04/08/2009

Cidadão Kane



Muito mais do que arte harmônica e visual. Arte é a criação humana que valoriza a imagem, a estética, a beleza, o sentimento, a harmonia, a fúria, a tristeza, a dor e milhares de outros adjetivos. A arte pode ser sentida, ouvida, interpretada ou apenas apreciada, como bem o fazem os leigos. Para se fazer arte não precisa ser um gênio, mas pode-se pensar como um. O verdadeiro artista pode ser um jovem radialista que anuncia que seu país está sendo invadido por alienígenas, quando na verdade tudo não passava de história para boi dormir. A veia artística pode despertar de um jovem que dirige uma adaptação de Shakespeare com atores amadores. O verdadeiro artista pode ser um jovem que assina o maior contrato da história do cinema hollywoodiano logo em seu primeiro projeto. Da razão a criação, falamos de Orson Welles e do filme mais importante da história do cinema: Cidadão Kane.

Então com 25 anos, Welles era recém-chegado na mais famosa indústria cinematográfica do mundo, mas mesmo assim conseguiu assinar o contrato dos sonhos - e acabou fazendo história. O estúdio responsável por essa loucura, que dava liberdade total ao diretor (sem meter a mão no roteiro tampouco no final cut), foi o RKO, que quase cedeu a pressão do magnata (leia-se "dono" de Hollywood na época) William Randolph Hearst, que tentava a todo custo destruir os negativos originais do filme de Welles. A resposta para esta atrocidade está na ponta da língua de 10 em cada 10 apreciadores do filme: o personagem-título de Cidadão Kane é baseado na vida e na polemicidade de Hearst. Para o bem, a magia da arte deu sobrevida ao filme, que se tornaria o filme mais ousado e inovador já feito.

Não somente por ser um marco inovador e poço de invenções (pois Cidadão Kane está muito além disso), mas talvez por representar a audácia de um gênio em construir um filme com tantas cenas antológicas e momentos operacionais que nenhum outro diretor realizou - e isso vale até hoje. Citizen Kane é maior que isso, pois por detrás desta grossa camada de talento técnico e criatividade fílmica há uma história, e uma história muito bem contada. Há de se ressaltar, no entanto, que assistir ao filme esperando por um milagre pode ser o primeiro passo para a decepção. Uma leitura mais leve, porém, pode trazer muita experiência para quem deseja fazer filmes e encantar muito mais os cinéfilos, pois há, por trás disso tudo, uma grande história, de uma grande homem.

O filme começa quando o jornalista Charles Foster Kane morre após pronunciar a enigmática palavra-chave do filme: Rosebud. E é a partir daqui que acompanharemos a saga de Kane, um jornalista tentando descobrir quem ou o que é Rosebud e que, para isso, vai entrevistar várias pessoas que conviveram com o magnata. Assim, a história vai sendo contada: dono de uma grande fortuna, Kane investe milhões de dólares num jornal diário e torna-se o maior magnata da imprensa norte-americana, manipulando o que publica de acordo com seus interesses. Casa-se com a sobrinha do Presidente da República, derrota os jornais concorrentes e candidata-se a governador. O longo prólogo inicial já dava o tom, pois já era um indício da evolução narrativa que Welles e o roteirista Herman Mankiewicz estavam criando para a linguagem cinematográfica.

Sobre a criação do personagem, pode-se dizer que Welles e Mankiewicz alcançaram o esplendor. A construção de Kane, o homem por trás daquela faceta dominadora e poderosa, mantém um clima atípico e ambíguo, além de elucidar o lado egoísta e egocêntrico do personagem com elegância. Muito da perfeição da linguagem vista no desenvolvimento do personagem-título, aliás, deve-se a própria narrativa. Mankiewicz elaborou uma história que, contada de forma não-cronológica, indo e voltando no tempo, permitiu uma abordagem mais fragmentada de Kane, traçando um personagem bastante complexo e controverso. Muito disso graças ao talento inegável de Orson Welles, que interpretou Kane de maneira formidável. Welles (em um verdadeiro tour-de-force), na verdade, desnudou a persona de um homem que conquistou tudo na vida, mas que nunca soube profundamente se tudo que ele desejara eram riqueza e status. Acerca disso, via de regra, são levantadas várias questões. Por exemplo, será que Kane foi feliz? Será que ele, se pudesse reescrever sua vida, teria mudado algo em sua trajetória? Quem era realmente aquele homem? Estes e outros questionamentos podem acrescentar ainda mais a experiência.

Na parte técnica, talvez ainda não tenha sido superado por nenhum outro filme. A começar pela fotografia de Gregg Tolland, que instaurou lições que são utilizadas até hoje, pois uma boa técnica nunca envelhece. A câmera filmando o personagem principal de baixo para cima aumenta a sensação de inferioridade, da verdadeira dominação de Kane – técnica bastante usada por Steven Spielberg em E.T. – O Extraterrestre. A forma como Tolland iluminava as cenas, fazendo uso das sombras para aumentar o clima de suspense quando necessário, o uso dos espelhos para enquadrar duas ações num mesmo plano e, claro, o brilhante uso do deep focus (ou profundidade de foco), artifício que possibilitou deixar em foco vários cenários do quadro, e não somente o primeiro plano. Isso aumentou a percepção do espectador, tornando possível a visualização e compreensão de várias ações que acontecem no plano. Uma proeza linda e inovadora. A partir daqui, as lentes que proporcionavam esta nova visão seriam reutilizadas por muitos filmes. A maquiagem também estava muito a frente de seu tempo e merece destaque.

