07/08/2009

Tempos Modernos


O homem contra a máquina. Não só a máquina robótica e mecânica, mas a do sistema, que manipula e corroi a humanidade, a sociedade e o próprio sistema sócio-econômico mundial. Um sistema envenenado pela cobiça do homem. Uma luta infinita rumo à auto-destruição. Acredite, com muita alegria, criatividade e inteligência, Charles Chaplin fez de Tempos Modernos uma fábula do homem e da máquina, da fome e do poder, do comunismo e do capitalismo. É também um filme anárquico, quase filosófico, mas que crê num futuro rentável, apaziguado e consumido pela paz, onde homens e máquinas poderão caminhar lado a lado, não em direções opostas. Uma grande ideia e um argumento brilhante, mas que dificilmente funcionaria nas mãos de qualquer outro diretor - deste e de outros tempos. Além disso, o filme que de melhor maneira representa o poder da imagem e como ela pode contar uma história.

Em 1936 (data de lançamento de Tempos Modernos), o cinema falado já existia há dez anos, mas Chaplin continuava mudo. Na verdade, arriscou algumas falas aqui, mas nada mais que rádios, máquinas e o dono da fábrica, que "não guarda nenhuma semelhança com Henry Ford". Ademais, manteve a estrutura do cinema mudo, com diálogos textuais na tela quando as imagens não podiam imprimir o que se passava. Mais uma vez, a nível de sua filmografia, funcionou - e como nunca. Funcionou porque Chaplin era um mímico, um imitador elegante. Sabia como ninguém causar impressões, descrever cenários e personagens com o poder do gesto, do corpo e da alma. Tinha ética, linha de conduta, muitas ideias, sonhos, vontade de fazer. E fez.

Aqui, Chaplin satiriza, torna movimentos corporais parte da história, do subtexto argumentativo. Populariza e imortaliza seu personagem, o maior de todos: Carlitos, vulgo vagabundo. Dá voz (pela primeira e última vez) ao personagem em uma cena antológica, cantando uma canção inteligível. Um verdadeiro apanágio. Surge também como um alerta de que o homem, que da terra e de outros animais tira riqueza, pode viver em paz com a máquina. Há uma cena em especial que pincela esse argumento de Chaplin com exatidão, que é quando o vagabundo dança em volta de uma máquina enquanto os outros funcionários o perseguem. Ali, ele é um anarquista, pois diz não ao domínio, ao controle, à escravidão. Nesta cena, a máquina vira sua aliada, pois para impedir que seus colegas furiosos o peguem ele liga a máquina sempre quando alguém a desliga, fazendo-os voltar ao trabalho e deixando-o dançar, pois seus colegas ainda são reféns dela. Perfeita composição.

O filme trava um duelo simpático com o consumismo, desferindo golpes elegantes contra esta condição em que vivemos. Chaplin não critica tão somente a mecanização, mas também a outras questões sociais da época: comunismo, anarquismo, grande depressão americana, consumismo, fome, pobreza. Trabalhando com Paulette Goddard (sua excelentíssima esposa na época das filmagens e atriz muita bonita e simpática), o diretor fez um filme do coração, do pensamento revolucionário. É o último filme mudo de Chaplin, e que, mesmo não tendo diálogos, conta com música e efeitos sonoros.

Como poucos, fazia valer do seu talento cômico. Carlitos, que aqui aparece derradeiramente, continua sensacional e muito bem vivido pelo seu criador. Aquele personagem é o cérebro de Chaplin, por isso o ícone mundial do repertório cinematográfico das grandes estrelas. Em Tempos Modernos, aliás, temos uma nova perspectiva no final, quando o diretor muda a tomada final pela primeira vez. Um novo caminho, talvez o fim de uma Era de sofrimento e miséria para uma nova de riqueza e felicidade, porque Chaplin nunca deixou de sonhar. O vagabundo era um gentleman, e tem aqui o seu tour de force.

