05/10/2010

A Origem



Christopher Nolan vem se afirmando cada vez mais como um diretor que navega habilmente entre as duas “vertentes” do cinema hollywoodiano, conseguindo a um só tempo ser um autor e um diretor de blockbusters. Autor porque mantém em seus filmes uma veia nitidamente pessoal, de tramas superexpostas e complexas – vide Amnésia e os filmes do Batman. Ao passo que isso lhe garante certa liberdade artística na grande indústria, também o coloca sob um dilema: ao tender para os dois lados Nolan acaba não se estabilizando em nenhum deles, resultando num perdido, num andarilho, num mendigo, como se vivesse em algum lugar-espaço que conhece, mas parece não saber como lidar com ele. Sua relação com o mundo que filma é muito distante, e seu filme resulta numa consequência lógica disso tudo: nessa busca por conhecer a si próprio (no caso seu próprio cinema autoral) Nolan passa o filme inteiro se explicando. Pouco sobra de cinema. A Origem é um filme de explicação, mas mesmo assim essa explicação será inútil, pois o próprio autor se confunde nesse emaranhado pitoresco de criatividade.

Não sobrevive nem mesmo a inventividade pungente de Amnésia, tampouco a problematização de um “estado crítico” de O Cavaleiro das Trevas. O que resta de cinema é pura estetização desse universo de sonhos dentro de sonhos. A Origem cria uma trama complicada para não revelar nada, gerando uma expectativa já fadada ao embuste. Mesmo que Nolan tenha tentado criar um artifício (neste caso essa habilidade do penetrar no sonho alheio) que sustente seu filme, seja através de sequências de ação ou mesmo da explicação dos porquês destas ações – que simplesmente dominam a narrativa -, A Origem não passa de um filme sobre Paris se dobrando em looping. Não há espaço para reflexão (não que um filme precise dar tempo ao expectador, isso não é uma regra, e sim um conceito) e, quando há, é através de conversas entre o Cobb e Ariadne (Ellen Page), que raramente resultam em algo que realmente possa revelar uma “questão”. Ao contrário, essas cenas de “pessoas falando” (diria Hitchcock) só tendem a reforçar a boçalidade deste filme-argumento. A Origem é um photoshop, cheio de imagens bonitas, mas que não passam de matérias artificiais.

Dom Cobb é um ladrão, mas não ladrão usual. Ele rouba sonhos, penetrando no inconsciente de suas vítimas e roubando e/ou plantando ideias nelas enquanto dormem (“Qual é o parasita mais resistente? Uma bactéria? Um vírus? Não. Uma ideia! Resistente e altamente contagiosa. Uma vez que uma ideia se apodera da mente, é quase impossível erradicá-la. Uma ideia que é totalmente formada e compreendida permanece”). Essa habilidade de Cobb o deu a posição de um raro produto disponível no mercado para sacanear a concorrência no sempre perigoso mercado corporativo. Ele é então convocado para uma nova missão junto de uma nova equipe, onde terá que usar sua poderosa arma contra o herdeiro de uma grande corporação plantando uma ideia em sua mente. Nessa equipe está Ariadne, que é a menina que Cobb escolhe para fechar a equipe.

Ao passo que aprende como funciona o esquema de invadir a mente das pessoas, Ariadne também se revela o ombro amigo de Cobb, dando-lhe conselhos sobre como agir em relação ao seu passado e seu próprio “ofício” – numa espécie de autodidatismo da personagem que é, no mínimo, constrangedor. Mas o irônico é que, mesmo ela não sabendo nada sobre esse mundo de sonhos, tentará convencer Cobb a fazer ou não certas coisas. À exceção de Cobb, nenhum personagem realmente pensa, logo não existem, seja o magnata japonês (Ken Watanabe) ou o amigo capaz de se metamorfosear (Tom Hardy) ou o próprio parceiro (Joseph Gordon-Levitt). Não há uma filosofia criada para eles, a resolução é que todos parecem odiados pelo roteiro.

Claro que Nolan está e sempre estará muito acima de um Michael Bay, um Roland Emmerich ou um Timur Bekmambetov, pois tem uma visão muito diferente do cinema do que estes outros, quando ao menos tenta nos levar a uma experiência que, para além do mero arquétipo fantástico, visa entregar bom conteúdo. Mas de boas intenções não se fazem bons filmes. Não vale querer dormir, sonhar, dormir nesse sonho e sonhar dentro dele. Ser confundido, estar perdido dentro dos acontecimentos não é tão bom aqui quanto fora em Amnésia – filme que, esse sim, alcançava a catarse profunda e completa.

