12/12/2009

Ladrão de Casaca

"Francamente, querida, eu não dou a mínima"



Na obra de Alfred Hitchcock existem diversas marcas que fizeram deste cineasta inglês um dos maiores do cinema. A valorização da imagem, da sombra e do espaço – técnicas aprendidas com outros mestres, como Murnau e Fritz Lang, do chamado “cinema puro”. Para Hitchcock, o conteúdo não era o mais importante se a linguagem produzisse algum efeito sobre o espectador. Dizia Hitch que a emoção da cena de um assassinato não existe, o que cria o suspense no espectador é a expectativa. E a expectativa é o ingrediente básico de Ladrão de Casaca, derradeiro filme com umas mais talentosas e belas mulheres da história da Arte, Grace Kelly.

Nos planos de Ladrão de Casaca temos a elegância habitual do diretor. Os planos gerais que se transformam em planos fechados com o uso do Dolly (câmera que se aproxima do objeto, diferente do zoom, pois é a câmera quem faz o movimento fisicamente), a presença da mulher, o artesanato dos cenários. Tudo faz parte do projeto de cinema de Hitchcock. No entanto, desta vez parece que há uma preocupação com a estética (visual) que parece apontar para o vazio. As paisagens panorâmicas, ou melhor, o excesso delas, parecem existir apenas para dar ênfase ao charme da Riviera, sendo que esse perfume francês já nos é apresentado sob a ótica de outros planos (como o dos fogos de artifício, por exemplo). Há, aqui, uma redundância. E isto não é habitual na obra hitchcockiana.

Cary Grant vive John Robie, também conhecido como 'Gato'. Robie é ex-ladrão de jóias, se é que isso existe, e está na Riviera Francesa quando tem início uma onda de roubos de jóias da alta nata francesa. O problema é que o ladrão utiliza-se do mesmo estilo dos assaltos de Robie. A polícia, convencida de que Robie é o tal ladrão, inicia uma busca. Mas ele escapa da polícia numa daquelas fugas fantásticas para tentar encontrar o impostor antes que vá parar atrás das grades por crimes que ele não cometeu. No meio de tudo, claro, há uma bela mulher, Frances, que ganha nos lindos traços de Grace Kelly uma elegância clássica bastante peculiar em filmes deste diretor.

A rigor, na beleza de Grace Kelly e na elegância de Cary Grant, Hitchcock tem aqui seu filme mais romântico. Não tão somente pelo envolvimento que os personagens destes dois astros assumem durante o filme, mas pela maneira com que o diretor conduz essa relação. Muito desse romantismo vem do roteiro de John Michael Hayes, que via diálogos rápidos e inteligentes, além do humor negro habitual em filmes de Hitchcock, cria uma atmosfera perfeitamente saudável para os personagens, valorizando ainda mais os tour de force. A agilidade dos diálogos, aliás, é o cerne do cinema de Hitchcock, que dizia não gostar de arrastar os diálogos demasiadamente em uma cena, pois isso era coisa de “filme de gente falando”, coisa que ele abominava.

Em virtude de tudo, Ladrão de Casaca é um legítimo representante do cinema de Hitchcock e suas habituais marcas. Aqui, mais do que nunca, temos o humor negro e as insinuações sexuais (“Tenho a sensação de que esta noite você vai ver uma das vistas mais fascinantes da Riviera... Eu estava falando sobre os fogos de artifício!”) inseridas na trama de maneira inteligente, casando perfeitamente com a ambientação e o charme da Riviera Francesa. E neste de thriller romântico de Hitchcock, sobra espaço para as inovações, como as tomadas aéreas – pouco utilizadas até então, mas que começaram a aparecer mais a partir daqui. O cineasta instala o espectador no território confortável da perseguição, mas não deixa de lado o romance entre seus principais personagens. Apesar disso, Hitch investe pouco no suspense, deixando o mistério que envolve a trama ser o ingrediente mais importante. É sim um filme psicológico (nosso, não dos personagens, pois Hitchcock nunca demonstrou preocupação com a psique destes), que se faz dentro de nossas imaginações, como um quebra-cabeça. No entanto, descobrir quem é o ladrão de casaca antes da revelação final não é muito complicado – e aqui temos uma fraqueza do filme -, pois Hitch não conseguiu escapar da previsibilidade.

Na sofisticação da decupagem dos figurinos de Edith Head temos um trabalho grandioso, onde cada peça veste Grace Kelly com exatidão e significação. No começo, o estardalhaço do preto e branco, depois as cores quentes, para, enfim, surgir a leveza do branco. E já que estamos na Riviera Francesa, porque não ser este o branco da liberdade.

(To Catch a Thief, EUA, 1955)
Direção de Alfred Hitchcock
Roteiro de John Michael Hayes
Com Grace Kelly, Cary Grant, Jessie Royce Landis, John Williams, Charles Vanel

9 comentários:

Jeniss Walker disse...

espero poder assistir esse quando passar em um canal a la TCM, PEdro, ja que em DVD, não o encontro na cidade onde moro. abraço :)

Vulgo Dudu disse...

Eu assino embaixo da sua resenha. E um filme rigorosamente bem executado, com a assinatura do Hitchcock.

Abs!

Weiner disse...

Eu sou louco pela Edição Especial desse filme, mas não exatamente por ser umaobra-prima, e sim pela presença radiante de Grace Kelly e Cary Grant, dois dos atores mais charmosos de Hollywood.
Que bom ver você de volta à ativa! Ler seus textos já me fazia falta!

Kamila disse...

O melhor desse filme, fora a questão de ser uma obra do Hitchcock, é o fato de que as paisagens nas quais o filme se passa são LINDAS! Adoro a parceria também que se estabelece entre os personagens de Cary Grant e Grace Kelly. Um par de pura classe!!!

Miriam disse...

Adorei sua visita! Li sua resenha sobre o filme "Ladrão de Casaca". Assisti-o várias vezes, pois adoro Grace Kelly, de Cary Grant e Hitchcock, mas acho que não é um dos seus melhores filmes.
adoro mesmo: Frenesi ele é impressionante.
Bjs.

Wally disse...

Bela dica (e excelente crítica). Está na lista de urgências.

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