16/12/2009

Z


Talvez seja parte de um grande pleonasmo afirmar que o currículo cinematográfico de Constantin Costa-Gavras se apoia sob as mazelas dos poderes públicos institucionalizados e partidários. Os filmes deste diretor realmente são movidos pela política, como Tropa de Choque – primeiro filme de cunho político mais assumido do diretor. Mas seria com seu próximo filme, justamente este Z, que Gavras se posicionaria definitivamente como um dos maiores críticos dos regimes políticos do mundo – depois ainda realizaria alguns filmes sobre ditaduras, como Missing (talvez o melhor deles), sobre o governo de Pinochet no Chile.

Os créditos iniciais já assumem um engajamento muito peculiar em filmes do diretor grego radicado na França, pois dizem que qualquer semelhança com pessoas reais não é mera coincidência e sim intencional. A montagem e alternância entre o discurso politizado, o suspense hitchcockiano e denúncia sobre leviandade do poder elevam seu poderio fílmico. As motivações dos personagens nunca são postas acima das motivações do filme, e isso configura num respeito mútuo entre Gavras e seu elenco, que, via de regra, está elegantemente bem posto dentro de cada plano – e seus diálogos nunca são rasos e/ou gratuitos.

O filme se inicia já em clima de total tensão – e é essa a real proposta, da imersão total. Basicamente, a trama gira em torno do assassinato de um político de esquerda que fora cometido com ares de acidente. A partir daí, as lentes e os ideais de Costa-Gavras investigam o caso, através de um inspetor é retratado o caso Lambrakis, escândalo na política grega nos anos 60 onde a morte de um político esquerdista foi encoberta pela direita, em uma rede de corrupção que envolveu a polícia e o exército militar. Nessa atmosfera nada amigável, o diretor constroi um filme espantosamente ambíguo, mas sempre mantendo seus argumentos sob a guarda da antineutralidade.

Também é mérito do diretor não deixar seu filme tomar partido por nenhuma manifestação massiva de revoluções, assim, seu filme escapou de um registro comunista stalinóide. São os assuntos políticos que alimentam a vertente criativa deste diretor, bem como seu equilíbrio e elegância na composição dos planos, que fazem de Z um filme quase mitológico. Aqui, o diretor faz a denúncia da anti-opressão e da manipulação dos poderes institucionalizados. O período e as circunstâncias retratadas em Z demonstram que aquela é uma época perdida em suas caricaturas. Ainda era possível separar os bons dos maus políticos.

A música de Mikis Theodoratis só vem a reforçar esta virtude classicista, além de provocar ainda mais tensão quando posta sob cenas de eletricidade textual de maior voltagem. A violência nas ruas, as perseguições de carro e as cenas internas são quase sempre preenchidas pelos arranjos pesados do compositor. Enquanto isso, a fotografia de Raoul Coutard aposta em ambientes escuros, quase sempre iluminando com ênfase o rosto do personagem em foco, como que lhe destacando. A exposição dos cenários internos também é muito bem tratada, pois o equilíbrio da luz - e aí temos as sombras, as cores estouradas - é elegante. O visual é quase monocromático, desvaloriza as cores quentes e sobrepõe a escuridão – como a psique de seus personagens.

Gavras não faz concessões à estética consolidada pela indústria cultural, já que não é objetivo de Z levar sua mensagem a um grande público. A rigor, há uma combinação de duas coisas no cinema de Costa-Gavras, ele as mistura e cria um todo austero, potente e provocante. O cineasta levanta questões políticas e as transforma em um thriller de ação. Mas Z é um filme maniqueísta, onde os homens bons são sempre bons e os maus, sempre maus. Não deixa de ser o cinema de arte francês, mas também tem um ar comercial. Este é o cinema polarizado de Costa-Gavras. Esse é o estilo Costa-Gavras de filmar. Com a política pela música e pelo cinema.

(Z, França, 1967)
Diretor: Costa-Gavras
Com Yves Montand, Irene Papas, Jean-Louis Trintignant, Jacques Perrin, Charles Denner

6 comentários:

Vulgo Dudu disse...

Filmaço! Costa-Gavras é o cara que transformava discussões de cunho político em dramas cinematográficos. Acho formidável a maneira com que dramatiza questões humanistas. O meu preferido dele é, sem dúvida alguma, "Desaparecido". Sou muito fã do cara.

Quem quiser ver este filme, se liga: Z costuma ser vendido a preço de banana nas Americanas.

Abs!

Museu do Cinema disse...

Não vi esse filme, um dos pecados cinéfilos que tenho, e que sempre buscamos nos redimir.

É pleonasmo sim, mas é sempre bom lembrar o cunho político das obras de Costa-Gravas!

Kamila disse...

Não vi esse filme, um dos pecados cinéfilos que tenho, e que sempre buscamos nos redimir. (2)

Bruno Soares disse...

(3) aqui.

mas i os das críticas rápidas. BESOURO é muito tosquinho memso.

Vinícius P. disse...

Mais um que ainda não conferiu esse clássico...

Wally disse...

Olha só, um clássico belo que tem disponível onde trabalho! Vou fazer o favor de vê-lo em breve, então.