri encarregado de decidir o futuro de um menino acusado de matar o pai a facadas. O filme, que foi filmado em uma única locação, com exceção da primeira e da última cena – pouco mais de três minutos de duração – é ambientado na sala do júri, onde será decidido se o garoto será condenado ou não. A decupagem e o desenrolar da trama é conduzido com maestria de um mestre, definitivamente não percebemos que estamos nos envolvendo tanto com um filme dirigido por um estreante. A maneira como Lumet vai preenchendo as lacunas deixadas pelo quebra-cabeça criado pelo roteiro de Reginald Rose é espectacular, e qualquer desvio de atenção ameniza e absorve a tensão eletrizante elaborada com precisão pelo diretor.

Para tanto, Lumet contou com um elenco excelente comandado por Henry Fonda, que está demais vivendo o único homem sensato do grupo. Na verdade, Henry é o único homem do júri que não concorda com a decisão parcial dos outros onze, e o ator consegue ser elegante ao mesmo tempo em que demonstra certa ansiedade que o personagem exige. Grande interpretação. O restante do elenco, em especial Lee J. Cobb e Jack Warden, está fantástico e ajuda a compor esta grande realização. Lumet dá uma aula de como coordenar um elenco. Aliás, o clima clastrofóbico só aumenta quando os pequenos detalhes - muito é construído através dos  olhares, das expressões das personagens - inseridos pelo diretor injetam a tensão e deixam o espectador com os nervos em frangalhos, ávido pela solução, que, deve-se dizer, não poderia ser mais competente.

Mas esta obra-prima de Lumet não é "só" isso. 12 Homens e Uma Sentença é um poderoso estudo do comportamento humano em grupo, onde a obviedade não tem vez e, além disso, demonstra que nós somos reféns de que tem o poder e que muitas vezes não estão nem aí para nada nem ninguém. O subtexto é fundamentado e muito bem articulado pelo roteiro, que utiliza a narrativa clássica muito bem a favor da coerência apresentada durante a metragem. A rigor, aos poucos Lumet vai expadindo o plano, abrindo a câmera, dando mais poder de visão ao quadro. A função é transmitir essa sensação agoniante e de peso na consciência que os personagens enfrentam. O espectador não precisa ficar aguardando pelo clímax, o filme todo é um clímax esfuziante.
 
Nada mal para uma estréia, que só não levou Oscar porque David Lean apareceu com seu apoteótico A Ponte Rio Kwai e abocanhou quase todos os prêmios principais - incluindo melhor filme e diretor. Aliás, foi um grande ano para a Academia, que ainda contou com o ótimo drama Sayonara, estrelado por Marlon Brando e dirigido por Joshua Logan, além, é claro, do genial Testemunha de Acusação, de Billy Wilder. Para quem começou a carreira enfrentando os gigantes, Lumet mandou bem demais. Afinal, hoje ele é um deles.

(12 Angry Men, EUA, 1957) Direção de Sidney Lumet, com Henry Fonda, Lee J. Cobb, Jack Warden

13/02/2009

O Grande Ditador

Tudo é Crítica é fã confesso do maior gênio da história do cinema. Charles Chaplin exercita sua genialidade neste filme maravilhoso, brilhante, fantástico, espetacular, genial, arrebatador, engraçado e todos adjetivos possíveis. Um dos textos mais brilhantes que o cinema já vez pode ser visto neste vídeo de O Grande Ditador, uma das obras-primas de Chaplin.

12/02/2009

Assim não dá...


Todo mundo sabe que o galã da foto acima esteve no Brasil recentemente para divulgar seu mais novo filme, o aguardado Operação Valquíria. Enquanto Tom Cruise esbanjava simpatia pelas praias cariocas, multidões de jornalistas tentavam alguns minutinhos com o astro. A maior emissora de televisão do país, obviamente, teve o poder de entrevistar Cruise exclusivamente. A entrevista que foi ao ar no programa de domingo à noite não pensou duas vezes antes de contar o final do filme. Lamentável para uma emissora que se julga a mais importante e responsável do país. A mania de achar que todo mundo conhece história é irritante. O pior de tudo é que o filme ainda nem pintou por aqui e quem assistiu o programa já sabe como o filme irá terminar. Grande falta de respeito do nosso jornalismo decadente.

Operação Valquíria entra em cartaz nos cinemas brasileiros na próxima sexta-feira (13). Se você não viu o filme e nem o programa e não conhece história da guerra, não perca.

10/02/2009

Sim Senhor

"Yes, I can"

Retornando ao Universo humorístisco que o consagrou, Jim Carrey aparece novamente carregado de risadas e confusões. Sim Senhor é um filme engraçado, mas que não passa do retrato superficial e idiota que Hollywood não cansa de abordar. Contudo, em se tratando de humor, Jim não deixa a desejar e, mesmo que passe dos limites da caretice, diverte. Exercitando todo seu maneirismo, Jim Carrey consegue emplacar risadas consecutivas na platéia, o problema é que o diretor Peyton Reed não faz nada para impedir que o filme caia no marasmo, já que sua direção é preguiçosa e relapsa. Na verdade, às vezes parece não ter uma voz ativa por trás das câmeras.

