14/11/2010

Bróder


*Filme visto no Festival de Cinema de Gramado 2010

Os personagens profundamente humanos, num mundo sem heróis, dão o tom de Bróder. O interesse maior de Jeferson De é olhar os personagens, reconhecer legitimidades que não aquelas já midiatizadas incessantemente na televisão. Um outro olhar recai sobre os três jovens que deambulam pela favela e pelas ruas de São Paulo. Amizade, eis a grande temática de Bróder. A história é sobre três amigos que se (re)encontram, com suas cartas já dadas pela vida. Infância coletiva no Capão Redondo, periferia de São Paulo, a memória. De caminhos traçados, Macu (Caio Blat), Jaiminho (Jonathan Haagensen) e Pibe (Silvio Guindane), vão passar um tempo juntos. Macu continua na favela, os outros dois já saíram do Capão, Jaiminho virou jogador de futebol e Pibe formou-se em Direito. A amizade continua a mesma, apesar da distância que os separam, em especial o abismo entre Macu e Jaiminho. O dia-a-dia de um é o sonho de outro. O encontro do trio é preenchido pela tensão proveniente das responsabilidades de cada um – e, claro, pelo fogo constante queimando em três homens ainda com muitas aventuras pela frente. O destino é um só.

O filme de Jeferson De não está tão centrado numa construção edificante da sociedade e suas transformações geográficas e sociais. O objetivo parece ser esquadrinhar um espaço, um desejo (ademais sincero) de configurar relações familiares (a família tão presente no cinema brasileiro) e de amizade. A questão é: como desenvolver laços que não digam tão explicitamente como as coisas eram e como se tornaram (pleonasmo) e, ao contrário, deixar espaços para a construção natural de uma dramaturgia bem estruturada? Uma das primeiras notas que se pode fazer vem do elenco, que de tão preparado (literalmente, Jonathan Haagensen ainda mora no morro, Caio Blat morou um tempo no Capão Redondo para se preparar para o papel etc…) para qualquer eventual dificuldade no contorno dos personagens, permite que emane uma naturalidade que cabe muito bem ao filme, pois liberta os atores para a fruição de seus talentos. E aí reside à importância de um elenco de peso para De, que dificilmente alcançaria tamanho êxito com um elenco não profissional (como o efeito alcançado em Cidade de Deus) – mas que o tempo e as próprias experiências de set ensinam.

Ainda que não haja nenhuma influência direta em Bróder, elas fazem parte do imaginário de Jeferson De e isso acaba indiretamente “entrando” no filme, um cineasta atento a diversos módulos da cinematografia que admira (podemos incluir aí Spike Lee e Martin Scorsese). Mas Bróder risca com sua própria pedra, glorifica momentos únicos de tensão e emoção (ou a emoção proveniente da tensão, que é muito bem trabalhada por De) com cenas de forte carga dramática (como quando a ex-namorada de Jaiminho abre o presente que ele deixou para seu filho, que praticamente desconhece ou a própria resolução final do filme). Essa tensão não é resultado da exploração demasiada da favela, já que a ação toda é dos personagens e seus dramas internos (muito mais do que qualquer panorama social pseudo) – a exemplo do último filme de Sergio Bianchi, Os Inquilinos.

Nada do que se fala sobre Bróder pode ser enquadrado no conceito “favela-movie”. Não há o extremismo muitas vezes “banalizante” de outros filmes que, se apropriando da vastidão dos morros e dos cenários que eles proporcionam, pensam se encontrar no direito de caricaturar tudo aquilo, reduzindo seres humanos a maquetes, enquadrando-os sob uma contextualização fútil e rasa sobre o “verdadeiro” estado das coisas. Mas em Bróder, a favela é apenas pano de fundo para uma história sobre amigos, sobre família, sobre ir e vir, sobre nascer (“classe”) C e morrer A (e vice-versa), sobre sonhos, etc. Claro que há problemas (assim como todo e qualquer filme), numa cena e outra, mas não valem “destaques”, a força toda é do conjunto. Talvez seja isso que diferencie os leões dos cordeiros.

(Bróder, Brasil, 2010) 
De Jeferson De
Com Caio Blat, Ailton Graça, Cassia Kiss, Jonathan Haagensen, Silvio Guindane

4 comentários:

Felipe M. Guerra disse...

Sempre lembrando que era o filme que deveria ter ganho o prêmio do Júri Popular no Festival de Gramado, mas fomos votos vencidos! hahaha.

pseudo-autor disse...

Ainda não consegui conferir Bróder, mas estou muito interessado pelo que andei lendo sobre a história. E o Caio Blat, mais uma vez, mostra a que veio numa produção nacional!

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Kamila disse...

Este filme tem obtido opiniões bem interessantes. Estou interessada nele!

Amanda Aouad disse...

Estou muito curiosa com esse filme. Tomara que entre no circuito aqui em Salvador.