Pode ser sufocante e angustiante, duro e cru, mas ao mesmo tempo é profundo e realista do início ao fim. O sentimento em candura, em forma e conteúdo, apoiado pela narrativa simples e metalinguística deixa o espectador extasiado, perplexo com a história que esta sendo contada na tela. E se o roteiro já possui elementos suficientes para fisgar o público, Krzysztof organiza as cenas de tal forma que algumas delas martelam na cabeça pensante do espectador que busca pelo profundo e belo sentimento cataclísmico - pode-se notar certa semelhança narrativa (e talvez um pouco pela edição seca e de poucos cortes e os enquadramentos incomuns) com outro grande filme, Je Vous Salue, Marie, de outro mestre, Jean-Luc Godard.
A personagem principal, que nas feições humanas e delicadas de Juliette Binoche se transforma numa mulher incrivelmente empática perante o público, fazendo o espectador sorrir e chorar quando vemos sua face refletir o seu interior. Momentos lindos como estes, incendiados pelas lentes ultra-suaves de Kieslowski, é que fazem de um filme uma experiência sincera e puramente recompensadora, para dizer o mínimo, e isso A Liberdade é Azul possui em grande quantidade. Falamos de um filme que fala de sentimentos humanos, o esplêndido e magnífico comportamento humano. O diretor e roteirista criou uma fábula real sobre a dor da perda e o poder da redenção. Um belíssimo filme, de um diretor que dominava completamente estética e narrativa, sendo assim capaz de entregar obras e quadros fantásticos, como os criados aqui.
A técnica do filme também é irretocável, desde o mínimo detalhe coreografado até os grandes arrochos da fotografia azulada. A encenação funciona perfeitamente porque o diretor de fotografia Slavomir Idziak entendia do riscado, compreendeu a proposta do roteiro e desenhou, assim, um filme visualmente perfeito, em ângulo e enquadramento, cores e perspectivas. A visão por trás daquelas lentes é dolorosa, triste e emocionante, por isso sincera e realista, pois atinge o espectador ao dialogar com sua alma e coração.
O expressionismo também se faz presente, e neste caso podemos lembrar O Anjo Azul, de Josef Von Sternberg, um dos maiores representantes da vertente. A ambientação, os figurinos, o movimento em cena, tudo conspira para a produção efetiva que o filme causaria no espectador. A sensação é maravilhosa ao final, uma experiência cinematográfica extremamente recompensadora e singela. Um filme que cativa, emociona (e por vezes melancólico), mas sem nunca apelar para o melodrama fértil e comum.
(Trois couleurs: Bleu, FRA/POL/SUI, 1993) Direção de Krzysztof Kieslowski. Com: Juliette Binoche, Hélène Vincent, Benoît Régent, Florence Pernel, Charlotte Véry

16 comentários:
Saiu recentemente em Portugal uma box com a trilogia completa do realizador. Provavelmente comprarei...
Adoro a Trilogia das Cores, o meu favorito é "A Fraternidade é Vermelha", mas "A Liberdade é Azul" é muito bonito também.
Só desaprovo "A Igualdade é Branca", que acho muito sem graça e fraco.
A gente, do Pipoca com Miojo, vem avisar que seu blog recebeu o selo Blog de Ouro. O post é o segundo mais recente, caso queira ver.
;D
Eu AMO esse filme. Acho tão intenso e bonito. Adoro a performance da Juliette Lewis e ainda pretendo ver os outros dois filmes da trilogia das cores.
Preciso ver essa trilogia um dia, ainda não vi ninguém que falou mal desses filmes...
Eu sou doido pra ver a trilogia, mas queria assistir de uma vez só, num domingo chuvoso, como se fosse um só filme. Assisti o trailer dos três no youtube e gostei muito da proposta. A conferir.
Sentimentos reais, expressões faciais auto-declarativas, visual expressionista delirante, mais sentimentos reais, dor, ódio, amor, solidão, tristeza, felicidade, sonho, sexo, morte, vida, cor, azul, emoções genuínas e muito mais sentimentos extremamente profundos.
A primeira sentença do primeiro parágrafo já trai que o filme tem tudo que um grande filme há de ter.
Já passou do tempo d'eu correr atrás de Kieslowski.
Eu vi toda a trilogia na faculdade, em aulas de política. Talvez por causa da visão do professor, um tanto direitista e acadêmica, tenha me afastado de aproveitar a obra como produção artística...
Abs!
Pedro, como havia lhe confessado, ainda não vi um filme sequer da Trilogia das Cores. Gostei do seu texto. Me interessei pela sinopse, ao qual desconhecia.
Abraços!
Essa trilogia é um primor. Um dos raríssimos casos onde acho o vermelho melhor que o azul, mesmo que seja por pouquíssima coisa. =P
Parece bem interessante ! E eu adoro a Juliette Binoche !
Abraços .
Assisti apenas a "A fraternidade é Vermelha" ou seria branca rss, AQ igualdade é branca correto? rss mesmo assim faz tempo não me recordo quase nada, pode ser um bom pretexto para rever esse e e os outros dois, qual a sequencia correta? abraço e te mais!!!
Vim conhecer seu blog, tb sou cinéfila hehehe
Eu vi esse filme, eu falto ver o rouge, que dizem ser o melhor.
Eu adorei o branco, o azul tb foi legal =DDD
Bom dia!
P.S.: Recebi um selo no blog "Hiperatividade"(http://titomohaupt.blogspot.com/) e estou repassando ao teu blog.
Passe lá para pegá-lo, ok?
A sequencia correta é Azul,Branco e Vermelho.
Os três filmes são ótimos, mas o Vermelho é o melhor.
acho a trilogia das cores muito boa, mas vejo a força dos filmes e das mensagens nas outras duas partes, principlamente na 'igualdade é branca'.
o 'azul' é um filme meio... difícil, de um certo modo.
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