15/01/2009

A Troca

"They tried to make me go to rehab, I said, 'No, no, no '"

Quem conhece o cinemão hollywoodiano sabe que Clint Eastwood tem domínio total sobre o seu ofício. Como ator, Clint nunca foi acima da média, apesar de sempre se entregar de corpo e alma aos seus personagens. Por outro lado, enquanto diretor, o hoje experiente Clint possui algumas obras invejáveis. Por exemplo, exercitou a arte dramática com categoria em Menina de Ouro. Trabalhou muito bem à serviço da estrutura narrativa em um dos filmes mais coesos de sua filmografia, Sobre Meninos e Lobos. Antes disso, contudo, homenageou com garra o gênero que o consagrou com o faroeste competente Os Imperdoáveis - que também foi o filme que o consagrou como diretor dentro da indústria de Hollywood.

A rigor, o diretor volta com carga dramática pesada, elenco de peso e pompa técnica ambiciosa para desenvolver um drama forte e, por vezes, duro. A Troca possui todos os atributos básicos que o projeto de cinema do autoral Clint exige, embora quase nenhum deles funcione trabalhando em seu esplendor. Pontos fortes e pequenas falhas fazem de A Troca um filme bem feito, porém irregular e algumas vezes convencional. Ainda assim, a elegância e a sensibilidade de Clint permite ao espectador assistir um belo filme, com atuações excelentes e fotografia magnífica.

A trama, calcada em um acontecimento real, conta a história de uma mãe (Angelina Jolie) que, ao voltar do trabalho, não encontra seu filho em casa. Desesperada, ela parte em busca do filho, chamando a polícia, que pouco faz. 5 meses depois, ela recebe um telefone dizendo que seu filho foi encontrado. Quando vai buscá-lo, porém, vê que o menino que tem diante de seus olhos não é seu filho, não é o verdadeiro Walter. Enquanto a polícia tenta convence-la a ficar com o garoto. A partir daí, Christine Collins vai em busca daquilo que chamamos de "justiça cega".

O filme, produzido pelo competente trabalho do mega-magnata Brian Grazer (Uma Mente Brilhante) e do diretor inconstante Ron Howard (também Uma Mente Brilhante), possui defeitos e virtudes, mas ambos são tão gritantes que não há como ficar em cima do muro em relação ao filme. O roteiro de J. Michael Straczynski é correto, porém longo demais, perdendo tempo com cenas desnecessárias (a primeira em que o personagem de John Malkovich aparece, falando sobre o desaparecimento do garoto, por exemplo) enquanto poderia trabalhar melhor no desenvolvimento dos personagens, que é onde o filme mais carece de vigor. O reverendo Gustav Briegleb, por exemplo, só realmente um personagem equilibrado e importante dentro do contexto narrativo graças a atuação eficiente do ótimo John Malkovich. Jeffrey Donovan, que faz o capitão corrupto J.J Jones também não decepciona, entregando uma interpretação dramática correta, assim como Amy Ryan.

Fica explícito, no entanto, que A Troca tem na performance apaixonada e calorosa de Angelina Jolie a sua maior virtude. Angelina confirma a virada na carreira depois de uma seqüência de bons trabalhos (O Bom Pastor, O Preço da Coragem, O Procurado), deixando papéis superficiais de lado e encarando desafios que estudam mais o seu talento dramático. Aliás, em A Troca Jolie trabalha em terreno bastante conhecido, remetendo diretamente a um dos seus melhores trabalhos (Garota, Interrompida). Vivendo uma mãe que luta vigorosamente em busca do seu filho desaparecido, Jolie se entrega e presenteia o espectador com um trabalho acima da média. Angústia, aflição, dor e esperança se misturam naquele rosto que transmite emoção com um simples gesto ou expressão facial. Como poucas atrizes são capazes de fazer.

Apesar disso, A Troca está longe de ser um filme perfeito. A trilha sonora de Clint funciona bem em todos os momentos e o trabalho de fotografia de Tom Stern é fantástico, apostando em uma paleta escura que usa a iluminação muito bem (refletindo sempre o tom da narrativa no rosto dos personagens). Por outro lado, Clint estica demais a história, insere cenas desconexas e sem simetria alguma no primeiro ato (como a já apontada no início do texto) e engana a platéia com um porção de falsos-finais que acabam cansando devido a fragilidade do roteiro nessas cenas. Nada impede, porém, que o clímax seja conduzido com categoria e precisão cirúrgica pelo diretor.

