17/03/2011

Cópia Fiel


Nada menos coerente na obra de Abbas Kiarostami do que um novo filme que trata de instalar o espectador numa instância de aquiescência diante daquilo que se vê. Não estranha o fato de o cineasta iraniano sair pela primeira vez de seu país de origem para contar uma história – não há iranianos, não há palavras sobre o Irã. Também não impressiona o fato de Cópia Fiel instaurar a diáspora momentânea de um homem só e, a partir dela, construir os laços afetivos de seu filme na relação com “o outro”; o estranho. Kiarostami nos pede para direcionar o olhar às coisas com intenções distintas, com divagações diversas que não àquelas outrora esperadas de um filme/diretor menos habilidoso, para que possamos percebê-las plenamente através de instintos/reflexos/reações muito particulares. Trata-se, pois, de observar o movimento humano face às vicissitudes da vida. E mesmo que essa sensação de deslocamento se faça presente a todo instante (o protagonista vem de outro país; Cópia Fiel é também um road movie de uma cidadela só), e onde os ambientes e os elementos possuem uma força visual e estética muito visceral, será sempre muito mais interessante conhecer as pessoas do mundo do que o mundo das pessoas. Daí vem o ponto chave do cinema de Kiarostami: erigir a beleza lá de onde ela parece perdida e esquecida, regurgitá-la e transmutá-la em vontade de potência, encontrando a vida em qualquer lugar onde ela possa existir.

Por mais que a narrativa de Kiarostami investigue muito antes das localidades e dos espaços, “a questão humana”, essa constatação, que é antes um dado de valor restrito, pois não coloca as coisas como elas realmente são, não é capaz de abarcar toda a singeleza de Cópia Fiel. Kiarostami inverte a lógica da relação. Fica muito claro desde a primeira imagem (o quadro que evidencia uma ausência; falta o personagem de William Shimell assumir o microfone na coletiva de imprensa sobre o lançamento de seu livro) que Kiarostami realiza operações bastante delicadas neste seu mais recente filme. O tempo é um momento constante de estiramento da realidade, onde ela se joga e se distribui na imagem esperando espraiar todo um estado atual de instabilidade mental, onde as personagens talharão seus destinos, não serão destinados previamente. Um jogo que funciona antes do olhar, antes mesmo do toque, do sentir. Tanto "ela" quanto "ele" hesitam, pois é muito mais fácil para eles ficarem atados a um universo partilhável apenas fantasiosamente do que enveredar num outro mundo, um mundo pós-toque. As barreiras (a presença dualística de alguns personagens secundários, como o próprio filho dela e o casal que encontram na rua problematizam suas aventuras) que eles próprios criam para a relação parecem tornar-se instransponíveis com o tempo, como se massacrar a si próprio tivesse de ser o caminho a ser percorrido para que a integração dos corpos possa tornar-se capaz de transcender suas devoções.

O filósofo inglês e apreciador da arte James Miller (William Shimell) chega a uma pequena cidade da Toscana para divulgar seu livro sobre os valores da cópia na arte. Um assunto belicoso, que, como ele mesmo diz, os editores adoram. A cópia pode valer tanto quanto a original? A original não é uma cópia da realidade? Passam por aí os argumentos de James. Durante a coletiva chega Elle (Juliette Binoche), que é dona de uma galeria de arte e veio questionar o autor e sua obra, por não concordar inteiramente com suas opiniões. Esse encontro conflitante não pôde ocorrer a contento, pois o filho (Adrian Moore) de Elle chega para apressá-la a deixar o local. Elle não consegue iniciar o diálogo com James, mas acaba deixando um recado para ele ir visitá-la em sua galeria, o que acaba acontecendo. Os dois passam uma tarde pela Toscana, em meio a cenários e pessoas, obras e restaurantes, discutindo o que é original e o que é cópia, como se fossem um casal com 15 anos de matrimônio. Alimentam uma fantasia que habita em níveis tão fortemente sensíveis que o questionamento entre e realidade e falsidade são forjados num só corpo, numa só alma, tornando “o estranho” num conhecido – à certa altura, não se sabe, se eles próprios têm consciência dos seus jogos. Resta saber se eles reconhecem em si próprios a verdade, se ela existe. Teses e argumentos, sob qualquer análise, só reforçam a potência desse cinema.

