São diversos os temas de Splice – A Nova Espécie: aborto, religião, ciência, educação, humanidade. O sorrisinho maquiavélico de Dren polariza basicamente todas as questões do filme. Splice joga com isso, com a possibilidade do humano ter seu lado animal escancarado e do animal, por vezes, parecer racional. O filme de Vincenzo Natali (Guillermo Del Toro produz) mistura isso tudo até com certa habilidade. A ambiguidade é a retórica do filme, seu esculacho e, ao mesmo tempo, sua subjetividade: estão postos em discussão todos os conflitos morais que abarcam a natureza não só do ser humano, como se pode constatar, mas de todas as “coisas vivas” que compõem o mundo. Pode o homem manter-se equilibrado, racionalmente pensativo, enquanto cria e convive com um ser apenas “meio humano”, que volta e meia tem ataques de raiva violentos e que ameaça a segurança de quem os cerca? São conceitos que o diretor enfrenta com naturalidade, dando aberturas a discussões radicais na relação filme-espectador. O questionamento é instigado pelas imagens já no momento em que surgem na tela, que antes de serem meramente chocantes, são emblemáticas, pois representam toda uma ideia de filme (argumento), e que conjura com sua bizarrice o desejo inconstante calcado em todo ser que vive/respira. Por isso, Splice é um filme selvagem.

Clive Nicoli (Adrien Brody) e Elsa Kast (Sarah Polley) são cientistas que conquistaram uma boa fama após diversas combinações de DNA de diversos animais, dando origem a criaturas bizarras das mais variadas estirpes. Eles também nutrem uma paixão que não está somente relacionada ao trabalho, pois são namorados. Depois de várias experiências, o casal deseja combinar DNA animal com humano. Prontamente tendo seu pedido negado por seus superiores, o casal parte então para operações secretas. A todo custo, eles seguem com a experiência. O resultado é Dren (Delphine Chanéac), uma criatura que cresce muito rápido para ser humana e é muito inteligente para ser animal. Extrapolando os limites da ciência, Elsa toma logo Dren como sua filha (a filha que o casal não teve; eis outro tema de Splice, a maternidade), o que incomoda Clive, que acaba cedendo. Aí Splice toma partido da criação: Elsa educa Dren como se ela fosse uma criança normal. Daí é natural que, com o passar do tempo, Clive sinta o mesmo desejo de tratá-la como igual. Instaura-se uma tensão fustigante entre a “família”, que ganha ainda mais força quando vão morar numa casa de campo, onde Elsa passou a infância e onde foi criada e educada.

Do ponto de vista narrativo, Splice faz o mais clássico cinema fantástico possível, não contornando os clichês de gênero sem certo constrangimento. A questão chave de como olhar para o filme é pegá-lo pela sua ideia, pela sua proposta temática, muito antes de tentar dar-lhe um estilo. Nesse sentido, algumas cenas são especiais ao tornarem o bizarro-fantástico em algo absurdamente palatável, e reforçarem a tese da falência ética de nossos protagonistas. Na primeira, Clive é convidado por Dren para uma dança no meio da sala, ao som de música romântica, quando estão a sós. A cartilha do romance mais básico, eis a brincadeira que Natali usa para relativizar as sensações e incrementar os sentidos do espectador perante a uma imagem que lhe é estranha. A dança imediatamente coloca o Homem (aparentemente racional) em pé de igualdade com o animal (supõem-se, irracional) – Adrien Brody capta bem o tom que a cena pede, o da perplexidade, mas com o desejo incrustado em seu tecido humano, sempre à espreita, esperando o momento certo para atacar.

Numa outra, Clive cede a simbologia que a figura de Dren causa em seu mais íntimo desejo. Novamente a sós, Clive refestela-se ao chão com Dren sob seu corpo, num ato que os humanos costumam chamar de sexo. A cena é degradante para o personagem: instaura a insanidade, retira-lhe a razão – que há muito vinha lhe escapando. Quando Elsa chega e assiste ao espetáculo de horrores, conota-se também sua loucura – já constatada numa cena onde Clive supostamente salva Dren quando na verdade estava tentando matá-la; Elsa só vê aquilo que quer ver. Ela já parecia prever (ou parecia querer?) que aquilo aconteceria. Como criar uma menina tão sexy e esperar que o Homem não sinta atração por ela – e que o desejo do lado humano de Dren não aflore. Um mal anunciado. A cena parece bizarra, mas faz-se sua necessidade. Evoca toda a ideia do filme, de que a falência moral e ética é só uma consequência lógica proveniente do absurdo daquela relação. Outro mal anunciado: criar novas formas de vida influencia diretamente sob as formas já existentes., metamorfoseando-as. A necessidade de Elsa em ser mãe acaba lhe roubando paz. A genética, estudo tão caro ao Homem (e, portanto, a própria ciência), impulsiona sua insanidade. O que vemos são suas aflições entrarem em atrito com a ousadia de sua imaginação. Na realidade, é o Homem contra ele mesmo.

(Splice, EUA, 2010)
De Vincenzo Natali
Com Adrien Brody, Sarah Polley, Delphine Chanéac

1 comentários:

Dr Johnny Strangelove disse...

E por aqui ainda já de chegar. Ansioso sim ... gosto de filmes assim, quando conseguem questionar a figura do ser humano como um ser racional. Talvez conseguir instaurar dentro de si questionamentos clássicos que vimos desde Frankenstein ...


Abraços champs!