06/03/2009

O Lutador


A câmera documental muitas vezes exerce forte influência sobre a representação dos sentimentos dos personagens dentro de um contexto dramático. É aquilo mesmo, câmera na mão e muita correria atrás do realismo tão desejado. A rigor, este tem sido um recurso bastante utilizado no cinema nos últimos anos. O Lutador, novo filme de Darren Aronofsky, é o representante mais bem sucedido desta vertente que tem conquistado cada vez mais adeptos na indústria cinematográfica. Aronofsky, diga-se de passagem, realizou um filme autoral e com grande elenco, onde o tour de fource de Mickey Rourke é o responsável por grande parte da qualidade deste excelente filme de porrada metalingüística.

A vertente batizada de cultura pop ecoa hoje nas mais diversas formas de expressão. No cinema, mais do que nunca, ela está em alta. A arte, a nossa arte, que tende a ser antagônica ao universo eclético, serve basicamente, para não dizer propriamente, como uma rota de fuga do vulgar e perecível. Para não permitir que uma possível superficialidade tomasse conta do protagonista, Darren Aronofsky fez duas escolhas: a abordagem seria exclusivamente documental e Mickey Rourke seria o wrestler do título. De fato, é o que acaba garantindo a verossimilhança da história, já que a câmera na mão aproxima e torna fácil a empatia do público para com o protagonista, e a performance vibrante de Rourke se encarrega de, literalmente, carregar o peso de um legítimo filme-protagonista nas costas.

Mas O Lutador vai além do rótulo de filme-porrada. Primeiramente, Aronofsky tratou de estabelecer o vínculo do protagonista com o espectador, apresentando-nos suas costas largas e seus cabelos louros. Depois, o diretor foi, aos poucos, mostrando o rosto surrado do lutador e, quando o vemos por completo seu semblante decadente, já temos autoridade suficiente para constatar que estamos diante de uma figura solitária, mas que encontra a felicidade em sua profissão. Seria, portanto, um homem feliz, não fosse seu passado repleto de escolhas equivocadas. A grande sacada do roteiro no primeiro ato foi justamente conseguir aproximar e tornar real a existência daquele Ser, algo que acaba ganhando ainda mais impacto devido a abordagem estética da câmera documental.

Na trama, Mickey Rourke é Randy "The Ram" Robinson, ex-lutador profissional que hoje compete no circuito independente. Levando uma vida jogada as traças, The Ram não faz nada para tentar se reestabelecer. Seu único subterfúgio é a sua relação com a stripper Cassidy (Marisa Tomei), mulher que acaba encorajando-o a tentar retomar sua vida perante sua filha (Evan Rachel Wood), mesmo sabendo que ela o rejeita.

Como pode-se notar, a trama não tem uma teia muito complexa de intrigas, mas é justamente essa abordagem despretensiosa na medida em que não se propõe a alçar grandes vôos filosóficos tampouco inovar a linguagem que acaba garantindo o envolvimento do espectador com a obra. A interpretação de Mickey Rourke é tão ajustada ao personagem que nunca duvidamos do realismo da trama. Além do mais, o grande ator compartilha seu sofrimento a todo instante com o público, já que a câmera de Aronofsky faz questão de mostrar a alma do personagem nas cenas mais dramáticas.

Como se não bastasse, O Lutador ainda apresenta dois outros grandes desempenhos por parte do elenco. Marisa Tomei, atriz vencedora do Oscar, está linda e excelente. Sua personagem é composta com pompa dramática carregada, mas que nunca apela para artificialismos e banalidades. Tomei compõe uma personagem fundamental dentro da estrutura narrativa do roteiro de Robert D. Siegel, que só erra na relação pai e filha. Via de regra, Evan Rachel Wood fez um bom trabalho como a filha de The Ram, o problema é que sua personagem não atinge o nível superior alcançado por Rourke e Tomei, tornando sua criação levemente inferior perante o público.

Alavancado pelo final simples e sujestivo, O Lutador se encerra com uma cena espetacular, que, para muitos, pode ter soado previsível e sem graça, mas para Randy "The Ram" Robinson representa a síntese de sua existência. Aliás, o encerramento proporciona um apelo tão melancólico em prol da felicidade e do argumento "faça o que gosta". Lindo filme!


Nota: 8
.5

Ano: 2008
Diretor: Darren Aronofsky
Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood

15 comentários:

Bruno disse...

Lindo mesmo! E gostei muito da escolha do Aronofsky, em colocar uma câmera na mão e seguir o seu astro, quase em tom documental. Funcionou muito bem! E, por fim, apesar do título, "O Lutador" está muito longe de ser um filme-porrada, afinal quase não tem porrada nenhuma, todas as lutas no ringue são ensaiadas, não é mesmo? As únicas porradas são as que a vida deu em Randy (e que não foram gratuitas, vale dizer). Abraço!

Robson Saldanha disse...

É um filme muitíssimo bom que, simples, nos comove e envolve... Achei excelente, com a mesma nota!

Weiner disse...

Achei esse filme de uma força descomunal, com certeza merecia estar entre os 5 melhores filmes de 2008 na última edição do Oscar. Mais uma vez Aronofski brilha com seus recursos, Rourke tem uma interpretação dolorosa e muito pungente - ao passo de que Evan e Marisa estão em seus melhores momentos.
E o final, apesar de triste e anticlímax, foi perfeito para que entrássemos de verdade no espírito de Randy "The Ram".
Abraços, Pedro!

Pedro Henrique disse...

Bruno, diga que as lutas são ensaiadas para o wrestler que leva uma cadeirada na cabeça ou para o fera que grampeia a cara!

Vinícius P. disse...

Muito bom ver esse filme recebendo o merecido reconhecimento entre os blogueiros, acho que quase todo mundo gosto MUITO de "O Lutador"!

Bruno disse...

Hehehe, mas isso é ensaiado dentro do limite que o improviso permite. Nessas lutas, o resultado é sempre pré-ajustado, o que importa é o espetáculo apenas. Mas as lutas serem ensaiadas não quer dizer que não sejam brutais, como vc mesmo apontou que foram.

Kamila disse...

Adoro filmes que privilegiam o contato com o espectador e quero muito ver "O Lutador". Até porque os comentários todos têm sido ótimos e eu quero muito conferir a elogiada atuação de Mickey Rourke.

Bom final de semana!

• Cleber! disse...

Este é um dos poucos que ainda não tive a chance de ver !

Sérgio Déda disse...

Um dos maiores injustiçados do ano pela Academia, além da espetacular canção de Bruce Sprignsteen.

Anderson Siqueira disse...

Assisti esta semana. Me decepcionei muito.
=/

Gustavo H.R. disse...

As virtudes destacadas me fazem crer que O LUTADOR deve se tratar do melhor filme de Aronofsky até hoje, com menos firulas que os anteriores.

Kau Oliveira disse...

Pra mim, um doa melhores da temporada. Rourke num tour de force e um elenco de apoio extraordinário.

Além, é claro, de um GRANDE roteiro!

Abs!

Otavio Almeida disse...

Um dos cinco melhores filmes de 2008! Mickey Rourke fantástico!

Abs!

Alex Gonçalves disse...

Pedro, adorei o que você disse da Marisa Tomei (o fã aqui agradece), mas já disse que não consegui curtir o filme com o mesmo entusiasmo que o seu.

Jonathan Rodrigues disse...

acho a cena final devastadora, no bom sentido