Grandes paisagens contrapõe a pequenez do homem neste bom filme de Bertolucci
Sem cerimônia, O Céu Que Nos Protege nos apresenta aos seus personagens. Bernardo Bertolucci introduz Kit e Port no filme como metáfora para seu estudo sobre o existencialismo do ser humano. O deserto também faz parte desse universo metafórico que rasura um sentimento em candura nessa falta de tesão pela vida que o diretor nos quer contar. Adaptado do livro de Paul Bowles, o filme trabalha com os opostos da imagem – usando contrastes visuais. Os cenários são suntuosos, graças às vastas imagens de Vittorio Storaro e têm funções importantes dentro do desenvolvimento dos conflitos dramático-narrativos no filme. Sim, o espectador agradece Storaro, pelo prazer de admirar imagens tão belas que fazem lembrar os cenários dantescos de Lawrence da Arábia, obra de arte imortal de David Lean.
O filme se passa logo após o fim da Segunda Guerra, quando Kit e Port (Debra Winger e John Malkovich, respectivamente) partem para a África, saídos da agitação da Nova York do pós-guerra. A ideia é de viajantes, andarilhos, pois não se planejou data para o regresso à megalópole. As passagens são somente de ida. O objetivo é provocar a reflexão, reencontrar o amor há tempos perdido na imensidão da rotina, retirar suas vidas do marasmo total, do vazio da alma. George Tunner, rasurado em carne e osso no filme com as feições do ator Campbell Scott, é um amigo do casal que os acompanha nesta aventura de redescobrimento e passará a ser um dos alicerces indiretos dessa fase de Kit e Port.
Esse filme de Bertolucci mostra Kit e Port como dois poços sem água. Não existe qualquer alegria nestas vidas e o amor acabou se transformando no tédio, a ponto de tornar suas vidas um intenso conflito de ideias e vontades. O retrato é de um casal burguês norte-americano (e aqui o diretor manifesta sua crítica político-social) e o registro dos personagens é levado de maneira propositalmente maniqueísta. Para tanto, Bertolucci trabalha com opostos na imagem. As grandes paisagens – e aqui a fotografia nos presenteia com belas tomadas panorâmicas –, filtradas pelas câmeras do fotógrafo Vittorio Storaro (colaborador de Coppola em Apocalypse Now e do próprio Bertolucci em O Último Imperador), contrastam com o vazio interior do casal. São os paradoxos visuais do casal e dos cenários que Bertolucci retirou do livro de Paul Bowles e neles inseriu sua poesia imagética.
O texto que Bertolucci assinou com Mark Peploe utiliza estes paradoxos como auxílios de composição de personagens, estrutura e enredo. O roteiro não permite antecipação do desfecho, haja vista que o enlace das estruturas básicas do filme está muito bem distribuído. Apesar de a narrativa estar classicamente dividida em três atos (primeiro são apresentados os personagens, depois os conflitos, para então a solução), o filme possui algumas tiradas inteligentes, como as ironias dramáticas que compõem o personagem de John Malkovich. Em tempo, Malkovich mostra a virtude habitual ao compor um personagem que, assim como manda a escrita, é uma caricatura de si mesmo, afundado na solidão do seu próprio vazio interior. A emoção pulsante vem de cenas a princípio menos importantes, mas gradativamente ganham genuinidade, com pequenos gestos e olhares. É mesmo uma atuação inspirada.
Há algumas perdições no filme, como a cena em que Port vê que está sendo roubado e, ao recuperar sua carteira, faz questão de mostrá-la ao bandido. É interessante lembrar-se do vazio interior dos personagens porque é justamente de lá que vem toda a síntese das interpretações – tanto de Malkovich quanto de Winger, esta também abertamente confortável como Kit. É menos um filme de performances exageradas que buscam centralizar a atenção para si e mais da leveza destes paradoxos visuais entre os grandes cenários e a pequenez dos personagens que neles habitam.
(The Sheltering Sky, EUA, 1990)
Direção de Bernardo Bertolucci
Roteiro de Bernardo Bertolucci e Mark Peploe
Com John Malkovich, Debra Winger, Campbell Scott, Timothy Spall


8 comentários:
cara, faz um tempão que eu vi esse, mas pelo que eu me lembro, concordo com vc. é bom, mas o Bertolucci já fez melhor..
tô nessa também... não sou muito fã desse filme, mas gosto do bertolucci
Confesso que não conhecia esta obra antes de ler seu texto. Certamente fiquei curioso, até por ser fã do cinema de Bertolucci.
Cara, o filme é bonito visualmente, mas não curto muito ele não. Meio frio, sei lá.
Abs!
Ah, então você leu Metamorfose.
è um momólogo difícil de ler. Parabéns, Pedro.Quem lê Kafka e gosta; pertence há um patamar de intelectuais acima da média.
Bjks.
Soa um pouquinho derivativo de TANGO, tematicamente, obra-prima do diretor, não que isso seja necessariamente ruim.
Ainda nao conferi este, mas eu gostei muito do "Os sonhadores" dele.
E John Malkovich me cativa, sempre.
Belo texto!
abs
O Bertolucci é um mestre das imagens. Seus filmes são belos!
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