Para chegarmos no cinema de Lars von Trier precisamos tentar compreender a mente do autor por detrás da câmera trepidante que se apresenta diante de nossos olhares preocupados. A atenção de um espectador constante do diretor está sempre voltada para suas imagens perturbadoras, seus planos-detalhes, o contra-plano e o megalomaníaco desenvolvimento psicológico de seus personagens. Sendo assim, dentro da imaginação do diretor de Dogville, não há espaço para o vulgar e perecível, aquilo que costuma tornar a arte antagônica. Trier exercita a ideia de que há um poder superior, mas que este provém de outra ordem, convergindo com aquilo que é consenso entre a maioria dos mortais. Em Anticristo, sua última cinefilosofia, temos mais um pouco das ideias de Lars von Trier entrando em conflito, através de imagens e sons - nem sempre agradáveis.
A primeira sequência, em forma e conteúdo, pompa e circunstância, deixa claro que a metalinguagem uni-se ao objetivo artístico-visual do diretor. É assim que Trier inaugura seu filme, com imagens e sons tomando conta da narrativa e compondo seu próprio universo sensorial. Enquanto um casal (Ele e Ela) faz amor (começa no chuveiro, termina na cama) furtivamente ao som de música sacra e bronzeado pelo preto e branco da fotografia, o filho destes começa a escalar uma mesa que dá para a janela do quarto, após ver, sem muito compreender, seus “criadores” em pleno ato sexual. Em step printing, vemos o menino caindo pela janela, enquanto seus pais regozijam-se com o auge do orgasmo. Não há dúvida, este é um filme de Lars von Trier.
Após o velório do menino, somos levados a uma cabana no meio de uma floresta que, não por acaso, Trier chamou de Éden. Lá, Ele e Ela buscarão expulsar a depressão (sim, Ela é uma escritora, assim como Trier) dela pelo sentimento de culpa. Em luto e além da morte do herdeiro, o casal passará a enfrentar a crise que já pairava sobre a relação. Infelizmente, para Ele (Willem Dafoe) e para Ela (Charlotte Gainsbourg), a natureza assume controle da situação, e já não se sabe (os personagens e nós) mais o que vem deste ou de outro plano. Precisamos nos relacionar com os personagens e com o argumento do diretor e roteirista dinamarquês. Isso não é uma tarefa fácil, tampouco agradável se buscarmos respostas solúveis dentro de Anticristo, pois o diretor nos oferece tudo, menos respostas.
É o terror interno de seus personagens que o diretor quer investigar, e o visual quase monocromático, que parece querer expulsar as cores, enaltece tal registro, que ainda ganha contornos über realistas com as interpretações aguerridas de seus atores, em especial de Gainsbourg. A intenção do diretor é captar as perversidades do lado obscuro da psique humana, seus contornos e suas animosidades. É um filme extremamente simbólico (talvez o mais metalinguístico do diretor), que deixa nas mãos das imagens gélidas a tarefa de imprimir as sensações. E as cenas são essenciais à estrutura do filme, e podem ser tudo, menos gratuitas. Até mesmo os planos-detalhes da mutilação vaginal e da ejaculação de sangue do pênis do personagem de Dafoe. Há uma significação em tudo isso, que será encarada de formas diferentes por cada espectador.
É justamente este embate entre diretor-espectador que torna a experiência incomum. Os questionamentos são relevantes e Trier dá esse tempo para o público refletir, mostrando sinal de respeito e consciência fílmica. No primeiro ato, o sexo estilizado é filtrado pela trilha da ária Lascia qu’Io Pianga, da ópera Rinaldo, de Handel. O sentido da música é a transparência do gozo extremo dos sentidos, enquanto paralelamente uma morte se aproxima. É mais uma prova da preocupação que Trier desenvolveu enquanto esteve depressivo (2005 e 2009) com relação as suas intenções.
O diretor atinge algo que nos surge como uma religião pagã e um estudo do homem a da natureza e da convivência entre ambos. A complexidade dos planos sugerem muito, mas explicam pouco. Em certo momento, evidenciando esta visão religiosa, Ela fala: “A natureza é a igreja de Satã”. Outros momentos que contribuem para supracitar os simbolismos da relação homem-mulher-natureza são as próprias cenas de sexo. O que no começo apresenta-se com amor e delicadeza (com direito a um plano-detalhe de uma penetração) aproxima-se do sadomasoquismo quanto mais próximo do final, justamente quando as forças da natureza parecem mais presentes no subconsciente do casal.
Trier particiona a estrutura narrativa de seu filme aos moldes de Dogville, com prólogo, quatros capítulos e epílogo (Dor, Luto, Desespero e Os Três Mendigos). Todos essenciais e coerentes. Apesar de o diretor ainda não ter se livrado do seu timing irregular, Anticristo atesta certa maturidade e preocupação do diretor com o envolvimento de suas imagens com seus personagens e argumento. É, assim, e não por caso, como disse o crítico Luiz Zanin, como o livro de mesmo nome de Nietzsche (um dos maiores críticos do cristianismo), uma obra para espíritos livres.