Na crítica e na sátira, Chaplin não perdoava. Sua visão esquerdista era ampla e certeira, alfinetando a alta classe com categoria. Além disso, é lindo ver um gênio em ação, pois Chaplin conhecia todo processo da máquina e trabalhava intensamente em todas as áreas desde o início de seus filmes. Aqui, mais uma vez, em prol do desenvolvimento de uma obra-prima. Tempos Modernos sempre será um filme a ser lembrado e citado nas salas de debate. Chaplin era um formador de opiniões, que pensava na humanidade e na vida por trás das câmeras. Para Chaplin, o que realmente importava num filme não era a realidade, mas sim o que dela podemos extrair a imaginação. Isso é Tempos Modernos.

(Modern Times, EUA, 1936)
Direção de Charles Chaplin
Roteiro de Charles Chaplin
Com Charles Chaplin, Paulette Goddard, Al Ernest Garcia, Tiny Sandford, Henry Bergman

15 comentários:

Vinícius P. disse...

Considero esse filme um dos filmes que definiram a forma como se fazer cinema, absolutamente revolucionador. "Tempos Modernos" é uma verdadeira obra-prima.

Kau Oliveira disse...

Um dos meus pontos fracos, Pedrão. Chaplin, pra mim, é um dos grandes gênios do Cinema e Tempos Modernos é simplesmente o seu melhor filme. Consegue ser cômico ao mesmo tempo que é descaradamente crítico. Magnífico! Obra-prima!

Abs!

Wanderley Teixeira disse...

Clássico da época de colégio! rsrsrsrsrs
Tempos Modernos é o filme brilhante de Charles Chaplin e traz todos os elementos necessários para se fazer uma obra-prima. Impecável!

Ygor Moretti Fiorante disse...

É sei de tud isso mas não vi ainda, confesso, mas já vi a corrida pelo ouro, e O Garoto, excelentes! como todo o trabalho do claplin parece ser.

abraço!!

O Cara da Locadora disse...

Um cara muito corajoso, o Chaplin... Não se fazem mais homens como ele...

Kamila disse...

Este filme é um verdadeiro clássico. Uma obra atemporal. Charlie Chaplin estava à frente de seu tempo.

Weiner disse...

Eu adoro o Chaplin. E graças a você. Lembro que li algo sobre ele aqui em seu blog, e fiquei meio envergonhado, naquela época, de me auto-intitular cinéfilo e jamais ter conferido uma obra sequer deste mestre. Corri atrás, vi "Luzes da Cidade", "O Garoto", "O Grande Ditador", e claro, "Tempos Modernos". Este último é tão terno e atemporal que já entrou para a galeria dos inesquecíveis.
Abraço!

cinematranscendental disse...

chaplin é perfeito. não há mais nada aser dito a respeito.

Gustavo H.R. disse...

A profundidade de Chaplin foi poucas vezes igualada no cinema mundial.

Bruno Soares disse...

Vi há uns 10 anos atrás. Numa revisão certamente acharia melhor ainda.

Marcus Vinícius disse...

Uma verdadeira aula de um verdadeiro professor de cinema.

Saudações tricolores, abraço!

altieres bruno machado junior disse...

Olá

Vi esse filme pela primeira vez na Universidade de Administração. Me surpreendi muito. Apesar de o filme ser da década de 30, Chaplin conseguiu retratar com magnificência o futuro. Tempos Modernos é debochado, sarcástico e triste ao mesmo tempo. Conseguiu me fazer rir muito.

Abraço e até mais.

Pipoca com Miojo disse...

Poderia ter sido a crítica mais cruel para um tempo cruel, mas Chaplin conseguiu fazer uma sátira onde quem assiste consegue entender tudo que se passou na época, sem rodeios e simbolismos muito complicados.

Ana Carolina M.

Vulgo Dudu disse...

Esse filme deveria ser obrigatório nas aulas sobre Revolução Industrial em todos os colégios do mundo. Melhor do que qualquer livro de história.

Abs!

Otavio Almeida disse...

Cara, é um dos meus favoritos! Chaplin foi gênio e TEMPOS MODERNOS ajudou o cinema como conhecemos hoje a se formar.

Abs!