Resumir Ilha do Medo a seus méritos técnicos é limitá-lo a obviedades. Segundo Scorsese, o filme é uma sinfonia moderna - e como tal precisa ser lapidado em diversas camadas. Scorsese deixa claro desde o primeiro plano do filme que Ilha do Medo é um filme de mistério – um thriller visivelmente bem arquitetado. O close inicial no investigador Teddy Daniels (DiCaprio), quando este mostra sinais de enjoo ao navegar num barco rumo a tal ilha (a Shutter Island, do título original), junto de seu novo colega Chuck (Mark Ruffalo), dá a primeira dica: Ilha do Medo é um filme sobre um personagem, não sobre uma ilha. Mas a desenvoltura dos primeiros cortes, a ambientação daquela viagem marítima, o mar crispado, o silêncio externo que provoca a mais intensa das agitações internas, tudo isso é criado de maneira a instaurar uma expectativa, e não para entregar uma surpresa. O andamento das coisas será fruto daquilo que nós e Teddy Daniels desejar. Isso vem de Hitchcock, criar a expectativa no espectador, não trabalhar apenas com um final surpresa – não é este o objetivo.
Scorsese faz de tudo para problematizar o protagonista. Ao longo dos primeiros planos, veremos que Daniels é um homem perturbado. Seja pela perda sua mulher, seja pela sua participação na Segunda Guerra Mundial. Ao chegarem à Shutter Island, Daniels e Chuck deparam-se com tipos interessantes – tanto de policiais quanto de presos. A ideia é justamente essa, brincar com as ambiguidades. Percebe-se que muitas coisas estão fora do lugar, resta a Daniels montar o quebra-cabeça. Daniels vai para a ilha investigar um caso de uma paciente que desapareceu, mas pessoalmente luta para descobrir quem foi o homem que incendiou o apartamento de sua mulher. Quanto mais ele fuça, menos as coisas se encaixam. É sobre esse desentendimento das ações e consequências que Scorsese trabalha durante o filme.
Certamente que o visual expressionista e até a semelhança da história retirada de O Gabinete do Doutor Caligari, bem como a ambientação perturbadora que remete diretamente a Shock Corridor, de Samuel Fuller, são referências obvias a um trabalho de competências altamente enriquecidas. Ilha do Medo é muito mais do que apenas um exercício de estilo. As referências existem menos para criar um pastiche de sua cinefilia e mais para enriquecer a sua história. São referências/reverências explícitas, mas acopladas de maneira a dar forma ao bolo, e não para deixá-lo abatumar. Scorsese traz para si essa coleção imensa de cinemas, mas constroi em cada quadro, com mão de obra própria, sequências autênticas, potencializando seu filme. São escolhas e posturas tomadas a partir de uma mente que sabe o que quer e quando o quer.
Ao colocar DiCaprio como protagonista, Scorsese traça um paralelo com Cabo do Medo. Ambos são exercícios de gênero – e muito bem feitos – e possuem o ator fetiche do diretor (Robert De Niro estrelou o anterior, DiCaprio é o cara da vez). Por serem homenagens aos filmes B, não são necessariamente filmes B. Aí reside a maior dificuldade da crítica norte-americana em classificar esses filmes, que não são nem filmes de gângster tampouco dramas históricos – temáticas preferidas de Scorsese. A ferramenta usada pelo cineasta é uma só, e além de bastante primária, todo espectador possui: o medo. DiCaprio passa muito bem essa sensação, com um desempenho convincente, mas vem de Ben Kingsley a mais perturbadora das performances – o mistério está todo no olhar. Grande ator.
É mesmo um filme de detalhes - das partes para o todo, diria Descartes. A exemplo da trilha sonora, uma coleção grandiosa que combina jazz e música erudita contemporânea – algumas notas, combinadas com a tensão das sequências mais ágeis, compõem um pastiche muito bem-vindo. A tensão só aumenta. A música foi o fio condutor do filme, disse Scorsese, ainda acrescentando que mudou cenas inteiras por causa dela. Faz total sentido e, principalmente, funciona. A trilha cresce, a tensão do espectador vai junto. Quando o final se aproxima e não tem mais para onde correr, as coisas mudam sonoramente. É um exercício de suspense dos grandes. O ambiente de loucura que se instala é proveniente de um Samuel Fuller (Paixões que Alucinam), e isso deixa qualquer espectador em estado de alerta. São dados que trabalham a favor do filme, pois representam um olhar autêntico sobre a própria História do Cinema.
Ilha do Medo (Shutter Island, EUA, 2010)
Direção de Martin Scorsese
Roteiro de Laeta Kalogridis
Com Leonardo DiCaprio, Ben Kingsley, Mark Ruffalo, Michelle Williams
Scorsese faz de tudo para problematizar o protagonista. Ao longo dos primeiros planos, veremos que Daniels é um homem perturbado. Seja pela perda sua mulher, seja pela sua participação na Segunda Guerra Mundial. Ao chegarem à Shutter Island, Daniels e Chuck deparam-se com tipos interessantes – tanto de policiais quanto de presos. A ideia é justamente essa, brincar com as ambiguidades. Percebe-se que muitas coisas estão fora do lugar, resta a Daniels montar o quebra-cabeça. Daniels vai para a ilha investigar um caso de uma paciente que desapareceu, mas pessoalmente luta para descobrir quem foi o homem que incendiou o apartamento de sua mulher. Quanto mais ele fuça, menos as coisas se encaixam. É sobre esse desentendimento das ações e consequências que Scorsese trabalha durante o filme.