Mais do que a câmera lenta e as lutas captadas ou as cenas talhadas a diálogos espertinhos que só tem a função de atabalhoar a narrativa, A Origem carece de personagens. Rigorosamente, só tem um, que é o protagonista Dom Cobb, todos os demais são meros esqueletos ambulantes com habilidades especiais. É um filme sem latitude, pois sua “coordenada geográfica” está configurada de maneira a problematizar um único artifício: a dúvida sobre como realmente funciona essa chamada “arquitetura dos sonhos”. Não existe preocupação com nada externo a esse mundo, e essa edificação acaba se diluindo em si mesmo, afogando-se em sua própria antropologia filosófica, em seu pragmatismo, enfim. Mesmo quando se busca algo de novo narrativamente, esse “algo” é apenas um nível a mais de um sonho dentro de outro e que, quando não se consegue sair dele, ou seja, quando um personagem se vê impossibilitado de retornar ao nível anterior do sonho, está então condenado a um limbo mental e inconsciente. A Origem não erra por não ter as respostas, mas sim por não fazer as perguntas certas.

(Inception, EUA, 2010) 
Direção de Christopher Nolan
Roteiro de Christopher Nolan 
Com Leonardo DiCaprio, Ken Watanabe, Joseph Gordon-Levitt, Tom Hardy, Ellen Page, Michael Caine, Tom Berenger, Marion Cotillard

8 comentários:

Otavio disse...

Se dermos o mesmo roteiro a dez diretores diferentes, é provável que tenhamos dez filmes diferentes. Mas não excluo a importância de um bom roteiro. O que defendo é a mise-en-scène.

Em "Amnésia", Nolan criou um belo argumento, um roteiro bom, mas falta mise-en-scène. Tenho certeza que, hoje, ele faria um "Amnésia" mais acelerado, visualmente insano. O que há de sobra em "A Origem", que ele teve liberdade total para fazer. A trama de "roubo", por exemplo, é algo que sempre esteve em Hollywood, que privilegia o entretenimento desde os primórdios. Hitchcock, em outra época, fez a mesma coisa.

"A Origem" é, acima de tudo, entretenimento. Não é um filme de Stanley Kubrick. Muito menos um Tom Ford, deslumbrado pelo visual sem ligar para o roteiro.

Quem chama "A Origem" de obra-prima é o fã, não o Christopher Nolan. Esse é o cinema que ele gosta de fazer.

Abs!

Kamila disse...

Olha, que surpresa. Eu pensava que você iria idolatrar este filme, mas eu venho aqui e me deparo com este excelente texto. Gostei da sua visão sobre a obra!

pseudo-autor disse...

Acho que se criou muita expectativa acerca desse filme pelo fato de Nolan ter entregue um excelente segundo filme do Batman. Mas A Origem é mero entretenimento que chama a atenção pelo fato de possuir um bom elenco.

cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

bruno knott disse...

Até agora não entendi pq houve tanto rebuliço por esse filme. Considero ele criativo e cansativo pelo excesso de cenas de ação.

Tb me incomodei bastante pela falta de desenvolvimento dos personagens....

Resumindo, uma nota 7!!

ótimo (e sincero!) texto. abraços.

Gustavo disse...

Dessa vez não concordo porque o que mais me cativou nesse filme foram justamente os personagens (todos), elemento que, nos longas anteriores de Nolan, nunca pareciam desenvolvidos com muita dedicação. Assim sendo, minha percepção do entretenimento oferecido pelo filme é bem outra. Mas ele realmente não é a segunda vinda do Messias, como o hype nos faz crer.

Cumps.

Pedro Henrique disse...

E antes de ser um cinema que ele gosta de fazer, é um cinema que tem de ser feito, caso contrário o outro (mais autoral) cinema morre. Quanto a questão da mise-en-scène, acredito que o Nolan de Amnésia era muito mais devasso, sabe, mais sem vergonha com as "leis impostas". Um fora da lei. Aqui ele me parece mais preso, já convencido de que a mise-en-scène é uma coisa super importante - nem é tanto, se comparado a potência de um bom argumento, que, aliás, A Origem até tem, apenas não sabe como expressá-lo.

Abs!!!

Matheus Pannebecker disse...

Olha, eu gostei muito do filme e acho a direção do Nolan uma das mais sensacionais dos últimos tempos. Mas, pra mim, o que faltou em "A Origem" foi mais conteúdo. É narrado de forma complexa, mas na realidade, o filme não tem nada de tão complexo assim. A estrutura difícil é que deixa essa sensação. "A Origem", como bem disse a Isabela Boscov, é uma brincadeira e não tem filosofias.

Mayara Bastos disse...

Mesmo em ter adorado o filme, gostei de ter lido o seu ponto de vista sobre ele, porque gostei do que o filme causou, uma boa discussão.

Beijos! ;)