Personagem-tese da burguesia francesa, casado, pai de dois filhos, sócio de uma empresa de advocacia, Frédéric (Bernard Verley) vive sua vida monótona, seja no trabalho ou em casa com Hélène (Françoise Verley), sua esposa (também fora das telas). Como todo bom relacionamento burguês filtrado pelas lentes de Eric Rohmer, o homem vive satisfeito com essa vida de casa-trabalho-trabalho-casa, onde há tempo para se fazer muitas coisas, mas poucas são feitas na prática. Aí então surge uma velha conhecida que fora namorada de um grande amigo seu no passado. Chloe (Zouzou) aparece primeiramente para tentar um emprego no escritório de Frédéric, que a trata com certo desdém. Chloe volta ao escritório num outro dia, depois de novo e de novo. Numa tentativa de previamente exclui-la de sua vida, ele acaba falando para a mulher (Frédéric tem esse “problema” de não conseguir esconder as coisas de sua companheira) que Chloe apareceu no seu trabalho para importuná-lo. Sua mulher, surpresa, pergunta se não deveriam convidá-la para jantar, mas ele diz que devem é ignorá-la a fim de convencê-la a deixar Frédéric em paz. Não será fácil.
Tentar resistir à presença de Chloe pode ser inútil. Para Frédéric, que aos vai aos poucos ganhando afinidades com a velha conhecida, pode ser uma oportunidade para o início de uma jornada de autoconhecimento, de questionamento de valores próprios e, a priori, corretos. A natureza absoluta de Chloe, seu charme, sua persona em si, pode forçá-lo a sentir qual seu verdadeiro lugar no mundo, seu espaço nele. Uma conversa num café pode revelar muito sobre essa relação, mas são os encontros internos, no apartamento de Chloe, que o colocam sob o fogo constante – que pode consumir-lhe a qualquer instante, o que chega a acontecer num sonho, que figura num registro que pode ser tão absurdo quanto o mais sincero dos dramas, onde ele flerta com cada mulher que encontra na rua, numa revelação de que há alguma coisa (mesmo que inconsciente) à espreita.
É um filme de personagem. Estão postas e configuradas as relações de afeto, as questões morais e éticas de um homem (mas não só), onde o alargamento dessas problematizações vigentes é uma tese a ser discutida não somente através de palavras, mas com o apoio da câmera – do quadro, do ângulo, do enquadramento, do movimento. O protagonista Frédéric é construído mais pelas imagens do que por aquilo que fala ou demonstra. Como quando ele conversa com Chloe em seu escritório. No quadro aparece apenas Chloe, com a porta atrás dela, quando a porta se abre e uma de suas secretárias aparece, Chloe pula fora do quadro para somente tornar a ele quando a secretária já debandou. Chloe a um só tempo está e não está em sua vida, ainda que ele tente negar sua presença física no início dessa relação “proibida” e o próprio desejo (e/ou necessidade) de tê-la ao seu lado. Frédéric, ao passo que ama sua mulher, deseja outra, mas sabe que não pode ter as duas. “É possível amar duas mulheres ao mesmo tempo?”, pergunta a Chloe, já confessando estar apaixonado – mas sem nunca antes tê-la possuído.
Outra cena em especial dá o tom exato desse estranhamento latente que o protagonista enfrenta, que é quando o Frédéric e Hélène encontram Chloe ao acaso numa loja. O homem está lá, com todos os seus conceitos convergindo dentro de si, interferindo em sua real aproximação frente a todos que o rodeiam. Por isso a câmera enquadra o trio assim: com Frédéric isolado no canto esquerdo do quadro, sozinho num corredor que parece pressioná-lo na busca de uma resposta quanto a sua fidelidade aparentemente inabalável, enquanto estão as duas mulheres (seus dois objetos de desejo) aparecem centralizadas. Só elas importam para aquele sujeito. Mas essa cena é apenas uma demonstração de quão poderosa pode ser a linguagem narrativo-visual quando disposta nas mãos de um diretor habilidoso. As perguntas vão nos surgindo, mas a resposta pode tardar a vir. A questão é: irá Frédéric resistir ao discreto charme de Chloe e jogar pelos ares sua fidelidade incondicional enquanto tem sua moral cada vez mais questionada?
Com o passar dos dias, ele vai ficando cada vez mais íntimo de Chloe, apesar de ainda manter-se religiosamente longe do contato físico mais quente (já que um beijo chega a rolar). É por isso que a cena final de Amor à Tarde é umas das mais emocionantes e belas de toda obra de Rohmer para o cinema (que, o leitor sabe, não é pequena). Por conter uma comunhão tão pulsante de afetos mútuos sem ser tragado pela beleza fácil de imagens e conversas, de amor, enfim. Essa combustão de valores e desejos, combinado com a mais íntima das dúvidas do ser humano factível e falível, portanto exposto a tentações (sejam elas puramente carnais ou até mesmo mais profundas sentimentalmente), é a própria autonomia que define as situações. Para Frédéric, resta então continuar sua vida.
(L`Amour l`après-midi, França, 1972)
Direção de Eric Rohmer
Com Bernard Verley, Zouzou, Françoise Verley, Daniel Ceccaldi
Esta crítica faz parte do especial Eric Rohmer, que será lançado em breve no site Cinefilia.

2 comentários:
Eu vi o título e confundi com "Amor Na Tarde", com a Audrey Hepburn! :)
Mas, poxa, adorei seu texto, que fala sobre um filme que eu não conhecia e confesso que fiquei curiosa, até porque Eric Rohmer é uma presença constante aqui e um cineasta que eu não conheço muito bem.
Grande texto de utilidade pública! Não conhecia o filme, ficou a expectativa agora!
Postar um comentário