Certamente que o visual expressionista e até a semelhança da história retirada de O Gabinete do Doutor Caligari, bem como a ambientação perturbadora que remete diretamente a Shock Corridor, de Samuel Fuller, são referências obvias a um trabalho de competências altamente enriquecidas. Ilha do Medo é muito mais do que apenas um exercício de estilo. As referências existem menos para criar um pastiche de sua cinefilia e mais para enriquecer a sua história. São referências/reverências explícitas, mas acopladas de maneira a dar forma ao bolo, e não para deixá-lo abatumar. Scorsese traz para si essa coleção imensa de cinemas, mas constroi em cada quadro, com mão de obra própria, sequências autênticas, potencializando seu filme. São escolhas e posturas tomadas a partir de uma mente que sabe o que quer e quando o quer.
Ao colocar DiCaprio como protagonista, Scorsese traça um paralelo com Cabo do Medo. Ambos são exercícios de gênero – e muito bem feitos – e possuem o ator fetiche do diretor (Robert De Niro estrelou o anterior, DiCaprio é o cara da vez). Por serem homenagens aos filmes B, não são necessariamente filmes B. Aí reside a maior dificuldade da crítica norte-americana em classificar esses filmes, que não são nem filmes de gângster tampouco dramas históricos – temáticas preferidas de Scorsese. A ferramenta usada pelo cineasta é uma só, e além de bastante primária, todo espectador possui: o medo. DiCaprio passa muito bem essa sensação, com um desempenho convincente, mas vem de Ben Kingsley a mais perturbadora das performances – o mistério está todo no olhar. Grande ator.
É mesmo um filme de detalhes - das partes para o todo, diria Descartes. A exemplo da trilha sonora, uma coleção grandiosa que combina jazz e música erudita contemporânea – algumas notas, combinadas com a tensão das sequências mais ágeis, compõem um pastiche muito bem-vindo. A tensão só aumenta. A música foi o fio condutor do filme, disse Scorsese, ainda acrescentando que mudou cenas inteiras por causa dela. Faz total sentido e, principalmente, funciona. A trilha cresce, a tensão do espectador vai junto. Quando o final se aproxima e não tem mais para onde correr, as coisas mudam sonoramente. É um exercício de suspense dos grandes. O ambiente de loucura que se instala é proveniente de um Samuel Fuller (Paixões que Alucinam), e isso deixa qualquer espectador em estado de alerta. São dados que trabalham a favor do filme, pois representam um olhar autêntico sobre a própria História do Cinema.
Ilha do Medo (Shutter Island, EUA, 2010)
Direção de Martin Scorsese
Roteiro de Laeta Kalogridis
Com Leonardo DiCaprio, Ben Kingsley, Mark Ruffalo, Michelle Williams


7 comentários:
Ainda não vi, mas espero apenas pelo DVD! Scorsese é um dos meus realizadores favoritos.
Cumps.
Roberto Simões
» CINEROAD - A Estrada do Cinema «
Eu assisti a este filme. Gostei da parte técnica, da direção do Scorsese, da atuação do DiCaprio. Mas, o roteiro previsível acabou com o filme pra mim.
Ótima análise deste ótimo filme. A trilha sonora realmente tem grande importância neste trabalho do Scorsese.
Bacana as referências que você percebeu. Eu não tinha feito essas relações!
- adicionei teu blog nos links!
abs.
Gostei do clima que o filme passa, de constante dúvida, medo e aquele jeitão quase noir.
Apesar de ter sacado já na metade o que acontecia na real, gostei muito.
Leo DiCaprio prova que em capacidade de sobra. O elenco todo é muito bom!
Salve, Pedro,
Obrigado pela passagem no Quadrado.
Com relação ao filme, de fato é abundante de técnica e referências, mas perde em termos expressivos, na sua relação violência e civilização, em relação a anteriores de Scorsese. Além disso, algumas cenas ficaram carregadas demais, beirando o kitsch.
Um abraço,
Bruno.
Ainda não teve quem me convencesse que o roteiro é previsível, e pelo que pude entender, você também não compartilha dessa ideia. O que há em Ilha do Medo é um diretor que tem em suas mãos os espectadores. É verdade que a todo momento ele está dando sinais da "verdadeira história", mas são acontecimentos isolados que só conseguimos concatenar após o desfecho. Scorsese consegue uma excelente combinação de forma e conteúdo, trabalho de gênio.
Abraço!
'Ilha do Medo' é uma verdadeira aula de como fazer cinema, lecionada pelo mestre Scorsese!
http://cinema-em-dvd.blogspot.com/
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