13/02/2011

Cisne Negro


Há certo pensamento reinante na escrita crítica de cinema que adota o discurso de que um filme precisa sempre esconder as coisas, manter mistérios, metaforizar, sugerir mais do que mostrar. E realmente isso é muito importante, mas a ausência ou a presença do “dizer e/ou mostrar” não é capaz de determinar o valor de filme algum; pelo contrário, demonstra mais a deficiência do olhar, da percepção do crítico quando este reduz um filme a estas questões. Aronofsky foi sempre um cineasta das coisas simples, das coisas ditas. Em seu cinema, o que existe é para ser mostrado. E não é este o problema deste seu novo filme. Não há mal nenhum em dizer as coisas, o pecado chave, e que se aplica a Cisne Negro, é dizê-las duas vezes – um problema clássico não de conteúdo, mas de forma. Nesse sentido, Black Swan acaba sendo um filme bastante pobre narrativamente, resultando numa “grande e complexa” viagem em linha reta, com pequenas piscadelas de genialidade – e que não dizem respeito àquelas cenas onde o espelho reflete a outra personagem (o cisne negro) que Nina quer ser coçando suas costas, numa banalização muito clara do que já está furtivamente sendo dito através de sua própria dança e de seu próprio olhar (quase sempre às lágrimas): Nina só vai ser aquela personagem quando for consumida pelo tesão carnal (daí o detalhe no corte das unhas) que o Cisne Branco não possui.

Por mais que Aronofsky utilize todos os recursos cinematográficos aos quais dispõe (trilha sonora, close em Nina, fotografia dark), os momentos mais promissores do filme, e são estes que ajustam certo interesse pelo drama da protagonista e que causam o efeito perturbador tão buscado por Aronofsky com sua trilha 100% narrativa em todas as cenas do filme (mesmo em conversas informais), são aqueles em que a música se faz necessária: abertura (sonho) e encerramento, mais a sequência da balada, onde a erudição de Tchaikovsky dá lugar a uma batida beatnik – aqui sim somos envolvidos numa habilidosa operação mental. Nas demais, ela é apenas elucidativa no que diz respeito as suas imagens: faltam imagens potentes que não necessitem de um fundo musical pseudo-envolvente. Nesta cena da balada (que é a cena que dá início ao desbunde, a transmutação de Nina do Branco para Negro) tudo funciona para elevar a sensação de inconsciência da personagem (e do espectador) ao extremo: a música da festa, a convulsão dos flashes de luzes e a piscadela deles, a multidão enlouquecida pelo efeito do ecstasy, o flerte com um rapaz qualquer, a manipulação aparente que Lilly a impõe. Uma sequência emblemática e assustadora, pois coloca as ideias do filme no lugar mais apropriado: a simplicidade vai ser sempre mais eficiente que a extravagância numa esfera de profundidade dramática.

Cisne Negro não seria o filme que parece ser se a música fosse retirada quando Nina não está ensaiando (cenas com a mãe; cena no trem). Seria um filme mais interessante caso pensasse menos nas sensações do espectador e mais nas da personagem. Está claro que Nina é uma personagem kafkiana, de degradação moral e ética, e sua transformação ao longo do filme a proxima ainda mais disso (A Metamorfose) – transformação necessária aplicada também ao personagem de Mickey Rourke em O Lutador. Está claro, também, que todo o universo farsesco e intangível construído ao seu redor (as concorrentes ao posto de Rainha Cisne) representa claramente a carência maior do filme, que diz respeito a sua própria autoestima. Aronofsky crê muito pouco em suas imagens, chegando ao extremo da insuficiência na decupagem a atropelar sua própria narrativa: uma cena parece só uma desculpa para a próxima, o corte vem sempre antes do efeito da cena perdurar na imagem (fixar-se na memória), e a pressa rouba-lhe a intensidade (que ele a todo instante tenta compensar com a música pesada e dramática de Tchaikovsky), retira-lhe o escárnio, emprestando-o somente a superfície, o efeito fácil. Fica claro que Cisne Negro não peca por não ter a ideia, mas sim por não saber expressá-la por completo. Funciona muito a cena em que Nina está ensaiando (já as vésperas da apresentação) e o pianista deixa o salão e vai embora (“eu tenho vida”, diz). Ela continua lá, agora sem a música, com seus devaneios, ensaiando e alucinando ao som da obscuridade de sua criação (Cisne Negro).

