George Stevens, diretor de realizações épicas e politizadas, e que outrora orquestrara obras de gabarito, como A Mulher Que Soube Amar e Um Lugar ao Sol, sempre foi um intelectual. Graças ao seu legado glorioso, podemos conhecer a mente do autor, suas aflições e agonias, que eram transmitidas através de personagens, na maioria dos casos, brutos, mas que nunca deixavam de demonstrar sentimentos - sejam eles positivos ou não. A busca do diretor pelo realismo e sua câmera discreta marcaram época, principalmente na década de 50, quando o cineasta realizou - além dos já citados acima - Na Voragem do Vício (magnífico), Os Brutos Também Amam e O Diário de Anne Frank (o mais fraco dentre estes). Como se não bastasse, Stevens dirigiu Assim Caminha a Humanidade, filmando um roteiro acima da perfeição com elegância e maestria.

Definitivamente, diante da complexidade do argumento do roteiro (adaptado do livro de Edna Ferber) escrito a quatro mãos por Fred Guiol e Ivan Moffat, estamos diante do legítimo representante do cinema-empatia-sentimento. Veja bem, artisticamente, o filme é lindo (grande demanda de paisagens panôramicas, como a sequência de abertura, ainda nos créditos iniciais, dominam a película). A técnica muito bem utilizada pelo diretor de fotografia William Melor de raramente navegar com sua câmera lateralmente, centralizando, assim, os personagens, ajuda o público a se identificar com aquilo que vê na tela. E é o que acontece. Mas acontece tanto que, por vezes, não sabemos do lado de quem estamos. Isso que é filme, faz você se contradizer e discutir interiormente seus preconceitos e aflições enquanto homem. É filme com alma e voz própria, afinal.


O filme conta a história de três gerações de texanos e seus conflitos de interesses. Num longo período de tempo, começando em 1923, vemos Elizabeth Taylor (Leslie) conhecer Rock Hudson (Bick Benedict) e se casarem. Ele, texano orgulhoso (mas não deselegante). Ela, princesa de olhar cativante e fala mansa, filha de um fazendeiro. Depois de casados, Bick leva Leslie para o Texas. Chegando lá, Leslie se depara com um deserto de 600 mil hectares, onde, no meio de tudo, em uma mansão, reside o maridão e irmã (Luz Benedict, genialmente interpretada por Mercedes McCambridge), uma solteirona ciumenta e que está sempre com o pé atrás em relação a sua mais nova cunhada. Há também o peão Jett Rink (James Dean, em exibição derradeira, mas espetacular) que, inicialmente, aparece como um mero coadjuvante de suplementação narrativa, mas ganha espaço e torna-se, porque não, um sub-protagonista.

Na regência da ópera, tínhamos um diretor apaixonado e verdadeiro, que sabia o potencial do material que tinha em mãos, e com ele pincelou uma obra-prima, explorando cada camada com frames milimétricos. O argumento é sensacional, onde intolerância racial e paixão liga-se diretamente com disputas pelo domínio do petróleo e conflitor familiares. É puro sentimento, cara. Neste filme, celebra-se a descoberta e humilha-se o adversário, mas depois aprende-se a respeitar as diferenças culturais e raciais. Aliás, Bick Benedict aprendeu tudo isso, mesmo levando uma surra de um proprietário que expulsou clientes com sua atitude racista. Demorou, mas Bick aprendeu. Humilhou-se na superfície, mas encontrou-se no espírito. Bick virou homem ali, depois de velho, na frente da mulher e dos filhos.

O potencial rival de Bick, o peão Jett Rink (Dean, perfeito), também encontrou o seu "eu interior" ao longo da narrativa. O personagem cresce de tal forma durante o desenvolvimento da trama que o público vai se apaixonando por aquela persona, mesmo ele tendo se deixado levar pela cobiça e soberba (quando você for rever Sangue Negro, tente não encontrar semelhanças entre Jett Rink e Daniel Plainview). A cena em que Jett descobre que seu terreno está sob petróleo é sensacional. Jett deixa-se banhar quando jorros de petróleo cobrem seu corpo. Depois disso, vai até a casa de Bick dizer que ficou rico. Linda composição. Espetacularmente executada por George Stevens.

Este poderoso libelo contra a intolerância racial diz muito sobre a vida, pincela um estudo do comportamento e da fascinação que o poder excerce num homem como poucos, além de narrar uma história em um longo espaço de tempo sem perder o foco narrativo - tampouco esfriar o espectador, que assiste a tudo embasbacado. George Stevens, grande cineasta de outrora, realizou uma obra que, além de outros estudos, só quis dizer que os brutos também amam e que, afinal, assim caminha a humanidade.

Nota: 8.5

Direção de George Stevens, com Elizabeth Taylor, James Dean, Rock Hudson

8 comentários:

Ygor Moretti Fiorante disse...

Ainda não vi esse , do James Jean so vi juventude transviada o qual ja deixo aqui a recomendação...

Abraço a todos!!!

Museu do Cinema disse...

Um clássico!

- cleber . disse...

Não tive a chance de ver ainda, mais todos sabemos que é uma grande referencia do cinema!

Kamila disse...

George Stevens era um diretor raro. Acho este filme uma obra belíssima, uma crônica sobre a ambição, sobre o poder. Para mim, dez mil vezes melhor que "Sangue Negro", uma obra que foi bastante comparada com "Assim Caminha a Humanidade".

Hugo disse...

Ainda não assisti "Sangue Negro" mas a questão do petróleo na trama de "Assim Caminha a Humanidade" é um dos pontos principais. Grandes interpretações com um elenco muito bom, inclusive um Dennis Hopper muito jovem ainda e James Dean que dispensa comentários.

Abraço

Otavio Almeida disse...

George Stevens foi um gênio do cinema! ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE e OS BRUTOS TAMBÉM AMAM estão na minha lista dos melhores de todos os tempos.

Abs!

Marcus Vinícius disse...

Te disse antes e reafirmo: ótimo texto. Eu baixei ele nesse final de semana (culpa tua, hehe), verei o mais rápido possível.

Saudações tricolores!

Weiner disse...

Simplesmente amo este filme, acho que tudo nele funciona muito bem - a começar pela ultramega direção de Stevens, vencedora do Oscar. Gosto muito do James Dean também.

Lancei uma lista de 100 melhores filmes de todos os tempos no blog e os 10 últimos já foram postados - adivinhe! - Assim Caminha a Humanidade integraa lista!

Abraço, Pedro!!