Em seu primeiro e último trabalho como diretor de longas, o outrora astro e galã Marlon Brando entrega um western rico em detalhes e poderoso em seu misticismo. A Face Oculta é um faroeste diferenciado, e isso vai ficando claro para o espectador a cada tomada do longa-metragem. O que evidencia isso é a própria composição dos personagens, especialmente a do próprio Brando, que realiza um trabalho de primeiro nível, com suspense elegante e psicologia apurada. Além do mais, as interpretações vigorosas deixam o filme ainda mais interessante. A Face Oculta não é só poeira e pistolas, há muito mais nas entranhas deste filme magnífico.
Inicialmente, A Face Oculta seria dirigido por ninguém menos que Stanley Kubrick, mas problemas de pré-produção impediram que o diretor que, anos depois, faria Laranja Mecânica sentasse na cadeira de diretor aqui. Para o bem, Marlon Brando foi um gigante atrás das câmeras e construiu um filme apaixonado, onde a busca pelo êxtase e pelo prazer da vingança faz um homem chegar ao limite da irracionalidade. Via de regra, o diretor carrega tudo com tanta categoria e se mostra tão concentrado em seu foco narrativo que não percebemos que estamos torcendo pela vitória de um bandido contra outro bandido. Brando brinca com o espectador. Ao longo da metragem o espectador poderá acompanhar a história de Rio (Brando) e Dad Longworth (Karl Malden), dois assaltantes que roubam um banco no México. O cowboy Dad, vendo a oportunidade de fugir e ficar com todo o ouro do bem-sucedido assalto, abandona Rio na hora fuga.
Anos depois Rio escapa da prisão e começa sua busca incessante por vingança. Rio só não contava que o ex-companheiro havia se tornado xerife na Califórina. Enquanto isso, Dad sempre temeu pelo retorno do amigo. Dad, na verdade, sabia que Rio voltaria para acertar as contas do passado, apagar as cicatrizes deixadas pela amizade corriqueira mantida por eles. E Dad tinha certeza que não enfrentaria qualquer um. Elaborando uma trama complexa e instigante, Marlon Brando realizou um filme completo, com escopo de causar inveja nos grandes realizadores do gênero. Uma trama que jamais deixa de acreditar no próprio potencial e investiga o comportamento de um homem que carrega consigo ética e respeito de maneira brilhante. O resto ele resolve na bala.
Mesmo inexperiente atrás das câmeras (o diretor gastou quase seis vezes a mais em rolos de película do que o “normal” em filmes com esta duração), Brando conduziu sua obra-prima com tanta eficiência que parece já ter feito aquilo muitas vezes. Apinhando a narrativa com diálogos pausados – mostrando que no velho oeste nunca se deve falar o que não sabe para não amanhecer com a cabeça enfiada na terra – e moldando seu personagem de forma impecável, Brando realizou um filme atemporal, que se foi com o tempo, mas que fica na memória de quem o assiste.
A concepção visual de A Face Oculta nunca é menos que perfeita. Quando o diretor de fotografia Charles Lang começa a compor seus primeiros quadros e screenshots sob grandes paisagens panorâmicas, retratados secamente, o filme se deixa criar um contraste interessante com a história de vingança que move a trama central. Aliás, Marlon Brando e Karl Malden fizeram outra dobradinha, já que os dois trabalharam juntos outras duas vezes em duas obras-primas de Elia Kazan, em Uma Rua Chamada Pecado (filme que deu o Oscar de coadjuvante para Malden) e Sindicado dos Ladrões (aqui foi a vez de Brando levar a estatueta).
Como se não bastasse, Brando dirigiu pelo menos uma cena que não sai da cabeça do espectador. Quando Rio é amarrado, com a mão quebrada pelo ex-companheiro do crime, chicoteado, enquanto uma pequena platéia assiste tudo extasiada, como se aquilo fosse algo a se sentir orgulho, é uma cena genial, uma aula de condução de câmera, ângulo e enquadramento. Além disso, a expressão de Rio é um paradoxo infinito. Ao passo que mostra-se imbatível, com olhar de desdém e autoritário, deixa transparecer uma fraqueza por detrás daquela camada de brutalidade e força. Isso só os grandes atores são capazes de realizar.
Para quem queria mais, Brando encerra o filme de maneira espetacular. O clímax, aliás, é perfeito. A forma como a narrativa caminhou durante toda a metragem faz todo sentido no final ambíguo. Na verdade, mais que isso, é impecável. O realismo bate na tela com força, dizendo que não há como escapar do destino. Um final metaforizado. Um final simples e real. Um final perfeito. Uma obra-prima!

