Quando Charlie Kaufman estreou no cinema, no excelente ano de 1999 (cinematograficamente falando), por ocasião da estreia de Quero Ser John Malkovich, de Spike Jonze, no qual assinou o roteiro, ninguém poderia imaginar que Kaufman viria se tornar um dos mais criativos e inteligentes escritores do cinema contemporâneo. Alguns anos depois mais alguns outros trabalhos (Adaptação, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Confissões de Uma Mente Perigosa) tão interessantes quanto o primeiro colocaram o nome do roteirista no roll dos grandes autores do cinema. Com Sinédoque, Nova Yorque, o diretor parece unificar todo seu projeto autoral em sua segunda estreia no cinema, desta vez como diretor.

Como roteirista, Kaufman não precisa provar mais nada para ninguém. Através de suas escrituras anteriores, demonstrou ser dono de um estilo invertebrado, que parte do simulacro rumo ao poderio efetivo da narrativa hiperfantástica. Kaufman investiga a mente a humana, estuda as possibilidades de a arte dar conta da vida e da morte. O escopo de Sinédoque é um pouco de tudo que o agora diretor Charlie Kaufman já fez em seus trabalhos anteriores. Há uma exploração (e não repetição) das neuroses de seus últimos roteiros, mas Kaufman parte para a variação do tema, indo mais afundo em Sinédoque. Aqui o diretor criou uma estrutura diferente, construindo longas elipses pode explorar a trajetória de um homem que, assim como todos, torna-se vítima do tempo e de suas consequências. Sendo o personagem um homem perturbado pelo seu auto-conhecimento insuficiente, Kaufman invade a mente dele e do espectador.

Mas não é só isso. O diretor ainda levanta outras questões através de seu protagonista, o diretor teatral Caden Cotard, como, por exemplo, qual o papel da arte na vida? Para quê ela serve? E o homem, qual o papel dele nisso tudo? Curiosamente, algumas destas questões não são respondidas pelo diretor, que quer justamente bagunçar as ideias do espectador. Infelizmente, em alguns momentos fica realmente complicado de compreender o real significado de certos planos, que apesar dos diálogos fortificados e inteligentes, literalmente confundem o público, que muito vê, mas pouco entende. É um filme difícil não só pelo emaranhado de reviravoltas e a quantidade de personagens dentro de personagens, mas pela jogatina eclética de argumentos que ultrapassam os limites da criatividade do autor, robotizando a história e tornado-a parte de um conjunto de excentricidades.

Aliás, a história que Kaufman nos conta é a do dramaturgo Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman). Caden é casado com Adele (Catherine Keener), com que tem uma filha, Olive. Na primeira cena em que a família aparece disputando o mesmo plano, percebemos que aquilo que vemos não é uma relação saudável – e, também, notamos que Caden é um homem complicado. Alguns dias se passam e Adele vai para Berlin para uma exposição com a filha. Caden fica. Adele não volta mais. A partir daqui longas elipses temporais construirão a histórias e conduziram o espectador junto da mente confusa de Caden. A questão é: você está preparado para isso?

A análise da estrutura narrativa de Sinédoque, Nova Yorque é complexa, e tentar mapear a natureza linguística dos diálogos intertextuais desta produção audaciosa de Charlie Kaufman pode ser uma tarefa árdua – mas não intragável. A saída pode ser tentar embarcar na viagem do protagonista sem se preocupar com a coerência dos fatos e buscar por algum significado naquilo tudo. Em virtude de um roteiro inspirado, Kaufman estende seu argumento para além da imaginação de qualquer mortal senão o próprio autor. O centro gravitacional do filme (e da peça) de Kaufman é tentar estabelecer o vetor dessa influência da vida sobra a arte. Para tanto, o diretor engloba grandes transições temporais, com elipses de muitos anos se passando em um piscar de olhos. Provavelmente a ideia do Kaufman roteirista era filosofar justamente sobre o poder do tempo sobre nossas vidas e como ele pode modificar muitas coisas, mas o Kaufman diretor trata estas transições com pouco respeito a narrativa fílmica, pois na maiorias das elipses (e elas não são poucas) a trucagem é muito brusca e espectador não terá tempo para assimilar a mudança, afinal ainda estará atarefado tentando ligar o ato anterior.

Aliás, o grande responsável por conduzir as emoções e as ideias do público é Philip Seymour Hoffman, um dos melhores intérpretes de sua geração – e que ainda não errou no cinema. É de Hoffman a tarefa de tentar dar vida a Caden Cotard, humanizá-lo. E novamente o oscarizado ator não decepciona. Hoffman se entrega ao personagem até o fundo de sua alma, buscando em seu próprio ser a emoção genuína para emprestar ao personagem. Sim, Philip Seymour Hoffman é um artista.