Nina (Natalie Portman) é uma mulher de 28 anos (flor da idade), porém humanamente atípica: não pensa em ter filhos, aparentemente não faz muito sexo (só alucinadamente), não sai à noite, não tem amigas fora as da companhia de ballet. Quando Beth MacIntyre (Winona Ryder) está para se aposentar, Nina enxerga aí sua chance como Rainha Cisne (papel principal da peça O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, em que a protagonista interpreta o Cisne Branco e Negro). O dia a dia de ensaios exaustivos e a extensão deles até em casa vão denotando a obsessão de Nina pelo papel. A fixação começa a tomar conta da menina. Nina preocupa-se mais com a concorrência das colegas, sendo Lilly (Mila Kunis) a mais ameaçadora delas. Quando ela é escolhida para o papel, sua tormenta não passa, pois o medo de perder a personagem (quando na verdade ela precisa é encontrá-la) lhe tira o chão. Aventar o desejo de se tornar duas torna-se uma necessidade para Nina, insiste com ela o diretor da peça Thomas Leroy (Vincent Cassel). A mãe a primeira vista mais atrapalha do que ajuda (Barbara Hershey), parece a personagem típica que, na impossibilidade de ter sido, se entrega para que seu semelhante seja -  aquilo que não foi.

Facilidades visuais são utilizadas até o esgotamento de suas possibilidades: todos os personagens vestem preto quando contracenam com Nina (o negro que escapa a Nina, seu desejo absoluto, fonte de sua insanidade e compulsão; o Cisne Negro que ela precisa não só incorporar, mas tomar como parte de si, viver a personagem até fora dos palcos, fora da dança: na vida). Fruto de sua precipitação, o Cisne Negro é o lado sensual que lhe falta (e que sobra em Lilly, sua rival na briga pelo papel principal). A castidade, a inocência, a leviandade, a mocidade, o amor ela possui, precisa dos antônimos. Nina precisa tornar-se outra personagem, a personagem que Lilly já é. Aronofsky representa essa pulsação através das diversas visões que Nina tem de Lilly (e também de Beth). Metamorfoseia-se o corpo de uma (Nina) no corpo de outra (Lilly e/ou Beth) para transmutar-se na Rainha Cisne, elegante e desejante. Essa mutação constante está não só no primeiro plano, que toca a obsessão de Nina, está também nos detalhes: na unha que rasga a pele, na pele que é arrancada, nas pernas que são quebradas, nos olhos que enraivecem tornando-se vermelhos, nos dedos dos pés que se colam. Só sentiremos plenamente essa mudança na sequência final, quando as lágrimas não lhe saem mais, quando a expressão de medo e aflição não transparece, quando o olhar é o mais austero e vibrante possível.

(Black Swan, EUA, 2010)
De Darren Aronofsky
Com Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Barbara Hershey

21 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Parabéns pelo blog.

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

Mayara Bastos disse...

Gostei do ponto que tocou com relação das visões da Nina, acho que o Aronofsky trabalhou bem isso. Sobre o filme, me tirou o fôlego! rsrs. ;)

Roberto Simões disse...

Quanto a mim, é por filmes como este que a experiência de ir ao cinema faz todo o sentido. Muito bom filme. Já esperava pela sua crítica ao filme há uns dias. Ainda que não concorde integralmente, gostei bastante da crítica.

P.S. Continuo aguardando por uma crítica ao Alexander do Stone. Para um dia destes, quem sabe ;)

Roberto Simões
» CINEROAD - A Estrada do Cinema «

Cristiano Contreiras disse...

Achei teu texto um pouco confuso, parece que você criticou mais negativamente o filme, uma opinião um pouco mais fria, eu acho. O que houve?

(...)

Bom, achei esse filme sensacional mesmo, em todos os sentidos.

Sabe, eu ainda estou sem palavras pra esse ele! Achei um trabalho grandioso, desde já meu favorito do Oscar. O filme é todo perfeito em suas esferas técnicas e, principalmente, interpretativa.

