O que seria necessário para construir uma narrativa que rompesse - e com folga - a "barreira" dos 120 minutos de duração e mesmo assim segurasse o espectador grudado na poltrona durante toda a projeção contando uma fábula fantástica que mostra a história de um homem que nasce velho e vira criança? Para David Fincher, toneladas de CGI, maquiagem abundante e cuidado técnico com os efeitos visuais, além, é claro, de uma longa passagem de tempo, cruzando a vida do protagonista com fatos históricos reais, basta. O Curioso Caso de Benjamin Button, novo filme do diretor de Seven e Clube da Luta, trabalha com estes temas e efeitos para elaborar um filme complexo sobre o tempo.
Baseado no conto do cronista americano F. Scott Fitzgerald que, via de regra, foi inspirado pela frase célebre de Mark Twain, que dizia: "A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 anos e gradualmente chegar aos 18", O Curioso Caso de Benjamin Button conta a história do personagem-título, que nasce com 86 anos e vive "ao contrário". Brad Pitt, que vive o protagonista com propriedade, entregando uma atuação segura e discreta (comprovando sua evolução como ator), exibindo seus sentimentos apenas com gestos e olhares, devido ao seu curioso caso. O ator, na verdade, interpreta um homem solitário e, portanto, extremamente observador, tendo que trabalhar - e bastante - com aquilo que Hollywood chama de "alma do personagem". Brad Pitt não decepciona. Cabe um destaque para Taraji P. Henson (mãe adotiva de Benjamin, Queenie), vigorosa e bem-humorada.
Alma, aliás, é o que compõe a personagem de Cate Blanchett. Daisy é uma mulher absurdamente sensível e encantadora, quando ela entra em cena (depois de mais de uma hora de projeção supostamente deitada numa cama) o filme ganha versatilidade. Cate desfila seu talento enquanto busca transmitir a angústia da personagem, que assiste seu amante rejuvenescer ao passo que ela envelhece. Daisy é dançarina. Benjamin adora vê-la dançar. Ela ganha rugas. Ele ganha acne. Ela não pode com o tempo. Nem ele.
A maneira como Fincher e o roteirista Eric Roth carregam a narrativa mostra-se muito eficiente nos distantes primeiro e último ato. No começo, enquanto o roteiro explica através de um diário (artifício bastante clichê) o nascimento do menino Benjamin Button, a narrativa procura dosar o humor ao drama, e faz isso muito bem. No segundo ato, durante o crescimento de Benjamin e sua fase "Brad Pitt bonitão", a narrativa em off com o qual o roteirista busca incessantemente mastigar tudo para o espectador, garante um didatismo excessivo e menospreza a inteligência da platéia. Afinal, grande parte da narração está sendo mostrada na tela. Claro que Fincher equilibra muito bem o humor (o velho que diz ter sido atingido por um raio sete vezes, onde as cenas que mostram isso são evidentemente uma referência ao cinema mudo da época) e o drama, mas Eric Roth deixa de elevar o seu roteiro ao espetacular quando foge de temas históricos.
Já que Fincher quis trabalhar com um filme sério e tratou de manter o clima realista da cena envolvendo o submarino (brilhantemente dirigida e visualmente impecável) e o roteiro cuidou de inserir comentários sobre a Segunda Guerra, porque o período do Klu Klux Kan foi deixado de lado? Não houve um comentário sequer. Faltou ousadia para Eric Roth. Provavelmente Roth pensou que um subtexto sobre o Klu Klux Kan desviaria o foco narrativo ou que o movimento KKK tenha sido mais forte em outros Estados (Mississipi, Texas), por isso não seria necessário uma cena sobre tal. Na verdade, um tema como esse, se bem abordado, elevaria o realismo da trama e emprestaria um texto um pouco mais crítico e menos focado em malabarismos visuais e lições de moral risíveis. Aliás, o próprio Roth já encarou fatos históricos de frente quando roteirizou o excelente Forrest Gump - O Contador de Histórias.
Em tempo, O Curioso Caso de Benjamin Button apresenta uma qualidade técnica invejável, deixando evidente o perfeccionismo do diretor. A direção esmera-se ao criar cenários impecáveis e os figurinos estão lindos. E é trabalhando com base nisso que o diretor de fotografia Claudio Mirando compõe uma fotografia genial. Utilizando a iluminação com perfeição, em uma cena em especial, quando Daisy dança para Benjamin iluminada apenas por dois postes de luz, enquadrando ambos em um ângulo delirante, casando perfeitamente com a trilha sonora de Alexandre Desplat que preenche todo o filme liricamente suave e agradável, já que o design de som é absolutamente impecável (tanto no som direto quanto indireto).
Apesar dos deslizes, a veia autoral do diretor está aqui. Fincher dirige o elenco com elegância e não dá espaço para o improviso. Além disso, mostra agilidade na montagem, que deve ter dado uma trabalho danado, sabendo que uma passagem de tempo tão longa precisa ter coerência com a continuidade. No fim das contas, O Curioso Caso de Benjamin Button é um filme sobre o tempo. Foi feito para dizer que ninguém pode com o tempo. O tempo une e separa. Como na cena narrada por Benjamin (5 segundos...). Segundo o filme, o tempo é o dono do mundo. E o relógio não pára. Muito menos anda para trás.