Confissões à parte, Elle realiza sua primeira descarga emocional na cena do café, na brevidade do momento em que James vai à rua falar ao telefone. Essa cena tem a força brutal do descontrole e, ao mesmo tempo, o sabor doce de uma poética da imoralidade. Ali ficamos conhecendo a “vida dupla do casal” e colocamo-nos à disposição de suas presenças. A mulher personificada nos traços de Juliette Binoche pode ser qualquer uma: a mulher de meia idade que cria o filho sozinha, que trabalha e que ama, que sorri e que chora. Mas para além de compreender os dramas femininos e perder-se neles como um fim em si mesmo, Kiarostami narra a inconstância do amor. Cópia Fiel, como toda obra do cineasta, não vai tratar de relativizar ou suavizar questões que sempre fizeram parte de suas ideias para servir ao espectador um filme-conceito (pronto). Ao contrário, é o espectador quem deve sorver e absorver as imagens de seus semelhantes (semelhantes, pois, Kiarostami fala, sobretudo, de e partir do Homem). Nas imagens apresentadas, o incomensurável no amor e na vida é só aquilo que não queremos ver (ou, diria Bergson, “o nosso espírito tem uma irresistível tendência para considerar como mais clara a ideia que mais frequentemente lhe serve”).

Também é curioso notar como Kiarostami se afasta da política, terreno-base de sua carreira, para centrar-se mais no humano, mas não se desliga completamente da politicagem; apenas se afasta dela como centro, mas sem perder a finesse. Daí a dicotomia do jogo de câmera, do plano-sequência e do próprio deslocamento que este jogo indica (deslocamento das próprias personagens), do afastamento e da aproximação da câmera. A cena em que Elle e James encontram um casal de idosos na rua, contemplando uma obra de arte, enquanto discutem sobre seu valor é fundamental: o conselho que James recebe (e tão logo segue) do senhor (não por acaso, um ser mítico na imagem cinematográfica, Jean-Claude Carrière) que tenta estabelecer sobre eles aquilo que não é estabelecível. O espectador não conhece os passados amorosos do casal (fala-se apenas da irmã de Elle, mas esta é uma presença não física, pois nunca a vemos, ficamos somente com as histórias, mas seriam elas verdadeiras ou partes da relação forjada?), portanto ficam ainda mais inacessíveis seus reais sentimentos. Quem ama? Alguém se ama? Ama de verdade? Ou ama na fantasia? Kiarostami alça o espectador num transe sem paralelos para que possamos contemplar a beleza de seu cinema. É muito difícil sair do filme sem a sensação de encantamento pleno: não existem satisfações incompletas em Cópia Fiel senão aquelas presentes na própria vida. Mas essas ninguém é capaz de controlar.

*Este texto foi escrito no dia 11 de setembro de 2010, por ocasião da 7º Seleção de Filmes Bourbon de Porto Alegre. O título do filme foi alterado para esta publicação.

(Copie Conforme, Itália/França/Irã, 2010)
De Abbas Kiarostami
Com Juliette Binoche, William Shimell, Jean-Claude Carrière, Agathe Natanson, Gianna Giachetti, Adrian Moore

11 comentários:

Ranieri Brandão disse...

Que texto bonito, Pedro! Sensacional! Ainda estou para ver esse do Kiarostami. Agora, fiquei com mais "pressão" ainda, para vê-lo. Acho que no final de semana tento resolver isso.

nando disse...

Toquei o filme há pouco tempo. Ele não acabou em mim. Não sei quantas vezes terei de revê-lo durante minha vida, só sei que será preciso. Lindo filme, linda Binoche, lindo texto.

Matheus Pannebecker disse...

Quero ver esse filme por causa da elogiadíssima performance da Juliette Binoche =)

pseudo-autor disse...

Cara, como é difícil encontrar esse do Kiarostami pra baixar na internet. Estou procurando há mais de dois meses. Espero que, pelo menos, entre direito no circuito e não o coloquem em salas no fim do mundo.

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Kamila disse...

Grande texto. Quero muito assistir a este filme, especialmente para conferir a premiada performance da Juliette Binoche.

Jéssica Evelyn disse...

Nossa, que vontade de assistir ao filme! Excelente texto Pedro, muito bonito.

Abraços!

Pedro Henrique Gomes disse...

Só agradeço, pessoal. Quem não viu, veja. Quem viu, veja novamente!

Otavio Almeida disse...

És mestre! Pena que não é Flamengo!

Cristiano disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cristiano Contreiras disse...

Estou doido pra conferir este, ainda mais pela abordagem que muito me interessa - seu texto, ótimo, me deixou mais curioso. E confesso adorar Binoche! abs

Juju disse...

Discordo da interpretação da encenação do casal após o café. O que ví foram dois atores/personagens vivendo uma relação que se transformava a todo instante, vivendo várias possibilidades de relação entre um homem e uma mulher. Várias possibilidades de história ficam no ar, como quando o filho dela pergunta pq ela não pediu para o escritor escrever o sobrenome dele na dedicatória, entre outras. Tanto não foi um jogo entre os dois que quando ela conta para a mulher do café que ele faz a barba dia sim dia não ele não ouve, e no fim do filme confirma este dado... Ví muito do Buñuel, algumas cenas de refrência forte a este diretor...

Até!