Ausência mitológica ou a mitologia vã
O longo prólogo que introduz o espectador a Asgard (o mundo bem longe da Terra no qual vive Thor) sintetiza a aventura de Thor. Objetivamente, se trata de uma aventura calcada no entretenimento. No processo industrial que move Hollywood, em essência, isso quer dizer que o diretor Kenneth Branagh possui liberdade para fruir o filme de acordo o gosto do freguês. Thor é parte de um universo em criação, portanto um filme essencialmente expositivo (gira em torno de explorar esses diversos personagens míticos do “Universo Marvel” de maneira a prepará-los para um filme definitivo: Os Vingadores), nunca conclusivo. Thor, o personagem, é o objeto dessa criação onde todos os demais funcionam roboticamente para legitimar esse nosso grande herói – um herói que já faz parte do imaginário coletivo há quase 50 anos. O processo de construção desse herói dos mundos pelas mãos do shakespeariano Kenneth Branagh (não a toa ele é quem dirige o filme: uma história familiar trágica, que converge amor e ódio, sensualidade e robustez, perspicácia e sobriedade) se passa sempre através do mesmo jogo de olhares, de movimentos, de palavras, de ângulos. De uma cena à outra, não há distinção possível dentro de uma lógica fílmica mais elaborada, já que vemos sempre os mesmos planos, as mesmas expressões atônitas. É difícil situar um lugar no cinema contemporâneo para Thor diferente do que ele mesmo cria para si: Thor é uma barriga de aluguel.
Pois esse cinema de Thor, que Kenneth Branagh defende como se fosse a última potência de um pretenso cinema-pipoca (um termo resignatário, aliás, muito perigoso, pois nada significa; nada importa e, pior ainda, nada representa) só alcança o necessário para forjar uma força-efeito aqui e outra acolá – busca nessa ambiência (conectável e desconectável), de um mundo a outro, engendrar seus artifícios. Se algumas cenas funcionam (logo no início, quando Thor, desrespeitando seu pai, vai procurar conflitos contra os Gigantes de Gelo e algumas sequências das batalhas), outras simbolizam até certa primariedade (o desenvolvimento da paixão entre Thor e Jane é, para dizer o mínimo, tolo; e o próprio conflito que move a trama é até bem boçal). Thor (filme e personagem) arquiteta-se inteiramente para responder aos estímulos cartunescos e formais que permeiam sua história, desdobrando-se para sustentar uma mitologia potencialmente interessante, mas mal contada. Pois não se pode (ou melhor, não é aconselhável) contar uma história de homens com poderes (que não são necessariamente super-herois, pois o que lhes confere força e poder são objetos; a arte é da armadura, não do corpo), vestidos a caráter e, ao mesmo tempo, dialogar um filme com frases pensadas meramente para empregarem uma roupagem mítica e cabível à ação que se ambiciona apresentar.
O filme começa logo quando ele, Thor (na primeira oportunidade que tem, Branagh não hesita em filmar os músculos de Chris Hemsworth para reforçar a força do Homem-herói), iria se tornar o rei de Asgard, os Gigantes do Gelo quebram a trégua que, até então, mantinha a paz entre os grupos. Thor, nervosinho e embalado por uma fúria implacável de Nescau, resolve partir em busca de vingança, mesmo que isso contrarie as ordens expressas por seu pai, o poderoso Odin (Anthony Hopkins) – tido por ele como um velho conservador que está condenando Asgard a falência e a renúncia do poder outrora hegemônico. Após uma batalha feroz contra os Gigantes de Gelo, Thor, salvo por seu pai, consegue escapar. Mas Odin acaba o expulsando de Asgard e o mandando para a Terra. Entre os humanos, sem o martelo que lhe dá poder, acaba sendo atropelado logo ao descer a Terra, e é quando fica conhecendo a cientista Jane Foster (Natalie Portman). Na Terra, o Deus do Trovão logo vai aprendendo a lidar com as pessoas, a se relacionar com elas de maneira menos agressiva – logicamente em virtude da presença de Jane (que Branagh acredita ser a mulher mais linda do mundo, tamanha a quantidade de closes que lhe direciona, na maioria para enfatizar/elucidar o sorriso esplandecendo em sua face delicada; é um efeito interessante, mas exaustivo e só corresponde a uma lógica muito bárbara que age para desviar o olhar do espectador de suas fragilidades e direcioná-lo para suas belezas forçadas). Loki (Tom Hiddleston, incapaz de sustentar um ou outro traço da maldade que a personagem exigia, constroi mais um registro caricato daquilo que seria um moleque vítima de bullying), irmão de Thor, por sua vez, permanece em Asgard. Lá, ele age contra o irmão, tentando roubar-lhe o prestígio junto a Odin. A ação do filme é resolver esse imbróglio. Ele (o filme) funciona então apoiado numa perspectiva leviana, sempre forjada em virtude do lógico e do rarefeito.