Nota: 7.5
Ano: 2008
Direção: David Fincher
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Julia Ormond, Elle Faning, Tilda Swinton, Jason Flemyng
Baseado no conto do cronista americano F. Scott Fitzgerald que, via de regra, foi inspirado pela frase célebre de Mark Twain, que dizia: "A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 anos e gradualmente chegar aos 18", O Curioso Caso de Benjamin Button conta a história do personagem-título, que nasce com 86 anos e vive "ao contrário". Brad Pitt, que vive o protagonista com propriedade, entregando uma atuação segura e discreta (comprovando sua evolução como ator), exibindo seus sentimentos apenas com gestos e olhares, devido ao seu curioso caso. O ator, na verdade, interpreta um homem solitário e, portanto, extremamente observador, tendo que trabalhar - e bastante - com aquilo que Hollywood chama de "alma do personagem". Brad Pitt não decepciona. Cabe um destaque para Taraji P. Henson (mãe adotiva de Benjamin, Queenie), vigorosa e bem-humorada.
Alma, aliás, é o que compõe a personagem de Cate Blanchett. Daisy é uma mulher absurdamente sensível e encantadora, quando ela entra em cena (depois de mais de uma hora de projeção supostamente deitada numa cama) o filme ganha versatilidade. Cate desfila seu talento enquanto busca transmitir a angústia da personagem, que assiste seu amante rejuvenescer ao passo que ela envelhece. Daisy é dançarina. Benjamin adora vê-la dançar. Ela ganha rugas. Ele ganha acne. Ela não pode com o tempo. Nem ele.
A maneira como Fincher e o roteirista Eric Roth carregam a narrativa mostra-se muito eficiente nos distantes primeiro e último ato. No começo, enquanto o roteiro explica através de um diário (artifício bastante clichê) o nascimento do menino Benjamin Button, a narrativa procura dosar o humor ao drama, e faz isso muito bem. No segundo ato, durante o crescimento de Benjamin e sua fase "Brad Pitt bonitão", a narrativa em off com o qual o roteirista busca incessantemente mastigar tudo para o espectador, garante um didatismo excessivo e menospreza a inteligência da platéia. Afinal, grande parte da narração está sendo mostrada na tela. Claro que Fincher equilibra muito bem o humor (o velho que diz ter sido atingido por um raio sete vezes, onde as cenas que mostram isso são evidentemente uma referência ao cinema mudo da época) e o drama, mas Eric Roth deixa de elevar o seu roteiro ao espetacular quando foge de temas históricos.
Já que Fincher quis trabalhar com um filme sério e tratou de manter o clima realista da cena envolvendo o submarino (brilhantemente dirigida e visualmente impecável) e o roteiro cuidou de inserir comentários sobre a Segunda Guerra, porque o período do Klu Klux Kan foi deixado de lado? Não houve um comentário sequer. Faltou ousadia para Eric Roth. Provavelmente Roth pensou que um subtexto sobre o Klu Klux Kan desviaria o foco narrativo ou que o movimento KKK tenha sido mais forte em outros Estados (Mississipi, Texas), por isso não seria necessário uma cena sobre tal. Na verdade, um tema como esse, se bem abordado, elevaria o realismo da trama e emprestaria um texto um pouco mais crítico e menos focado em malabarismos visuais e lições de moral risíveis. Aliás, o próprio Roth já encarou fatos históricos de frente quando roteirizou o excelente Forrest Gump - O Contador de Histórias.
Em tempo, O Curioso Caso de Benjamin Button apresenta uma qualidade técnica invejável, deixando evidente o perfeccionismo do diretor. A direção esmera-se ao criar cenários impecáveis e os figurinos estão lindos. E é trabalhando com base nisso que o diretor de fotografia Claudio Mirando compõe uma fotografia genial. Utilizando a iluminação com perfeição, em uma cena em especial, quando Daisy dança para Benjamin iluminada apenas por dois postes de luz, enquadrando ambos em um ângulo delirante, casando perfeitamente com a trilha sonora de Alexandre Desplat que preenche todo o filme liricamente suave e agradável, já que o design de som é absolutamente impecável (tanto no som direto quanto indireto).
Apesar dos deslizes, a veia autoral do diretor está aqui. Fincher dirige o elenco com elegância e não dá espaço para o improviso. Além disso, mostra agilidade na montagem, que deve ter dado uma trabalho danado, sabendo que uma passagem de tempo tão longa precisa ter coerência com a continuidade. No fim das contas, O Curioso Caso de Benjamin Button é um filme sobre o tempo. Foi feito para dizer que ninguém pode com o tempo. O tempo une e separa. Como na cena narrada por Benjamin (5 segundos...). Segundo o filme, o tempo é o dono do mundo. E o relógio não pára. Muito menos anda para trás.
Nota: 7.5
Ano: 2008
Direção: David Fincher
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Julia Ormond, Elle Faning, Tilda Swinton, Jason Flemyng










