28/08/2010

Felizes Juntos


Felizes Juntos poderia se chamar Começar de Novo. Ou Recomeçar a Partir do Zero. Esse filme de Wong Kar-wai é assim: um intrincado processo de gestão; de movimentos; de idas e vindas; de solidão e, como não, de felicidade. É sempre um começo novo, um início com base no nada. Os personagens de Felizes Juntos parecem atados a um destino que nunca irá se concretizar, e que no caminho (ou na busca por esse destino) acabam enfrentando agruras que irão lhes afastar – para depois uni-los novamente. A câmera de Wong vai filmar justamente isso, esses pequenos momentos tensos, intensos e conflitantes da vida do casal Po-Wing (Leslie Cheung) e Yiu-Fai (Tony Leung). Os dois vão para a Argentina a passeio, onde acabam ficando um pouco mais. Depois, quando querem voltar para Hong-Kong, estão sem dinheiro. Yiu-Fai vai parar numa casa de tango, onde começa a trabalhar para tentar fazer algum dinheiro que pague sua volta. Po-Wing entra numa de afastamento e fica cada vez mais distante do companheiro.     Quando Yiu-Fai começa a se encontrar com um amante e as coisas parecem que estão a melhorar, Po-Wing logo é abatido fortemente por uma degradação, e isso vai afastar e unir os dois novamente.

Não há formalismo para Kar-wai, seu cinema é, desde sua formação, protestante por uma estética de marcação de espaços, preenchimento de vazios com funções de significação. Os cenários projetados, as cidades (Hong-Kong, principalmente) são também personagens de seus filmes, pois são postas (e expostas) na tela de maneira a dar algum significado aos diversos sentimentos dos personagens (humanos), pois são ambientes vazios e silenciosos. Nada disso, no entanto, está lá somente para embelezar as imagens. Não é este o objetivo do cineasta. O ponto chave da filmografia de Kar-wai é o de um vouyer, e é assim, como um observador da condição humana e de suas relações com o outro, que o diretor desenvolve seu cinema – um cinema “bonito”, sim, mas com essa beleza gozando de estruturas sólidas (de roteiro, dramaturgia e direção).

Kar-wai filma bem, mas mais do que a película granulada e os enquadramentos inusitados, o diretor registra essa tensão dos corpos com autoridade, com uma câmera que nunca é maior que objeto, sempre observando, apenas. Também externa sua paixão pela cultura latino-americana, seja através da música latina. Em Felizes Juntos o tango, afinal estamos na Argentina, mas também em vários outros de seus filmes, como em Amor à Flor da Pele, onde há, inclusive, Bossa Nova. Isso universaliza o filme, pois a história contada não é de um lugar só, mas de todos. Mas essa trama de um amor que vai, aos poucos, dilapidando a si próprio é difícil de ser conduzida, principalmente quando o roteiro é cheio de curvas, suscitando mudanças e alterações de rumos de seus personagens e cenários.

Felizes Juntos acaba sendo um filme “feliz” por tudo isso, mas por também ter Tony Leung como protagonista. Tony é um ator comprometido com um cinema grande, não só de “arte”, e não tão somente por suas colaborações com Kar-wai, mas também quando dirigido por Wai Keung Lau, Alan Mak e John Woo. O personagem de Tony aqui se mostra tão complexo quanto qualquer outro que ele já tenha criado: preso em seu recôndito, sozinho (solidão é recorrência em Kar-wai), a beira da loucura, Yiu-Fai é um tipo emblemático. Ele vai tentar, de algumas formas, consumar esse amor, mas mais que isso, a busca de Yiu-Fai é pela plenitude pessoal. O desejo pela vida é sempre maior que tudo e todos.

Como em Amor à Flor da Pele (um dos filmes mais badalados do diretor), Felizes Juntos versa sobre o mais belo tipo de amor que pode ser contado no cinema: aquele que nunca se eterniza, nunca se consuma de fato – esqueçamos que se trata de um amor entre pessoas do mesmo sexo -, é aquele amor de Casablanca, de Tarde Demais Para Esquecer, de Nosso Amor de Ontem, de As Pontes de Madison etc. Aquele amor dos mínimos detalhes, dos pequenos momentos na intensidade da paixão. Diz um pouco, também, sobre a felicidade, sobre como ela é um mito inalcançável e, ao mesmo tempo, uma fonte inesgotável de esperança. A felicidade são esses pequenos momentos. Portanto, pode ocorrer que alguns personagens dos filmes de Wong possam ser mais felizes que outros em alguns momentos: pois a busca pela felicidade é ingrata. O que fazer? Viver livremente os pequenos momentos de felicidade.


(Cheun gwong tsa sit, Hong-Kong, 1997)

Direção de Wong Kar-wai
Roteiro de Wong Kar-wai
Com Chen Chang, Tony Leung, Leslie Cheung, Gregory Dayton

5 comentários:

Roberto F. A. Simões disse...

Ora aqui está um filme que verei em breve, certamente. O cinema de Kar Wai emana uma complexidade e um fascínio sobre as coisas sensíveis... Gostei do seu texto.

Cumps.
Roberto Simões
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Tiago Ramos disse...

Não é o meu preferido do realizador, mas é um filme extremamente bonito com aquele toque habitual de Wong Kar-Wai mas também com toda a sensualidade da Argentina. E um filme também muito corajoso para um realizador chinês. Muito bonito mesmo.

Kamila disse...

O Wong Kar Wai é um baita diretor. Pena que tive a chance de conferir poucas obras dele.

Mayara Bastos disse...

Esse é um dos filmes do Kar Wai que ainda não assisti. À conferir. ;)

Anônimo disse...

Parabéns pelo texto, que pra mim foi até melhor que o filme propriamente dito! Abraços.