Um cinema de potência, de rigor e vigor. Repetem-se as operações a todo instante: cenas são relidas, refilmadas, novamente contextualizadas. Nada disso é feito para dinamizar o filme, para facilitar a compreensão, o acesso à obra. Para assistir L'éden et après é necessário empenho e imersão. Então se submerge na obra, arregalam-se os olhos e embrenha-se em suas correntes interpelativas. O comportamento do olho humano nem sempre é confiável, vide as imagens, ora "umas", ora "outras", mas ainda assim as mesmas imagens, só que reajustadas. Estão em jogo todas às questões recorrentes em Grillet, certamente provenientes do nouveau roman (movimento criado por ele): a recomposição de peças soltas, a paciência ao desenvolver geometricamente cada plano, cada imagem - e são muitas e belas estas imagens -, tudo trabalha a serviço da conhecida narrativa de irrefreáveis possibilidades de encarar o enunciado, de guerrilhar contra sua própria proposta. Grillet leva o filme até as últimas consequências, ele filma tudo, olha para tudo, ilumina tudo. Para vê-lo, basta tirar as vendas.
Visualmente, L'éden et après nos parece uma sequência de quadros cubistas, que, a priori, não fazem muito sentido em virtude de sua não-linearidade. Mas as imagens vão se construindo, o filme vai se fazendo e a personagem vai nos clareando a visão outrora turva - sem explicações banais, mas através mesmo de sensações (Grillet, enfim, é isso: dedução, sensação, sensibilidade, palpite, sonho; um pouco de tudo). Ainda assim, o novo romance determina que a construção da personagem não é um objetivo a ser alcançado através de mimetizações: todos começam o filme expostos a virulência do mundo e terminam acanhados perante sua grandeza. Entra em ação a exploração dos sentidos, da consciência e da inconsciência; vislumbrar essas imagens exige atenção. Grillet nunca entrega "a trama", nunca dá pistas, os rumos da história são fragmentados paulatinamente para criar essa sensação de ausência de algo, de incompletude, onde só irá conseguir completar a obra quem não fixar o olhar a somente um objeto - as imagens de Grillet não mentem, mas confundem. O azul (aparente indicação de tranquilidade e segurança) e o vermelho (o perigo à espreita) são evidentes personagens do filme, pois aparecem sempre com um detalhamento notável: estão em todos os lugares; nas portas, no sangue, nas roupas, no céu e na terra.
As coisas são brevemente colocadas: um grupo de jovens parisienses vive numa espécie de "cafeteria" dos sonhos no pós-1968. Em meio a rituais alucinógenos, chega um estranho visitante que começa a instaurar uma série de jogos e desafios aos jovens. Como num passe de mágica (a câmera de Grillet opera diversas vezes alguns truques visuais e temporais, movendo os personagens de tempo e lugar), os personagens se movem para a Tunísia, no que torna a narrativa labiríntica um universo de sonhos e delírios quase sempre confundidos com a abstrata cronologia dos fatos. O cenário deserto só reforça a tragédia becketiana da desolação e o existencialismo de uma Marguerite Duras (tanto a Duras cineasta de Índia Song quanto a escritora de O Deslumbramento). Muito se falou que o mais interessante em Grillet é a literatura. Iremos discordar aqui. Sua literatura é tão cinematográfica quanto seu cinema é letrado. L'éden et après atesta o argumento.
Não há necessariamente um início e um fim numa imagem para Grillet: o filme flui descompromissadamente com o tráfico de movimentos realizados (sempre sem a interferência do diretor) pela personagem. É necessário intoxicar-se pela imagem, deixar que ela opere seus milagres: nem sempre o espectador conseguirá desvendar os mistérios dela, pois ler uma imagem de Grillet não é assunto fácil. É provável que uma imagem leia a mente do espectador antes mesmo deste compreendê-la. Na verdade essa é a real compreensão, ser tocado pela imagem, ludibriado por ela e depois visualizar uma ideia possível em relação à conjuntura da história. O cinema de Grillet, como uma dança, como um corpo nu e vendado e enjaulado num cenário surreal, só existe se observado com atenção, com dedicação e com um pouco de insanidade.
(L'éden et après, França, 1970)
De Alain Robbe-Grillet
Com Catherine Jourdan, Pierre Zimmer, Richard Leduc, Lorraine Rainer, Juraj Kukura, Sylvain Corthay

3 comentários:
Dá até vergonha de entrar aqui e dizer que nunca assisti a um filme do diretor...
Oi Pedro, muito legal seu blog, parabéns (adicionei um link dele no "antropologia das coisas", adoro cinema e encontro muita coisa legal no makingoff.org, conhece? beijos, Magda.
Belo texto!
Às vezes o Grillet me cansa, principalmente os primeiros filmes, que me dão a impressão de terem sido feitos pra provar "eu sou o autor de O Ano Passado em Marienbad", hehe.
Mas gosto muito desse filme, do clima psicodélico, do cenário à la Mondrian.
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