27/02/2011

O Vencedor


A glória de Dicky Ward (Christian Bale) é ter derrubado Sugar Ray Leonard (mesmo tendo perdido a luta) quando do auge de sua forma – alguns alegam que Ray escorregou, o que enfurece Dicky, pois rouba-lhe aquilo que parece ser seu único orgulho pessoal. O tempo passou e no presente do filme ele é outro homem. Viciado em crack, Dicky é o bad boy da família. Acaba preso justamente quando o irmão, Micky (Mark Wahlberg) mais precisa de sua ajuda. Dicky, agora retirado do boxe, passou a treinar seu irmão mais novo. Enquanto isso se vangloria pelo fato da HBO estar fazendo um filme sobre ele (na verdade um filme sobre a dependência das drogas que ele toma como sobre sua própria história de vida). Apesar da iminente degradação moral e ética do personagem, Dicky continua sendo o “Orgulho de Lowell (cidade localizada ao leste dos EUA)” pelo feito do passado. Ele vive da lembrança, e esse acaba sendo o motivo maior de sua frustração, o que influencia diretamente não só na vida, mas na carreira de seu irmão. Dicky passa então a projetar toda a “brilhante” carreira que quase teve através dos punhos e do sangue do irmão. A vida deles é a trajetória clássica do cinema norte-americano: cair e levantar. Resta reunir as forças.

A noção básica de construção do american dream (ou do american way of life) é aplicada (falamos de um filme sobre uma família disfuncional, temática hollywoodiana por excelência), e rende alguns clichês – como a velha história de superação ou o discurso de que o mal está em si mesmo e a romantização do bad boy. O Vencedor, no entanto, sabe lidar com isso. Daí a importância em dar uma veracidade aos personagens, constituí-los através de diálogos e imagens o mais próximo possível da realidade (a câmera na mão não é aquela bagunçada e confusa de um Greengrass ou de um Aronofsky, e podemos pegar aí Zona Verde e Cisne Negro), é sempre precisa ao esquadrinhar espaços cênicos (seja em cenários externos ou internos). Fica bem claro desde a primeira cena do filme, nas imagens que mostram os irmãos andando pelas ruas da cidade sendo louvados por onde passam, que O Vencedor se trata de um registro não de mitos ou heróis, mas de figuras humanas lutando por seus lugares no mundo – aí se explica a opção da câmera na mão num primeiro momento: há a necessidade de estar junto na luta, batendo e apanhando junto.

São diversos os conflitos familiares que envolvem os Ward. As irmãs defendem as atitudes da mãe superprotetora e autoritária; Dicky falha em seus compromissos com o irmão em virtude de seus vícios; Micky não ganha muito para lutar, e enquanto isso conhece Charlene (Amy Adams), menina não muito bem quista por sua mãe e pela trupe de irmãs. O. Russell coloca-se lá, junto dos dramas familiares, aproxima sua câmera dos personagens sem precisar ceder ao close fácil para registrar a perplexidade e a convulsão. Sua câmera é narrativa, e aí entra a dualidade com o filme dentro do filme. O senso de realismo joga ora com as gravações do filme sobre Ward feito pela HBO, ora com o próprio filme de O. Russell – algumas vezes temos as duas câmeras dividindo um mesmo espaço (a semiótica da dupla vida de Dicky: a do cinema e a real). Temos aí dois filmes, porém com olhares distintos sobre o homem - sobre o mundo, afinal. Num Dicky é a escória, no outro, a glória. Nos dois, no entanto, há a ideia de superação, de dar a volta por cima, de encontrar um lugar/espaço digno de sua garra e vontade.

