Elza Soares brevemente conta sua história de vida (a maneira como adquiriu a ronquidão na voz; a perda de alguns familiares, a pobreza da vida na favela) neste documentário. As entrevistas conduzidas por Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan voltam-se mais para sua carreira, menos para sua trajetória de vida. Mas Elza foi a mulher que incorporou o samba ao jazz (de Louis Armstrong) na canção que lhe alçou a carreira, Se Acaso Você Chegasse. Sua voz tão logo percebida como um diferencial lhe possibilitou vencer um concurso oferecido por Ary Barroso para calouros. Foi o estopim para sua explosão. Após isso, turnês mundo afora, mais discos e fama.
Interessante notar que, neste novo documentário de Izabel Jaguaribe (Paulinho da Viola – Meu tempo é hoje) praticamente inexistem imagens de arquivo (inseridas na maioria dos filmes sobre músicos, ora para contextualizar com um período histórico, ora para tonificar a presença e elucidar a mitologia da personagem em questão; pois, indubitavelmente, na maioria dos casos são imagens da repressão militar/política durante a ditadura). Surpreende também que, no meio destes depoimentos apaixonados (alguns apaixonantes, como os de Maria Bethânia e Caetano Veloso), não surja a voz e a sabedoria de Nelson Motta, também parece outra situação/opção inteligente. Mas daí se explica muita coisa: Elza (o filme) olha mais para a artista (depoimentos de amigos íntimos utilizados para construir a personagem, romantizando-a até o esgotamento de qualquer limite expositivo) e menos para a pessoa (qualquer polêmica acerca da mulher Elza Soares não será discutida com o espectador). Trata-se de um registro romântico daquilo que poderia ser um estudo de persona e personagem um tanto mais complexo. Elza é uma personagem grandiosa sob qualquer expectativa, mas um olhar menos arquétipo (pois, no filme, não existem experiências que se relacionam ou confluam com um outro mundo senão o da parte artística) potencializaria muito mais o discurso. Ficamos somente presos a um olhar, a uma só exposição, o que, a bem dizer, limita a percepção.
E o filme procura captar, entre uma e outra apresentação em capela, essa sensação calorosa que Elza visivelmente transmite para quem está ao seu lado. O efeito no espectador surge potente, mas não resulta numa experiência de forças totalizantes, pois demonstra certa dificuldade em equilibrar e assumir um ponto de vista mais distante de sua vida pessoal e mais próximo de sua carreira artística. O que poderia ser um retrato revelador não só sobre a ascensão do mito, mas também sobre a trajetória do Ser, torna-se numa experiência bastante redutível à sua própria indistinção de particularidades. Nessa instância quase exclusiva de um jogo de canções e homenagens (de Bethânia, Caetano, Paulinho da Viola) o que se vê é um ritual carente de "outras imagens" (a identidade visual dos cenários é até bem inóspita e inviabiliza qualquer apreciação estética do filme quando os depoimentos não dão conta do interesse do público: um jogo de erros mal articulados) que possam compartilhar do mesmo entusiasmo que se tem para quem está lá na tela para com quem está do lado de cá. Uma partilha tão bem organizável por Jaguaribe em Paulinho da Viola – Meu tempo é hoje, aqui vagamente distribui-se em meio a momentos destacáveis (Se Acaso Você Chegasse rende uma sequência de rara beleza). Fiquemos então com a imagem que já tínhamos da personagem/mito antes mesmo do filme ter início.
(Elza, Brasil, 2010)
De Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan
Com Mart'nália, Jorge Ben Jor, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Paulinho da Viola

3 comentários:
Não sabia desse documentário! Parece ser bem interessante, até porque a Elza Soares é um personagem que permite uma abordagem bem diferente. Ela tem muita história pra contar.
Sinceramente, não suporto Elza Soares, quem dirá Mart'nália! Credo!
Caro Cristiano,
Tanto Elza Soares, como Mart'nália irão lamentar muito por não suportá-las....
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