14/12/2009

Críticas Rápidas

Casamento Silencioso, de Horatiu Malaele (Romênia, 2008)

O diretor Horatiu Malaele nos convida para esta festa de casamento onde assistimos a tudo como se estivéssemos lá, com planos bem postos e uma grande presença de elenco, nos sentimos envolvidos com esta história. No final, os sentimentos são os mais diversos. Na há falso-moralismo. Não há preocupação em retratar o período histórico. A proposta de Casamento Silencioso provém de outra ordem: um registro sobre o amor e a família. Existe, por trás deste bonito filme romeno, um quê de expansão dos sentimentos, e esta mensagem nada metaforizada, totalmente explícita, portanto, é o que nos faz alegrar ao término da sessão. Nota: 8.0


Quatro Noites Com Anna, de Jerzy Skolimowski (Polônia, 2008)

A estética do silêncio e a exploração de uma narrativa carregada de voyeurismo é a grande virtude deste filme do polonês Jerzy Skolimowski – após 15 anos longe das câmeras. A detalhada edição sonora, que trabalha com ruídos e qualquer detalhe que lhe possa agregar amplificação, é outro mérito de Quatro Noites Com Anna, filme povoado pelo silêncio da palavra. A inventividade não é o forte deste filme (nem seu objetivo, diga-se), mas a construção de uma história sob aspectos edipianos e que trabalha na construção de um personagem perturbado, é o que faz o espectador colaborar curioso, sem assumir, no entanto, a culpa do olhar do protagonista. Nota: 7.0


Garota Infernal, de Karyn Kusama (EUA, 2009)

A expectativa pelo novo trabalho “da roteirista de Juno”, Diablo Cody, acabou por causar a retroalienação de Garota Infernal, pois gerou frustração e decepção. O texto não é ruim, as referências pop estão bem postas e manipulação dos clichês continua sendo o forte de Cody, mas a roteirista viu novamente seu argumento ser deglutido por uma direção precária. Karyn Kusama, a mesma de Aeon Flux, traduz o texto em imagens e planos infantis, tirando do filme qualquer proposta-alvo. Nem sustos, nem risos. Apenas a exploração da sexualidade de Megan Fox, a bola da vez neste quesito em Hollywood. O pior é que até nisso há frustração, pois Kusama sugere muito, mas mostra muito pouco do que poderia sustentar seu filme. Nota: 4.0


Garapa, de José Padilha (Brasil, 2008)

Ao abraçar a fome através de um registro documental, José Padilha nos convida a viver com três famílias que sobrevivem no limite máximo da miséria. Os personagens da vida real de Garapa tomam água com açúcar – daí o título – para enganar a fome. É um soco no estômago. Crianças doentes, pais alcoólatras, mães desempregadas e alienadas. Falta tudo, portanto seria redundante aqui fazer citações. O filme não tem trilha, o som é todo direto das cenas, praticamente sem efeitos e edições. A fotografia, em preto e branco, no entanto, reitera desnecessariamente essa estetização, pois a ausência das cores, neste caso específico, chama mais atenção para a “estética da fome”. O foco do filme, a princípio, é outro: mostrar a qualidade de vida de mais de 30 milhões de pessoas no mundo. Nota: 8.0


Tango, de Carlos Saura (Argentina/Espanha, 1998)

O tango argentino é a fonte de inspiração de Carlos Saura (do mais recente Fados). Não é seu melhor filme, mas não há dúvidas de que o diretor espanhol é dono de uma categoria muito peculiar no processo de filmagem. Seus planos e movimentos de câmera estão sempre em perfeita harmonia com sua narrativa. Em Tango, a paixão do diretor pela música está em cada detalhe, não nos personagens, estes apenas fazem parte de um todo para representar um clichê – no bom sentido, se possível. A fotografia do filme é belíssima, com vasta exploração do contraluz. Este é o cinema de Saura. A música pelo cinema e o cinema pela música. O final tem o carimbo certeiro de um cineasta conhecedor de sua arte. De suas artes, para melhor definir. Nota: 7.5


Miranda, de Tinto Brass (Itália, 1985)

Antes de analisar um filme precisamos nos relacionar com suas intenções. No caso do cinema de Tinto Brass, o erotismo. E pode ser graças a seu estilo, que o cinema erótico ainda respira. Não existe vulgaridade na visão de Tinto Brass, o que há é a análise e exploração do erotismo como um conjunto de expressões. Brass busca em Eros, Deus grego do amor, sua inspiração. Miranda, apesar de manter as tradições do seu cinema, passa longe da experiência de um Calígula ou Todas as Mulheres Fazem. Miranda, a personagem, enquanto espera pela volta do marido que está em guerra, relaciona-se com vários homens. Tudo isso para descobrir que o amor pode estar olhando para ela bem de perto há tempos. Nota: 6.0


Deixa Ela Entrar, de Tomas Alfredson (Suécia, 2008)

O desejo pela descoberta de dois adolescentes é o cerne de Deixa Ela Entrar. Ele é um freak que apanha da turminha do “mal” na escola. Ela uma vampira. Embora seja um filme de gênero, não é difícil perceber o enamoramento de seus personagens. E a maneira com que o diretor Tomas Alfredson conduz essa história de amor sanguinário é nunca menos que competente, a ponto da cena do beijo, que vem carregada de sangue, possuir a face do desejo. Os corpos de Eli e Oskar vivem numa polaridade intensa (e a proposta é justamente essa, da imersão completa e profunda) de desejo e destruição. É por isso que Deixa Ela Entrar é um panorama subversivo do cinema de gênero contemporâneo. Nota: 8.5


Besouro, de João Daniel Tikhomiroff (Brasil, 2009)

É no recôncavo baiano que nasceu Besouro, o maior capoeirista de todos os tempos. O filme de João Daniel Tikhomiroff busca inspirações no livro Feijoada no Paraíso, do escritor Marco Carvalho. A história é interessante, mas mal conduzida. A paixão de Besouro pelo seu povo ou por sua amada Dinorá? Qual vale mais? Daniel fica em cima do muro. No filme, O excesso de didatismo dos textos que aparecem na tela é culpa da fragilidade de suas imagens? Apesar disso, a construção da atmosfera onde a ação se passará é bem realizada, com coreografias de lutas (que são de Huen Chiu Ku, o mesmo de Kill Bill e o Tigre e o Dragão) e corridas velozes por sob as árvores. Nota: 4.0


5 comentários:

Gustavo disse...

Não conheço os dois primeiros, mas DEIXA ELA ENTRAR é um marco, um filme muito bem estudado pelos realizadores.

Fabio Rockenbach disse...

Garota Infernal está no meu TOP 10... dos piores do ano

Vinícius P. disse...

Desses só vi "Deixa Ela Entrar" e "Garota Infernal". O primeiro é ótimo mesmo, uma das fitas mais curiosas dentro do seu gênero. Já "Garota" é uma decepção, até porque parecia que tinha mais potencial do que aquilo.

Wally disse...

Não vi nenhum destes, lamentavelmente. Os que mais despertam minha curiosidade e que devo assistir em breve é "Deixa Ela Entrar" e "Garapa".

Kamila disse...

Dos filmes resenhados, eu só assisti "Garapa". E achei uma experiência extremamente agoniante. Fiquei mal e queria ajudar às famílias, mas é impossível. Muito me admira a frieza com que Padilha retratou a dura vida de quem vive com fome.