(Thor, EUA, 2011)
De Kenneth Branagh
Com Natalie Portman, Chris Hemsworth, Anthony Hopkins, Ray Stevenson, Kat Dennings, Stellan Skarsgård, Idris Elba, Tom Hiddleston, Rene Russo, Jaimie Alexander, Colm Feore, Clark Gregg, Tadanobu Asano, Jeremy Renner

15 comentários:
Em resumo, filme para as massas.
Acreditas que é essa formula extremamente basica no qual envolve elementos simples de entretenimento é a solução para os filmes da Marvel?
Quando iremos ter uma adaptação com um pouco de profundidade como se vê nas obras da DC dentro do universo Marvel?
Thor pode ter defeitos mas é feito para algo maior, a questão é ... não podemos cobrar um pouco mais ou não adianta?
Um grande abraço Pedrão!
Verdade que o universo de THOR -- o que se refere a Asgard e seus limites, especialmente -- é rico, mas também o filme tem amarras na obra original, e também é adaptado às intenções de se fazer unir a OS VINGADORES -- tudo pesando no tipo de abordagem dada aqui. Falha, é notável, na tentativa de criar romance, e o arco dramático percorrido pelo protagonista pode soar abrupto. Enfim, quando foca na Terra é que o filme se perde. Mas relevo muitos destes detalhes; acho que, em função do tempo, o filme dá amostras do que pretende, mesmo que não ganhem o melhor desenvolvimento. Afinal, numa revisão acabei percebendo que o excesso de piadas que uma insistente coadjuvante faz o filme inteiro -- o que mais me havia incomodado -- nunca são sustentadas (em extensão na cena) para o riso (ou raiva) do espectador, tampouco o diretor se deslumbra com os diversos (ou a maioria dos) planos que cria: tão logo aparecem, o corte é rápido para a cena seguinte. Tempo não é perdido. Mas ao criar cenas de verdadeiro poder, mesmo que às vezes embaraçados por alguns diálogos clichês, Branagh dedica seu tempo, e não poucas vezes fiquei encantado (os diálogos de Odin e Thor, a cena em que tenta erguer a martelo, a conversa com Jane sob a noite estrelada, o momento em que retoma os poderes, entre outas). Hemsworth e Hiddleston entregam o melhor que se pode tirar de seus papéis (sobre o segundo, é possível ver complexidade sob motivações não tão nobres). Se ele não permite (e não investe em) leituras além do cinema-pipoca (ele já nasceu preso a ela), que assim seja: está bem suficiente.
JP, eu confio que Os Vingadores resulte num filme legal. Hoje é o máximo que consigo fazer.
Mateus, sempre bom receber teus comentários. Sobre Thor, acho que é uma comédia romântica das mais bobinhas. Só troca o buquê de flores do amante pelo martelo do machão. Esses diálogos me parecem piegas, até bem caretas, diria. Também não gosto da cena da "conversa com Jane sob a noite estrelada" (com direito a fogueira e cobertor e dormir de conchinha). É uma tentativa de criar um romance que não existe, que não tem força alguma na tela (talvez tenha lá no papel, no roteiro).
Abraço a todos!
"sob a noite estrelada" foi brega mesmo, inclusive ri enquanto a digitei, mas talvez mostre meu encanto ingênuo com a cena. Não sei, os clichês estão lá, são nítidos, mas alguma coisa, talvez a direção, talvez o esforço dos atores (ou ambos!) fizeram com que a obviedade do que era dito (ou mostrado) parecesse sincero, tocante. Afinal, uma conversa entre Odin e Thor lá pelo final, em que o filho diz que o pai é ingigualável e espera ser tão bom governante quanto ele, ao que o pai retribui com elogios, é totalmente lugar comum e piegas, mas soa tão altiva, tão verdadeira. Sobre o romance, como disse(mos), é mesmo o ponto mais fraco de tudo -- mais grave porque ele é em parte o que move a mudança do protagonista. Mas talvez tenha sido minha vontade de relevar essa falta de desenvolvimento de certas passagens em favor de outros momentos que, para mim, funcionaram muito bem. Seu texto está ótimo, como sempre. E é sempre um prazer comentar aqui. ;)
Anote amigo, a resenha para Capitão America será nessa mesma linhda ... pipocão ... sem pouca profundidade, herói carismático, cenas de ação eficiente, 3D marrom (por que provavelmente será melhor ver no 2D ... filme convertido SUCKS) e tudo que condiz a um filme do porte.
