18/07/2009

A Liberdade é Azul

Sentimentos reais, expressões faciais auto-declarativas, visual expressionista delirante, mais sentimentos reais, dor, ódio, amor, solidão, tristeza, felicidade, sonho, sexo, morte, vida, cor, azul, emoções genuínas e muito mais sentimentos extremamente profundos. É pouco, claro, mas talvez estes adjetivos possam traduzir um pouco do que o diretor polonês Krzysztof Kieslowski mostrou em A Liberdade é Azul, lindo filme que deu início a trilogia das cores, sequência de filmes do diretor sobre os ideais da Revolução Francesa e, claro, as cores. É um filme elegante, didático, filosófico, mas o mais importante (e provavelmente o verdadeiro objetivo de Kieslowski) é o sentimento, a emoção genuína - pela dor ou pela alegria.

Pode ser sufocante e angustiante, duro e cru, mas ao mesmo tempo é profundo e realista do início ao fim. O sentimento em candura, em forma e conteúdo, apoiado pela narrativa simples e metalinguística deixa o espectador extasiado, perplexo com a história que esta sendo contada na tela. E se o roteiro já possui elementos suficientes para fisgar o público, Krzysztof organiza as cenas de tal forma que algumas delas martelam na cabeça pensante do espectador que busca pelo profundo e belo sentimento cataclísmico - pode-se notar certa semelhança narrativa (e talvez um pouco pela edição seca e de poucos cortes e os enquadramentos incomuns) com outro grande filme, Je Vous Salue, Marie, de outro mestre, Jean-Luc Godard.

A trama gira em torno de Julie (Juliette Binoche, brilhante), modelo famosa que perde a filha e o marido em um acidente de carro, em que ela acaba sobrevivendo (pelo menos na superfície). Julie passa a contar com o apoio de um amigo de seu finado marido, que fora um respeitado compositor erudito antes do trágico acidente. No hospital, Julie tenta o suicídio. Em casa, renúncia à vida. Aos poucos passa a realinhar seus pensamentos e remontar seu lado sentimental que fora estraçalhado pelas chamas do passado recente. Em meio a um clima soturno, Julie passa enfrentar seus medos e refletir sobre o que é realmente importante na vida.

A personagem principal, que nas feições humanas e delicadas de Juliette Binoche se transforma numa mulher incrivelmente empática perante o público, fazendo o espectador sorrir e chorar quando vemos sua face refletir o seu interior. Momentos lindos como estes, incendiados pelas lentes ultra-suaves de Kieslowski, é que fazem de um filme uma experiência sincera e puramente recompensadora, para dizer o mínimo, e isso A Liberdade é Azul possui em grande quantidade. Falamos de um filme que fala de sentimentos humanos, o esplêndido e magnífico comportamento humano. O diretor e roteirista criou uma fábula real sobre a dor da perda e o poder da redenção. Um belíssimo filme, de um diretor que dominava completamente estética e narrativa, sendo assim capaz de entregar obras e quadros fantásticos, como os criados aqui.

A técnica do filme também é irretocável, desde o mínimo detalhe coreografado até os grandes arrochos da fotografia azulada. A encenação funciona perfeitamente porque o diretor de fotografia Slavomir Idziak entendia do riscado, compreendeu a proposta do roteiro e desenhou, assim, um filme visualmente perfeito, em ângulo e enquadramento, cores e perspectivas. A visão por trás daquelas lentes é dolorosa, triste e emocionante, por isso sincera e realista, pois atinge o espectador ao dialogar com sua alma e coração.

O expressionismo também se faz presente, e neste caso podemos lembrar O Anjo Azul, de Josef Von Sternberg, um dos maiores representantes da vertente. A ambientação, os figurinos, o movimento em cena, tudo conspira para a produção efetiva que o filme causaria no espectador. A sensação é maravilhosa ao final, uma experiência cinematográfica extremamente recompensadora e singela. Um filme que cativa, emociona (e por vezes melancólico), mas sem nunca apelar para o melodrama fértil e comum.