Natalie Portman é deusa aqui, expressa uma interpretação única. A maneira como sua personagem se desnuda, aos nossos olhos, é algo revelador…e a mão cuidadosa de Aronofsky ajuda, ao colocar a personagem aos nossos olhos e sentidos, com todas suas fragilidades e anseios, é assombroso.

O filme pulsa, é todo psicológico. Me arrepiei bastante. A cena em que Nina explode, visualmente e metaforicamente, seu “Cisne Negro” desde já é um momento clássico do cinema moderno.

Belo filme mesmo!

E vou ruminar ele mais e mais até escrever, rs.

Abraço!

Pedro Henrique Gomes disse...

Roberto, te devo essa para breve sim!

Salve mestre, Cristiano, onde está a confusão? Eu realmente critiquei negativamente o filme (mas apontando as qualidades que notei). Eu não gostei do filme, e acredito ter deixado isso bem claro. Se aparece mais o negativo é porque foi o que mais vi.

Abraço a todos os amigos!

Rafael W. disse...

Uma obra-prima belissima. Natalie Portman, por meio de sua interpretação arrebatadora, nos leva pra junto de sua dança e sua paranóia.

http://cinelupinha.blogspot.com/

jeff disse...

Essa questão do figurino é bastante interessante. E a direção de arte segue o mesmo caminho, lidando sempre com o preto e branco. Aronofsky fez um filme cinza, quase todas as cenas apresenta essa dicotomia - quando não, o rosa, acho que outra cor muito significativa aqui, ganha destaque. Sem contar os espelhos e reflexos que não são evitados, muitas vezes fragmentando o que é refletido. Agora, Pedro, chamar isso de "facilidade visual" é diminuir um trabalho que dialoga, como você mesmo disse, e materializa o desejo da Nina. É coerente, não redundante.
Compreendo sua visão, tá tudo claro, mas não concordo. Tudo é muito intenso, dura o tempo necessário - essa impressão que teve jamais passou pela minha cabeça -, como se quase não desse pra respirar, tão intenso quanto o que Nina passa. E imagens potentes não faltam, acompanhadas ou não da trilha. Se esta é muito presente, faz muito sentido que seja, e Cisne Negro integra-a conscientemente ao que é visto, e sempre acerta, nunca sobra.

Pena não ter gostado tanto. Pra mim foi um grande filme.
[]s!

nando disse...

Taí, mais um que não gostou do filme... Rapaz, estou começando a suspeitar que fui vítima de alucinações na sessão em que eu fui.
Eu ADOREI o filme, mas estou me sentindo um solitário, porque não tenho encontrado reação semelhante em nenhuma das vozes críticas que eu respeito. Aliás, nem consegui escrever nada decente ainda porque realmente estou numa aproximação muito passional com esse filme.
Foi intenso demais o que vivi em sua projeção, não dá pra esquecer... Acho que precisarei rever logo pra afastar esse demônio da dúvida...

Otavio Almeida disse...

O filme é extraordinário. Você é o cisne negro da crítica. És sempre perfeito em sua análise, mas negativa.

Agora, não há como fazer esse filme sem música, meu amigo. Seria brochante como o "Aconteceu em Woodstock" sem música. Aquilo é heresia!

"Cisne Negro" é o "Lago dos Cisnes" e a obra acontece o tempo todo na cabeça de Nina. Não existe o "Lago dos Cisnes" sem Tchaikovsky.

Existem filmes e filmes, claro. Não é regra. Mas esse precisava da música.

Que a Força esteja com você!

Kamila disse...

Para mim, o melhor filme da safra Oscar 2011, até agora. Um filme perturbador ao extremo e que mexe com a gente. Encontra seu ápice na direção do Aronofsky e na performance de entrega da Natalie Portman.

Pedro Henrique Gomes disse...

Jeff, materializa imagens impotentes, que só existem em fruição pseudo, pois dependem exclusivamente da música.

Otávio, sem música nunca, mas com menos, sim. Exemplo claro: usa-se música quando ela vem de dentro do filme (ensaios, caixinha de música) e não de fora (trilha). O meu ponto de vista diz respeito a trilha que é demasiadamente utilizada para mascarar carências imagéticas e narrativas. Muitas cenas funcionariam mais sem a música em cima - ainda que não fossem funcionar por completo por que elas (as cenas) não são boas. O silênco é também música.