(One-Eyed Jacks, EUA, 1961) Direção de Marlon Brando, com Marlon Brando, Karl Malden, Lee Marvin, Vera Miles
Inicialmente, A Face Oculta seria dirigido por ninguém menos que Stanley Kubrick, mas problemas de pré-produção impediram que o diretor que, anos depois, faria Laranja Mecânica sentasse na cadeira de diretor aqui. Para o bem, Marlon Brando foi um gigante atrás das câmeras e construiu um filme apaixonado, onde a busca pelo êxtase e pelo prazer da vingança faz um homem chegar ao limite da irracionalidade. Via de regra, o diretor carrega tudo com tanta categoria e se mostra tão concentrado em seu foco narrativo que não percebemos que estamos torcendo pela vitória de um bandido contra outro bandido. Brando brinca com o espectador. Ao longo da metragem o espectador poderá acompanhar a história de Rio (Brando) e Dad Longworth (Karl Malden), dois assaltantes que roubam um banco no México. O cowboy Dad, vendo a oportunidade de fugir e ficar com todo o ouro do bem-sucedido assalto, abandona Rio na hora fuga.
Anos depois Rio escapa da prisão e começa sua busca incessante por vingança. Rio só não contava que o ex-companheiro havia se tornado xerife na Califórina. Enquanto isso, Dad sempre temeu pelo retorno do amigo. Dad, na verdade, sabia que Rio voltaria para acertar as contas do passado, apagar as cicatrizes deixadas pela amizade corriqueira mantida por eles. E Dad tinha certeza que não enfrentaria qualquer um. Elaborando uma trama complexa e instigante, Marlon Brando realizou um filme completo, com escopo de causar inveja nos grandes realizadores do gênero. Uma trama que jamais deixa de acreditar no próprio potencial e investiga o comportamento de um homem que carrega consigo ética e respeito de maneira brilhante. O resto ele resolve na bala.
Mesmo inexperiente atrás das câmeras (o diretor gastou quase seis vezes a mais em rolos de película do que o “normal” em filmes com esta duração), Brando conduziu sua obra-prima com tanta eficiência que parece já ter feito aquilo muitas vezes. Apinhando a narrativa com diálogos pausados – mostrando que no velho oeste nunca se deve falar o que não sabe para não amanhecer com a cabeça enfiada na terra – e moldando seu personagem de forma impecável, Brando realizou um filme atemporal, que se foi com o tempo, mas que fica na memória de quem o assiste.
A concepção visual de A Face Oculta nunca é menos que perfeita. Quando o diretor de fotografia Charles Lang começa a compor seus primeiros quadros e screenshots sob grandes paisagens panorâmicas, retratados secamente, o filme se deixa criar um contraste interessante com a história de vingança que move a trama central. Aliás, Marlon Brando e Karl Malden fizeram outra dobradinha, já que os dois trabalharam juntos outras duas vezes em duas obras-primas de Elia Kazan, em Uma Rua Chamada Pecado (filme que deu o Oscar de coadjuvante para Malden) e Sindicado dos Ladrões (aqui foi a vez de Brando levar a estatueta).
Como se não bastasse, Brando dirigiu pelo menos uma cena que não sai da cabeça do espectador. Quando Rio é amarrado, com a mão quebrada pelo ex-companheiro do crime, chicoteado, enquanto uma pequena platéia assiste tudo extasiada, como se aquilo fosse algo a se sentir orgulho, é uma cena genial, uma aula de condução de câmera, ângulo e enquadramento. Além disso, a expressão de Rio é um paradoxo infinito. Ao passo que mostra-se imbatível, com olhar de desdém e autoritário, deixa transparecer uma fraqueza por detrás daquela camada de brutalidade e força. Isso só os grandes atores são capazes de realizar.
Para quem queria mais, Brando encerra o filme de maneira espetacular. O clímax, aliás, é perfeito. A forma como a narrativa caminhou durante toda a metragem faz todo sentido no final ambíguo. Na verdade, mais que isso, é impecável. O realismo bate na tela com força, dizendo que não há como escapar do destino. Um final metaforizado. Um final simples e real. Um final perfeito. Uma obra-prima!

(One-Eyed Jacks, EUA, 1961) Direção de Marlon Brando, com Marlon Brando, Karl Malden, Lee Marvin, Vera Miles

10 comentários:
Vergonha por nunca ter ouvido falar desse trabalho do Brando como diretor. Bem, antes tarde do que nunca =)
Taí um filme que merece ser lembrado! Marlon Brando foi, durante muito tempo, o cara!
Abs!
Grande texto, Pedro, fazendo jus a qualidade do filme. Tava na seção de western da locadora e me deparei com esse filme. Peguei porque vi o nome do Brando e só na hora soube que a direção também era dele. Não pensei duas vezes e levei, mesmo suspeitando de uma péssima qualidade da imagem - e não estava errado. Mas é um ótimo exemplar do gênero, fiquei surpreso com a direção do Brando, que é excelente pelos tantos pontos apontados no texto.
[]s!
Tô com o Vini nesta. E já anotando a recomendação...
Ciao!
Um clássico absoluto!
Novo blogue de cinema e televisão. Split Screen pretende ser um blogue despretensioso, sem grandes ambições de futuro, onde reina o gosto pelo cinema e televisão. Sem grandes obrigações, sem grandes definições, apenas um espaço onde vários colaboradores exprimem a sua opinião sobre as actualidades (e não só) referentes a cinema (críticas, crónicas, filmes, DVDs, notícias, posters, trailers, prémios...) e televisão (crónicas, notícias, séries, apresentações...).
http://splitscreen-blog.blogspot.com/
Rapaz, taí! Não vi esse filme! Já tenho programa pro carnaval antes do Oscar!
Sobre 12 HOMENS E UMA SENTENÇA, para mim, é o melhor filme do grande Sidney Lumet! Prova de que um filme pode usar e abusar da linguagem teatral e ainda parecer... cinema.
Abs!
Só conheço mesmo os trabalhos do Marlon Brando como ator. Nem sabia, sinceramente, que ele tinha se aventurado na cadeira de diretor.
Em dezembro eu tinha pego uma penca de filmes antigos numa locadora e este "A Face Oculta" passou pelas minhas mãos, mas eu deixei para lá. O mesmo fiz quando o vi para venda numa banca de jornal.
E aproveitando: veja "O Pecado de Todos Nós", onde Brando divide a cena com Liz Taylor. O filme é do John Huston.
Obs.: não gosto dessas estrelas do Messenger no Tudo é Crítica! Volte as notas!
Já voltei, Alex! E foi o Messenger que roubou minhas estrelas.
Abraço a todos!!!
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