(Trois couleurs: Bleu, FRA/POL/SUI, 1993) Direção de Krzysztof Kieslowski. Com: Juliette Binoche, Hélène Vincent, Benoît Régent, Florence Pernel, Charlotte Véry

16 comentários:

Tiago Ramos disse...

Saiu recentemente em Portugal uma box com a trilogia completa do realizador. Provavelmente comprarei...

Matheus Pannebecker disse...

Adoro a Trilogia das Cores, o meu favorito é "A Fraternidade é Vermelha", mas "A Liberdade é Azul" é muito bonito também.

Só desaprovo "A Igualdade é Branca", que acho muito sem graça e fraco.

Ana Carolina disse...

A gente, do Pipoca com Miojo, vem avisar que seu blog recebeu o selo Blog de Ouro. O post é o segundo mais recente, caso queira ver.

;D

Kamila disse...

Eu AMO esse filme. Acho tão intenso e bonito. Adoro a performance da Juliette Lewis e ainda pretendo ver os outros dois filmes da trilogia das cores.

Vinícius P. disse...

Preciso ver essa trilogia um dia, ainda não vi ninguém que falou mal desses filmes...

pseudo-autor disse...

Eu sou doido pra ver a trilogia, mas queria assistir de uma vez só, num domingo chuvoso, como se fosse um só filme. Assisti o trailer dos três no youtube e gostei muito da proposta. A conferir.

Gustavo H.R. disse...

Sentimentos reais, expressões faciais auto-declarativas, visual expressionista delirante, mais sentimentos reais, dor, ódio, amor, solidão, tristeza, felicidade, sonho, sexo, morte, vida, cor, azul, emoções genuínas e muito mais sentimentos extremamente profundos.

A primeira sentença do primeiro parágrafo já trai que o filme tem tudo que um grande filme há de ter.
Já passou do tempo d'eu correr atrás de Kieslowski.

Vulgo Dudu disse...

Eu vi toda a trilogia na faculdade, em aulas de política. Talvez por causa da visão do professor, um tanto direitista e acadêmica, tenha me afastado de aproveitar a obra como produção artística...

Abs!

Alex Gonçalves disse...

Pedro, como havia lhe confessado, ainda não vi um filme sequer da Trilogia das Cores. Gostei do seu texto. Me interessei pela sinopse, ao qual desconhecia.

Abraços!

Marcus Vinícius disse...

Essa trilogia é um primor. Um dos raríssimos casos onde acho o vermelho melhor que o azul, mesmo que seja por pouquíssima coisa. =P

Gabriel Von Borell disse...

Parece bem interessante ! E eu adoro a Juliette Binoche !

Abraços .

Ygor Moretti Fiorante disse...

Assisti apenas a "A fraternidade é Vermelha" ou seria branca rss, AQ igualdade é branca correto? rss mesmo assim faz tempo não me recordo quase nada, pode ser um bom pretexto para rever esse e e os outros dois, qual a sequencia correta? abraço e te mais!!!

Mandy disse...

Vim conhecer seu blog, tb sou cinéfila hehehe

Eu vi esse filme, eu falto ver o rouge, que dizem ser o melhor.

Eu adorei o branco, o azul tb foi legal =DDD

Fabrício Mohaupt - Tito disse...

Bom dia!

P.S.: Recebi um selo no blog "Hiperatividade"(http://titomohaupt.blogspot.com/) e estou repassando ao teu blog.

Passe lá para pegá-lo, ok?

Anônimo disse...

A sequencia correta é Azul,Branco e Vermelho.
Os três filmes são ótimos, mas o Vermelho é o melhor.

aideti disse...

acho a trilogia das cores muito boa, mas vejo a força dos filmes e das mensagens nas outras duas partes, principlamente na 'igualdade é branca'.

o 'azul' é um filme meio... difícil, de um certo modo.