Abraço a todos!

Weiner disse...

Embora discorde com tudo que escrevestes, devo dizer que dá base a muitos de seus argumentos, defendendo-os bem. Talvez o que mais discorde é a respeito daquilo que você chama de "facilidades visuais". Todos os recursos relativos à antítese das cores eram necessários, e Aronofski utiliza-os magistralmente. era este o tom de Cisne Negro. Ele precisava ser usado. Ah, e a música também.
Abraço!

Pedro Henrique Gomes disse...

Precisava ser usado apenas para fazer os olhos do espectador, Weiner. Infelizmente, para nenhum motivo além disso. Abraço!

Bruno Carmelo disse...

Oi, Pedro,

sobre o mostrar e esconder, acho que a direção opta por mostrar com detalhes tudo que faz parte da obsessão e da complexa psicologia de Nina (sangramentos, unhas, transformação em cisne), e apenas sugere tudo que se encontra n'a esfera real (dominação sexual do diretor, frustração da mãe, relação real com Lily). Por isso a sensação de se mergulhar n'a psicologia da personagem.

mas admito que não compreendo o argumento do "diretor que não acredita em suas próprias imagens".

Abraço.

Pedro Henrique Gomes disse...

Salve Bruno,

É simples. Como eu disse numa respota acima, "meu ponto de vista diz respeito a trilha que é demasiadamente utilizada para mascarar carências imagéticas e narrativas" - trocando por miúdos, as cenas não são boas, convincentes por elas mesmas. Não acreditar na imagem é precisar transbordá-la com outros recursos (neste caso, a trilha, a repetição das cenas, vide o jogo de espelhos) senão os dela própria (a cena, a interpretação, a mise en scène, enfim). Meu argumento gira em torno da ideia de que o filme se sustenta por qualquer outra coisa que não a imagem - Aronofsky crê que o quadro pode abarcar qualquer coisa, e assim ele joga coisas lá dentro, informações mil. O suspense psicológico pra mim é inexistente por tudo isso. Aí ele pega e confia o poder do "thriller" a música de Tchaikovsky. Muita pretenção. Poderia ser, então, directed by Tchaikovsky. Seria mais honesto.

Grande abraço!

nando disse...

"Precisava ser usado apenas para fazer os olhos do espectador..."

Fico me perguntando o que pode ser mais necessário dentro do cinema.

Pedro Henrique Gomes disse...

Te entendo, nando. E você está certo. Mas o "fazer os olhos", nesse caso, na minha opinião, é manipulativo, não conclusivo. Eis a diferença. Trocando por uma analogia boba, Cisne Negro você pode olhar e admirar sua superfície, mas não pode alcançar seu núcleo - não pode, enfim, "senti-lo". Só olhar não é tão legal assim, diz aí?!

Otavio disse...

O Sr. deve odiar então John Williams e Bernard Hermann.

Abs!

Pedro Henrique Gomes disse...

Gosto. São mestres. Gosto também de Tchaikovsky. Não gosto é de Aronofsky - a rima foi sem querer.

nando disse...

OK, também entendo esse problema com a manipulação, mas continuo achando que ainda estamos num terreno movediço, pois de Hitchcock a Eastwood, um grande cinema tende a ser manipulador...

E meu amigo, se eu não puder dizer que eu "senti" esse filme, posso me considerar um ser desprovido de sentimentos.

Alex Gonçalves disse...

Há alguns pontos de seu texto que discordei ao ler na primeira vez. Mas devo concordar no momento que você aponta "Cisne Negro" como uma "viagem em linha reta". O que mais me incomodou neste filme, e daí frustrar grande parte das minhas expectativas, foi a sensação de que Aronofsky recorreu a alguns artifícios banais para retratar a loucura de sua personagem (reflexo em espelhos, sócias perambulando por aí et cetera). Gosto verdadeiramente do filme a partir da cena da balada, onde o verdadeiro potencial da narrativa começa a se mostrar. Se o filme tivesse mergulhado no tom de alucinação que se vê a partir deste ponto ele seria muito melhor.

E achei a minha Winona Ryder foi desperdiçada, francamente!