Abraços champs, e confira um texto no blog que sem duvida merece sua reflexão e sua visão.
Saudações tricolores!
JP,
Faço coro. Minha vontade mesmo é quanto aos Vingadores. Certeza que vou passar lá, apesar de que, se for o texto que estou pensando (sobre blockbusters etc), já li, mas ainda não comentei. Farei isso.
Mateus,
Pode ser tocante, realmente. E faz todo sentido. Fui pego assim, de certa forma, por O Turista, um filme que respeito muito (respeito todos os filmes, mas falo no sentido afetivo mesmo, de identificação e de gosto). Especificamente sobre Thor, poderia dizer que ele não se permite transbordar essa afetividade (incluo aí essas cenas que estamos falando) para além desse registro clichê, de frases pseudotocantes. Mas me parece sincero, concordo.
Eu imagino que se o filme se posicionasse de maneira a não deixar tão evidente sua rendição às fórmulas (evidente demais que Thor, ao ser expulso pelo pai, irá, no final, amadurecer e se desculpar com o velho) ele funcionaria mais. Quero dizer que as coisas (essa cena final entre eles, por exemplo) poderiam ser menos explícitas e mais implíticas (até porque eu penso que efetivamente elas precisam estar lá).
E confesso que esse diálogo que estamos tendo sobre Thor me deu certo ânimo para rever o filme.
A revisão para mim pelo menos me fez bem, no sentido que realmente estamos diante de um filme circular, ou seja, um filme que tem todos os elementos que agrada seu publico alvo.
Como cinema pode falhar (e acredito que na sua visão ... bem ...) mas se hoje, alguns filmes se comportam como um legitmo fast food ... ou é embarcar, disfrutar e esquecer ou mandar tudo pra merda (de uma forma quase academica) e perceber que o cinema pipocão caminha a um rumo que definitivamente nos deixa triste.
Sustento suas colocações, Pedro. Aliás, até me ocorreu que se aquele tal diálogo final entre pai e filho fosse apenas uma troca de olhares que transmitisse exatamente a mesma coisa (bons atores para isso havia ali), o clichê das falas poderia dar lugar a uma emoção mais tocante -- mais singela, mais real. E acho sempre válidas revisões de certos filmes (na medida em que o espectador se dispõe a esclarecer, descobrir ou apenas reafirmar algo sobre a obra). Abraço.
Achei Thor um filme muito esquemático, preguiçoso até dizer chega. É muito difícil embarcar no amor ou nas cenas de luta. Os plot twists e viradas são um tanto quanto precários, até pouco importantes para a narrativa como um todo.E acho que, no duro, as intenções dele são um pouco perigosas para o espectador. É um daqueles filmes (botaria poucos aqui) que não respeita o seu próprio público alvo.
Resumindo um pouco a coisa, acho um filme preguiçoso com o que ele quer fazer, até nas coisas mais rudimentares.
Abs e até os próximos textos.
obs: (é como se, por já ter lá a estampa Marvel, pudesse fazer qualquer budega que já tava vendido)
Francamente, não tenho mais paciência com adaptações de quadrinhos, sejam elas da Marvel ou da DC Comics. Sempre os mesmos artifícios, chavões. De fato, filmes como este (e ainda aponto "Capitão América", "Hulk" e "Homem de Ferro") nada mais são do que meros aquecimentos para "Os Vingadores", projeto pelo qual não tenho qualquer expectativa.
Perfeito, Pedro. A estampa da Marvel dá essa margem à preguiça. Esquemático mesmo, esse Thor.
Alex, ainda tenho vontade de ver Os Vingadores, mesmo com todos os filmes ruins estão sendo feitos dentro desse universo - para se chegar até lá. Expectativa não tenho, isso não.
O martelo salva no fim! É isso!
O filme é ediciente e cumpre seu papel de prólogo para "os vingadores".
http://cinespaco.blogspot.com/
essa historia do Thor me lembra muito aquele filme do He-man da decada de 80... rsrsrs
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