A imensa gratidão que se tem ao assistir Em Paris é devida a dois fatores em evidência: um diretor em constante evolução, que de promessa passou a ser uma certeza de boas histórias e um ator que segue esse mesmo glorioso caminho. Christophe Honoré e Louis Garrel são o retrato de toda uma nova geração de cineastas e atores franceses que aparece cada vez mais disposta a fazer um novo cinema francês, que não está somente limitado a filmes-homenagens, mas a produções autorais com conteúdos à francesa: história simples sobre pessoais comuns. O personagem de Garrel é a recusa a inação, um tanto quanto burlesco, afinal. Honoré dá a ele a liberdade de soltura – o tipo mais desejado de independência – e vai, pelas ruas de uma Paris encantadora, filmar as desventuras daquele personagem como um voyeur. Somos nós (e somente nós), os espectadores, que teremos acesso a esse seu mundo particular, onde diversos elementos transitarão na tela de maneira a dimensionar esse personagem, de forma a humanizá-lo. Em Paris conta a história de uma família – tema recorrente na obra de Honoré – que, assim como várias outras, precisa enfrentar as agressões da vida.
Evidente que seu cinema demonstra traços largos do cinema clássico francês (de Renoir a Rohmer e deste para Godard), mas não são traços perdidos em meio a tramas vazias. São argumentos sólidos, munidos de um encantamento pela própria cinefilia. A questão de gêneros também nunca foi um problema para Honoré. Ao contrário disso, serve como mecanismo de defesa para seus filmes, que navegam faceiros entre estilos e vocações. É um cinema de multiplicidade. E é justamente por isso que Em Paris acaba saindo tão musical ao diretor – musicalidade que ficaria mais explícita em seus próximos trabalhos, Canções de Amor e A Bela Junie – ao passo que apresenta uma história que é, em sua essência, dramática. Especialmente Honoré, cineasta engajado em filmar as agruras das relações humanas mostra-se livre (como seu personagem vivido por Garrel) para construir uma visão da perda, que não deixa de ser uma visão da morte. É bem isso: Honoré não deixa de ser um cineasta que versa sobre a morte (direta ou indiretamente).
Em Paris conta a história de uma família que, como várias outras, precisa enfrentar a dor de uma perda e as consequências que ela traz aos integrantes dessa família. Honoré filma esse momento delicado de maneira a fazer um registro interpessoal, que busca problematizar as relações afetivo-familiares. Mirko (Guy Marchand) é pai de dois homens, Paul (Romain Duris) e Jonathan (Louis Garrel). Paul vive numa depressão imensa, caso parecido com o de sua irmã, que decidiu acabar com sua própria existência. Jonathan tenta, a todo custo, reavivar o irmão, enquanto aproveita a fase dos amores em sua vida. Paul vivia com Anna (Joana Preiss), mas uma briga pôs fim ao relacionamento entre os dois e ele voltou a morar com o pai, onde se recusa a sair da cama de seu quarto. O exato oposto, Jonathan é um jovem romântico, que vive andando pelas ruas de Paris e encantando (e sendo encantado por) várias garotas.
Essa relação dos irmãos é o tour de force do filme. Baseado em interpretações pungentes, Honoré constroi esse universo tão particular sem cair em demasia no pedantismo. Se o filme emociona é mais por conter, nos personagens, uma aura que nos remete a um cinema-realismo e menos por querer ser um cinema-artifício. Ao filmar a chegada da mãe, que há tempos não dava as caras, Honoré completa a teia familiar com uma disposição narrativa vigorosa. Essa personagem, aliás, vai representar uma virada no filme, uma ruptura. A chegada da mãe traz consigo um motivo de alegria (um possível recomeço), pois dá início a reestruturação da família – em especial de Paul. As cenas da mãe com Paul são de uma afetividade incomum, muito cara a um cinema mais comercial, mas que aqui, graças a direção habilidosa de Honoré (o cineasta ora estica o plano um pouco mais, ora corta secamente, criando um filme de contrastes, assim como seus personagens Paul e Jonathan). Em Paris mostra que uma família (e seus integrantes) reage a perda, cada qual a sua maneira. O destino dado a história cria uma sensação de esperança, mesmo em meio a um vazio existencial de alguns e a exaltação como resposta a essa dor, de outros.
(Dans Paris, França, 2006)
Direção de Christophe Honoré
Roteiro de Christophe Honoré
Com Romain Duris, Louis Garrel, Joana Preiss
Postado originalmente no Cinefilia


5 comentários:
Esse é dos meus filmes prediletos de Honoré, Truffaut está presente em várias cenas...uma bela homenagem à Nouvelle Vague e ao cinema.
Muito legal a crítica Pedro,
Abraço
Dora
E aí colega jurada! Que legal ver você por aqui. Gosto muito do Honoré também e acho que, com o tempo e a experiência que ele traz, ele pode tornar-se um dos grandes cineastas franceses.
Abraço e volte sempre!!!
Eu ADORO esse filme! Acho uma maneira absolutamente original de se contar uma crise amorosa - pelo olhar do irmão. Há cenas ali inesquecíveis, como a briga por telefone e a discussão ao som de Metric no último volume. Aliás, a trilha do Metric cai como uma luva.
Abs!
Acho Christophe Honoré levemente superestimado....
Quero muito ver esse filme! Até agora gostei dos dois filmes do cineasta que vi.
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