Enquanto roteirista, Kaufman continua a desenvolver seu projeto de cinema. Com seu olhar arguto ainda consegue colocar o espectador para trabalhar com a massa cinzenta e, principalmente, com a razão do próprio eu interior. No entanto, enquanto tem seu nome escrito na cadeira de diretor carece das lições básicas deixadas por alguns dos grandes mestres da arte. Não fosse pelo criativo texto e pela avassaladora interpretação de Philip Seymour Hoffman, Sinédoque, Nova Yorque poderia ser apenas mais um no limbo cinematográfico. Mas não há como negar o talento do autor que emana de Kaufman.

(Synecdoche, EUA, 2008)
Direção de Charlie Kaufman
Roteiro de Charlie Kaufman
Com Philip Seymour Hoffman, Michelle Williams, Samantha Morton, Jennifer Jason Leigh, Catherine Keener, Emily Watson

15 comentários:

Anderson Siqueira disse...

Um filme complexo, que revira a cabeça do espectador, alfinetando-o, incomodando-o e, principalmente, frustando-o. Com um show de atuação de Philip Seymour Hoffman, o filme é uma bela homenagem ao teatro e a comparação com O SHOW DE TRUMAN e DOGVILLE é inevitável. A questão de dirigirmos as nossas vidas, onde cada um de nós é protagonista do nosso mundinho, cheio de tristezas, decepções, alegrias, angústias e morte. Um filme pesado, denso e que nos leva a reflexões profundas, desde o motivo da nossa existência a questões de como tratar o próximo. Um filme válido e consiso, apesar de metafórico e abstrato. O som é usado de forma genial, sem citar a maquiagem. Philip me pareceu velho tão natural. Um filme que posiciona-se de forma firme diante de uma sociedade egocêntrica, consumista e movida à instantâneidade, onde nada satisfaz as necessidades humanas.

Bruno Soares disse...

Eu vi recentemente e achei bonito, mas ainda falta cacoete de diretor ao Kaufman.

Miriam disse...

Não vi ainda, ando meio perdida ultimamente. Enlevada com o twitter. Tenho que dedicar pelo menos duas horas ao cinema. O twitter vicia. BJKS, carinhosas!

Tiago Ramos disse...

Incompreendido por muitos este é um dos melhores filmes do ano! É óbvio que Kaufman é melhor argumentista que realizador, mas trouxe-nos um filme muito poderoso e complexo, com interpretações soberbas!

Otavio Almeida disse...

Sabes que detonei o filme, né? Prefiro o Kaufmann roteirista. Como diretor, ele ainda tem a mão pesada!

Mas seu texto ficou muito bom!!

Abs!

Kamila disse...

Acho o Kaufman um cara estranho e ele transfere isso pro seus filmes. Tenho curiosidade de ver esta obra só pra conferir o que a mente dele aprontou dessa vez. E espero que eu goste do longa como você gostou.

Gustavo H.R. disse...

Não me soa como um filme fácil, mas sobretudo um filme recompensador e inteligente. Vou correr atrás do DVD, quando sair.

Vinícius P. disse...

Mesmo não sendo tão bom quanto seus trabalhos de roteiristas, pode-se dizer que o Kaufman alcançou um resultado extremamente satisfatório na direção desse longa.

•CleBeR! disse...

Ainda estou no aguardo deste nas locadoras!

Roberto F. A. Simões disse...

Ainda não vi... Mas Kaufman é Kaufman, tenho que ver

Cumps.
Roberto Simões
CINEROAD - A Estrada do Cinema

Wally disse...

Acho Kaufman o roteirista mais genial em Hollywood no momento. Malkovich e Bilho Eterno são obras-primas, e os outros dois não ficam muito para trás.

Comecei a ver Sinédoque nesta semana, mas eu estava muito cansado e, quando chegou nos 30 minutos, decidi que eu deveria deixar para depois (especialmente porque gosto de fazer anotações). Neste mês ainda confiro esta obra.

Anônimo disse...

Kauffman não estreiou em 99. Dá uma olhada melhor antes de escrever.

Cristiano Contreiras disse...

Ainda nçao conferi, preciso ver este. Depois, comento contigo melhor. Seu blog sempre interessante, Pedro! Abraço e aparece!

Pedro Henrique disse...

Anônimo, o primeiro roteiro escrito por ele feito para o cinema foi o de Quero Ser John Malkovich, em 1999. Antes ele escrevia para a tv apenas.

Aqui tem o link, http://www.imdb.com/name/nm0442109/, caso queira pesquisar no IMDB.

Acho que tem no site dele também, mas não me dei ao trabalho de procurar o link.

Volte sempre!

Tiago Marin disse...

Queria tanto gostar deste filme, mas tanto! Não consegui...

Enfim, passando pra contar que o Cinefilando agora também tem twitter! Aparece por lá!!!!

http://twitter.com/blogcinefilando