Em forma e conteúdo, Arraste-me Para o Inferno lembra os filmes de horrror B conduzidos pelo mestre William Castle nas longíquas décadas de 50 e 60. Tipos como A Máscara do Horror e Eu Vi Que Foi Você podem vir à cabeça do espectador mais atento em vários momentos do filme de Sam Raimi (coordenador da trilogia do aranha). Assim, misturando doses generosas de gosmas e escatologia com humor negro refinado e cenas de arrepiar, Sam Raimi voltou suas raízes para o filme do gênero que o consagrou, com obras como as da trilogia Evil Dead - sequência obrigatória para qualquer cinéfilo que aprecia o gênero do sangue, da morte e do sobrenatural.

Para quem é marinheiro de primeira viagem ao horror nojento e cômico, não se preocupe, pois Raimi fez um filme que dispensa conhecimento histórico do gênero. Arraste-me Para o Inferno, é, acima de tudo, uma grande brincadeira de um diretor autoral que via seus projetos mais pessoais ficarem para trás por causa da dedicação total a trilogia do O Homem Aranha. O diretor captou a essência máxima do gore, das imagens repulsivas e das criaturas fantásticas com precisão cirúrgica, além de inserir elegantemente o humor negro ácido e anacrônico na dosagem exata. Nem mais, nem menos. Para tanto, Raimi utilizou todo seu conhecimento de linguagem da câmera, do movimento casual e do extremo plano-sequência. Dentro de alguns quadros, aliás, são impressos cenas espetaculares.

Para não perder tempo com desenvolvimento de personagens (seria até um pouco de ingenuidade exigir isso de um filme com tais propostas) o diretor vai logo apresentando a história ao público. Assim ele conta: Christine Brown (Alison Lohman) é uma ambiciosa analista de crédito de um banco de Los Angeles, que tem um ótimo namorado, o professor Clay Dalton (Justin Long), e um futuro promissor. Um dia, a senhora Ganush (Lorna Raver) chega ao banco, implorando que prorrogue o pagamento de sua hipoteca. Mas, para agradar ao chefe, Christine nega o pedido, fazendo com que a senhora seja despejada de sua casa. Como retaliação, a senhora Ganush lança uma maldição sobre a jovem e sua vida se transforma em um verdadeiro inferno.

O roteiro do próprio Raimi e do irmão caçula Ivan é inteligente para mesclar o humor e o horror em doses igualmente eficientes, pois, aqui, para cada cena escatológica há uma de extremo humor negro. O texto quebra os sustos e brinca com cenas cartunescas e forçadas, que acabam por se encaixar perfeitamente no contexto narrativo adotado pelo diretor. Aliás, auxiliado pela montagem seca, o argumento simples funciona quando vemos sequências tão engraçadas quanto nojentas. Raimi faz o espectador rir de cenas incrivelmente horripilantes, mas não menos cômicas, como, por exemplo, aquela onde a velha cigana vomita um líquido verde com larvas sob a boca de Christine ou a cena do sacríficio do felino. Humor e horror em perfeito uso.

A habilidade de Sam Raimi entra em jogo quando estamos cientes do susto, mas mesmo assim nos assustamos, pois o diretor manipula o espectador, tornando difícil imaginar se vêm humor ou horror no próximo corte. É uma trucagem que funciona muito bem a favor do filme. Repare como a cena do sacrifício do gato é tratada. O diretor de fotografia conduz tudo às escuras, com luz focada na personagem, deixando a cena chegar no seu clímax com timing perfeito. Enquanto isso, Raimi trata de acrescentar humor na sequência, e é justamente esse ingrediente a mais que torna esta cena (assim como várias outras) impecável.

