Os EUA da Era Bush é o material de Restrepo. Restrepo é o nome do soldado morto em combate, o qual muitos anunciavam como o melhor soldado do batalhão. O contingente estadunidense está instalado num ambiente onde o medo é constante. O Vale Korengal é o ponto onde estão alocados. Devido a dominação do território pelos rebeldes afegãos, não existe um momento de descanso. A guerra é uma para quem a vive e outra para quem a assiste nos noticiários. Restrepo acaba colocando o espectador na ação (mas o ponto de conflito aqui é reflexivo, não intencionalmente criador de tensão) de maneira a levar o público a pensar o combate e suas consequências, sem pretensão de fazê-lo viver a guerra. Não obstante encontra limitações bastante claras diante de sua abstinência política (muito embora o fato de que toda guerra é política, o filme escapa de qualquer discussão, por opção exclusivamente narrativa, mas que, justamente por isso, não oferece nada mais do que o Youtube e derivados já regurgitam aos berros). O documentarista não toma partido das coisas, não faz perguntas diretas ao documentado - mais por receio, para não parecer induzir os personagens. A câmera está ligada ao registro puramente visual (sensorial), sem embate entre moral e ética sempre muito "a ver" com o filme de guerra. Não cabe ao espectador tirar conclusões diante da truculência do combate, Restrepo não presta serviço ao debate, afilia-se demasiadamente ao mero "observar do cataclismo", o que mantém o filme preso em seu próprio mundo, fechado demais em si mesmo. Funciona como trabalho histórico de pesquisa jornalística, não tanto como cinema.
Passa-se muito tempo num espaço/lugar onde o perigo é iminente, onde a vida pode a qualquer instante ser roubada até mesmo do mais bravo soldado. Não existe uma saída ou um esconderijo. A solução para a guerra é outra dose de guerra. A adrenalina do combate é então o melhor remédio para o medo e a revolta. A cura da insanidade é a ação. Essa convulsão de corpos, coletes, capacetes e fuzis golpeiam-os a todo instante, o que explica logo cedo a fruição narrativa do filme: o frenesi (a câmera na mão, a precariedade de iluminação, as coisas "mal filmadas", a sujeira no áudio) não é uma escolha dos diretores Tim Hetherington (fotógrafo) e Sebastian Junger (jornalista), mas uma realidade da qual não se pode escapar uma vez que o caos é instaurado. Daí certamente não se pode tirar conclusões fáceis. Restrepo aproxima-se mais da narrativa jornalística do que da cinematográfica, pois não há protagonistas ou antagonistas em um homem só. Nesse sentido, o mal é o inimigo "todo" e nós somos os heróis - no bom e velho esquema romântico da guerra aos olhos do estadunidense. As famílias que ficam (filhos, mães, pais, esposas) são os recursos de ligação com o mundo exterior à guerra - aquele mundo que não existe para quem combate nela. Em meio aquilo tudo, não existe momento de alegria maior do que a descoberta de que faltam apenas dois meses para o regresso. Resta a expectativa em saber quantos voltarão de olhos abertos.
O mundo lá fora é um sonho tão distante quanto o desfecho da guerra. O trabalho jornalístico é arriscado, e busca registrar justamente isso (mais do que humanizar personas e personagens), essa frustração constante de expectativas, que são ora encarniçadas pela morte de um companheiro, ora inundadas por ordens de novas missões (avanço ou recuo, não importa, todo canto é um passo em falso), compõem o clima de apreensão. Os combatentes confessam desconhecerem os reais motivos pelos quais estão lá colocando suas vidas em risco. Ainda assim, o amor à pátria é matéria de diálogo para alguns poucos (estes ainda acreditam que estão lá mudando o mundo), enquanto outros só querem terminar logo com aquilo tudo. Sonhos despedaçados são demais, vidas perdidas são muitas, amizades maltrapilhas do mundo amontoam-se enquanto os assassinos de colarinho e gravata fazem suas ligações e tramam os próximos passos. Existem apenas vítimas no cenário desconcertante que se apresenta em Restrepo.
(Restrepo, EUA, 2010)
De Tim Hetherington e Sebastian Junger
Com Juan Restrepo, Dan Kearney, LaMonta Caldwell, Aron Hijar, Misha Pemble-Belkin, Miguel Cortez, Sterling Jones

4 comentários:
eu mesma nao estaria no lugar desses homens..... mais tiro o chapel pra queles que lutao!!! sem medo
Perdi a chance de assistir a este filme quando passou no NatGeo, acho, no final do ano! Espero poder assistir ainda!
Estou procurando esse filme pra baixar na internet faz tempo, mas não tenho dado sorte. Espero que agora que foi lançado comercialmente eu consiga encontrá-lo. Sua crítica ainda aguçou mais a minha curiosdade.
Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com
Olá!!
Gostei muito do espaço que criou...
Posso te add em meus links na lateral de meu blog?
Já estou seguindo!
Um abraço,
Kleber
oteatrodavida.blogspot.com
Postar um comentário