A edição de som também é um completo espetáculo. Aqui, muitas vezes o som da próxima cena invade a cena anterior, anunciando a proximidade do corte. Isso cria uma ligação direta com a edição, pois torna as elipses muito mais elegantes e saudáveis. Tais transições, aliás, conferem e assinam a marca e o talento do diretor. Um exemplo disso é a cena em que Kane está olhando atentamente para uma fotografia com os editores do jornal concorrente. A câmera vai se aproximando em close-up até invadir a foto, e os personagens de dentro dela viram homens reais, tendo início a uma nova cena. Uma grande trucagem que hoje é muito utilizada.

Um filme eterno, que marcou sua época na história da arte. Cidadão Kane criou parâmetros e instaurou paradigmas, com a maioria destes sendo utilizados até hoje. Revolucionou não só a linguagem, mas também a maneira de pensar o cinema, de vê-lo com uma arte abstrata. O sentimento ao final da experiência é maravilhoso e pode ser sentido milhares de vezes, pois há muito para ver e aprender no filme de Welles - inclusive coisas não percebidas à primeira vista. A sensação é parecida com uma cena do filme, onde Kane destroi seu quarto. Nesta tomada sem cortes não há um diálogo sequer, apenas fúria e raiva à flor da pele - e aqui é onde Welles atinge seu melhor momento interpretativo. Esta cena entrega os sentimentos principais que o filme transmite: impotência, dominação e poder. Uma obra-prima.

(Citizen Kane, EUA, 1941) Direção de Orson Welles. Com Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Agnes Moorehead, Ruth Warrick.

15 comentários:

Vinícius P. disse...

Mesmo sendo considerado um dos melhores filmes de todos os tempos, nunca tive oportunidade de conferir "Cidadão Kane"...

altieres bruno machado junior disse...

Olá

Nossa que clássico. Muito elogiado e sucesso de críticas entre os cinéfilos. No entanto, ainda não tive oportunidade de conferir, assim como o Vinícius. MAS FAREI UM DIA.

Abraços e até mais.

Kamila disse...

Acho que este filme é tão cultuado que, quando a gente o assiste pela primeira vez, faz isso esperando ver uma coisa de outro mundo e, no meu caso, o filme me deixou com a sensação: "mas é só isso??". Não acho "Cidadão Kane" o melhor filme de todos os tempos, mas é inegável a importância da obra para a linguagem cinematográfica, para o desenvolvimento dela.

•. Cℓєвєя! . - disse...

Eai Pedro, tudo bom? Estou te adicionando a minha barra de blog.

Em relação, ao 'Melhor Filme de Todos os Tempos', eu ainda não tive a chance de ver ... confesso que não foi por opção, tenho interesse sim ... só não me acho adepto ainda pra ver o filme.

Pedro Henrique disse...

Kamila, como posto no texto, essa "expectativa" é o primeiro passo para um decepção.

Cleber, não é o melhor filme de todos os tempos, mas é o mais importante.

Abraço a todos!

O Cara da Locadora disse...

Eu tive a grata oportunidade de podê-lo ver no cinema em uma sessão cinéfila que fizeram no cinema da minha faculdade... Estonteante... Realmente é um filme inquestionável...

Airton disse...

opaa
esse filme eh bom
mas nao gostei mto
um q usa a msm linguagem e eu axei mto melhor eh

os assassinos
com burt lancaster
hehe

passe la nu blog
abraço

Kau Oliveira disse...

Não acho "Kane" o melhor filme de todos os tempos, nem tampouco ele entra no meu top 5. Mas é lógico que é uma fita de se reverenciar. Diferente, forte e que trás um tipo de roteiro diferente do que era comum na época. Mas confesso que preciso revê-lo urgentemente.

Abs!

Otavio Almeida disse...

Um dos melhores textos que você já fez. É um filme magnígico, sem dúvida. Mas acredite se quiser: Meu favorito do Orson é "A Marca da Maldade".

Abs!

Weiner disse...

Chega a ser cruel esse rótulo de "melhor filme de todos os tempos". Volta e meia, um bando de críticos ociosos reúnem-se para votar naquele que vai carregar o triunfo (e a desgraça) da melhor película já feita. Isto estraga a grandeza de "Citizen Kane", pois todo mundo o assiste com uma expectativa selvagem - para quase sempre, ao fim, cair numa frustração tão feroz quanto.
O certo é que Welles revolucinou o conceito artístico de Hollywood, comprou briga com um magnata e criou um dos melhores filmes de "estudo de caráter" da história. Sem dúvida um homem de 25 anos merece milhares de apalusos por alcançar tamanha genialidade em tão pouco tempo de vida.
"Rosebud" povoa o imaginário de qualquer cinéfilo, e a construção do personagem Kane é fulgurante, indo do céu ao inferno num piscar de olhos.
Bela crítica!
Abraços, Pedro!

Filipe Assis disse...

É uma grande falta, mas também ainda não vi este filme. Um dia será o tal! =P

Cumps.
Filipe Assis
CINEROAD - A Estrada do Cinema

Vulgo Dudu disse...

É um grande filme, sem dúvida! Tecnicamente, é ousado. Talvez até demais para a época. Porém, o entendo como um primeiro passo de Welles para obras-primas. Alguns de seus filmes posteriores, na minha opinião, são mais completos no que diz respeito à fruição do espectador. O que vale dizer que Cidadão Kane não é meu favorito dele. Mas é um marco fundamental na história do cinema moderno.

Mais uma vez, caprichou no texto!

Abs!

Red Dust disse...

Um extraordinário momento de cinema. Mítico até ao coração. Perfeito na história. De eleição nas interpretações. Fundamental!!!!!

Abraço.

Bruno Soares disse...

OP MÁXIMA! Parabéns pela crítica.

Denis Torres disse...

Tal como o meu texto sobre Cidadão Kane, temos a mesma visão e muitos pontos em comum. Grande texto. Abs!