No entanto, nem tudo são águas claras em Arrraste-me Para o Infeno. A pequena sintonia entre Alison Lohman e Justin Long - por mais culpa do segundo e de seu personagem unidimensional do que pela dedicação e competência da primeira - acaba tornando algumas sequências um tanto quanto fora de contexto (como a chegada na casa do vidente, onde o personagem de Justin, sempre em segundo plano dentro dos quadros, é forçado a repetir o mesmo tipo de reação de 8 entre cada 10 filmes do gênero). Via de regra, o resultado final é excelente. Arraste-me Para o Inferno é um filme engraçado e assustador, inteligente e coeso. O retorno de Raimi ao gênero que o instalou na indústria não poderia ter sido melhor. A nós, espectadores, resta garantir um bom lugar no cinema e se divertir junto com Sam Raimi.

(Drag me to Hell, EUA, 2009)
Direção de Sam Raimi
Com Alison Lohman, Jessica Lucas, Dileep Rao, David Payner


17 comentários:

altieres bruno machado junior disse...

Olá Pedro

Realmente é um filme que remete aos longas de terror de outrora. Será interessante ver Sam Raimi voltando às origens. QUERO CONFERIR, de preferência no cinema, pois dá menos medo : )

Abraços e até mais.

Weiner disse...

Apesar de não ser grande fã de "A Morte do Demônio", admito que Raimi instituiu um estilo único no gênero (e que ao longo dos anos pareceu indispensável quando a intenção fosse assustar). Como disse ao Otávio (e agora a você), a cotação tem me surpreendido por onde passo. Sem dúvida alguma vou conferir, e espero que minhas impressões sejam as mesmas.
P.S Não gosto da Allison Lohman.
Mas é pra gostar do filme, né não?
Ab!

Kau Oliveira disse...

A segunda boa crítica sobre o filme que leio hoje. Preciso urgentemente assistí-lo, já que achei o trailer excelente.

Abs!

Denis Torres disse...

Babei nesse filme... é tudo isso e um pouco mais. Abs!

Marcel Gois disse...

tenho lido boas coisas sobre esse filme e isso só aumenta minha curiosidade!

Vinícius P. disse...

O Sam Raimi é mestre nesse estilo e por isso mesmo estou muito confiante para o filme!

•. Cℓєвєя! . - disse...

Não gosto do Sam Riami, por isso não me interesso por este, sem esquecer que é um filme de terror.

Gustavo H.R. disse...

Como marinheiro de primeira viagem no subgênero, espero me divertir tanto quanto você e os demais que aprovaram esse filme, mas com um pé atrás, pois como o Cléber, não me convenço muito com Raimi!

Otavio Almeida disse...

Cara, achei sensacional. É um dos melhores do ano. Quero ver de novo!

Abs! Bela crítica!

Wally disse...

To querendo ver este filme... e muito! Farei o possível para vê-lo neste fim de semana. Aproveitando para rir da cara de quem estiver saindo da sessão de "G.I. Joe", rsrsrs.

Vulgo Dudu disse...

Perfeito o seu texto, Pedro! Bom ver que Raimi superou a fase de super-heróis e voltou a fazer aquele terror frenético que o consagrou. O gênero agradece!

Abs!

Miriam disse...

Fiquei curiosa para ver este filme. Interessante que hoje mesmo eu li no E-m0tionsvideos ( blog do Jacques) uma crítica sobre este filme.
Bjs!

ricardo martins disse...

Oi
gostei do seu blog.
Vamos trocar link?
Da uma passada no meu blog se gostar me segue e seguirei o seu ok?
Valeu mesmo,aguardo resposta!
Sucesso
http://momentocine.blogspot.com/

Kamila disse...

Este é um filme de terror nostálgico! Gostei bastante! Especialmente do final surpreendente.

Robson Saldanha disse...

Opa. Passando pra dizer que tem um selo lá no Portal Cine, te esperando!

:)

Jacques disse...

Raimi repete - ou resgata - muito do que fez no passado. Mas não inova. Diverte e assusta. Bom entetenimento. E só. Vamos esperar a seqüência. Abcs

it was RED - Para quem gosta de cinema disse...

olá! fui ver Arraste-me para o inferno esperando um filme comum (eu não conhecia nada sobre Raimi) mas me deparei com uma sátira excelente!