25/05/2010

Um Homem Sério

 
O prólogo que inaugura as imagens de Um Homem Sério já revela que, durante o restante do filme, não haverá respostas para todas as perguntas. Essa cena mostra um rabino (até então dado como morto) chegando à casa de um casal em algum lugar no século XX numa comunidade judaica. Enquanto o homem oferece uma sopa (neva lá fora) a mulher hostiliza o visitante inesperado. Ao desacreditar que aquele homem pudesse estar mesmo vivo, ela dá-lhe uma facada no peito. O homem, convalescendo, ao mesmo tempo em que deixa a casa, diz que sai porque sabe reconhecer quando não é bem-vindo em algum lugar. Este pequeno episódio que demonstra não ter ligação alguma com o restante do filme, mas que como toda confusão inicialmente causada pelos filmes dos Coen, traz uma luz à história: dibuk; que de acordo com a tradição judaica é o espírito de um morto que toma posse do corpo de uma pessoa viva. Essa questão não raro é uma maldição sobre o casal, que traz para casa um homem morto. Assim como será o protagonista, Larry Gopnik, durante o filme: amaldiçoado.

Um Homem Sério carrega os conceitos do projeto de cinema de seus diretores – ou diretor de duas cabeças, como são conhecidos na indústria – a ferro e a fogo: inúmeros personagens que parecem depender um do outro para alcançarem seus objetivos, tipos estranhos de personalidades (o irmão de Gopnik, Arthur, foi morar com ele e dorme no sofá da sala, é um deles), música incidental (mais um competente trabalho de Carter Burwell) e fotografia hipersensível de Roger Deakins (aqui, mais do que nunca, comprovando ser um dos grandes). Para o protagonista, desastre seguido de desastre: sua mulher o abandona para ficar com uma espécie de imbecil intelectual, um aluno passa a ameaçá-lo, seu irmão maluco veio morar na sua casa, o filho é um maconheiro, a filha perturbada por obsessões que ele julga fúteis. O filme segue ilógico até o final – mas isso é o que o enriquece, o potencializa.

A história de um professor de física, Larry Gopnik (Michael Stuhlbarg) que vê o mundo ruir à sua frente é tudo que os diretores precisam para construir seu universo particular – e durante o filme não serão poucas as situações de extremo desgosto para nosso protagonista. Um Homem Sério parece o mais íntimo diálogo dos irmãos com suas vidas pessoais, do crescimento no subúrbio de Minneapolis, da criação judaica pelos pais (os pais, como o protagonista deste filme, foram professores, e isso não é uma simples coincidência). As coisas se movimentam num fluxo constante de desastres. É um filme de desconstrução. Os filmes dos Coen são, assim como os de Woody Allen, Almodóvar e Gus Van Sant, sobre as coisas que os perturbam, isso traz para seus filmes um aspecto único: são esquadros de vida pulsantes dentro de uma tela.

As opções estético-visuais do filme são coerentes com a filmografia da dupla, e não cabe aqui tentar procurar por estilização em Um Homem Sério. Se as coisas estão postas como tal é mais para construir uma visão de mundo (neste caso uma visão deturpada, um lado inconsequente desse nosso mundão, as adversidades) do que para demonstrar esmero técnico e apelo estético. Não faz parte do projeto de cinema dos Coen essa obsessão pela imagem projetada. Essa tentativa de embelezar o cinema com lampejos de decorações não faz parte do cinema deles – maquiar a imagem para esconder fragilidades não é a cara dos irmãos. Eles tratam muito bem das aparências de seus filmes sim, mas todo e qualquer “efeito” aqui presente funciona como recurso narrativo, não como antídoto para um embuste. Não estamos falando de Rob Marshall, cujos filmes engrandecem cada quadro com alegorias para no final apontar para o fundo do poço. O diálogo aqui é com a coerência.

Também é menos sensato enxergar aqui um filme cômico, mesmo sendo ele conduzido com um lirismo de primeira grandeza. Como Barton Fink (não por acaso um dos melhores filmes dos Coen), o humor floresce quando encontra no drama um motivo para existir. Não é diferente neste Um Homem Sério, um drama da vida, onde o humor existirá mais dependendo do olho de quem o vê do que pela suposta intenção dos autores. É o verdadeiro absurdo da vida. Afinal, é disso que trata o cinema dos irmãos. Algumas das perguntas que são lançadas durante o filme não possuem respostas. Porque isso acontece comigo? O que eu fiz de errado? Como encarar a vida? Não existe resposta para isso. Voltaire disse que “devemos julgar um homem mais pelas suas perguntas que pelas respostas”. Isso posto, os irmãos Coen não darão essas respostas, mas instigarão as perguntas.

A Serious Man (EUA, 2009)
Direção de Joel & Ethan Coen
Roteiro de Joel & Ethan Coen
Com Michael Stuhlbarg, Sari Lennick, Richard Kind, Fred Melamed, Aaron Wolff

10 comentários:

Museu do Cinema disse...

Estou alucinado para ver esse filme!

Fabio Rockenbach disse...

O maior exemplar de como os Coen, quando querem, podem cagar em cima de si próprios devido ao ego e ao estrelismo.
De longe o pior filme dos Coen dos últimos tempos para mim, e a anos luz de distância de obras-primas como "Onde os Fracos...", "Ajuste Final" e "Fargo" (que, a bem da verdade, são um gênero completamente diferente. Acho que não gosto do humor-massagem cerebral-pedantismo dos irmãos quando fazem comédia).
E, PS: acho que Um Homem Sério não tem gênero.
E, PS2: aquele começo é ótimo...
E, PS3: eles precisam descer um pouco do pedestal...

Kahlil Affonso disse...

Grande filme, roteiro impecável!

http://cinema-em-dvd.blogspot.com/

Kamila disse...

Quando eu fui assistir a este filme, eu pensava que iria assistir a um determinado tipo de obra, e me deparei com outra completamente diferente. AMEI, AMEI este filme! Especialmente o Michael Stuhlbarg!

Dr Johnny Strangelove disse...

Acredita que nem vi ainda o filme?
Vou correr o mais rápido possivel ...

E sim, estou bem, aguentando aos trancos e barrancos ... ehehehe

abraços

Vinícius P. disse...

Filme maravilhoso dos Coen, um dos melhores do último ano!

Wally disse...

Achei o filme fantástico. Original, inteligente e muito engraçado. O filme é tão paradoxal quanto a vida, e suas alusões são um primor. [****]

Gustavo disse...

Não sei o que esperar desse filme, tudo aponta para algo com questionamentos existencais aprofundados, com a verve típica dos Coen. Pensando bem, deve ser ótimo mesmo.

pseudo-autor disse...

Ainda não consegui conferir o último dos Coen. Está na minha lista (mas parece interessantíssimo! Bem a cara da tresloucada dupla de Arizona nunca mais e Matadores de velhinhas).

Cultura? O lugar é aqui:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Vulgo Dudu disse...

O filme é cheio de detalhes. E são esses detalhes que fazem dos Coen os enormes diretores que são. Mais ainda, é uma volta ao cinema de ofício que eles faziam lá no início: filmes que não podem ser rotulados, nem classificados com um gênero ordinário. Depois daquele "filme de férias" que é Queime depois de ler, o público merecia uma joia dessas. Acho incrível como eles trabalham a música do Jefferson Airplane, como os diálogos são perfeitos e a maneira hermética, e ainda assim teatral, com a qual colocam as questões religiosas em xeque. Por exemplo, quando o protagonista nega receber o disco de Abraxas Santana: "abraxas" quer dizer deus, é o protagonista negando deus. Enfim, perfeito!

Abs!