A realidade se mistura com a ficção, num outro exemplo bem explícito (uma não metáfora) da aproximação da ficção e da realidade. O personagem de Mickey O'Keefe (o policial que vira treinador de Micky) na verdade não é um personagem de cinema: é o próprio O’Keefe que vive ele mesmo. A sacada de todo bom filme baseado em fatos reais está em saber lidar com as possibilidades de transcender a ficção e o real (ao menos aquilo que é tido como real: as pessoas, os fatos, as histórias) para além do registro de ocasiões. O Vencedor se baseia nesse senso de realismo (conferido através das interpretações, em especial as de Christian Bale e Melissa Leo, excelentes atores dramáticos) para criar um efeito contínuo de intensidade. Há todo um culto sobre o Homem e sua história de superação, o que tende a artificializar a narrativa mais frágil, o que não é o caso aqui. O. Russell filma bem o caos instaurado e também as cenas de luta, é daí que busca imprimir o realismo. Mas a imagem final atesta a visão de mundo: O Vencedor acaba sendo um filme sobre a procura pela redenção (pelo sonho, pelo sucesso; clichês dos quais não há solução possível, senão a destruição do filme, tornando-o inexistente). O que acaba sendo caro ao filme é mesmo a impotência de Mark Wahlberg como ator dramático (funciona bem mais no humor, vide Os Outros Caras), que nitidamente encontra-se fora de sintonia em relação a Bale, Leo e Adams. Fica uma experiência fulgurosa pela potência das imagens apresentadas, mas ao mesmo tempo uma sensação de incompletude no que toca o drama humano.

(The Fighter, EUA, 2010) 
De David O. Russell
Com Christian Bale, Mark Wahlberg, Amy Adams, Melissa Leo

8 comentários:

Kamila disse...

O filme tem uma história clichê e batida, que já foi vista em tantos outros filmes, mas acho que o grande diferencial de "O Vencedor" é o elenco. Um outro detalhe que me chama a atenção é que este é um longa totalmente diferente do que o David O. Russell costuma fazer. Quase não se vê a marca dele como diretor aqui...

Rafael W. disse...

Um tanto convencional, mas possui uma direção correta, roteiro enxuto, e atuações muito acima da média. No geral, é um filmão.

Matheus Pannebecker disse...

Não esperava que esse filme fosse tão novelesco. Vale só pelo elenco mesmo, que está ÓTIMO!

Anderson Siqueira disse...

Merecido Oscar de Ator Coadjuvante! Brilhantes atuações apesar de roteiro morno.

Cristiano Contreiras disse...

Acho o filme satisfatório, mais pelas densas atuações, principalmente de Bale que é a pérola do filme, convenhamos. Melissa Leo está excelente, mas não desmereço Amy Adams e, sinceramente, não acho Wahlberg mal no filme. É um ator muito criticado por todos, infelizmente.

Só pela cena do “I started a joke”, entendemos o porquê de Bale e Leo levarem todos os prêmios, até agora.

Só me incomodou um pouco o tom cômico e esteriotipado das irmãs de Bale e Wahlberg no filme. Ficou muito "familia dó ré mi trash".

Abraço!

nando disse...

Significativa sua aproximação de Greengrass e Aronofsky, na oposição ao filme de O. Russell.
Curiosamente, sou um admirador inveterado do diretor de Zona Verde. Daí você pode tirar mais algumas conclusões sobre mim, né...

Pedro Henrique Gomes disse...

Eu gosto do Greengrass também, nando. Mas aquele Greengrass de Domingo Sangrento e Voo United. Zona Verde de qualquer forma eu preciso rever para não tirar mais conclusões precipitadas sobre ele. Mas, a priori, não curti.

Grande abraço a todos!

notasolta disse...

“Assistir é apenas o começo”, diz a frase chave do podcast RapaduraCast. E o espírito é exatamente esse. No caso de O Vencedor, será sempre possível enxergar grandeza (maior) após uma análise desenvolvida num tempo que não o tempo da fruição direta do filme, do fluxo das imagens e dos sons – num tempo em que dispomos só – e já – das sensações que nos foram deixadas no espírito. Mas, nesse ponto, O Vencedor é distinto de um filme como o Cisne Negro, por exemplo. A grandeza de Cisne Negro, e sua força dramática, já são sentidas intensamente no momento mesmo da fruição. O que a análise posterior fará é aumentar a riqueza da percepção do filme, abrindo portas significantes ainda mais potentes. No caso de O Vencedor, no entanto, talvez essa análise posterior seja o único recurso capaz de fazer desse filme um grande filme.