A rigor, Jim Carrey é o tipo mais feliz do mundo na frente nas câmeras. O cara realmente ama o que faz. Ele é o homem que seria capaz de fazer o Stallone dar um sorriso decente enquanto assusta a menina monstro da emissora de TV com suas caretas esquisitas. Pena que o comediante não teve o suporte para elevar seu filme - que, visivelmente, e talvez por ter conhecimento dos próprios limites, é covarde e relaxado - ao nível de outros trabalhos como O Mentiroso e O Máskara. Aliás, Sim Senhor guarda tantas semelhanças com O Mentiroso (fórmula de apresentação dos personagens centrais, o objeto que mudará a vida do protagonista, aceitação com a nova forma de vida, confusões, etc...) que chega a irritar. Não obstante, o bom humor e o talento do ator entrega bons momentos, mesmo em piadas bobas e infantis, provando a criatividade e o improviso de Carrey.

Na trama, Carrey vive um funcionário de uma empresa de investimentos, trabalho fácil e simples, já que Carl Allen está sempre disposto a dizer o antônimo de sim. Carl é solitário, infeliz e não dá muita bola para os amigos, que já estão acostumados com o seu desdém. Um dia ele vai até uma palestra de auto-ajuda à pedido de um amigo, e lá fica decretado pelo palestrante (Terence Stamp) que Carl teria que dizer sim a tudo. A cena em si é bastante interessante, e se você sentir alguma semelhança do cenário com uma igreja não foi proposital!

Assim como sua própria natureza pede, Jim Carrey é um mestre em fazer caretas e bobagens na frente da câmera, e diverte muito com isso. Há, no entanto, um exagero por parte do roteiro, que parece somente preocupado em fazer o espectador dar gargalhadas e acaba esquecendo da história, que a cada cena fica mais cansada e entregue. Além disso, Peyton Reed não foi capaz de não seguir a fórmula básica do humor hollywoodiano (que já está bastante batida), contando uma história com aquela mesmice de sempre - mudança radical, desfrute, confusão, reviravolta no relacionamento amoroso e final feliz. O diretor pareceu preso aos trejeitos do seu protagonista e não se esmerou em jogar a responsabilidade para cima do ator. E Jim Carrey fez seu trabalho muito bem, mas, após uma hora de projeção, não havia mais como consertar o estrago.

Claro que há bons momentos e boas gags por parte roteiro, mas todo o humor do filme depende de Jim Carrey e do seu talento para atingir a platéia. Carrey ainda tem como parceiro o ótimo Rhys Darby. A dupla têm momentos muitos bestas, mas que são engraçados sim senhor. Terrence Stamp ainda faz uma participação de luxo, enquanto Zooey Deschanel desfila sua ruindade, deixando evidente que deve seguir sua carreira como cantora.






Ano: 2008
Diretor: Peyton Reed

Elenco: Jim Carrey, Zooey Deschanel, Terence Stamp, Bradley Cooper


Eric Roth é o nome por trás do roteiro de Forrest Gump – O Contador de Histórias (belíssimo filme de Robert Zemeckis), talvez, na história do cinema hollywoodiano, o filme mais completo sobre um deficiente mental juntamente com Rain Main. A excelência daquele texto está presente não só na construção narrativa ofegante, que abusa dela própria para exercitar o sentimento metaforizado que o personagem-título exerce sobre o público, mas também coexiste dentro daquilo que os roteiristas gostam de chamar de núcleo, ou seja, o objeto onde a ação dramática será desenvolvida. Na verdade, em Forrest Gump, o tour de force do roteirista foi o seu próprio intelecto. Naquele texto, além de não perder o controle da narrativa em nenhum momento, Roth bateu de frente com os fatos históricos que assolavam o país na época, inseriu subtextos interessantes e não se absteve em colocar à cara a tapa. Foi corajoso, afinal. Tudo isso situava e informava o espectador, sem mastigar tudo, mas também sem idiotizar a platéia. Grande Eric Roth.

14 anos depois, Eric, desta vez sob a tutela de David Fincher, aceitou adaptar livremente o conto de Fitzgerald. O desafio (e o trabalho) da dupla - e de toda a equipe, logicamente - resultou em nada mais nada menos do que 13 indicações ao Oscar 2009 para O Curioso Caso de Benjamin Button, tornando-se o recordista do ano. O filme que conta a história de um homem que nasce velho e vai rejuvenescendo ao longo dos anos conquistou a Academia. Assim como o filme de Zemeckis, Benjamin Button conquistou corações mundo afora.