(Antichrist, Dinamarca/Suiça/Alemanha, 2009)
Direção de Lars von Trier
Roteiro de Lars von Trier
Com Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg

17 comentários:
Excelente, excelente crítica. Muito bem desenvolvida e muito bem escrita! Parabéns. O filme é dos que mais aguardo este ano. Era para estrear em Portugal daqui a dias, mas já foi adiada a data de estreia para Dezembro. Sou um grande admirador de Von Trier, já li do melhor sobre ANTICRISTO, vamos ver no que dá :)
Cumps.
Roberto Simões
CINEROAD - A Estrada do Cinema
Texto muito bom mesmo, Mengão! Mas sabes o que penso do cara, né?
Abs!
Parabéns pelo texto, Pedro! EXCELENTE! Perfeito na sua análise do filme, que é complexo demais!
De uma coisa eu tenho plena certeza. Este filme está mosntruosamente dividido entre os críticos!
Pedro, também lhe dou os parabéns pela crítica. Mas, desta vez, eu não gostei do que o Lars von Trier nos preparou. Há grande preocupação com a imagem e o choque que ela nos causa, mas acho o filme quase um desastre se analisarmos o seu próprio roteiro. Mas há também como ponto negativo a transição das cenas, como aquela do sexo na floresta para a tomada posterior.
Abraços!
Amei a análise. E fiquei mais revigorado em assistir ao filme, que está aqui em casa.
Sua crítica, muito bem escrita, me deixou ansiosa para assistir este filme!!
Eu até agora não sei o que penso desse filme. Bom ou não, ele é bem polêmico e causa muitas sensações. Mas uma coisa eu comento: o prólogo é uma das cenas mais bonitas dos últimos tempos! E a Charlotte está ÓTIMA!
Caro Pedro Henrique, esse é o meu primeiro comentário no seu blog. Vi que você tinha escrito algo sobre o filme do Lars von Trier após ler uma contribuição sua no blog "Cinema e Argumento".
O que quero dizer, é que O Anticristo é de fato um longa denso, mas possível de ser apreendido. Impactante, porque mostra que a vida não é bela, ao contrário do que muitos acreditam. Por isso mesmo, discordo daqueles que o querem polemizar, para estes, aconselho ver e rever a película.
Por fim, você não acha que a personagem "Ela" está agindo conscientemente, no intuito de minimizar o seu sentimento de culpa? Pergunto isso, porque no seu penúltimo parágrafo fica parecendo que as atitudes reais (multilações, por ex.) são consequencias imaginárias ou do subconsciente dela. No mais, parabéns pela excelente crítica.
Abraço.
Obrigado a todos! Fico feliz que tenham gostado!
Santiago, acredito que este seja justamente o maior mérito do diretor, causar a discussão, não a polêmica, isso é a parte rotuladora e conservadora da crítica que gosta de fazer. Quanto aos atos da personagem Ela, acredito que sodomizar o marido não faz lá muito sentido se ela queria expulsar a culpa, ainda mais quando sabemos que "a culpa era mais dela" do que dele. No mais, é mais ou menos o que eu disse na resenha, é o terror interno da psique do homem que Trier quer investigar. A natureza e o poder dela. Não vejo ciência nas atitudes dela. Ele, por exemplo, vê a raposa falar (imagino que apenas em seu subconsciente), nem por isso sai grudando a perna da mulher em ferro - o que na verdade representa uma grande metáfora, mas que não posso falar aqui para não estragar a diversão dos colegas. É a maneira que cada um enfrenta seus próprios medos e suas individualidades. Por enquanto, é assim que eu entendo Anticristo.
Grande abraço e volte sempre que quiser!
Gostei do texto; serviu como uma espécie de introdução informativa, para pessoas como eu, que nunca adentraram o cinema de Von Trier. ANTICRISTO, mesmo extremo, há de ser a chave de entrada para o universo desse autor tão controverso.
Cumps.
Hostei bastante do filme, apesar de um pouco dificil, mas acho que revendo algumas vezes a coisa vai ficando mais clara, no entanto, mesmo com uma primeira visita restand duvidas, ainda sim permanece um bom filme.
Gosto dos filmes do Lars von Trier, me interesso tanto que busco até participações dele em outras obras, ou mesmo quando ele faz curta-metragem, como o Five Obstructions, que é excelente. Mas dessa vez acho que ele errou feio na dosagem de Anticristo. O roteiro é mesmo denso, mas a proposta de investigação sobre o mal, sobre a natureza má, me pareceu rasa (a preocupação maior ficou nas imagens e no simbolismo). Filosofia barata, cenas gratuitas... definitivamente não gostei! Pela proposta, creio que deveríamos sair com algum posicionamento sobre tudo o que ocorreu, mas eu só tive a sensação de indiferença ao término da sessão. De qualquer forma, todo fã do von Trier tem obrigação de conferir. Abraço!
Fenomenal o texto, Pedro. De fato, o filme tem dividido a crítica. Não sei se é meu tipo de filme, mas irei ver de qualquer jeito.
Dale, abraços!
não consegui ver, nesse, um filme bom.
Definitivamente eu não sou um espirito livre, pq na sua frase *A intenção do diretor é captar as perversidades do lado obscuro da psique humana, seus contornos e suas animosidades.* eu substituiria psique humana por psique feminina, e isso incomoda. Ter um clitóris também incomoda em determinado momento (desculpa pela brincadeirinha boba)
Mas excelente texto, conheci o blog agora e voltarei sempre.
abraços.
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