07/03/2011

Restrepo



Os EUA da Era Bush é o material de Restrepo. Restrepo é o nome do soldado morto em combate, o qual muitos anunciavam como o melhor soldado do batalhão. O contingente estadunidense está instalado num ambiente onde o medo é constante. O Vale Korengal é o ponto onde estão alocados. Devido a dominação do território pelos rebeldes afegãos, não existe um momento de descanso. A guerra é uma para quem a vive e outra para quem a assiste nos noticiários. Restrepo acaba colocando o espectador na ação (mas o ponto de conflito aqui é reflexivo, não intencionalmente criador de tensão) de maneira a levar o público a pensar o combate e suas consequências, sem pretensão de fazê-lo viver a guerra. Não obstante encontra limitações bastante claras diante de sua abstinência política (muito embora o fato de que toda guerra é política, o filme escapa de qualquer discussão, por opção exclusivamente narrativa, mas que, justamente por isso, não oferece nada mais do que o Youtube e derivados já regurgitam aos berros). O documentarista não toma partido das coisas, não faz perguntas diretas ao documentado - mais por receio, para não parecer induzir os personagens. A câmera está ligada ao registro puramente visual (sensorial), sem embate entre moral e ética sempre muito "a ver" com o filme de guerra. Não cabe ao espectador tirar conclusões diante da truculência do combate, Restrepo não presta serviço ao debate, afilia-se demasiadamente ao mero "observar do cataclismo", o que mantém o filme preso em seu próprio mundo, fechado demais em si mesmo. Funciona como trabalho histórico de pesquisa jornalística, não tanto como cinema.

Passa-se muito tempo num espaço/lugar onde o perigo é iminente, onde a vida pode a qualquer instante ser roubada até mesmo do mais bravo soldado. Não existe uma saída ou um esconderijo. A solução para a guerra é outra dose de guerra. A adrenalina do combate é então o melhor remédio para o medo e a revolta. A cura da insanidade é a ação. Essa convulsão de corpos, coletes, capacetes e fuzis golpeiam-os a todo instante, o que explica logo cedo a fruição narrativa do filme: o frenesi (a câmera na mão, a precariedade de iluminação, as coisas "mal filmadas", a sujeira no áudio) não é uma escolha dos diretores Tim Hetherington (fotógrafo) e Sebastian Junger (jornalista), mas uma realidade da qual não se pode escapar uma vez que o caos é instaurado. Daí certamente não se pode tirar conclusões fáceis. Restrepo aproxima-se mais da narrativa jornalística do que da cinematográfica, pois não há protagonistas ou antagonistas em um homem só. Nesse sentido, o mal é o inimigo "todo" e nós somos os heróis - no bom e velho esquema romântico da guerra aos olhos do estadunidense. As famílias que ficam (filhos, mães, pais, esposas) são os recursos de ligação com o mundo exterior à guerra - aquele mundo que não existe para quem combate nela. Em meio aquilo tudo, não existe momento de alegria maior do que a descoberta de que faltam apenas dois meses para o regresso. Resta a expectativa em saber quantos voltarão de olhos abertos.

O mundo lá fora é um sonho tão distante quanto o desfecho da guerra. O trabalho jornalístico é arriscado, e busca registrar justamente isso (mais do que humanizar personas e personagens), essa frustração constante de expectativas, que são ora encarniçadas pela morte de um companheiro, ora inundadas por ordens de novas missões (avanço ou recuo, não importa, todo canto é um passo em falso), compõem o clima de apreensão. Os combatentes confessam desconhecerem os reais motivos pelos quais estão lá colocando suas vidas em risco. Ainda assim, o amor à pátria é matéria de diálogo para alguns poucos (estes ainda acreditam que estão lá mudando o mundo), enquanto outros só querem terminar logo com aquilo tudo. Sonhos despedaçados são demais, vidas perdidas são muitas, amizades maltrapilhas do mundo amontoam-se enquanto os assassinos de colarinho e gravata fazem suas ligações e tramam os próximos passos. Existem apenas vítimas no cenário desconcertante que se apresenta em Restrepo.

(Restrepo, EUA, 2010)
De Tim Hetherington e Sebastian Junger
Com Juan Restrepo, Dan Kearney, LaMonta Caldwell, Aron Hijar, Misha Pemble-Belkin, Miguel Cortez, Sterling Jones

4 comentários:

Anônimo disse...

eu mesma nao estaria no lugar desses homens..... mais tiro o chapel pra queles que lutao!!! sem medo

Kamila disse...

Perdi a chance de assistir a este filme quando passou no NatGeo, acho, no final do ano! Espero poder assistir ainda!

pseudo-autor disse...

Estou procurando esse filme pra baixar na internet faz tempo, mas não tenho dado sorte. Espero que agora que foi lançado comercialmente eu consiga encontrá-lo. Sua crítica ainda aguçou mais a minha curiosdade.

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Kleber Godoy disse...

Olá!!

Gostei muito do espaço que criou...

Posso te add em meus links na lateral de meu blog?

Já estou seguindo!

Um abraço,

Kleber
oteatrodavida.blogspot.com