30/04/2010

Tudo Pode Dar Certo



"Deixe-me explicar, certo? Não sou um cara simpático. Carisma nunca foi uma prioridade pra mim. E, saibam todos, esse não é o feel good movie do ano. Então, se você é um daqueles idiotas que precisa se sentir bem, vá fazer uma massagem nos pés”.

O primeiro plano de Tudo Poder Dar Certo já nos traz a um clichê. A câmera se movimenta de tal forma a enquadrar um grupo de amigos conversando num bar qualquer de uma Nova York ensolarada – como em outros tantos filmes de Woody Allen lá filmados, sendo Melinda e Melinda o exemplo mais recente. Um clichê da barbárie, afinal. Mas são de clichês de sua própria obra que são construídos seus melhores filmes, como este Tudo Pode Dar Certo que, mesmo sendo sobre as mesmas neuroses de sempre, nos parece mais uma visão entorpecente do mundo e do estado de certas coisas (do próprio ser humano e das mudanças que o tempo e as experiências vividas nos trazem) através do olhar de um verdadeiro argumentista. Este é o epicentro onde Allen desfila sua capacidade de envolver e surpreender o espectador a cada filme com uma persona já instaurada na cultura cinematográfica há décadas – com o início de suas aparições como judeu-neurótico-hipocondríaco no fim dos anos 60.

Tudo Pode Dar Certo também representa o mais íntimo diálogo que Allen realiza com seu alter-ego através de outro ator – desta vez Larry David (criador de Seinfeld), em trabalho inspirado – desde Celebridades (na oportunidade, Kenneth Branagah fez o repórter Lee Simon). David vive Boris Yellnikoff, um cientista que se acha gênio, e é claro, rabugento, hipocondríaco, ateu. Boris é também anti-social, sua vida fora do trabalho não é mais que uma conversa de bar com dois ou três amigos. Essa é sua vida, motivo de orgulho para Boris, que abomina grande parte das ideias e dos ideais da contemporaneidade. Um dia Boris conhece Melodie (Evan Rachel Wood), uma garota interiorana que veio para Nova York em busca de um futuro melhor. Boris acaba acolhendo a menina em seu apartamento, indo contra todos seus princípios de convivência – pois, segundo ele, ela representa a escória perto de sua genialidade.

Enquanto Boris se envolve com Melodie, surge a mãe dela, sua sogra – que ganha os traços de Patrícia Clarkson. E essa participação da personagem de Clarkson torna-se importante para a fluência da história (não confunda com fluência narrativa), pois representa a mudança radical de um ser humano diante de algumas escolhas feitas durante a vida. Opção que, inteligentemente, Allen toma, pois ao centrar na personagem de Clarkson essa mudança, Allen livra-se de um cacoete irritante que muitos diretores parecem ter adotado. Ou seja, ao invés de polarizar uma lição de moral, de aprendizado, da velha história dos jovens que aprendem com os mais velhos e vice e versa, o diretor não transfigura Boris, ao contrário disso, este continua sendo um velho rabugento e pessimista. Grandes filmes são feitos de sábias escolhas - mesmo que pequenas – e reconhecemos um bom filme por estes detalhes.

A relação Boris/Melodie é conduzida de tal forma pelo roteiro (e transformada pelos atores) que fica difícil conter o riso em grande parte das cenas onde Rachel Wood e David contracenam. Os diálogos, afinados como nunca, pois não destoam um segundo sequer do discurso do filme, encantam. É por isso que falar sobre piadas em um filme de Woody Allen acaba sendo um completo pleonasmo. Porque seus filmes são tão ricos em sutilezas, que estão lá explícitas, impregnadas por uma elegância delicada, mas ao mesmo tempo violenta em sua composição crítica, que compõem cenas e sequências inteiras de extremo riso e, instantaneamente, de grande poder reflexivo. Nada do que é posto na tela é vago. Os desdobramentos da trama, com a entrada de novos personagens, é completamente justificável, e as soluções para os problemas criados pelos personagens não são menos do que criativas.

