O filme tem início numa conversa de bar, onde quatro amigos intelectuais conversam sobre qual gênero dramático tem mais relação com a vida real, se a comédia ou a tragédia. Na verdade, dois deles são dramaturgos, um trágico e outro cômico. Ambos discutem sobre suas visões filosóficas e cada um defende com unhas e dentes sua escrita, até que uma das presentes resolve contar uma história, pedindo que cada um elabore uma trama a partir daí, mas iniciando do mesmo ponto. A trama é a mesma para ambas as histórias, com os mesmos personagens (muda-se somente o elenco), exceto a protagonista, que é interpretada por Radha Mitchell (daí o título, simples e eficiente). A partir daqui, cada dramaturgo precisa construir sua visão da chegada da protagonista (a Melinda e a Melinda do título) a um jantar, que não havia sido convidada.
O diretor carrega a narrativa com elegância, delineando a mesma trama sob duas óticas diferentes com propriedade. Ao narrar a tragédia grega e a Teoria do Caos, Woody cria um constraste interessante, ainda mais quando não permite que uma história fique confinada na outra. Ou seja, há elementos de humor na tragédia e o lado cômico possui pitadas dramáticas. Há um laço perfeito entre as histórias, apesar da montagem, algumas vezes, acelerar demais o processo, confundindo o espectador. Via de regra, a composição da narrativa e a construção dos personagens pelos atores deixam o filme ainda mais atrativo. Além disso, o cineasta não abriu mão do registro do personagem que o consagrou. Neste caso, Will Ferrell é o alter-ego do diretor. Não tão neurótico, mas um homem apaixonado que vive tentanto conquistar sua amada - história já contada muitas vezes pelo autor, mas que sempre ganha uma nova roupagem.
Em Melinda e Melinda também há espaço para todos os temas e artifícios recorrentes na filmografia do diretor: adultério, religião, amor e trilha sonora com muito jazz. O que pode ser repetitivo, na verdade é a pura veia autoral marcando presença, demarcando território. Na verdade, gosto de pensar que tudo faz parte da grande construção de uma idéia, que Allen vai juntar no seu último filme, sintetizando seu projeto de cinema. E vai ser lindo. Woody Allen é cinéfilo, ele ama e respeita sua arte, não se prende a artificialismos e fala com verdade. Assim como a própria chamada que ilustra o cartaz do filme, que diz e representa: "A vida pode ser uma comédia ou uma tragédia, tudo só depende da maneira como você a encara". É esta a tese defendida pelo diretor.
Através do grande e competente elenco, Melinda e Melinda é uma delícia. Na parte trágica, destacam-se Chiwetel Ejiofor (um ótimo ator que ainda merece mais reconhecimento) e Chloë Sevigny, ambos construindo personagens fortes e carismáticos. No contraponto cômico, a grande virtude é, de longe, Will Ferrell. O ator desnuda seu personagem (o alter-ego de Allen) por completo, sendo engraçado e dramático. Dadas as circunstâncias, não seria exagero dizer que seu personagem é o protagonista da história cômica, pois ele tem tanto tempo em tela quanto Radha Mitchell. Aliás, a atriz é competente o suficiente para manter a personagem interessante e verossímel nas duas narrativas.
Através destes dois pontos de vista, Woody Allen constatou que a vida não pode ser somente cômica ou somente trágica. As duas se entrelaçam e caminham juntas. O que pode-se fazer é observar de uma maneira ou de outra. Allen vê tragédia e humor na mesma situação, dizendo que, por exemplo, um tombo pode ser engraçado ou triste, depende de quem o observa. Para Woody são os dois ao mesmo tempo. E parece sensato, afinal pode-se chorar no momento da queda, mas há de se sorrir na lembrança. Mas aí já entra a questão do tempo, e isso já é tema de outro filme do mestre.
Nota: 8
Direção de Woody Allen, com Radha Mitchell, Will Ferrell, Amanda Peet, Josh Brolin, Steve Carrell, Chiwetel Ejiofor, Chloë Sevigny

10 comentários:
Ainda não conferi essa obra do Woody. Mas, se não me falha a memória, esse é um dos três filmes que o diretor diz que não ficou desapontado com o resultado final. Pode parecer falsa modéstia, mas ele quase não gosta de nenhuma de suas obras depois de pronta.
Vou conferir em breve, com certeza.
Abs!
Concordo plenamente com sua critica e nota... O que gosto do Woody é nãoi ter preconceito nem medo de colocar um cara tipico de comédia pastelão como o Will Ferrel em uma comédia hiper inteliene com a dele... É muito bom para quebrar paradigmas...
Cara magnífica sua resenha. Poucas vezes tive a oportunidade de ler uma resenha que flui tão bem, quanto esta fluiu quando li. Domina bem o assunto "Woody Allen" e não só o filme em si ajudou, o que com certeza ajudou bastante. Parabéns!!
Quanto ao filme, gostei também, mas acho que daria nota 7 ou 6,5.
Abraço!
Você gostou do filme bem mais do que eu! :)
Achei apenas razoável. A estrutura narrativa é interessante, mas o resultado me pareceu bastante sem brilho.
Abraço!
Pedro, acho que esse é o pior filme do Woody Allen. Completamente sem graça e até tedioso em alguns momentos. Sem contar que eu acho a Radha Mitchell bem fraca.
Tenho que ver esse filme. Não sei pq, mas nunca me interessei por ele, mesmo curtindo o Woody Allen. A ideia me pareceu sensacional e espero que o desenvolvimento seja tb.
Vou procurar na locadora...
Esse certamente não é um grande filme do Allen, mas marcou o início de uma ótima fase na carreira do diretor.
Que bom que gostou! Sempre achei o filme subestimado, apesar de não ser dos melhores de Woody. É uma visão original e ácida. E Radha Mitchell ta excelente em cena.
Nota 7.5
Ciao!
Importante sinopse, realmente ainda não tinha assistido esse filme do Allen.
Bem, olá, acabei de descobrir esse blog. Estava mesmo há um tempinho procurando blogs cinéfilos interessantes. Eu sou do Cidadão Kang, a gente fala lá sobre cinema, games, séries, música... De quase tudo da indústria do Entretenimento. Se possível dê uma olhada nele, reformamos o layout há pouco tempo.
Não sei se deveria utilizar o e-mail para estabelecer esse tipo de comunicação, mas gostaria de saber se podemos conversar algo sobre uma parceria.
Ainda não assisti o filme, vou procurá-lo e volto aqui para comentá-lo.
Depois dê uma passada no meu blog MILHA TURVA.
Abraços
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