Difícil não ficar impaciente diante de imagens tão complexas, tão retumbantes e, no misto de ficção e documentário (que Ghobadi conduz com extrema habilidade, importando a um o mesmo nível narrativo que a outro) instaurados, tão reveladoras como essas de Tempo de Embebedar Cavalos. Mas não se trata aqui de criar o realismo pela estética (câmera na mão, característica do documentário), mas pelas sensações e aproximações possíveis feitas com o mundo (real) – e Ghobadi passa longe de ser um cineasta arrefecido por qualquer formalidade (ficção e documentário ganham um só corpo, uma só imagem; na conjuntura de suas estruturas não existem distinções entre seus valores narrativo-visuais). O contato com a realidade é criado pelas aterradoras imagens as quais teremos acesso, umas de uma potência sensibilizadora calmante (são as que nos mantém seguros para as outras, preparando e formando a rigorosidade e a paciência necessárias) e outras, tão díspares, embutidas de uma crueldade lancinante (não se pode falar em melancolia, pois esta é um estado em coma, o que colocaria a imagem como mero registro de situações). As personagens praticamente representam elas mesmas: não mudam os nomes, não existem efeitos especiais (o menino, deficiente físico no filme, também o é na vida real).

Ayoub (Ayoub Ahmadi) e sua irmã mais jovem Ameneh (Ameneh Ekhtiar-dini) precisam cuidar do irmão mais novo Madi (Madi Ekthiar-dini) que, após a morte do pai, corre sérios riscos de vida em virtude de uma grave doença físico-mental que lhe acomete. Numa família com vários irmãos, é Ayoub (o mais velho) quem toma dianteira e passa a cuidar dos demais, com a ajuda de Ameneh. Estas crianças que precisam amadurecer cedo demais (constante em Ghobadi essa questão familiar; ou melhor, problemática da ausência de estruturas familiares sustentáveis) e aprender a lidar com as animosidades da vida tão logo conhecem sua ferocidade dela. Importante destacar, trata-se de um cinema de verdades irrefutáveis. Ayoub carrega em suas costas o peso de uma vida inteira, apesar de jovem e cabalmente inexperiente. Mas ele vai enfrentando tudo, carregando o irmão nas costas – literal e poeticamente - enquanto busca por uma mula que perdeu. O filme não parece demonstrar interesse em amenizar situações, relativizar ou suavizar dramas dos atores (é visível o intenso esforço físico de todos envolvidos nas filmagens), pois se estabelece muito claramente uma tensão constante, não só na frente, mas detrás das câmeras.

Entre cenas que não poupam espectadores (a morte do pai, as inúmeras sequências em que Ayoub precisa injetar a medicação em Madi, a caminhada em meio às minas), Ghobadi vai talhando seu filme de maneira a fazer um registro do “estado das coisas”. Porque as minas (que, até mais drasticamente, pautariam as ocorrências de outro filme de Ghobadi, Tartarugas Podem Voar; novamente sobre um povo isolado tentando sobreviver – às vésperas da invasão imperial estadunidense, neste que pode ser considerado seu filme mais político) representam, muito antes de signos e simbologias, perigos e sensações iminentes a todos os habitantes “daquelas terras” maquiavélicas. As personagens dos filmes de Ghobadi estão sempre lutando não somente contra suas próprias condições sociais, mas são vítimas de uma má administração do Estado. Esquecidos, lhes resta criarem suas próprias leis. É só no Iraque que Madi pode ser operado. Eles precisam, então, atravessar a fronteira Irã-Iraque para conseguir manter o irmão vivo. As coisas vão se complicando no percurso: o frio, a falta de alimento, a falência das mulas, a “milícia fiscalizadora”, o estado decadente de saúde de Madi.

Parte daí, desse princípio certeiro e catalisador, uma ideia do filme: encontrar num terreno rancoroso um espaço onde a vida possa prosperar, mesmo diante da carnificina de almas verificada nos arredores. De onde vem essa aspereza e, ao mesmo tempo, essa singela maneira de mostrar as coisas? Ghobadi e seu filme sustentam-se num nível bastante rigoroso de problematizações, tanto na forma/conceito quanto no conteúdo/ideia. Existe de fato um desconforto por parte do espectador diante das imagens que se apresentam e daquelas que, a partir da expectativa criada, se avizinham. Ghobadi não vem instaurar sensações, criar olhares para seu mundo (um mundo muito desconhecido ao “Homem do Ocidente”) ou mesmo tentar estancar um problema grave de seu país. Mais do que tentar compreender intenções do autor, cabe analisar consequências (resultado proveniente das ideias). E elas são aterradoras mesmo quando enfrentam o mais duro olhar. No final, a experiência não pode ser medida olhando-se para a incipiência das imagens, mas sim pelo turbilhão de problemas que elas colocam em jogo. Guerreiros, eles seguem lutando.

(Zamani Barayé Masti Asbha, Irã, 2000)
De Bahman Ghobadi
Com Ayoub Ahmadi, Ameneh Ekhtiar-dini, Madi Ekthiar-dini

1 comentários:

Kamila disse...

Mas, que proposta e premissa inusitadas... Fiquei curiosa!!!