É um filme sobre as poucas certezas que Allen tem da vida, de sua própria existência neste nosso mundão. A questão do relacionamento entre Boris e Melody (Boris teria idade suficiente para ser avô da menina) pode ser vista como extensão do indivíduo (Allen deixou Mia Farrow para casar-se com a filha adotiva da atriz, Soon-Yi Previn, décadas mais jovem).  É também um filme que evidencia a maturidade artística atingida há anos pelo autor, pois revela não somente a consciência do autor em relação ao mundo lá fora, mas deixa claro que é possível, através de pedaços da realidade, extrair argumentos para dentro do campo ficcional, esquadrinhando na tela uma história tão agradável quanto irreverente. No fim das contas, o título original (pode ser algo como “tanto faz”) sintetiza a visão do autor, como aquela bola de tênis que paira na rede e não se sabe, por alguns instantes, para que lado irá cair, em Match Point. Aquela imagem está impregnada pela ambigüidade que norteia Tudo Pode Dar Certo – as coisas estão suspensas no ar, pendendo entre a sorte e o destino. Ao colocar as coisas dessa forma, a despeito da história/trama, que é simples, Woody Allen corre o risco de deixar seu filme maniqueísta. Mas ele sabe que esse é o risco da simplicidade, ser visto por um olho só.


Whatever Works (EUA, 2009)
Direção de Woody Allen
Roteiro de Woody Allen
Com Larry David, Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson, John Gallagher Jr., Ed Begley Jr.

8 comentários:

Miriam disse...

Fui assistir Alice no País das Maravilhas este final de semana. Gostei muito, mas "Tudo pode dar certo", não estou muito curiosa para ver. Woody Alen não faz o meu gênero. Não sei o que eu tenho contra tudo o que ele faz. Sempre leio críticas ótimas e fico pensando que o problema é comigo. Talvez precise ter outros olhares para o trabalho dele. Bjs.

pseudo-autor disse...

Eu sinto (pelo que vi no trailer e li em críticas sobre o filme) que não vou curtir muito esse novo do Allen. Estou no aguardo mesmo é desse mais recente dele, com o Anthony Hopkins e o Antonio Banderas. Parece mais o meu estilo. Sem contar que eu não suporto o Larry David (acho-o extremamente antipático).

Cultura? O lugar é aqui:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Kamila disse...

Não entendo por quê os filmes do Woody Allen demoram tanto pra serem lançados no Brasil. De qualquer forma, minha maior curiosidade em relação a este filme é conferir a elogiada performance da Evan Rachel Wood.

Wally disse...

Ótima crítica. Realmente me deixou (muito) mais seguro diante do filme - com o qual eu andava com o pé atrás.

bruno knott disse...

A transformação dos personagens é um dos pontos positivos do filme, além do próprio personagem Boris, que garante boas reflexões sobre o mundo atual e também algumas risadas devido ao seu mal-humor.

O problema é que não conseguis conexão alguma com o personagem, chega um momento que o tom dele fica agressivo e passamos a ficar entediados com seus diálogos. Gosto do Larry David, principalmente por ser criador de Seinfeld, mas Woody Deveria ter sido o protagonista aqui.

abs!

Rafhael Vaz disse...

Ótimo filme!! Finalmente uma resenha positiva, só vinha lendo críticas sobre este filme e ficava pensando se só eu havia gostado.

Tem razão qdo fala que é inspirado em seus outros sucessos, mas, fiquei sabendo que este filme foi escrito nos anos 80 (se não me engano), porém só foi gravado agora, o que justifica os moldes deste com sua filmografia mais antiga, fazendo parecer clichê.
Ótima resenha!!!

Abraços!!!

Matheus Pannebecker disse...

Olha, eu gostei do filme... Mas, sinceramente, é Woody Allen se repetindo. Não traz nada que nós já não tenhamos visto na filmografia dele e ainda repete aquela velha fórmula do velhinho engraçadinho e que vive reclamando. Ainda assim, é um bom filme. Mas, ao meu ver, bem longe de ser cinco estrelas.

Vulgo Dudu disse...

Tô com o filme em casa, mas tive que parar de assisti-lo com 15 minutos de projeção, pq minha mulher pegou no sono e quer vê-lo também. Porém, os 15 minutos bastaram apra me ganhar. Doido pra ver tudo!

Abs!