O plano de abertura de Abraços Partidos já dá as cartas logo de cara: este é um filme de Pedro Almodóvar. Nesta primeira sequência, vemos o capricho com que este cineasta filma o sexo. Esses e outros quesitos (além do idioma) tornam os filmes deste diretor facilmente identificáveis. O colorido dos cenários, as interpretações contidas dos atores e exageradas das atrizes também contribuem para marcar esse registro exclusivamente Almodóvar. Abraços Partidos possui essa verve artística, mas nunca abandona o seu conteúdo em detrimento de uma estilização. A busca é pelo entretenimento através da arte, nunca o oposto.
Existe, como é comum no cinema deste diretor, um apelo muito grande pelo design das cenas, e em Abraços Partidos esse desenho visual nos proporciona quadros tão belos quanto inusitados. Mas Almodóvar é um cineasta, um pintor das imagens. E essa arquitetura diegética que às vezes parece neogótica nos transporta para um mundo somente seu, onde o irreal facilmente nos parece crível e aceitável. Na captação das imagens, Almodóvar é imbatível. A beleza da mulher, o sexo, o colorido de seus filmes – aqui um contraponto dentro do filme, quando todos parecem tão sem vida, as cores iluminam suas almas. Almodóvar filma tudo com precisão cirúrgica, um verdadeiro regozijo para os sentidos. O vermelho que começa a delinear o corpo de Penélope Cruz (e carros, casas, quadros, móveis) é o da paixão deste diretor – ou como em outros filmes, o vermelho da pimenta (Volver) e do suco de tomate (Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos). Esse Almodóvar!
O vermelho com que pinta é corajoso, não mostra medo de borrar o quadro, versa sobre seus temas preferidos e homenageia o cinema. Penélope Cruz, travestida pelo elemento vermelho de Almodóvar, é por alguns momentos (e belos planos almodovarianos) Audrey Hepburn – e essa é apenas uma das gags referenciais do filme. Abraços Partidos tem também um filme dentro de si, por isso a máxima “um filme dentro de um filme”. A trama gira em torno de um cineasta que, após um grave acidente de carro, perde a visão e a mulher que ama. O diretor é Mateo Blanco (Lluis Homar), ou Harry Caine, como pseudônimo adotado após o acidente. A mulher é Lena (Penélope Cruz). O filme do qual Lena, que namora um magnata ciumento, é protagonista, chama-se Garotas e Malas (releitura de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos) – e é dentro do processo de execução deste filme que Almodóvar alfineta os grandes estúdios que abocanham as montagens dos filmes. Como todo bom cinéfilo, Almodóvar defende o cinema, e este é também um filme para e pelo cinema.
Essencialmente Abraços Partidos é um melodrama, mas conforme a narrativa se desenvolve demonstra que o humor está presente. Além disso, Almodóvar, em uma de suas referências, homenageia Hitchcock (os closes, os enquadramentos), na maneira com que posiciona os olhares de suas câmeras e, principalmente, em algumas cenas (como a da escadaria, por exemplo) onde injeta tensão. Em certo momento, Viagem à Itália, de Rossellini, surge na tela, em mais uma homenagem/referência. Mas este não é um filme de Gus Van Sant. Tudo faz sentido e encaixa-se harmonicamente dentro do filme. O vai e vem da narrativa, que é entrecortada pelos flashbacks (aliás, muito bem organizados pelo diretor) de Harry Caine são de uma fruição de causar espanto. A simplicidade da história, não fosse Almodóvar um exímio escritor de enamoramentos, poderia resultar em apenas mais um filme dessa geração cheeseburguer, mas estamos falando de um cineasta cuja verve artística ultrapassa a caretice contemporânea. É mesmo um filmaço.
Em seus pormenores, temos uma interpretação masculina vigorosa de Lluis Homar como Mateo Blanco/Harry Caine. Homar é um intelectual, um diretor de cinema trabalhador e que busca sempre a perfeição em seus filmes. A construção desse personagem em especial é o que encanta. A personalidade forte de Mateo antes do acidente que lhe tirou a visão logo o transforma em outra pessoa (não somente por causa de seu pseudônimo) pela doçura de sua fala e densidade com que vive os momentos de prazer (como escrever um roteiro), pois ele aprendeu com as dificuldades da vida que a culpa pelo seu olhar o levará ao nada. Penélope Cruz, que dá vida a Lena, não merece menos elogios. Sua persona no filme, em imagem e semelhança, aproxima-se do Olimpo das grandes performances do ano. É Penélope quem, travestida de Audrey Hepburn, nos proporciona um dos planos mais bonitos do filme (na verdade, no filme dentro do filme, quando sentada tomando café). É uma interpretação de expressões, onde a plasticidade do olhar é o melhor diálogo.
Assim como em toda filmografia de Almodóvar, Abraços Partidos é um filme pessoal, legitimado como “de autor”. Acompanhar o processo de desenvolvimento de una película pelas vistas de um cineasta com o vigor de Almodóvar é mesmo um prazer. Este cinema de sensações e imagens tão belas quanto complexas é o que alimenta nosso intelecto cinematográfico. Essa potência estético-narrativa – algo típico em se tratando de Almodóvar – é o oxigênio desse cinema de autor em questão. Subverter os gêneros não é tão importante (nem um objetivo) em Abraços Partidos, mas sim buscar algo bastante humano em situações até um pouco fantásticas.
(Los Abrazos Rotos, Espanha, 2009)
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Penélope Cruz, Lluís Homar, Blanca Portillo, José Luis Gómez, Tamar Novas, Rúben Ochandiano, Lola Dueñas


10 comentários:
E aí... estou voltando a escrever e participar das atividades blogueiras hehehe.
Olha... eu sempre vou com um pé atrás num filme de Amoldovar, pois confesso que não sou um grande fã como muitos são. Considero que ele fez filmes excelentes como Fale com Ela e Tudo Sobre Minha Mãe, mas também fez filmes péssimos na minha opinião como Má Educação (embora muitos gostem e eu não tenha nada contra lógico). Este Abraços Partidos não espero muito, como da última vez no chatissimo Volver hehehhe
abraços
Um filme que traz reflexos e deixa a afirmação final no ar: "Um filme precisa ser concluído ainda que às cegas". Isso sim é cinema. Algo que faz o espectador ativo, ainda que sentado em uma poltrona.
NOTA (0 a 5): 4
***
A tua opinião foi a melhor que li sobre esse filme!
abatement weekend sweet vlpo reviewers opposed pilots deswarte zgptpiel gathers affirmative
semelokertes marchimundui
Ainda bem que Amodóvar não é Gus Van Sant, Pedro.
Um dos filme do ano, certeza.
Ps: a Blanca Portillo tá bem melhor que a Penélope, não?
Tua crítica tá muito boa, mas ainda não vi o filme. Vou esperar pelo DVD.
Abs!
Que bom ler uma crítica que vai no mesmo caminho da minha. Gostaria de saber se você não sentiu uma pequena mudança de estilo na narração do longa, claro, e como você disse, vários elementos característicos do Almodóvar permanecem, mas você não acha que os excessos melodramáticos foram enxutos?
Abraço.
Para mim é um filme "menor" do Almodóvar, mas de qualquer forma mais um belo trabalho em sua carreira...
Pois é, Vinicius, no fim acabei não falando da Blanca. Mas você me ajudou.
Abraço a todos!
Thanks for sharing us informative entries.
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