O site norte-americano Funny or Die fez um vídeo muito legal comparando os dois filmes. Para acessar o site e ver o vídeo clique aqui


06/02/2009

Sangue Negro

"Daniel, are you a sinner?

Sangue Negro não é um filme fácil. À primeira vista pode aparentar ser apenas uma história sobre um magnata do petróleo - e muita gente bate o pé afirmando que o filme não passa de ostracismo refinado com uma direção enganosa -, mas a complexidade que compõe o mais recente filme de Paul Thomas Anderson está para ser batida neste início de século. Anderson carrega, ao longo da narrativa, o espectador debaixo do braço, preso à história de ambição, crime, culpa, religião, política e família que queria contar. Baseado no ótimo livro (escrito nos anos 20) de Upton Sinclair, Sangue Negro já virou um clássico dos nossos tempos.

Paul Thomas Anderson, mesmo com sua curta e brilhante carreira (que já brindou o público com pelo menos dois grandes filmes, o complexo e metaforizado Magnólia e a obra-prima Boogie Night - Prazer Sem Limites), construiu um repertório respeitável - mesmo dentro do quadro de autores de Hollywood que, embora não conte com muitos nomes, possui qualidade gigantesca. Assim como Tarantino, Allen, Coen's, Daldry, Eastwood, Spielberg, Scorsese, De Palma, o diretor também é dono de uma marca registrada. A de P.T. Anderson é nunca se repetir. Sempre buscando novas experiências com sua câmera apaixonada. Se em Magnólia o diretor trabalhou com uma trama de múltiplos personagens e, antes disso, em Boogie Nights, mostrou sua categoria ao filmar planos-sequência delirantes em uma trama que tinha a indústria pornográfica como pano de fundo, aqui, no entanto, Anderson fez um filme mais silencioso, porém tão grande e impactante quanto suas duas obras anteriores.

Na verdade, antes mais de mais nada, deve-se dizer que estamos diante de uma obra-prima. Sangue Negro é um épico brilhante e muito mais complicado do que aparenta. A rigor, isso fica evidente a cada minuto de metragem. O personagem central, Daniel Plainview (formidavelmente interpretado por outro Daniel, o Day-Lewis) é um dos mais estudados e completos personagens que o cinema já construiu. Plainview é um personagem destruído e destruidor, o homem que ninguém gostaria de ter como inimigo. O problema é que Plainview não gosta de ninguém, e se esse alguém ainda representa algum tipo de problema para sua ambiciosa luta pelo monopólio, aí, amigo, haverá sangue.

É justamente esta "busca pelo ouro" que, conduzida com um tom operístico por PTA - ainda mais se levarmos em conta a forte presença da magnífica trilha sonora composta por Jonny Greenwood -, torna a experiência ainda mais fantástica. O que acompanharemos durante os 158 minutos de metragem é uma história inteligente, mas ao mesmo tempo dura e fria. Aliás, a trilha sonora exerce uma função muito importante dentro do contexto narrativo adotado por Anderson na construção do protagonista. Plainview é uma rocha, um homem que não teme nada nem ninguém - pelo menos na superfície. Ele tenta explicar, por meio de sua filosofia pessimista, que o homem foi feito para a competição. Ele, por sua vez, é competitivo por natureza. Plainview é capaz de tudo para alcançar seus objetivos, mesmo que precise literalmente passar por cima de quem se atreva a desafiá-lo.

Conforme o filme avança, o espectador se aproxima de Plainview - apesar de seus métodos pouco convencionais. Os primeiros 15 minutos já permitem tal empatia, já que a clareza da narrativa é apoiada pelo excelente trabalho de arte de Jack Fisk. Além disso, outro fator que ajuda a compor o personagem é a fotografia de Robert Elswit (vencedor do Oscar), que retrata a sujeira da alma de Plainview com uma iluminação escura, abusando do contraluz. Aliás, repare como a fotografia ganha uma tonalidade mais escura conforme Plainview comete suas atrocidades psicopáticas. Até o fim do filme, Eslwit mergulhou o personagem na escuridão - que, diga-se de passagem, é o melhor lugar para alguém como ele.


A direção de Paul Thomas Anderson nunca deixa de ser perfeita. O diretor e roteirista elabora uma narrativa longa, mas muito clara e limpa, nunca perdendo o foco. Aliás, PTA dirige cada cena meticulosamente, deixando um parentesco com Kubrick aparecer de soslaio. A rigor, o diretor ainda teve o êxito de coordenar um Daniel Day-Lewis inspirado, que entregou um dos personagens mais impressionantes da história do cinemão. Sem dúvida, um grande ator no papel perfeito. Não poderia dar errado. Ao que parece, Anderson realizou mais uma obra-prima em sua curta e brilhante carreira. Um filme que já entrou para a história pela coragem e ambição de um diretor que parece não ter medo de enfrentar os brutamontes, assim como Plainview.



Ano: 2007
Direção: Paul Thomas Anderson
Elenco: Daniel Day-Lewis, Paul Dano