A câmera objetiva de Clint, sempre a serviço de conduzir a narrativa ao ponto culminante do clímax e preocupada com a criação artística, compreende o drama da protagonista com excelência e, ancorada por uma Jolie inspirada, emociona. Enquanto a crítica especializada continua tentando decifrar - e fingindo saber - o que eles nunca irão entender (que é a criação artística unida a ação dramática com o único objetivo de contar uma boa história apoiada fatos reais ou ficção) porque eles não trabalham com cinema por amor e sim por profissão, o cinema segue mostrando que uma história boa e bem contada sempre funciona.

Nota: 8

Ano: 2009
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Angelina Jolie, John Malkovich, Jeffrey Donovan, Amy Ryan

11 comentários:

Ramon disse...

Estou bem ansioso para conferir a obra. Como você bem disse, a Angelina parece ser o que de melhor oferece a obra.

Abs!

Denis Torres disse...

Olá Pedro, estou criando um blog sobre cinema e gostaria de incluí-lo na minha lista de links. O endereço é http://thecinemaniaco.wordpress.com/. Depois me dê um retorno aprovando a inclusão de seu link e fazendo uma visita ao blog. Abs!

Denis Torres

Miriam disse...

Pedro, o flme parece ser bom, estou ansiosa por filmes diferentes.
Beijos.

Otavio Almeida disse...

Hahahhahahaha... Muito boa a legenda baseada na Amy Winehouse.

E ótima crítica! Parabéns! Concordo com Clint se estendendo demais desta vez.

E adorei a alfinetada na crítica especializada. Enquanto nós estamos aqui, eles ganham dinheiro com isso como um trabalho qualquer. É claro que temos exceções, mas este é o cenário atual.

Abs!

Johnny Strangelove disse...

Para você ver como Angelina Jolie cresceu ... a moça merece e espero que ela continue assim, balanceado em seus projetos ...

Vou ver depois ...

Matheus Pannebecker disse...

Como você sabe, não gostei muito desse filme. Mas a Angelina se salva, claro!

Roberto F. A. Simões disse...

Todos nós temos noção de muitas das faltas existentes no nosso actual mercado do DVD. Há títulos importantíssimos que ainda não foram lançados.
O nosso objectivo não é culpar seja quem for.
Serve a presente rúbrica para chamar à atenção de uma dessas faltas: THE FALL em DVD. Aclamado por todo o mundo como um dos melhores filmes do ano, gostaria de apelar à sensibilidade dos actuais responsáveis pela indústria para o lançamento deste título em Portugal.
Sozinha, uma voz poderá não ir muito longe. Por isso, gostaria de contar com o apoio de todos os meus colegas da comunidade de blogs e sites de cinema em Portugal.
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Serve a presente rúbrica para chamar à atenção de uma dessas faltas: THE FALL em DVD. Aclamado por todo o mundo como um dos melhores filmes do ano, gostaria de apelar à sensibilidade dos actuais responsáveis pela indústria para o lançamento deste título em Portugal.
Sozinha, uma voz poderá não ir muito longe. Por isso, gostaria de contar com o apoio de todos os meus colegas da comunidade de blogs e sites de cinema em Portugal.
Muitas vozes, poderão certamente fazer-se ouvir».

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Muitas vozes, poderão certamente fazer-se ouvir.
Obrigado a todos.

Roberto F. A. Simões
cineroad.blogspot.com

Marcus Vinícius disse...

Também estranhei esse auê negativo dos 'críticos profissionais' sobre o filme. Clintão mandom bem, um bom filme como de costume. Aliás, filme triste é com ele mesmo, puta merda.

Bah, agora que fui ver a tragédia com o Xavante. Que coisa... toda força do mundo pra Pelotas.

Abraços!

Pedro Henrique disse...

Já fui lá, Denis!!!Muito legal.

Valeu mesmo, Otávio!

Marcus, triste demais. Mas triste mesmo foi o acidente, o cara fica chocado mesmo. É realmente de se lamentar e enviar a força para lá!

Abraço a todos!

Sérgio Déda disse...

Gostei bastante, principalmente da direção de Clint, que utiliza clichês em muitas cenas, e incrivelmente a cena não se torna clichê.

Abraços!

Kau disse...

Sabes que minha nota foi um tantinha maior que a sua e percebi algo: fui o único que não achou o roteiro longo. Pra mim, aquilo tudo era necessário.

Abraços!